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A palavra é superfaturamento

Daí que a Maria Bethânia ganhou incentivo de 1,3 milhão pra abrir um blog de poesia. E então o debate na internet gira em torno de gente da minha geração considerando isso um puta desrespeito e gente da geração anterior para quem somos todos um bando de garotos restart, dizendo que ela merece tudo isso por conta dos serviços prestados (sic) ao país.

Os blogs dessa gente são ameaçadores e ofensivos como o Jorge Furtado ou até fazem uma boa tentativa de reflexão, como a reprodução no blog do Nassif, mas eles chegam ao mesmo denominador comum: o pensamento de que criar um blog, fazer cinema e criar uma revista podem ser colocados na mesma colcha de retalhos da lei Rouanet.

Bem, analisemos superficialmente, como nos é de praxe.

Se eu fosse um cineasta, poderia justificar meus gastos com equipamento, cenário, atores, staff, figurino, iluminação, edição, montagem, sem contar a pós produção. Para uma revista, contratar jornalistas, diagramadores, editores, revisores, até gente atabalhoada para distribuir no farol, se necessário.

Um bom dinheiro. Mesmo se você quiser fazer um documentário sobre a vida e obra da sua mãe, é algo complicado que demanda conhecimento de técnica, aprendizado e esforço. Talvez por isso a sétima arte ainda seja um campo um tanto distante da orkutização (uso a palavra como significado de popularização para o contexto dessa epifania).

Com um blog como o da Bethânia e como toda a estirpe dos nossos, você não precisa gastar nada além de sua própria cabeça e uma conta no Google. Uma filmadora simples com Full HD, vai, pra não deixar tudo meia boca, talvez um microfone e uma hospedagem mediana, pro caso de muitos acessos. Dá pra comprar óculos novos também, pra fazer umas de que está se importando com o visual e que já deixou os anos 80 pra trás.

E.MAIS.NADA.

Agora nego vem colocar tudo no mesmo balaio como se todos precisássemos de 1,3 mi acusando blogs de não se importarem em ganhar dinheiro com o MinC (logo os blogs) e vêm comparar uma musa da MPB (sério, não sei de onde tiro esses clichês, eles simplesmente aparecem) com um bando de gente querendo escrever literatura que se perderá com os anos e os acessos negados das contas inativas? Não, ninguém quer ser a Maria Bethânia e não tem a ver com moral ou bons costumes, basta fazer as contas e descobrir que tem gente fazendo isso há tanto tempo e com excelência como o Sindicato dos Escritores Baratos (o nome nunca pôde fazer tanto sentido) e os agora provocadores 365 poemas por 1 real. Coloque na lista também O Bule, literatura na contramão. E, como disse, refaça as contas.

Ninguém está dizendo que a Maria Bethânia quer ganhar dinheiro fácil, estamos apenas discordando desse pensamento que o Blog da Bethânia merece ser criado e gastar todo esse dinheiro destinado a projetos culturais por um bem maior da internet. Será criado por um retrocesso, como os túneis que Maluf construiu em São Paulo, me ajudem com a palavra, é quando se usa muito mais dinheiro do que o processo demanda… Esquece. Minha geração está realmente perdida.