Trabalhando para melhor atendê-lo

Tive um writer’s block justo em dezembro, o mês mais legal para repensar o que quer que seja e fazer uma análise pessoal sem base nenhuma, embora no final tudo faça sentido dentro da sua cabeça. Não existe teoria psicológica mais fácil de ser assimilada do que a própria verdade.

Tudo o que escrevi esse mês veio com uma espécie de carga extra que eu não quis ou não consegui bancar. Qualquer errinho ou pensamento sem lógica, qualquer frase que soasse terrível já era motivo de sumir com os parágrafos e desligar o computador num tédio quase compulsivo.

Ano passado estive mais ciente do que o final do ano pode fazer com a cabeça de quem trabalha com dados, conteúdos, números, listas de excel e letras, ao mesmo tempo. Esse ano achei que tudo pudesse ser mais maleável, mas o tempo veio me estapear, como quando a gente aprende alguma coisa pra valer e não melhora a situação apenas esquecendo o problema.

Amanhã preciso escrever três páginas de produto e, caso embale, tenho outras 15 na lista. Sem contar o parágrafo do freela que não me pagou os 30 reais que faltavam. É um consolo saber que existe alguém pior que você. Talvez das próximas vezes eu adote o caráter simpático do Di Vasca nessas micro contratações (sério, leiam esse blog).

E até sexta, espero que uma amiga esteja certa, ficamos sobrecarregados em dezembro pra recomeçar o ano novo zerados. É meio que aquela história de que na sexta a gente trabalha pelos dois outros dias do final de semana, mas como deu pra perceber, ando meio sem ideias pra levar isso pra frente.

Preciso de um tempo, algumas semanas longe do blog, o que não quer dizer que vou parar de postar, pode ser que surja uma inspiração e um post melhor que esse monte de choramingos também sem fundamento. Quem sabe umas imagens do This isn’t happines com textos de seis linhas, pra não perder o ritmo (qual?). O tempo dirá.

Feliz ano novo a todos os envolvidos.

*A imagem é adaptação dessa daqui, via this isn’t happiness =)

Balanço 2011


Esse ano estive mortalmente indeciso sobre meu trabalho depois de umas respostas negativas aí. E então tive umas reuniões descompromissadas na sede do trampo e depois de quase me mudar pra Jandira acabei voltando a trabalhar na capital. tenho me tornado a cada dia uma pessoa muito mais roubável, mas isso pode ser considerado uma coisa boa. Consegui um freela do qual já não sinto tanta saudade.

Esse meu amigo em recuperação, mesmo passando dias planejando roteiros comigo desistiu de ser meu amigo (entenda isso como quiser), foi coisa de época, conversei com o cara, mas olha, talvez isso tenha me feito desistir um pouco mais de acreditar no mundo. Aí veio um moleque no metrô dizendo que Jesus me ama e que ficaria tudo certo.

Algumas coisas seguiram iguais. Continuo frequentando o peremptório bar do Enoch, por exemplo, minha cota mensal de vagabundagem nas proximidades da casa dos meus pais. Continuo tendo sonhos dentro de sonhos ou sonhos malucos com o William Bonner e o Danilo Gentili (sim, soou estranho mesmo). Ah, e continuo postando tutoriais simples e angariando visistas às custas da indexação manera do Google.

A Denise continua lutando contra minhas imaturidades namorando comigo mesmo depois de tanto tropeço e tanta diferença entre nós. Fomos duas vezes para o litoral norte, que conheci esse ano, calcule o sofrimento da classe média. Continuamos morando distantes demais pra quem já entrou na terceira temporada do relacionamento. A verdade é que a gente já sabe o que quer (aos novatos, essa sentença para as mulheres só quer dizer uma coisa, casamento). Ela já ganhou uma mixtape esse ano, então tá tudo bem encaminhado, eu acho (prioridades, não trabalhamos).

Foram embora deste mundo algumas pessoas notáveis, como minha tia Paula que passou maus bocados num hospital terrível no interior do Maranhão, mas pude me lembrar de tudo o que tenho de bom dela, o que alivia bastante. Outra perda lastimável não só pra mim, mas para uma cena musical de gente de verdade foi a partida do Redson, vocalista do Cólera, parte da mitologia da música independente nacional.

Fiz uma apologia à depressão, mas nada demais, aquela mesma ideia do bullying pedagógico, de que você vai se ferrar, mas no fundo é pro seu bem. Tentei ir no médico e não há mais nada a dizer sobre o assunto. Descolei uns sonhos velhos, empoeirados, meu irmão tá namorando uma garota gente fina. E, bem, vamos fechar isso aqui que já deu de links em 2011, não? Prometo que ano que vem reduzo isso aí.

***

Sério, que 2012 seja bem legal pra todo mundo. Seguindo o raciocínio de Azaghal, num Nerdcast do começo do ano, aproveite 2012 como se fosse o último ano de sua vida (ask maias about it).

Um abraço a cada um dos meus 20 leitores imaginários, aos amigos de sempre e aos de agora que passam por este pequeno relicário de vibes desconexas. Amo vocês, até mais e obrigado pelos peixes (ainda não terminei – FUUUUU, outro link).

3rd season

Dentre as coisas mais difíceis que já conheci está ‘namorar’. Juntar duas vidas completamente distintas em uma só instituição, lidar com prioridades diferentes para um e para outro, conciliar as divergências para evitar problemas e, para que, ao final disso tudo (e com alguma sorte) conseguir um beijo displiscente e desamarrado do mundo.

Porque é nesse momento que as coisas se desprendem, sabe qual é? Aquele momento que você diz pra ela que gostaria de ser eterno, pra parecer fofo e/ou plagiar o Nando Reis sem ela saber. Porque, afinal de contas, é tudo um grande poço de responsabilidade, dívidas, compromissos, especulações e brigas. Aquele momento, aquele único, em que os lábios se encostam é quando tudo se desfaz, quando tudo que é ruim se perde numa ignorância que nos faz felizes e completos.

Sim, amigos, hoje faço três anos de namoro com a Denise. E que venha a terceira temporada.

O natal do desapego

Entendo o clima de natal, as crianças, os shopping centers, entendo até mesmo as luzes da avenida Paulista. Ontem, durante o expediente, ouvi uma galera comentando sobre como as correrias de natal mudaram de uns anos pra cá. Deu vontade de dizer-lhes que tudo mudou porque cresceram, mas preferi não me intrometer no horário de almoço dos outros com essas conversas deprimentes (não tão deprimente quanto o Ronald Rios contando à crianças de 5 anos que o papai noel não existe, essa está entre as coisas mais tristes que vi esse ano).

Eu lembro dos natais que passei junto com a minha família (e por família, entenda-se: pessoas que moram na minha casa). A mesa cheia de Cherry Coke e cachos de uva, um peru que parecia tão gigante, umas garrafas de bebidas as quais eu não entendia muito bem porque só meu pai podia tomar. Depois aquelas festas com os vizinhos, eu devia ter uns 16 anos me achando o máximo por ‘roubar’ uma garrafa de espumante enquanto todos olhavam os fogos.

Vieram então os anos dez. E toda aquela solidão que senti até uns 19 anos foi perdendo o sentido. Meus pais começaram a viajar e posso me lembrar do meu primeiro natal sozinho, em casa. Um monte de frituras, outro monte de bebidas, a TV ligada passando algum especial da Globo e eu numa tranquilidade solitária que, de longe, poderia até parecer desespero. Não era.

Todas as vezes que passei o Natal longe de casa eu me senti errado. Mas o fato não era estar longe da minha família, era simplesmente estar longe de casa, tentando fingir que estava tudo bem para pessoas as quais eu pouco conhecia. E sorrir sem vontade se torna, no fim das contas, o pior dos castigos.

Essa não é outra ode à tristeza, sério. É só a aceitação de que eu prefiro passar o natal sozinho na frente da TV do que em qualquer outro lugar que não me sinta em família. E tem aquilo de agora ter outra família pra comemorar. E de ser aniversário de namoro, justo no dia 25. Só precisava dizer que o natal se transformou em mais uma dessas convenções que me desapeguei, mas essa, pelo menos, sem críticas ao establishment. Gosto muito de ver todo mundo comemorando, desde que eu esteja na minha, com uma caixa de nuggets e duas latas de cerveja na geladeira.

Ok, falando assim até parece desespero mesmo.

***

Só espero que o menino Jesus cumpra seu trabalho no dia de hoje e que tudo acabe bem.
Feliz natal aos desbravadores que conseguiram ler até o final e aos que pularam o texto só pra ler a mensagem. =)

Pádua

Trago comigo pouca coisa dos tempos de escola. Pelo menos disso tudo que está às vistas. Sei do fator de formação que a escola exerce sobre cada um, descobri isso com o tempo, todo mundo acaba descobrindo. Aquelas bases de conhecimento que de tão perdidas no tempo parece que nasceram com você.

O maior ensinamento que tive na escola veio com o professor Pádua, de física, em sua última aula de 2001, a qual ele encerrou cinco minutos antes do horário usual após uma explicação qualquer e começou um discurso simples, destinado аs crianças que éramos, sobre como dali pra frente as coisas iriam mudar entre nós. Sobre o tempo em que você demoraria até encontrar algumas pessoas cuja convivência havia sido rigorosamente diária durante todos aqueles anos. Disse algo sobre a possibilidade de ainda estarmos ligados no ano seguinte, mas e em cinco, em dez? Lembro das meninas chorando e do arrepio na espinha que deu quando ele terminou a aula da maneira sempre eventual, numa frase que agora não me lembro.

A grande lição que um dia temos de aprender é a de que as coisas mudam e você tem de abrir mão. Nem todos os amigos são como aquele meu último boneco Comandos em Ação guardado no meu baú de tesouros, com as pernas descoladas do tronco, preservando ainda um sorriso no rosto intacto, felicidade que o tempo não teve capacidade de alterar
.
Alguns amigos ainda estão por aí, aceitando quem somos e o que nos tornamos depois de toda aquela euforia dos nossos primeiros anos de amizade.

Minha única tristeza no momento é que este texto trata exatamente daqueles que se vão por opiniões diferentes, por posturas opostas, pois não fazem mais parte da nossa vida, para evitar problemas futuros, para desfazer as lembranças que trazem, enfim.

Passei a semana inteira pensando em como escrever sobre esse meu amigo que decidiu essa semana que não éramos mais amigos, por divergências de maturidade. Pra resumir essa parada e não transformar esse blog num diário my sweet sixteen, diria que achei uma decisão injusta, talvez necessária, embora essencialmente injusta.

E lembrar do Pádua, meu eterno professor de física, me trouxe de volta a sensação do LOST, de que vivemos juntos e morremos sozinhos. Embora possamos ainda encontrar uma saída menos frustrante a cada pequeno revés da nossa existência para que talvez essa fração da realidade nos fortaleça um pouco mais.

Vou começar consertando meu Comandos em Ação.

A vida, o universo e tudo mais

Peguei para reler O Guia do Mochileiro das Galáxias depois que a Mariana fez uma associação leve sobre o início da história com essa brand story do Bruno.

É possível que o humor às vezes quase imperceptível de Douglas Adams seja uma das mais evidentes influências que eu tenha na vida depois das cartas que meu pai escrevia à minha mãe quando eu era um bebê (e um dia devem estar neste blog, promessa feita).

Portanto, eis aqui a introdução de seu livro mais famoso (do Douglas Adams, não do meu pai):

Muito além, nos confins inexplorados da região mais brega da Borda Ocidental desta Galáxia, há um pequeno sol amarelo e esquecido.

Girando em torno deste sol, a uma distância de cerca de 148 milhões de quilômetros, há um planetinha verde-azulado absolutamente insignificante, cujas formas de vida, descendentes de primatas, são tão extraordinariamente primitivos que ainda acham que relógios digitais são uma grande idéia.

Este planeta tem – ou melhor, tinha – o seguinte problema: a maioria de seus habitantes estava quase sempre infeliz. Foram sugeridas muitas soluções para esse problema, mas a maior parte delas dizia respeito basicamente à movimentação de pequenos pedaços de papel colorido com números impressos, o que é curioso, já que no geral não eram os tais pedaços de papel colorido que se sentiam infelizes.

E assim o problema continuava sem solução. Muitas pessoas eram más, e a maioria delas era muito infeliz, mesmo as que tinham relógios digitais.

Um número cada vez maior de pessoas acreditava que havia sido um erro terrível da espécie descer das árvores. Algumas diziam que até mesmo subir nas árvores tinha sido uma péssima idéia, e que ninguém jamais deveria ter saído do mar.

E, então, uma quinta-feira, quase dois mil anos depois que um homem foi pregado num pedaço de madeira por ter dito que seria ótimo se as pessoas fossem legais umas com as outras para variar, uma garota, sozinha numa pequena lanchonete em Rickmansworth, de repente compreendeu o que tinha dado errado todo esse tempo e finalmente entendeu como o mundo poderia se tornar um lugar bom e feliz. Desta vez estava tudo certo, ia funcionar, e ninguém teria que ser pregado em coisa nenhuma.

Infelizmente, porém, antes que ela pudesse telefonar para alguém e contar sua descoberta, aconteceu uma catástrofe terrível e idiota, e a idéia perdeu-se para todo o sempre.

Esta não é a história dessa garota.

É a história daquela catástrofe terrível e idiota, e de algumas de suas conseqüências.

É também a história de um livro, chamado O Guia do Mochileiro das Galáxias – um livro que não é da Terra, jamais foi publicado na Terra e, até o dia em que ocorreu a terrível catástrofe, nenhum terráqueo jamais o tinha visto ou sequer ouvido falar dele.

Apesar disso, é um livro realmente extraordinário.

Na verdade, foi provavelmente o mais extraordinário dos livros publicados pelas grandes editoras de Ursa Menor – editoras das quais nenhum terráqueo jamais ouvira falar, também.

O livro é não apenas uma obra extraordinária como também um tremendo best-seller – mais popular que a Enciclopédia Celestial do Lar, mais vendido que Mais Cinqüenta e Três Coisas Para Se Fazer em Gravidade Zero, e mais polêmico que a colossal trilogia filosófica de Oolonn Colluphid, Onde Deus Errou, Mais Alguns Grandes Erros de Deus e Quem é Esse Tal de Deus Afinal?

Em muitas das civilizações mais tranqüilonas da Borda Oriental da Galáxia, O Guia do Mochileiro das Galáxias já substituiu a grande Enciclopédia Galáctica como repositório-padrão de todo conhecimento e sabedoria, pois ainda que contenha muitas omissões e textos apócrifos, ou pelo menos terrivelmente incorretos, ele é superior à obra mais antiga e mais prosaica em dois aspectos importantes.

Em primeiro lugar, é ligeiramente mais barato; em segundo lugar, traz impressa na capa, em letras garrafais e amigáveis, a frase NÃO ENTRE EM PÂNICO.

Mas a história daquela quinta-feira terrível e idiota, a história de suas extraordinárias conseqüências, a história das interligações inextricáveis entre suas conseqüências e este livro extraordinário – tudo isso teve um começo muito simples.

Começou com uma casa.

Telefone portátil

Em novembro, comprei dois celulares (já deu pra notar que não trato de finanças aqui, né?). Um smartphone para aquela necessidade que inventamos de estar sempre online, onde quer que a gente esteja, mesmo com a bipolaridade do sinal 3G da TIM. Veja, eu poderia falar sobre a conta reativada do Foursquare ou qualquer outra bobagem, mas eu vou falar do outro celular.

Sim, porque este, amigos, é um celular. Um aparelho telefônico portátil de volume alto para conversar, de falantes sensíveis para compensar seu tamanho e a falta de um flip que extenda o telefone da sua orelha até a boca. Ele armazena todos os seus contatos, possui um relógio, alarme e tecnologia de ponta: ele narra o horário em voz alta. Sim, você pode pedir para que ele narre a qualquer momento, ou decidir que seu alarme seja: BOM DIA, É HORA DE ACORDAR, SÃO SETE HORAS E VINTE MINUTOS.

A diferença é comprar um gadget com função celular e um aparelho de uso único. Quer dizer, tem calculadora, MP3 e rádio FM, mas nem por isso se torna multimídia. Não suporta fotos, sabe, não tem câmera. Sem contar que sua bateria dura mais de uma semana. Talvez uns 4 dias usando o MP3 player todo dia.

Isso era pra ser um review de produto.

Toma que o mundo é seu

Hoje, o amigo F. me lembrou de um filme que devo ter assistido na Tela Quente ou Temperatura Máxima nos idos dos anos 90. Se chama ‘Encurralados’ e conta a história de um homem perseguido por um motorista enfurecido num caminhão, bem, com esse resumo – e caso tenham quase 30 anos – vocês já devem ter se lembrado também.

Apesar de ficção, foi minha primeira experiência de contato com o fato de que qualquer pessoa no mundo pode fazer o que lhe der na telha (olha as gírias datadas) com o que está a sua volta. O filme não falava de um mundo paralelo, não eram fadas, magia, nem o Leslie Nielsen deixando uma estátua excitada. Era apenas um motorista de caminhão perseguindo um cara que dirigia um carro. Nada tão distante assim da realidade.

De um lado, esse filme me deu a sensação de que qualquer merda poderia acontecer a qualquer momento, porque depois você descobre que as pessoas fora de um parâmetro de sanidade podem quebrar vidros de lojas quando o time de futebol perde o campeonato, ou te agredir com um taco de baseball dentro de uma livraria ou implodir um poste, sempre que quiserem.

Por um outro lado – o que prefiro me lembrar -, ‘Encurralado’ me garantiu aquela sensação de que você pode fazer o que quiser e alterar a realidade da forma que você bem entender, seja qual for a ocasião. E que não é uma placa de ‘não pise na grama’ que vai impedir seu picnic.

***

A parte boa de toda essa lorota é que o filme inteiro dublado está disponível no youtube:

‘O mundo é dos espertos’

Quando começo a tentar rever meu passado e descobrir como é que foi que eu consegui tamanho distanciamento com o mundo das pessoas comuns, eu me lembro dessa frase do título. Ouvir isso da minha mãe quando ela dizia que meu irmão era esperto e eu era errado por ficar quieto ou não responder, ou não agir, teve um peso quase absoluto no meu processo pessoal de misantropia assistida.

É que eu não conseguia entender como, para ela, o fato de alguém se dar bem sobre outra pessoa era importante para a vida. Mas não me entenda errado, não tem relação com as outras pessoas. Não estou dizendo que desde pequeno sou um humanista de sensibilidade ímpar, que dá a cara para bater e ama o próximo a valer (pega essa rima). Eu só não queria nada além das coisas do jeito certo. Mas eu tinha que ser esperto.

Sempre fui esse cara tímido e que, geralmente, as pessoas julgam saber mais, entender mais dos assuntos da vida e não vêem dificuldades de passar na frente ou pegar o lugar na fila. É possível que tudo isso seja verdade e que após todo esse processo de descobrimento psicológico o qual me enveredei umas semanas atrás, eu consiga descobrir alguma ambição pra chamar de minha. Isso se esse processo realmente tiver fim.

A grande verdade, camaradas, é que amadureci nesse ponto (só nesse ponto, Denise, eu sei). Entendi o que é uma pessoa esperta e de que formas ela pode agir para conseguir o que quer. Quando você entende algo por completo, você descobre de bônus que parte daquilo funciona pra você. Isso não significa usar das mesmas práticas de determinadas pessoas espertas na visão de praticidade e ligeireza da minha mãe. Mas conseguir um bom panorama de fora e dar a volta nesse processo de ser esperto, ou mesmo entender quando alguém tenta dar uma de sabichão pra cima de você, já me vale mais que o dobro.

Mártires muito loucos

Nunca entendi esse fenômeno social do rir pra não chorar. Aquele pessoal que está numa situação extrema e ainda assim está rindo. Como se fosse de alguma forma cômico, por exemplo, estar espremido dentro de um vagão de trem ou pendurado pra fora da porta do ônibus*, sabe? Já pensei nisso certa vez como algo que as pessoas faziam quando estavam acompanhadas, ou quando precisavam rir para sociabilizar (minha palavra do momento, desculpem) com os outros na mesma situação. Uma espécie de acordo coletivo no qual rindo, você fica absolutamente despido de qualquer problema momentâneo, que naquele exato instante é você segurando na porta do busão com uma mão, mantendo a mochila à frente da barriga e dando check-in na linha de ônibus (sério, existe) com a outra.

A visão de alguém inclinado ao ufanismo da auto-ajuda seria de que somos brasileiros, rimos da adversidade, fazemos piadas cara a cara com seja lá qual for a besta fera que estiver à nossa frente, aquela ideia de que somos brasileiros e podemos apanhar feito troxas que não desistimos nunca. Algum reaça enrustido cujo melhor amigo é o ar-condicionado da sua SUV, diria que a classe média curte um sofrimento e que a culpa é sempre nossa (deles?). A sorte é que no mundo em que vivo ninguém dá ouvido a reaças, nem cultua tanto assim as bandeiras.

Geralmente isso acontece em coletivos lotados, mas pode acontecer também na fila do mercado, quando o caixa trava na sua vez. Provavelmente minha geração fica mais puta da vida do que risonha às adversidades e começo então a supor que tudo possa ser algo que veio com o tempo, os últimos anos do século XX, com a transformação do brasileiro nesse mártir boa gente das pequenas problemáticas.

*Outra pergunta que sempre me fiz é se essa galera que fica pendurada na porta do ônibus realmente completa o processo de pagar o cobrador, atravessar a catraca e saltar pela porta de trás, porque, convenhamos, se chega o seu ponto e você não tem condição de atravessar todo o coletivo, você simplesmente desce, certo?