Notas da Mudança

Últimos dias no QG de produção web da Aldeia da Serra. Na sexta-feira estarei embarcando para um futuro inóspito do qual confesso estar num cagaço foda manter certo receio. A parte disso tudo, vou limpando os 13GB de música do computador daqui ao mesmo tempo que salvo toda minha vida corporativa num pendrive de 4GB que irá comigo para o headquarter da Vila Olímpia, de onde vou continuar os trabalhos (“os trabalhos”, Dona Ederlazil?).

Daí que tive que sair no almoço sozinho para ver pela última vez os lagos da Aldeia da Serra, os patos que atravessam juntos uma avenida que nunca soube o nome e as casas pouco modestas do lugar. Eu sei que “pela última vez” é só um drama corriqueiro e um refrão no NX Zero, mas ter a natureza aqui próxima todos os dias acostuma, sei que, uma hora ou outra, vai fazer falta.

Só para explicar o porque de estar no trabalho às 21h54 de quarta-feira, estou com dois cargos e tendo de zerar as pendências de um para poder pensar no outro, quer dizer…

E agora a gente fica aí esperando a sexta-feira e a cara de bosta que costumamos fazer nos primeiros dias em lugares quase totalmente desconhecidos.

Ser roubável

Eu criei uns tempos atrás uma medida social que define o quanto estou apresentável para o mundo, que se chama com “o fator roubável”. Quanto mais roubável eu estiver, mais bem apessoado estou para os olhos fortuitos da sociedade.

Não raro estou no shopping com a Denise e ela diz algo sobre como seria legal que eu me vestisse como aquele manequim da M. Officer quando eu respondo: “se eu me vestisse assim, até eu me roubaria”. De acordo com esse meu estudo (pff!) ser “roubável” é estar inserido no contexto, ao passo que ser “não roubável” é ser invisível, só outro pequeno ponto na multidão.

Há muito tempo trago comigo esse street knowledge, que me permite entender qual o nível em que fulano pode se considerar uma vítima de ladrões de relógio, de ocasião, sequestradores, golpistas etc. Em 2008 escrevi esse pequeno conto baseado numa história que o Wolvs me contou (sempre o Wolvs) e que, acredito, serviu de base para esse raciocínio provavelmente tão neurótico quanto o do casal mais sinistro que você já viu na sua vida.

A equação antes variava apenas de acordo com as roupas que você veste, mas outros fatores foram sendo incluídos com o tempo. Usar acessórios como iPod, ou o simples fato de ter um fone apregoado em seu ouvido já aumenta o coeficiente. Estar com o aparelho nas mãos, dependendo dos casos, dobra/triplica o número.

(nota: ouvir música em ambientes coletivos sem fone de ouvido acarreta sua imediata inclusão no grupo de infratores a quem esse post não se destina).

Ainda nas variáveis estão o carro que você dirige, os gadgets que você usa (OK, Macbooks são permitidos), as marcas que você veste, até as músicas que você ouve. Quanto mais holofotes em cima de você, mais riscos. Vale a lembrança de ‘mo money, mo problems’, do Notorious B.I.G. Por outro lado, quanto maior simplicidade, mais chances de ser apenas coadjuvante e passar batido, como diria Mano Brown em ‘Eu sou 157’ (how convenient?): ‘quem não é visto, não é lembrado’.

Para concluir, o fator roubável é só uma matemática mental boba que trabalha com todas essas contradições simples e citações de rappers. Você quer estar bonitão ou quer ser invisível? Como sempre, no final, você decide.

Living on the little edges

Enoch é um senhor de nome bílbico que tem um bar nas redondezas da casa dos meus pais, onde, merda, detesto dizer isso, ainda moro. O bar do Enoch tem uma mesa de sinuca, quatro freezeres e uma sala devidamente escondida para máquinas de caça-níquel. Possui uma clientela que gira em torno de tiozinhos desesperançosos pagando doses de Fogo Paulista com o dinheiro do INSS, traficantes à paisana (se você puder considerar “à paisana” um moleque de 19 anos de bermuda, sem camisa, usando corrente e relógio de ouro) e vez ou outra um pessoal descolado da vila que fica ouvindo aquele clássico do Pharoahe Monch no som do carro e relembrando bons tempos que viveram.

Aquém desse universo, Enoch e seus funcionários costumam ter táticas matreiras de expulsar seus clientes com civilidade, fingindo ao mesmo tempo que isso tudo é apenas parte do trabalho. Primeiro, eles param de vender fichas de bilhar à meia noite em ponto. Depois, cadeiras vazias dessas de metal começam a ser entrepostas sobre a mesa, de forma que uma batida de olho gera o raciocínio imediato de que o bar está encerrando suas atividades. Coidigênio, uma aula de semiótica, bem ali, no coração do comércio local.

Então, eles deixam de vender bebida. Se você quiser alguma especialidade como o notório Dreher com limão, eles vão te servir em copos plásticos e você deverá esperar um bocado, pois os três funcionários já estarão executando a terceira parte desse processo de exorcismo ao varrer a calçada, seu pé e o de quem mais estiver na equipe de resistência. Alguns muitos rebeldes teimam em permanecer no local e então segue-se um plano alternativo em que, após varrer a calçada, eles lavam tudo com água e sabão e o bar fica com apenas uma das portas entreabertas.

Se ainda assim sobrar alguém, apela-se para o lado afetivo. Neste momento, os três funcionários saem com cara de sofrimento e dizendo, po, “amanhã eu tenho prova da faculdade”, ou “minha mulher e minha filha, cara, minha mulher e minha filha” ou ainda clássico “eu também tenho uma vida fora daqui, cara”.

É uma maneira do Enoch dizer, adoro vocês, caros clientes, mas agora chega, vão procurar uma conveniência ou mercado 24 horas. Não é nada pessoal, mas eu preciso da minha liberdade pra poder estar aqui amanhã às 7h preparando o primeiro garrafão de café do dia, mas agora não dá mais, vão embora, eu imploro.

Um belo compêndio introdutório para dizer que (excetuando a relação dono x cliente) a sensação de viver com meus pais às vésperas dos 27 anos é exatamente a mesma de estar no bar do Enoch às 00h15. No final, as táticas para expulsar clientes indesejáveis e filhos beirando os trinta são as mesmas.

——

ps1.: Inspirado na terça-feira em que ninguém estava numas de conversar comigo em casa. Provavelmente com o pensamento de que eu estou me aproveitando da situação e qualquer outro gasto que esteja fora do programa Minha Casa, Minha Vida será o estopim que vai me manter morando lá durante a próxima década.


ps2: Não vou nem comentar o quanto a frase principal de Simon Says (a música do link) tem relação com este texto.

Droga, ‘N’

Era uma noite fria de outono, me encaminhava à casa de Leo Pollisson para encontrar amigos, tomar cerveja razoavelmente gelada e comer pizza de forno (e ouvir forró (?) Bem isso foi uma consequência que não vem ao caso aqui). Era noite. E era fria.

Vagava pelas ruas um tanto desertas de sábado à noite numa Brasilândia que começava a lembrar o velho oeste. Denise estava no carro comigo e conversávamos algo que não me lembro bem:

-…mas fulano é um músico fajuNto — eu disse.
-Fajunto? hahah, é FAJUTO — ela me corrigiu.
-Que fajuto, enlouqueceu? FaJUNTO! (a entonação era muito importante)
-Vamos tirar a dúvida quando chegar lá.

E aí, óbvio, todos me alopraram insistentemente endossados por meus 26 anos e meu diploma de jornalismo. desde então a palavra perdeu a graça, era “fajuto”, uma palavra toda nova, mas sem paixão, não era mais aquele fajunto moleque que eu aprendi errado na escola.

Essa é a história de uma garota nova que sem nada na cabeça quanto mais nessa cachola, anda dizendo por aí: “eu sou a tal” de como perdi a simpatia por uma palavra por causa de uma letra ‘N’.

Desktop



de Robson Assis
para Denise Bonfanti
22 de março de 2011, 19:30

“Ter sua foto na minha mesa é como ter você do meu lado o dia todo. não é pra lembrar de você. É pra saber que eu nunca vou te esquecer”

***

É um crescimento pessoal e tanto ter uma foto da namorada na sua mesa do trabalho. Diz muito sobre quem você é. Diz mais que essa frase piegas que você mandou por email. Diz muito sobre como você pensa sobre ela e a importância de toda essa história que vocês vão escrevendo. Não é o romance sereno e simples dos livros. E é bem melhor que seja assim.

Explica também uns sumiços no hall de amigos, explica porque você vai dormir cedo no sábado e começa a planejar com antecedência os feriados prolongados. E porque você prefere um jantar em casa e um clássico do cinema do que luzes coloridas frenéticas e gente bêbada te esbarrando.

Mas principalmente, explica que você rearranjou uns pauzinhos e destravou o firewall das suas ideologias insensatas pra colher um sorriso bonito que estará sempre lá quando você precisar.

she's the one

Foi ele quem começou

Briguinha do século é essa entre Casey Heines e Richard Gale. Mais comentada que os três minutos de Silva e Belfort, tomou proporções épicas após a entrevista de um e o direito de resposta do outro.

Quando dois moleques brigam e as mães ficam sabendo (“As mães”, neste contexto, a Internet) ninguém quer ter começado a briga. Pega mal, é anti-jogo, dá castigo. Mas os fatos estão aí, um magrelo partindo pra cima de um gordinho, incentivado por alunos que filmam a cena.

Enquanto decidimos quem está certo e quem está errado, o gordinho continua humilhado na escola e revidando às vezes. Você não pode fingir que não sabia que isso acontecia. Ninguém pode. É assim que seguimos garantindo mais discussões sem conclusão para cada disfunção social entre seres humanos que encontramos no Youtube.

Os homens mais perigosos da América

Daniel Ellsberg é o nome por trás do caso Pentagon Papers, que revelou ao mundo as mentiras desferidas durante a guerra do Vietnã. O documentário The Most Dangerous Man in America, de 2005, descreve com detalhes seus feitos para a história da democracia, às vezes em citações, às vezes em declarações humanas como essa:

“Em 4 de julho de 1946, viajávamos para Denver passando pelos milharais de Iowa. Um dia muito quente, ao meio dia, meu pai adormeceu ao volante e o carro saiu da estrada rumo a um canal, uma parede no lado da pista e arrancou o lado do carro onde estavam sentadas minha mãe e minha irmã e as matou. Eu estava do outro lado, atrás do motorista, tive uma concussão e quebrei um joelho, fiquei em coma por 36 horas e no hospital por cerca de três meses e meio.
Creio que isso provavelmente me deixou a impressão de que alguém que amava, como meu pai, ou que eu respeitava como autoridade podia dormir no volante. E tinha de ser observado, não porque fosse mau, mas porque estava desatento, talvez, quanto aos riscos.
11 meses antes quando eu tinha 14 anos, Hiroshima e Nagasaki tinham sido destruídas. Fiquei muito preocupado com essa sequência de fatos humanos. Pensei que era muito sinistra. O que eu via como um ato moral extremamente questionável do nosso presidente que eu admirava, Harry Truman, confundiu-se em minha cabeça com a falha do meu pai em ficar alerta e permitir que o carro matasse minha mãe e minha irmã”

Narrado por ele próprio, a história é contada através de fragmentos, como de costume, e remontada por meio de locuções épicas, declarações presidenciais, entrevistas, capas de jornais. Apresenta o personagem por completo, não apenas um revolucionário tentando quebrar as regras do mundo, mas sim um homem simples e sensato, em busca do que acha verdadeiro.

Um documentário sensacional, por apenas 700MB no Torrent mais perto de você.

A palavra é superfaturamento

Daí que a Maria Bethânia ganhou incentivo de 1,3 milhão pra abrir um blog de poesia. E então o debate na internet gira em torno de gente da minha geração considerando isso um puta desrespeito e gente da geração anterior para quem somos todos um bando de garotos restart, dizendo que ela merece tudo isso por conta dos serviços prestados (sic) ao país.

Os blogs dessa gente são ameaçadores e ofensivos como o Jorge Furtado ou até fazem uma boa tentativa de reflexão, como a reprodução no blog do Nassif, mas eles chegam ao mesmo denominador comum: o pensamento de que criar um blog, fazer cinema e criar uma revista podem ser colocados na mesma colcha de retalhos da lei Rouanet.

Bem, analisemos superficialmente, como nos é de praxe.

Se eu fosse um cineasta, poderia justificar meus gastos com equipamento, cenário, atores, staff, figurino, iluminação, edição, montagem, sem contar a pós produção. Para uma revista, contratar jornalistas, diagramadores, editores, revisores, até gente atabalhoada para distribuir no farol, se necessário.

Um bom dinheiro. Mesmo se você quiser fazer um documentário sobre a vida e obra da sua mãe, é algo complicado que demanda conhecimento de técnica, aprendizado e esforço. Talvez por isso a sétima arte ainda seja um campo um tanto distante da orkutização (uso a palavra como significado de popularização para o contexto dessa epifania).

Com um blog como o da Bethânia e como toda a estirpe dos nossos, você não precisa gastar nada além de sua própria cabeça e uma conta no Google. Uma filmadora simples com Full HD, vai, pra não deixar tudo meia boca, talvez um microfone e uma hospedagem mediana, pro caso de muitos acessos. Dá pra comprar óculos novos também, pra fazer umas de que está se importando com o visual e que já deixou os anos 80 pra trás.

E.MAIS.NADA.

Agora nego vem colocar tudo no mesmo balaio como se todos precisássemos de 1,3 mi acusando blogs de não se importarem em ganhar dinheiro com o MinC (logo os blogs) e vêm comparar uma musa da MPB (sério, não sei de onde tiro esses clichês, eles simplesmente aparecem) com um bando de gente querendo escrever literatura que se perderá com os anos e os acessos negados das contas inativas? Não, ninguém quer ser a Maria Bethânia e não tem a ver com moral ou bons costumes, basta fazer as contas e descobrir que tem gente fazendo isso há tanto tempo e com excelência como o Sindicato dos Escritores Baratos (o nome nunca pôde fazer tanto sentido) e os agora provocadores 365 poemas por 1 real. Coloque na lista também O Bule, literatura na contramão. E, como disse, refaça as contas.

Ninguém está dizendo que a Maria Bethânia quer ganhar dinheiro fácil, estamos apenas discordando desse pensamento que o Blog da Bethânia merece ser criado e gastar todo esse dinheiro destinado a projetos culturais por um bem maior da internet. Será criado por um retrocesso, como os túneis que Maluf construiu em São Paulo, me ajudem com a palavra, é quando se usa muito mais dinheiro do que o processo demanda… Esquece. Minha geração está realmente perdida.

Zeitgeist, março de 2011

As pequenas coisas, sabe. Quando li aquele Rousseau, ele falava sobre a sociedade que existia antes de existir o conceito de sociedade. E fiquei pensando no que poderia ter sido diferente. Pensando se havia alguma uma forma do mundo ser um lugar para todos, agora sem aquelas idéias velhas e igualitárias.

Claro que havia. Hoje, tudo o que resta são conceitos dizendo que você tem que lutar por seus direitos e sonhos, correr atrás do pote de ouro, ser feliz, ter sucesso. E no fim de tudo a gente se perde. Quando lembro daquele dia, penso em velhinhos morrendo em hospitais, o que deve passar na cabeça deles que viveram muito mais décadas que nós? Será que, no final de tudo, correr atrás do pote de ouro ou de uma vida sensacional e eufórica nos faz plenamente satisfeitos? Ou será que ter coisas pendentes a executar em vida é a maldição do ser humano?

Não sei exatamente quem foi o escritor que disse que a gente passa tanto tempo no esquema padrão de trabalho, diversão e compromissos sociais que a gente se esquece de tentar descobrir o que diabos a gente está fazendo aqui. A gente esquece de pensar. E lembro agora do que a Marília Coutinho falava na matéria da Trip sobre gente que vai para a academia e pendura o cérebro no vestiário antes de começar o treino. Isso vai muito mais além. Acredito que exista quem pendure o cérebro em casa e nunca o leve para passear. Gente que o exercita aos finais de semana e feriados. Gente que guarde no porão.

É inevitável perceber a contradição da evolução humana. Ao mesmo tempo que criamos carros, aviões, máquinas que nos ajudem a executar trabalhos com maior facilidade, criamos um sistema social em que as pessoas podem ter empregos e vidas inteiras destinadas a não exercitar o cérebro. Tudo foi transformado em máquina, numa negação de sentimentos e questionamentos, numa negação à vida.

Talvez a galera dos feudos não estivesse numas de ambição. Talvez estivesse tudo bem, o mundo era essa rede de colaboração e parceria, todo mundo com o sorriso do Netinho de Paula na cara. E então eles amadureceram a idéia depois que o primeiro canalha decidiu trocar sementes de feijão por trabalho camponês. E daí pra frente a descensão, a história, o horror.

Se isso não tivesse acontecido talvez fôssemos apenas seres vivos, mais parecidos com os animais, vivendo em vilarejos no meio da natureza. E não haveria toda essa catástrofe, nem todo esse desespero, nem todas essas contas do Bradesco em que você possa depositar dinheiro aos desabrigados. Não haveria desabrigados. E então poderíamos chamar o planeta de nosso lar e ter todo o tempo do mundo para manter nosso cérebro no lugar e funcionando, que é onde ele merece estar.

Ou talvez esse seja só mais um texto que toca diversas feridas expostas da nossa época, embora não chegue a conclusão alguma. =)

Quando crescer quero ser a Amazon

Recebi uma lista dessas com comentários de clientes da loja. O cara que mandou teve o inacreditável trabalho de separar os 3095 pareceres em níveis de sensibilidade que incluíam “atraso de entrega”, “mau atendimento”, “preço do frete” & shit. Aí, claro, os filtros que me chamaram atenção imediata eram “nunintendi” (hype doTeletube?) e “bobagens, desconsiderar”.

O filtro “nunintendi” trazia um texto sobre mensagens subliminares com o número da besta numa piscina infantil de 666 litros. Fair enough. Alguma falta de coerência e neurose religiosa pode acabar com a dignidade que resta às pessoas.

Mas era no filtro “bobagens” que estava o plot twist deste texto. O cliente falava sobre um conversor digital. Começou explicando que a imagem é realmente boa, apesar disso não caracterizar nenhum mérito, já que a ÚNICA função do aparelho era essa. E então ele diz que o conversor tem poucas facilidades, liga e desliga sozinho, esquenta muito, o teste de paciência que é usar o controle remoto etc. Críticas simples, inclusive bem escritas em detalhes. Se eu fosse comprar um conversor digital no site, gostaria de saber que tudo isso acontece com o aparelho. Mas, óbvio (nas empresas de e-commerce), emails como esse que denigrem a imagem do produto acabam sempre no limbo das memórias coletivas e back-ups de e-mail.

Uma das premissas de QUALQUER loja de e-commerce que abra suas portas é se parecer um pouco com a Amazon. Seja na qualidade dos textos ou apenas no botão de comprar com um clique só. O que ainda não foi descoberto é que a Amazon só é a primeira do mundo porque trata seus clientes como usuários de uma plataforma colaborativa de idéias e experiências em que se contribui criando reviews de produto por texto ou vídeo. Óbvio que tudo vai ser avaliado antes de ir pro site, mas se você der uma olhada na página do Kindle, por exemplo, vai ver que as pessoas falam abertamente sobre o produto, comparam, contradizem os textos publicitários, fazem do cu sanfona para contar sua história e fazem melhor para que ela apareça no site.

Esse é um problema cultural que envolve vários lados. Na Amazon, acima de tudo, o review de um cliente é avaliado pelos outros clientes, por isso chamei de “plataforma colaborativa”. É esse o mote que pode fazer o cara escrever algo sensato e deixar de lado frases soltas pejorativas que não acrescentem em nada. Isso permite que o cliente se esforce em escrever sua história da melhor maneira possível mesmo que denuncie a porcaria que é o tal aparelho.

Ainda assim, as grandes lojas de e-commerce nacionais possuem uma uma cultura de mercado que trata o consumidor como um núcleo aberto de onde se pode extrair dinheiro e não como a parte mais importante do processo de venda. Se o cliente achar o produto terrível e fake, ele é que não deveria ter comprado em primeiro lugar. Sabe, ignóbil assim? É jogar nas costas do público toda a deficiência dos aparelhos e fazer o cara se cansar em tentativas telefônicas para o atendimento.

Isso não é algo tão novo de se pensar ou tão complicado assim, o grande problema é que essas críticas, por mais construtivas que sejam só aparecem no site quando são positivas para a marca ou para a loja. Na cabeça desses mestres do varejo virtual, o cliente precisa acessar e ver apenas o que é bom no produto, se limitando a vasculhar o Reclame Aqui ou alguns fóruns confusos (no caso de aparelhos eletrônicos). As críticas ele guarda pra enfiar no rabo para as redes sociais, blogs e divulgação negativa boca a boca. Que é exatamente nosso limbo natural onde se perde todo esse conteúdo colaborativo que a Amazon tanto valoriza.

<-update em tempo-> Claro que depois de algumas trocas de e-mails, incentivadas pela chefe, o post rendeu mais do que eu mesmo poderia esperar. Rendeu debate, idéias e novas descobertas. Soube que o cara que mandou esse email está mais empenhado do que eu imaginava e que as idéias por aqui andam batendo muito. =)

É pouca zuera?

Eu não assisto Big Brother. Algumas decisões a gente toma partido por ideologia, outras por decência, outras por pânico. Essa é por indiferença. Eu nunca vou entender o motivo de boa parte da população se interessar tanto por relações pessoais de estranhos (e, a propósito, que tiozinho estranho aquele afeminado tentando provar que é o ser vivo mais feliz do universo a cada trinta segundos. Não sei o nome, supere).

Toda essa introdução desnecessária pra dizer que ontem eu assisti um trecho do programa e resetei minha senha do Gifsoup só pra deixar registrado esse momento mágico do entretenimento brasileiro (acima).

Eu não acredito mais no mundo

imagem via André Dahmer

Podem me chamar de superficial ou de rebelde sem causa, ou de jovem Che Guevara, mas o que venho aqui dizer considero extremamente sério, principalmente por não ter solução: O capitalismo fodeu com o planeta. E não encontro no vernáculo forma mais clara de dizer isso.

Ora, não fossem as buscas e competições por empregos decentes, os filmes, a expectativa inalcançável de sucesso, a corrida dos ratos e a busca por essa vida média e fácil não teríamos tanta gente com empregos desnecessários por aí e, por conseguinte, não teríamos um mundo tão amplamente deteriorado.

É preciso que você tenha um emprego que as pessoas comentem, porque as pessoas querem saber o seu cargo antes de qualquer outra coisa. Não interessa se você está estudando a cura do câncer ou formas de eliminar o lixo do Rio Pinheiros. É uma cultura e pressão social que leva milhares de pessoas se tornarem jornalistas, publicitários, designers e marketeiros com o sonho de que suas vidas se transformem em documentários no Vimeo (ps.: estou criticando aqui, basicamente, toda a minha lista de amigos e conhecidos).

Quando eu era pequeno gostava de desmontar e montar despertadores, relógios, televisores, seja lá o que desse para abrir com algumas chaves, eu gostava de saber como era por dentro. Não fossem meus pais seres humanos médios ou de pouco tato, talvez hoje eu estivesse em algum simpósio falando sobre os avanços da rede neural robótica. Mas não, sou um jornalista, porque era o lugar mais fácil que poderia ter me encaixado. Uma faculdade média, quatro anos entediantes, sucessivos empregos entediantes enquanto o mundo e a evolução se fodem.

Essa é a primeira parte.

Em segundo plano vem a oferta e a procura. O negócio que fez as duas versões do iPad. As quatro versões do iPhone. Eles não podem ajudar. Empresas precisam crescer, tecnologias precisam avançar então “vamos lançar o primeiro sem webcam mesmo sabendo que podemos lançar com vídeo conferência e muito mais utilidades só pra ver o resultado”. A terceira versão vem com slot pra cartão de memória, quem sabe.

Mas este é apenas um exemplo ridículo sobre algo maior e extremamente mais ridículo. A constatação de que é o dinheiro que move o planeta. O trabalho não é mais uma causa, o trabalho precisa existir para mover qualquer instituição sem utilidade. Para ilustrar melhor e parar por aqui, digamos que as pessoas querem empregos mais fáceis ainda que não se sintam úteis para o contexto geral de suas vidas. Isso quer dizer que, se elas puderem viver uma vida decente, com três banhos por dia, um cachorro e uma TV a cabo, elas vão fazer isso mesmo que sejam contratadas para produzir conteúdo na internet servir cafés. É mais fácil não se envolver com a construção de um planeta melhor.

E então, a última parte.

Ser uma pessoa incrível e fazer uma descoberta incrível não tem mais tanta utilidade no mundo em que vivemos (ps.: me considero jornalista mesmo escrevendo jargões como “no mundo em que vivemos”). Se um cara descobre “a segunda roda”, por exemplo, ou uma forma dos carros voarem, ele vai fazer daquilo o big shot da sua vida. Não tem porque compartilhar seus feitos e ajudar a melhorar a vida na Terra se você pode guardar e montar toda uma estratégia empresarial para se tornar milionário e vizinho do P. Diddy.

Nada mais se usa em prol da humanidade. É tudo mercado. As pessoas vendem suas idéias, seu tempo, sua vida, só pra conseguirem um canto onde morar, um carro para buscar os filhos na escola e uma boa aposentadoria aos 65. Fico imaginando como seria caso no modelo de mundo que temos hoje, ainda não houvéssemos descoberto a roda (é, eu sei). Nego trabalhando pra conseguir comprar um carro com roda, nego maluco pra mostrar pros amigos seu novo carro com roda.

O ser humano deixou de se importar com o mundo para se importar com sua própria vida e, como temos visto nos noticiários, o planeta não anda muito contente.

Como disse no começo do texto, o Capitalismo não vai sair de moda e esse é o mundo que vamos ver acabar, as utopias de que um dia tudo vai mudar estão se reduzindo a pensamentos solitários em mesas de boteco. Então supere, it’s not gonna happen, kids.

[antes que me xinguem de moralista, eu sei que faço parte de toda essa cadeia de gente que escolhe o mais fácil e não participa da construção do mundo. Por isso o título distópico do post]

As parcelas da Montanha Mágica

Alô Unidos dos maiores de 25 anos que ainda moram com os pais, canta, caaaaanta!

Uma das piores escolhas que poderia ter tomado aos 24 anos foi ter comprado um carro*. Sem moralismo ecológico pedante porque, como todos devem saber, os ciclistas são os novos vegetarianos. Afinal, o carro me facilita a vida de ter que trabalhar em outro município fora de São Paulo. Numa planilha de prós e contras, viver sua vida (namorada e trabalho, respectivamente) distante em 30 km do seu epicentro natural vence qualquer crossover envolvendo sustentabilidade ou sedentarismo.

E por que a pior decisão foi essa? Porque, bem, digamos que nunca fui um consumista inveterado nem um economista regrado, portanto passava meses sem economizar um tostão da minha voz do meu dinheiro. Coisa de chegar no final do mês e torrar o superavit salarial só pra não ver ele virar o mês. Parecido com o que a gente faz ligando para qualquer pessoa da agenda só porque os créditos vão expirar no final do dia. Talvez isso seja fruto de um sério transtorno psicológico. Palpite.

Então, logo, comprar um carro exigia um carnê com mais páginas que A Montanha Mágica. E exigia fidelidade Sam Gamgi style. Exigia, acima de tudo, um desprendimento incrível para acreditar na idéia dos meus pais de que os 60 meses do carnê passam sem a gente perceber. So, I tell you what, eles não passam. Passam rápido como os dois dias que você tem que trabalhar depois do carnaval. Como disse, não passam.

A conta que eu não fiz aos 24 anos é que em 60 meses eu estaria mais perto dos 30 e com uma dívida que não me permitiria respirar direito antes de dormir. Esse despreparo fez com que nomes como IPVA, seguro obrigatório e apólice não fossem mais só palavras escritas nas correspondências que eu pegava debaixo da porta junto com a Showbizz (lembram da revista?).

Passados três anos, cá estou eu tendo que diariamente voltar para a casa dos meus pais. Um lugar que já não tem mais a minha cara, já não tem mais a minha contribuição. Não por falta de amor, ou por dificuldades de convívio, afinal, a única coisa que me esforço atualmente é fazer com que eles não me sintam por ali. É tudo o que posso fazer até terminar o livro de Tommas Mann (carnê) sem um cérebro afetado por distúrbios e dramas financeiros muito traumáticos.

*Nunca falei isso pra ele, as consequências seriam catastróficas. A propósito, sim, eu converso com meu carro diariamente.

Carnaval on demand

Tiramos o carnaval para fazer o que não temos tempo durante dias normais, como ficar juntos, por exemplo. Nem que seja apenas por pizzas de forno, um monte de filmes western e episódios de How I met Your Mother que desajustam tudo o que vínhamos pensando sobre nossa juventude. Só queríamos uma cama pra deitar e ver o tempo passar.

Pela primeira vez na vida não assisti absolutamente nada sobre o carnaval e neste clima de assistir o que se quer por demanda, acabamos exigindo não ver nada na Globo (apesar dos quatro minutos vendo um filme do Didi que devo apagar da memória).

Não previmos que as tias dela voltassem antes do ‘combinado’ e acabamos surpreendidos com sofás nos lugares errados, mesinhas dentro do quarto, dois colchões bem no meio da sala e minha TV em cima da mesa de jantar. Momento awkward em vários níveis, eu sei.

E hoje, terça-feira de carnaval, chove lá fora o que extermina nossos planos de ir pro parque passar a tarde lendo e recriando nosso mundo todo a parte da necessidade de diversão extrema.

Esse foi, sem dúvida, meu carnaval mais tranquilo em anos. Todo esse silêncio e distanciamento fomos nós que escolhemos também. É como um final de temporada (e aqui você insere o comentário mental sobre o fato de eu estar vendo séries demais), estar longe de uns amigos que vivem experiências parecidas em outros lugares olhando a mesma lua que você e acreditar no que vem pela frente enquanto a câmera se afasta e eu recoloco o cabelo dela atrás da orelha.

Roll Credits.


Sufjan Stevens, To be alone with you

Roteiros sem finalidade

Eu e meu amigo Wolvs passamos dias pensando em histórias que dariam bons filmes, HQs ou vídeos de Youtube. Roteiros simples, sem pretensão “mas vai que um dia cola”, sempre acabamos com frases como essa. Como ele sempre faz paródias ou histórias absurdas como Zumbis mexicanos que trabalham com vampiros assassinos do Texas, quase nunca escrevo. Nem as minhas, que geralmente tratam da gente matando um monte de criuaturas exóticas. Mas não dessa vez. Essa história abaixo daria um bom comercial sobre o meio ambiente, para onde vai nosso lixo ou whatever. Não que faça todo o sentido do universo, mas vale a pena guardar, sabe como é.

***

Cena 1, um desenho numa mesa / Afasta a tela – Um hipster em sua mesa, desenhando o que deve parecer com um projeto de balão infantil. Cheio de intervenções, linhas coloridas, arte moderna, abstrata. Ele vai até a cozinha e pega café, senta no sofá e liga Projected Twin, Post Secret. Acende um cigarro, começa a lembrar da infância. lembra de como gostava de balões felizes, com carinhas ou palhacinhos. Lembra de seu sorriso ao pegar o balão e olhar frente a frente.

Volta pra mesa, deixa de lado a folha com o desenho abstrato e desenha uma carinha feliz, bonita, sorridente. E sorri.

***

Na fábrica que distribui os balões, ele chega atrasado, com muitas pastas, se desculpando como se o emprego dependesse disso. Chega a tempo de ouvir uma piada constragedora do chefe, que sequer lembra que ele está atrasado. Começa a mostrar os protótipos dos balões, que variam entre desenhos abstratos com nuvens, paisagens ou pessoas, “bonito para hipsters, sem graça para crianças”, diz alguém que incentiva outras reclamações. Com a reunião quase descartada, ele pega os desenhos felizes da noite passada. Todo mundo gosta. O chefe escolhe quatro, manda pra fábrica.

Cena final deste bloco, Chefe pega o balão com a cara feliz, que o personagem desenhou primeiro e olha com ar de reconhecimento.

***

Cena da fábrica, operários silenciosos e barulho de máquinas, música lenta ao fundo, alguma gritaria para contrastar, a imagem fixa nas esteiras onde vão passando os balões montados e na linha de produção masiva. Termina o bloco com os pacotes de carinhas felizes do balão entrando em um caminhão de entrega.

***

Uma menina caminha na rua com a mãe, felizes, passam em frente a uma banquinha de balões, na rua. O vendedor está enchendo os balões que acabara de receber. A menina fica encantada com a carinha, sorri, puxa a mãe para olhar, insiste, persiste e a mãe compra o balão. Passa o dia com ele, amarra ele na cama e dorme, acorda no outro dia e amarra ele no braço. Sua mãe diz que tem que mandar embora, senão ele murcha, prometendo comprar outro em breve. A menina aceita. As duas saem de casa, a menina olha pra mãe e, sorrindo, solta o balão.

Cena do ponto de vista do balão subindo, se afastando da mãe e da filha, de mãos dadas, felizes.

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Cena do balão continuando a subir e chegando às nuvens. Parece o fim do vídeo.

O balão começa a murchar e cair, vai em outra direção, volta, passa e acaba caindo sobre um prédio, já esvaziado. Chove forte. a água derruba o balão que vai se espreitando no prédio até o chão e então até a guia e então para o esgoto. O balão segue o fluxo em meio ao lixo e acaba num rio parado e completamente sujo, onde fica grudado junto à uma latinha amassada.

Um catador com um carrinho de mão e uma lança, passa, fura a lata e a joga dentro do carrinho, junto com o balão. Leva para casa o carrinho, deixa no pequeno ‘quintal em frente ao seu barraco. O balão descansa. Cenas da família rezando antes de jantar os restos de comida que estão sobre a mesa.

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Madrugada, barulho de grilos, cachorros latindo e passos. Um nóia entra no barraco, rouba o carrinho com as latas. Joga furioso o balão no chão, que já amassado e quase sem cor, desce até a rua, passando por cantos, becos, ruazinhas, fica enroscado em portas, postes, até chegar à Avenida. Já é de manhã, o balão agora parado sem a ajuda do vento, parece descansar. Um menino passa e chuta, quase o rasga. Ele volta a voar pela rua. As pessoas passando. O desenhista passa por ele e sorri um tanto transtornado pela cena. O balão continua…

Cena final, balão carregado pelo vento, passando atrás da banquinha de balões onde outra menina compra o mesmo balão.

Um amigo me disse no sábado

Conversávamos sobre como ele usava drogas e bebia sem critério e agora que ele decidiu mudar de vida, ele precisa focar no presente pra transformar o futuro, mas além disso tudo, ele precisa mandar o passado para o quinto dos infernos:

“Não importa o que eu fiz no passado, mesmo que eu tenha baseado minha vida inteira nisso. Eu só vejo gente por aí reclamando do passado, ou lembrando do passado como a melhor época de suas vidas. Mas essas pessoas não vivem o presente e não focam o futuro. Eu decidi parar, sabe, decidi mudar minha vida toda. Eu escolhi isso. Então esse sou eu e o que passou, acabou, morreu. Já não me interessa como eu cheguei nesse ponto. O negócio é daqui pra frente. As coisas que eu terei de fazer pra mudar minha vida vão ser feitas daqui pra frente, entende? O passado não vai me ajudar em nada, só vai dificultar as coisas, então eu não preciso de testes, eu só preciso de foco”

Eu editei umas gírias na citação para um melhor entendimento. Parece até um clichê motivacional óbvio, mas quando você vê a parada acontecer é bem mais emocionante do que aparenta.