2011, um brinde

Reveillón sempre traz de volta aquela sensação da sua tia do interior que você gosta tanto, embora ela cozinhe porcamente. Então ela te oferece o clássico bolo de laranja grudento e doce demais, você diz que está uma delícia, mas não quer outro pedaço.

Todos nós temos sonhos, desejos, fazemos promessas, queremos uma vida perfeita. Listas de desejo para o ano seguinte tendem a fracassar, embora todos as façamos. Emagrecer, estudar mais, parar de fumar. Queremos todos nossos próprios shows de Truman, nossas dramédias particulares, que o mundo gire em função de nossa vida, não o contrário. Don’t get me wrong, o errado nisso não está em querer ou desejar alto demais, mas em não enxergar no espelho exatamente quem somos e o que precisamos para que nossa vida melhore significativamente.

O afastamento da infância me criou sérios problemas de ordem psicológica e comportamental. Substituí a vergonha de conversar com as pessoas por dificuldades de convívio, sublimadas pelo post rock e trilhas sonoras instrumentais de filmes; troquei também alegrias de jogos lúdicos pela rotina de escritório. E também tem isso de perguntarem o que queremos ser quando crescer.

Não viver o que queríamos ser quando crescêssemos é de uma intrincada melancolia. É isso que gera pessoas vazias, enfeitadas e escondidas em seus avatares. Ter o conhecimento de causa, saber que não fui o astronauta, nem o cientista com um laboratório maluco me fez perder a confiança em muita coisa, me fez pensar que o mundo não foi feito pra gente como eu. Mas para tudo, diria Einstein, existe um meio termo (ele diria que tudo é relativo, mas vamos lá).

Uma música um tanto desconhecida diz, ‘Sim, a vida é maior que nós‘. Podemos contar com inúmeros momentos felizes, sempre, por mais passageiros que eles sejam. Costumam dizem que é isso o que ‘dá jogo’ à vida. Estar com seus amigos, lembrar de seus pais, olhar o futuro com esperança e incerteza, é o que nos faz seres humanos. E a felicidade está nesse limbo, nesse meio termo, na linha tênue que separa nossas insatisfações do caminho correto, da vida que esperamos.

A virada do dia 31 para o dia 1º significa então o momento da conclusão do caminho, ou da continuação do caminho, não importa, desde que seja um inevitável rumo à mudança.

Sua tia vai sempre tentar melhorar seu bolo, tal qual o tempo vai sempre tentar melhorar o ano seguinte. E décadas se passam assim. Vão embora deixando algumas saudades e lembranças de outros sabores ruins que gostaríamos de esquecer. No final de tudo sigo dizendo que gostei, embora não aceite mais outro pedaço.

Balanço 2010

Neste ano eu assinei um pacote de internet móvel e desisti dele, por causa de uns absurdos da VIVO, fui chamado de gordo do caralho, mesmo que hoje isso me garanta estranhamente um certo orgulho, comecei a desenhar no sketchbook que a Denise me deu de presente, tive um bom ano – apesar de bastante confuso – com ela, minha namorada, até nos desencontramos um dia desses (como?).

O Guto deixou a empresa em que ainda trabalho, fazendo uma falta inacreditável no dia a dia e eu finalmente li aquele Rousseau mais empoeirado do que todos os outros livros. Terminei de ver Lost numa frenética temporada diária que teve fim no dia em que foi exibido o útlimo capítulo e vi também a fantástica (me processa) primeira temporada de Walking Dead.

Meu pai foi internado e eu fiquei em desespero quando fui visitá-lo na enfermaria do hospita do servidor público. Roubaram o carro do Rodrigo, mas deixaram os óculos intactos, no banco de trás, a pedido da vítima. O Regino agora é pai, essa é uma dessas paradas que a gente não acredita quando acontecem.

Pra finalizar, comprei o ingresso mais caro, mas consegui ir ao SWU ver o rage Against the Machine, perdi minha padaria preferida para uma confusa nova direção, sonhei com o Adolfo e o Daniel brigando, não, não, melhor ainda… sonhei dentro de meus próprios sonhos, é tem um filme assim – E ainda não sei se o que estou vivendo é real ou imaginário. Como esquecer que o Brasil perdeu a Copa e eu postei uma poesia antiga desastrada.

Para 2011, eu só espero estar andando num caminho mais certo, em tudo.

***

Obrigado por estarem sempre por aí, meus chegados, amigos virtuais e leitores anônimos.

Alguns blockbusters #cinemaday

Só pra não perder, escrevo aqui sobre os filmes que assisti neste último final de semana pós natal e que renderam por todos os outros meses em que não assisti nada.

Meu malvado favorito, Despicable Me
Não gosto de animações, embora tenha de assistir quando a Denise aluga. Esta é uma daquelas em que o bem vence o mal, um filme que tomou muito cuidado para manter-se infantil, simples e agradável a todos os públicos. Meninas bonitinhas, um unicórnio de pelúcia e uma história pano de fundo completamente insana, mas bem legal se você é uma criança ou se você adora crianças, ou se você acha que roubar a lua e reduzir seu tamanho é algo aceitável para uma história de ficção. Um desenho bonito e bem humorado, para ver com os filhos, fica a dica para não soar muito rancoroso.

A Estrada, The Road
Outra dessas histórias apocalípticas, em que o mundo inteiro perece e sobram apenas boas pessoas (tomadas por protagonistas) e gangues de saqueadores canibais headbangers em super caminhonetes e armas pesadas (tomados por vilões). Numa das cenas, o personagem principal, que corre para o sul junto de seu filho e fugindo do encontros indesejados, mata um membro de uma gangue e consegue fugir. Quando estão a salvo, seu filho lhe pergunta: ‘ainda somos os homens bons?’. Acho que grande parte da mensagem que o filme quer passar se trata desta pergunta.

A Ressaca, Hot tub Time Machine
Não vale aqui discutir porque o filme The Hangover teve seu título traduzido como Se beber não case e Hot Tub Time Machine se chamou de A Ressaca. As histórias também são parecidas, ambas envolvem uma noitada e substâncias ilegais. Apesar disso, A Ressaca ganhou por ser uma comédia por demais absurda – se passa numa viagem do tempo para os anos 80 – como nos velhos tempos, com piadas sem graça que fazem você rolar no chão de rir (e chorar de rir ao rever o filme). Além disso tem um final empolgante, apesar de manter os personagens um pouco abandonados e sem força individual. Impróprio para nerds com teorias pré-fixadas sobre viagens no tempo.

Irmãos de Sangue, Leaves of Grass
Edward Norton é um renomado professor de filosofia numa faculdade, enquanto seu irmão gêmeo é um traficante que vive em sua cidade natal. Um excelente drama cujo único ponto negativo foi perder quase uma hora de enredo em uma tentativa de comédia que não acrescentou nada para o filme. Mesmo assim, inclui alguns diálogos sensacionais e um final que faz você se perguntar sobre a necessidade da cena em que uma aluna tranca a porta do professor e começa a arrancar a roupa. Deveria começar aos 58 minutos. 70% desnecessário, 30% épico, mas pra mim funcionou.

Pensou Mudança, Pensou Granero

Daí que aquela velha conspiração aqui do trabalho de que o escritório talvez fosse mudar para uma cidade mais para o interior (local que não pronunciamos o nome por ser uma maldição certeira) ganhou ontem uma nova pista relativamente discutível – mas não de todo descartável – com um email que perguntava quem aceitaria transporte fretado.

Já deixei avisado que desconto 500 reais por mês do meu fuckin ordenado com gastos de gasolina e pedágio, além de dirigir os fuckin 90km diários e tento tirar tuddo isso dos meus pesadelos à maneira que posso, para não enlouquecer.

Agora, dirigir mais, acordar mais cedo e ainda assim trabalhar como um condenado não é algo que estava nos meus planos quando assinei os contratos. E agora a gente fica aqui nessa vibe de tensão, esperando o caminhão da Granero despontar no horizonte.

Vem, 2011, acaba logo com essa insatisfação.

Top Hits de 2010 #001

Esta não é uma lista, mas uma seleção não-definitiva destes programas que marcaram meu ano de 2010. Quando lembrar, posto outros.

::Rádio Sulamérica Trânsito
Meu oráculo de delfos para chegar no trabalho com menos atraso, escapando de caminhos tortuosos, acidentes e faixas bloqueadas. É, de longe, o serviço de utilidade pública que mais utilizei este ano. Sem contar que acompanhar o trânsito diariamente se torna um vício, acredite. Várias vezes me peguei ouvindo a rádio voltando de noite, sem necessidade, naquele momento em que só preciso estar mais próximo de alguém que conheço. Essa é a rádio sulamérica trânsito ajudando você a superar o trânsito de São Paulo seus problemas afetivos.

::Programa Elas & Lucros
Quem acompanhou o começo deste blog sabe que eu estava financeiramente destruído no final de 2009 e que foi uma batalha sem limites conseguir reorganizar minha vida no Itaú. E, bem, este programa, da Brasil 2000 (107,3 FM), passa exatamente no horário em que estou a caminho do trabalho, o que facilitou todo nosso relacionamento. Com avaliações de casos, notícias e entrevistas com profissionais, eu consegui colocar tudo no papel e passar uma borracha nesse caos todo. Ah, sim, o programa é dedicado a mulheres, mesmo tendo diversos homens sendo entrevistados, ou tendo seus casos avaliados ou nos comerciais. Óbvio, mas não posso deixar de dizer, os comerciais são destinados ao público feminino (único ponto negativo) e se tornam insuportáveis num nível Sex & the City para os ouvintes masculinos.

::Man vs. Food
Just a regular guy, with a serious apetite. Não sei contar pra quantas pessoas eu falei desse programa este ano. Só pra Núbia foram umas três, pelo menos. É aquele do cara que roda os Estados Unidos atrás de desafios gastronômicos e comidas interessantes. Foi lá que descobri o cachorro-quente mexicano, com salsicha enrolada em uma tira de bacon, no pão com feijão, vinagrete e queijo (um dia ainda faço essa parada). Programa da Travel Channel, mas passa na TV a cabo brasileira pelo Fox Life. É o único programa de TV que consigo assistir sem marasmo ou desprezo intelectual. É um programa que assisto exatamente como os Reaction Guys, sério.

::Quadrinhos dos anos 10
Era um dia comum aqui no escritório, quando pegam o livro do André Dahmer para produzir no site. Perguntaram se eu conhecia e eu parei tudo o que estava fazendo na tentativa absurda de explicar a genialidade em questão. Impossível, óbvio. Mesmo assim, ainda consegui converter uma compra do livro, que rodou pela casa de todo mundo aqui na mesma semana. Os Quadrinhos dos Anos 10 não necessitam de explicação, basta um acesso ao site do Malvados, e você vai se pegar clicando em ‘tirinha de ontem’ de maneira compulsiva até o final do dia útil (ou até o final do ano, uma vez que faltam dois dias e tal).

Vibe boa

E hoje, em edição especial, já que não consegui ligar nessa caralha de celular o vídeo abaixo é para o amigo/bróder/irmão Leo Pollisson, que faz aniversário hoje (e essa é a parte em que eu omito que pensava que a data era ontem, por um negócio de relógio biológico desregulado por dormir tarde demais no natal), com o Beach Boys tocando uma das músicas-tema de sua vida, em meandros (que palavra) de 1979:

Daí que eu lembro do último show do Beach Boys no Credicard Hall, que vimos de perto, uma vez que o lugar estava relativamente vazio. E lembro da Golden Era da empresa que ele ainda trabalha, quando saíamos pra fumar e pensar como seria quando ganhássemos na mega-sena da virada e pudéssemos comprar a empresa, criando cargos como supervisor de Guitar Hero, que teria uma entrevista supervisionada pelos sócios e TERIA de zerar o jogo pelo menos no hard. Coisas do tipo. E lembro tanta história pra dar risada, tanta depre que passou, tanta piada interna que só a gente riu.

O ano virou, mas as boas vibrações nunca param.

Jingle Bells Rock

Daí que passei o natal mais uma vez sozinho em casa. Não acho ruim, sério, acho até confortante ouvir a galera estourar morteiros no vão livre do condomínio, onde ficam as janelas dos banheiros. Por mim, ótimo.

Desliguei a TV, continuei lendo o livro, reclamando que a Denise bem podia ter virado o natal na casa dela, ao invés de ir para um aniversário, evitando todo esse desconforto. Depois me envergonhei por ainda ter passado no Extra, às 23h30, imaginando que estaria aberto e que o destino me receberia de braços abertos para comprar uma garrafa de conhaque.

Acabei em casa, escrevendo um texto medíocre, que outro dia posto, se houver necessidade. E depois, pra não perder completamente a madrugada, fui encontrar meus amigos sem imaginar como essa poderia se tornar a decisão mais desacertada que poderia ter tomado no aniversário do menino Jesus.

O primeiro deles, foi o tal do Kenan (Lembrem-se: não repitam o nome dele três vezes que ele aparece, onde quer que você esteja. Isso é muito sério). Ele falou de todos os tópicos de sua vida atual que achava interessante, incluindo um monólogo sobre homofobia e neo nazistas, traduções de Sartre e todo um tratado sobre como o meu espumante não tinha álcool algum. Cagou pra noite de natal e pro salvador de cá (a piada que ninguém entendeu é gratuita).

Consegui despistar o fulano lá pelas duas da manhã, quando encontrei novos amigos e alguns viciados, quase subindo pelas paredes em busca de uma lojinha para comprar entorpecentes. Entre os amigos, estava o Wolvs, recentemente incluído na minha lista de ex-addicts e que estava longe daquela vibe Trainspotting no feriado mais cristão do ano.

Foi então que fomos encontrar outros amigos no bairro vizinho. Outros amigos roqueiros com mais de 30 anos, apaixonados por tempos musicais, escalas diatonicas e Jetro Tull. Mas digamos que foi meio embaraçoso estar de canto, fumando um cigarro, enquanto seis marmanjos cantavam Highway Star do Purple como se suas vidas dependessem disso.

Consegui voltar pra casa ainda sem tomar uma cerveja devidamente gelada às 4h30, quando encontrei outros amigos mais próximos e pude, enfim, terminar o dia com o sol amanhecendo, na companhia de uma caixa de Brahmas, um biscoito doce e um amigo desacordado no banco de trás do carro, que xingou todos nós quando acordou.

Outra leitura

“Acho que ler um livro é importante para você não estar aqui nem agora. Para você não ser você por um tempo. Para você ser os outros e habitar outros lugares durante o tempo em que estiver lendo. E, quando você voltar ao aqui e ao agora, a você mesmo, voltará com os olhos muito mais aguçados (…) Fala-se muito que temos uma grande afeição ao caos, que o mundo é informe e que a arte daria forma às coisas. Na verdade, temos pânico do caos. Nós não conseguiríamos viver sem alguma ordem na nossa história. E o que a literatura faz é desordenar um pouco isso, mostrar outras maneiras de organizar nossa vida”.

Beatriz Bracher, escritora, em trecho citado na última coluna da Eliane Brum em 2010, pela revista Época.

por Um Laerte cartunista

‘Você não fica louco de ter que inventar uma história nova todo dia?
Realmente não tem perigo nenhum. Muitos autores novos inclusive me perguntam isso, como fazer quando tiver um branco, quando der aquele vazio existencial, um bloqueio, como entregar uma tira? O que eu digo é que não se deve ter medo. Se você quiser, existem bons facilitadores para esse momento, que é um momento meio perturbador mesmo. Anote coisas que você acha que um dia podem ser histórias, uma situação, um fragmento de ideia, vai juntando tudo numa pasta, numa caixinha de sapato, coisa assim. Chama isso do que você quiser, “fragmentos de ideias”, “fetos” (eu já ouvi essa, tinha uma amiga minha que chamava assim), “armazém”. Eu até hoje tenho isso, mas o fluxo nunca teve grandes problemas.’

Laerte, dessa vez numa entrevista de verdade, pela sempre gloriosa Vice Magazine.

Piscinão, the movie

Ontem, no meu atual oráculo de Delfos chamado rádio Sulamérica trânsito, pouco antes das dez horas da noite, ouço uma notícia sobre os alagamentos na cidade de São Paulo.

Não sei exatamente quem era o entrevistado, mas era claramente o contraponto da matéria. Apesar dos terríveis alagamentos em Osasco e na zona sul – exatamente os dois lugares por onde passei ontem – o malandro defendia a prefeitura que estaria fazendo o possível com a verba dedicada à infra estrutura da cidade contra estes desastres naturais.

Pra fechar a matéria, ele disse algo como ‘inclusive a ação já começou e já foram instaladas câmeras em todos os piscinões da cidade.

Alguém pode me explicar como câmeras de monitoramento são mais imprescindíveis que a limpeza de bueiros e a retirada de lixo indevido? Porque, sinceramente, até uma tentativa possivelmente frustrada de conscientização sobre o acúmulo de lixo soa mais interessante do que o monitoramento de um buraco gigante.

A caixa de comentários está aberta.

Os malfeitores do Google

Os filmes de Hollywood sempre trataram como vilãs empresas megalomaníacas como a Luthor Corp, Stark Industries, Skynet, esse tipo de coisas. Isso porque o mundo que vivemos é apático e nada muito significativo acontece diariamente. É um mundo em que se trabalha a maior parte de tempo trancafiado em uma ou duas instituições empresariais, mal tendo tempo para ver o sol (ou a verdade que está) lá fora.

Por isso tantos filmes de ação inebriantes, por isso Batman, Homem Aranha e Superman nos confundem com tantos conselhos, por isso aquela receita certeira de filmes homem-derrotado-muda-de-vida-extraordinariamente-e-salva-o-mundo. Porque precisamos de uma história que salve o mundo por nós, precisamos de zumbis para ter medo de algo além da escuridão do nosso futuro desconhecido, precisamos do Bruce Willis saindo do carro num cavalo de pau e atirando, porque os tiozinhos de 55 anos que conhecemos estão mais preocupados em se aposentar dignamente e ser bem cuidados pelos filhos quando o Alzheimer bater.

Porque a vida, resumindo, é entediante demais pra ser contada.

Todo este ponto que estou tentando provar é para defender a empresa vista pelos criadores de correntes de email teorias conspiratórias como a mais assustadora forma de dominação possível: O Google. Empresa que, ao invés de divulgar suas ações sociais, solta um videozinho no Youtube explicando onde foram parar suas contribuições para a humanidade em 2010:

É aquele negócio do jogador de futebol que ganha milhões pelo mundo, cria uma marca multimilionária e abre escolinhas de futebol no bairro humilde onde morou quando pequeno, para dizer ao mundo que se importa com algo além de seu carro, as vadias e a balada sem controle. E o mundo segue nessa ironia de que isso faz do jogador em questão um humanitário, envolvido diretamente com a causa social da qual é fruto. Não é. Se ele se interessasse, montaria um centro educativo, reformaria quadras públicas, ruas, casas, daria uma vida decente aos seus e não apenas a remota possibilidade de uma. Porque quem quer fazer alguma coisa pelo mundo não abre escolinhas com o troco do IPVA, nem se reúne na Paulista com 20 fãs achando que vai mudar muita coisa. Mas esse é assunto para um outro dia.

O Google e algumas outras empresas perdidas por aí sabem do valor que existe em construir 15 mil escolas na Índia, ou vacinar 50 milhões de crianças no mundo todo contra polio. É absolutamente o contrário do que ‘aprendemos’ nos filmes e muito mais do que se espera da atual maior companhia do mundo.

E o lado bom que sobra disso é que, se num futuro distópico qualquer eles usarem nossos dados pessoais para criar uma sociedade mentalmente aprisionada, talvez um dia possamos ver tiozinhos como Bruce Willis por aí rodopiando carros e descarregando suas uzis contra agentes do governo.

#festadafirma

Digamos que a amiga secreta em questão pediu três livros, dois de R$ 15,00 e um de R$ 9,90 em promoção bombástica no Submarino.

Digamos que o livro de 9,90 saiu da promoção no dia seguinte. E, quando comprei em outra loja, o livro voltou à promoção.

Não contente, digamos que o destino marcou o amigo secreto para amanhã e nenhum dos presentes chegou até o presente momento.

Natal, serious business

Todo ano é uma penúria escrever algo decente sobre o natal. O passar dos anos traz consigo o fim desse encanto. Embora traga também umas boas histórias e lembranças. Sempre gostei de ir à Paulista ver o Bank Boston (ou Citibank?) onde fazem toda aquela cena com presentes cheios de luzes, renas que cantam e um papai noel robótico um tanto assustador.

Outra parada é a árvore do Ibirapuera e aquele show de luzes (Tron já está em cartaz?). Ontem, quando passei por lá com a Denise, tinha uma carreata de pipoqueiros em fila, indo atrás de seus clientes, correndo despreocupados com seus carrinhos de mão pela curva sinuosa de acesso à Av. Pedro Àlvares Cabral via 23 de maio (SP para Insiders).

Esse ano, tudo o que tenho é essa imagem embaçada da árvore e umas boas recordações. Por exemplo daquele ano que eu tinha uma foto enforcando o Papai Noel de cera do Bradesco da Av. Paulista, ou das tardes que vi a cidade anoitecer sentado na grama do Ibirapuera, esperando as cores e a versão do Inocentes para uma música do 365 que tocava todas as noites.

Saudades desse tempo em que ‘ver a cidade anoitecer sentado na grama do parque’ não representava algo tão difícil assim. Por aqui, o trabalho não vai parar, nada de férias, ou agradecimentos. O espírito de natal nessa empresa em que estou agora significa fazer uma reunião anual e convocar apenas gerentes (com os demais acompanhando um minuto a minuto tosco), ou me pagar 150 reais como participação nos lucros e fazer com que eu acredite que dos 40 bilhões que vai faturar esse ano, 150 mangos é um valor fair enough.

Hoje, o natal significa todas essas lembranças bonitas e só me faz querer dizer para todo o escritório: façam o que quiser, mas saibam que o meu coração não está aqui.

Ensaios Dominicais

Assistir Multishow no final de semana geralmente significa que algo grave aconteceu, ou está acontecendo, embora isso não venha ao caso. Estava vendo aquele programa em que eles pegam uma celebridade e fazem com que ela tenha um trabalho comum por um dia. A idéia é que o atorzinho da novela das oito deixe o Projac e tenha seu dia de garçom, vendedor de loja ou faxineiro de shopping.

Quando toda a diversão que lhe resta ao redor é uma programação de domingo entediante, esse programa se torna automaticamente uma coqueluche do entretenimento barato, da qual consigo inclusive esperar os comerciais – com o devido desvio de pensamento de todas aquelas propagandas ‘geniais’ (NOT).

Isso quando as pessoas que participam são famosas e tal. Engraçadinho ver a Angélica tropeçar com as bandejas de suco na mão, ou o Arnaldo César Coelho de taxista, por exemplo. Mas quando colocam alguém desse mundo B de celebridades, não faz sentido algum. Se o cara vai passar batido e uma ou duas pessoas vão reconhecê-lo ‘de algum lugar’, qual a diferença dele pra todos nós, reles mortais, sem crachá de acesso aos estúdios do Projac?

Claro, não parei de assistir até o final.

Diga não às drogas

Estava eu ano passado num show na quadra da Peruche, com o From.

Na fila, no meio de um desses small talks marotos com dois caras que estavam na nossa frente, um deles me solta ‘ah, mano, essa molecada de hoje tá perdida, é só funk, só droga, não tem mais aquilo de antes, entendeu, de curtir o som, ficar tranquilo, com seu pessoal, tals, os cara só quer saber de fumar, cheirar… não vira’. Continuamos a conversa até entrarmos e nos perdermos numa humilde multidão.

DJ KL Jay tocava uns clássicos enquanto eu esperava com o coração inquieto a entrada do show principal. Tomávamos uma cerveja inocente, falávamos alguma coisa sobre como a cena era forte, mesmo que descentralizada, não nestes termos, uma vez que ‘descentralizada’ não é uma palavra que você consegue falar quando está bebendo. De repente, malandrílson da fila passa pela gente frenético, pára com uma garrafa de catuaba e fala:

-Oooo, manos, trombei uns camaradas meus ali, vamo lá?
-Não, velho, tamos tranquilos, vai lá.
-Ah, demoro, mas aí, eles tão com vários pinos, se quiserem dar um ‘rata’, só chegar, firmeza, família? (i.e ‘temos cocaína, se quiserem usar, venham comigo’)
-heheh, ok.

Só pra ter certeza de que não tinha bebido tanto assim perguntei pro From se aquilo era verossímil, se o cara tinha realmente falado que odiava drogas e depois veio nos oferecer, destruindo em segundos sua imagem pré-estabelecida de crítico da juventude. Poderia aqui pontuar uma extensa lista de fundamentos morais que ele infringiu, mas não, afinal, ‘quem sou eu pra falar de quem cheira ou quem fuma?’. Essa é a crítica insider, um novo e inesperado mercado profissional pronto para decolar.

Ou não.

Retrieve your feelings

De tempos em tempos, fico lembrando quando foi que comecei a escrever meus blogs pelo Web Archive, esse site que recupera URLs esquecidas no tempo.

E sempre procuro o link do Caito*, que em 2003 mantinha textos e poesias em sua Casa do Pescador, já era meu poeta preferido, minha grande e contemporânea inspiração, além de um grande amigo.

Daí que lhe perguntei algumas vezes sobre uma poesia que ele havia escrito naquela época, mas ele nunca se lembrou. Falava sobre a procura de um amor. Queria o poema novamente, para guardá-lo e eternizá-lo como uma das maiores obras que li durante a adolescência. Hoje, eu o encontrei. E por mais que não faça o exato sentido de sete anos atrás, ainda me emociona de uma forma simples e grandiosa, que me joga sobre o rosto a importância de jamais se esquecer quem você é realmente.

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Jovem solteiro procura mulher
Cor dos olhos: tanto faz
Importante mesmo é o olhar
Renda mínima: tanto faz
Importante mesmo é lutar
Uma mulher que faça amor
As 7:0 da manhã
E que use roupas íntimas
Com estampa de bichinhos
Que ouça Elis Regina
E ouça Garotos Podres
Que se entorpeça comigo
Que me entorpeça
Que faça minha cabeça
E junte seu suor ao meu
Que perca suas pernas entre as minhas
Que entenda o que meu olhar
Diz nas entrelinhas
Uma mulher que me deite em seu colo
E me faça um cafuné nos cabelos
Olhando no fundo dos meus olhos
E cantarolando
“All you need is love”
Que cuide e deixe cuidar
Que ame e deixe amar
Que transe no elevador!
E que chore em meu ombro
Ao final de uma love story qualquer
Uma mulher que me ouça tocar
Uma melodia boba no violão
E ao som de cada acorde
Me olhe com tanta ternura
Que me sentirei quase um blues man
Uma mulher que beije
Morda
Arranhe
Afague
Que pense
Que brigue
Que implique com alguma amiga minha
Que reconcilie
Que beba uma cerveja comigo
Que leia um livro
Sublinhe uma parte bonita
E venha a mim recitar
Que me conte como foi seu dia
Eu ouviria com toda atenção
Uma mulher que durma abraçada comigo
Como seu eu fosse um ursinho
E só me largue na hora de ir trabalhar
Porque não tem outra opção
Que me de um apelido ridículo
Que eu direi que odeio
Mas irei amar
Procuro alguém para me apelidar
Procuro desesperadamente alguém para amar.

Caio Cezar Mayer, no blog Casa do Pescador, 2003

*’Caito’ é Caio Cezar Mayer e hoje escreve suas poesias no Sindicato do Escritores Baratos, ao qual tenho prazer de também deixar algumas poucas contribuições.

Audiência para blogs, tratar aqui

Se eu te disser que praticamente todas as pessoas do meu setor estão acompanhando o blog do post anterior numa voracidade inacreditável, vocês vão acreditar? Mesmo que a cada novo post a novela esteja começando a ganhar os contornos mais irrelevantes que você possa imaginar, cada frase absurda se torna um jargão inevitável para nossas conversas de cigarro e cada tema (ou galã em questão) um trend topic para a vida.

Mais um case de sucesso da internet brasileira.

Thalia

Daí tem essa mina nova no trabalho, que tem esse blog mais pessoal que o meu, o seu e o nosso, juntos. Gosto de ler blogs pessoais de amigos mais por suas idéias e viagens reflexivas do que pelos típicos ‘queridos diários’, uma excentricidade tardiamente ultrapassada. Mas o negócio é que a menina escreve sobre sua vida como uma garota de 13 anos contando histórias de amor mexicanas.

Nada demais, você tira uns prints, copia os amigos no email e dão risadas, certo? O negócio é que eu comecei a manter o link para o blog na minha lista rotineira de to-do’s. Sabe, antes de você checar o Gmail, no lugar de ‘Ah, vou ver se tem algo bom no Facebook’, eu digo ‘vamos ver o que tem feito a Thalia’.

Também não é meu intuito fofocar sobre a vida da fulana, entende? É como se alguém começasse a contar histórias ocultas das pessoas com quem você convive diariamente. E uma excelente maneira de você nunca mais olhar pro malandro do TI (o galã de bigode, terno e gel no cabelo em questão) com os mesmos olhos.

Não é ficção, amigos, essa é a vida real sem rodeios, com amores platônicos adolescentes, erros primários de português e idiossincrasias peculiares a roteiristas de novelas da Televisa.

Tentativas de mim

Gostaria de pensar que tudo faz sentido, que as peças se encaixam, que cada passo é dado em direção a algo maravilhoso e glorificante. Que nossas vidas são sagas que sempre despencam num final feliz e que, não importa o que te digam, você é importante demais para o mundo e para todas as pessoas ao seu redor. Gostaria de não ter esse torpor, gostaria que essa fé me invadisse, que eu pudesse olhar pro céu e ver as estrelas como possibilidades, como esperança. Gostaria de poder dizer que cada erro é uma construção irremediável de quem sou e não o contrário, gostaria de poder sorrir sem imaginar o dia de amanhã, as contas empilhadas e qual das moças do setor de cobrança vai me ligar dessa vez. Gostaria de não pensar no talvez, de poder enfiar a mão num saco de feijão e sentir felicidade, ‘é o que falta às pessoas’, dizia a Vera. Gostaria que tudo fosse mais simples. Gostaria de acreditar que um dia isso tudo vai passar. Mas hoje, eu simplesmente não posso.

Tô bem, sério, é só uma bad trip de final de ano.

Os Mujiques e a vida como ela é

Anton Tchekhov é um dos maiores contistas da história, mas só o descobri agora, no momento relativamente certo, quando você sabe realmente o que está procurando. Uma das coisas que mais me chama a atenção logo de cara é como ele faz de seus contos grandes, grandes contos. Cada capítulo tem sua própria história, com começo, meio e fim e nos garante a perfeita sensação de ler diversos contos interligados num só.

Além da linguagem e dos temas ácidos como a pobreza, o estilo rude e a má educação, outro fator importante em seus contos são os pequenos resumos de estudos sobre a natureza humana em imagens absolutamente lúcidas e auto-explicativas:

O incêndio terminara. Quando começaram a se dispersar, as pessoas perceberam que já havia amanhecido, que todos estavam pálidos, um pouco curtidos – era sempre assim, de manhã cedo, quando se apagavam as últimas estrelas no céu. Os mujiques sorriam e zombavam do cozinheiro do general Jukov e do seu chapéu, que havia pegado fogo; já tinham mesmo vontade de fazer piadas com o incêndio, como se fosse uma pena o fogo ter apagado tão depressa.

Anton Tchekhov em  ‘Os Mujiques’, 1897

Sujeira, mano, sou sujeira

O final de semana foi a prova definitiva para manter a última frase do meu perfil (ao lado) no lugar em que ela está. Ou trocá-la por ‘eu não presto, mano, sério’. Minhas expectativas não erraram. Eu, esse bêbado inconsequente e descontrolado, não mereço nada mais que uma vida merda. Obrigado, mundo, por fazer seu trabalho tão lindamente.

E toda essa indiferença, cara, vem de onde? Dessa vez eu não consigo me sentir completamente errado. E veja que, ‘completamente’ é o que dá sentido na frase. Eu sei do que devo e não devo fazer, embora possa ocorrer erros de percurso, inadvertidamente. O que não posso entender é como um erro pode anular todo o resto. Isso facilita bastante. Quando você tem tanta coisa boa pra lembrar, você não consegue imaginar como esse negócio de beber incontrolavelmente te faz um cara escroto do dia pra noite.

Talvez eu consiga guardar as alianças na caixa de recordações, ou alterar o status do relacionamento, ou devolver os livros dela que ainda nem cheguei a ler. Mas agora pouco, no carro, deixando ela em casa, tive a sensação de estar assinando um atestado de fracasso sentimental que vale pelo resto da minha vida.

Ela só era boa demais pra mim. =(

Tragic scenes of life: A merda do meu TCC

O ano, 2006. A faculdade, Unisa. Tinha acabado de terminar um namoro de pouco mais de um ano com uma mina que estudava na minha sala e estava no período traumático em que se recolhe as misérias no silêncio e no riso contra vontade. Último ano de faculdade, isso é também preciso dizer. Recentemente demitido do estágio, outro fato importante desta trágica historieta.

O trabalho de conclusão de curso tive que fazer sozinho após acabar o relacionamento. Optei pela monografia clássica, cujo maior problema eram as regras da ABNT e o contato do Mr. Manson, uma vez que a parada se tratava de blogs.

Sem contexto definido, li muita coisa entre conclusões de curso, estudos, livros de cibercultura, mas nada disso me entregou de bandeja a base para tematizar meu texto. Acabei escrevendo sem rumo, separei os capítulos, fiz um trabalho de pesquisa digno, ao menos. Se tivesse tempo, Deus sabe, teria feito um compêndio sobre a blogosfera mundial.

E o mundo se degladiava dentro da minha cabeça.

Na hora de apresentar, gravei um CD com AC/DC, Explosions in the Sky, Interpol, New Order, Mogwai e God Speed You! Black Emperor, músicas de background para poder falar tranquilamente sem perder o foco e tal, me arrumei mais decentemente que no resto do ano, chamei o From e o Regino, que me deram o conforto de suas presenças.

Subi no palco, discursei para três professores que me olhavam – e se entreolhavam – com uma indiferença que jamais vou esquecer, enquanto minha orientadora (até então não mencionada no texto pois falou comigo apenas uma semana antes da apresentação) tentava claramente entender o que eu dizia. Terminei. Parei de tremer e esperei alguma observação, crítica construtiva ou coisa que acalentasse o terror da oratória.

-Você fala aqui de interatividade, pode nos explicar um pouco melhor?
-Bom, interatividade é a relação entre o leitor e o produtor do conteúdo, o blogueiro, através de comentários, de citações e hyperlinks. São as possibilidades de aproximação entre o usuário e o público.
-Mas esse é um conceito vago, não?
-Bem, o conceito geral é esse.
-Não, interatividade para o tema do seu trabalho não é isso, interatividade é como o leitor lê o blog, como isso é facilitado, como, sabe… de que forma o leitor enxerga, como ele lê, como ele acessa o site…
-Também, mas isso tem mais relação com usabilidade, que não achei necessário abordar no trabalho
-Bom, mas tem uns erros de português também e…

O que testemunhou-se a seguir foi uma execução sumária de quatro anos de estudo e disciplina (deixei de frequentar o boteco ainda no primeiro ano). Fui taxado de iletrado, pouco dedicado e analfabeto digital. Minha orientadora, na sua vez de falar, desculpou-se por não ter exercido seu trabalho corretamente e tentou amenizar a fúria desregrada dos outros professores da banca, que comandavam o excrutínio.

Tirei um sete no trabalho, média que me garantiu o diploma e a participação na festa da formatura. Embora, desde então, eu considere como se nunca tivesse terminado a faculdade.

***

Nota: A professora que começou a me escrotizar publicamente em frente de todos os meus amigos, alunos de anos anteriores e inclusive da ex-namorada em questão, costuma me adicionar em suas redes de relacionamento e me convida para sites tipo Bebo e essas redes brasileiras que prometem porcamente ser os Twitter Killers.

Trolls da vida real

ou Falta de posição (anal é coisa séria).

Estava escrevendo um texto que sairia gigante sobre o amigo secreto daqui do escritório, mas preferi abster este servidor de tamanho cansaço. Porque a galera do trampo marcando amigo secreto é a receita da preguiça, sério. Nego reclama do bar, do horário, do preço, dos pacotes de consumação, quer a comemoração no meio da semana e depois inutiliza toda essa militância pelo nada com um e-mail típico ‘gente, eu escolho o que decidirem’.

A vida é feita de escolhas

Confesso sentir uma inveja desmedida dessas pessoas que sabem exatamente o que escolher num bar, restaurante ou banca de pastel. Esses governadores da predileção, que sabem escolher cada ingrediente de seu ravióli do Spoletto como se fosse algo absolutamente óbvio.

Isso sempre me pareceu pouco fácil, se tornando um massacre sem tamanho ter de decidir entre pimenta do reino, milho ou pedaços de bacon (eu sempre escolho o bacon, BTW). Como naquele jogo do Big Bang Theory com perguntas do tipo ’em um mundo em que rinocerontes são animais domesticados, que vence a Segunda Guerra Mundial?’. Não existe lógica nenhuma, a não ser aquela que consigo inventar de bate pronto, em que o bacon e a ervilha tem nível 4 numa escala internacional de sabores, ficando abaixo apenas do alho poró e da cebola roxa, respectivamente.

Sem contar os fancy choosers e é desses que eu realmente quero falar. Do malandro que não sabe chegar numa barraca de pastel e pedir ‘um de pizza e uma coca’, ele tem que encher os pulmões e esvaziá-los dizendo: mê vê um de carne seca com cebolas picadas e azeitonas pretas chilenas, com um suco Del Vale de frutas cítricas no copo de plástico e dois canudos de cores diferentes.

Outro tipo clássico é o que não sabe pedir um café puro ou pingado e um pão na chapa. Ele precisa pedir um café espresso macchiato com bastante espuma e um sanduíche de queijo brie na chapa com algumas pitadas de cebola. Sempre a cebola, reparem, este é o condimento principal para se tornar insuportável.

A parte disso tudo, meu sério problema é com aquela cafeteria que salvou a vida de Michael Gates Gill. Não consigo pedir a bebida adequada em ocasião nenhuma. Sempre peço ‘aquele gelado de café e chocolate tamanho grande’ e sempre tenho respostas secas para confirmar quando o atendente me diz: ‘o senhor quer então o Frappuccino Blended Beverage Java Chip à base de café tamanho Venti?’. Daí respondo com aquele olhar cínico, esbanjando uma fingida superioridade: ‘claro, amigo, claro’.

Outro fato completamente insensato dessa minha vida infernal é que não consigo pedir pizzas além da prática, default e pouco espirituosa meia mussarella, meia calabresa. Embora eu devore todos os sabores sem nenhum problema, é necessário que, de alguma forma, em algum oitavo das pizzas haja queijo e calabresa.

É aí que está o segredo. Parece de uma frescura sem tamanho, mas é exatamente o contrário. Eu tenho uma boa relação com todos os sabores, o que não me confere exatamente a liberdade de optar pela quatro queijos em detrimento da marguerita, afinal que culpa ela tem? E assim eu sigo dramatizando conceitos culinários como respostas para minhas grandes fraquezas.

Natif, desce lá, mano

O relógio marcava errante entre três e quatro horas da manhã de segunda-feira, quando acordo de um susto e percebo que uma mulher gritava a plenos pulmões, repetidamente, na área comum do condomínio:

-NATIF, DEVOLVE A MINHA FILHAAAAA!

Deixando de lado a idéia de que a mulher era só uma maluca qualquer, noiada de crack, vagando numa madrugada e imaginando que o tal do Natif realmente desceria com sua filha e diria ‘ok, agora nos deixe em paz’, o condomínio estava sem energia elétrica e eu, que não consegui mais dormir, não pude ver o Friends maroto que passa na Warner quando ninguém está assistindo.

Sei lá, achei que esse desconforto pudesse interessar a alguém.

Life is Life

E, bem amigos, foi só agora que eu, trabalhador otário honesto desse mundo injusto, ao ocultar a barra de tarefas do Stumble Upon, perceber que estou sem comer há pelo menos 12 horas e olhar para o relógio do escritório que marca 22h03, descobri que chegou o final do ano e para nós, que vendemos produtos desnecessários que as pessoas compram como mariolas para esquecer a merda das suas vidas que trabalhamos com e-commerce, o mundo torna-se um lugar menos sadio e respeitável.

O ano inteiro é esse terror psicológico, mas em dezembro o negócio aperta seu cérebro como um vírus, invade cada centímetro de decência que ainda existe em você e faz com que você desista dela (lembre-se, eu entrei às 10 da manhã, são 10 da noite e eu ainda estou por aqui). Mais do que isso, faz você querer o começo do ano novamente, um ciclio desnecessário que não se pode interromper. Ao menos não tragicamente.

Portanto nos vemos, entre uma transpiração ou outra, quando minha cabeça funcionar durante os dias que se seguem.

A imagem é do Graphic Design Blog