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Zeitgeist, março de 2011

As pequenas coisas, sabe. Quando li aquele Rousseau, ele falava sobre a sociedade que existia antes de existir o conceito de sociedade. E fiquei pensando no que poderia ter sido diferente. Pensando se havia alguma uma forma do mundo ser um lugar para todos, agora sem aquelas idéias velhas e igualitárias.

Claro que havia. Hoje, tudo o que resta são conceitos dizendo que você tem que lutar por seus direitos e sonhos, correr atrás do pote de ouro, ser feliz, ter sucesso. E no fim de tudo a gente se perde. Quando lembro daquele dia, penso em velhinhos morrendo em hospitais, o que deve passar na cabeça deles que viveram muito mais décadas que nós? Será que, no final de tudo, correr atrás do pote de ouro ou de uma vida sensacional e eufórica nos faz plenamente satisfeitos? Ou será que ter coisas pendentes a executar em vida é a maldição do ser humano?

Não sei exatamente quem foi o escritor que disse que a gente passa tanto tempo no esquema padrão de trabalho, diversão e compromissos sociais que a gente se esquece de tentar descobrir o que diabos a gente está fazendo aqui. A gente esquece de pensar. E lembro agora do que a Marília Coutinho falava na matéria da Trip sobre gente que vai para a academia e pendura o cérebro no vestiário antes de começar o treino. Isso vai muito mais além. Acredito que exista quem pendure o cérebro em casa e nunca o leve para passear. Gente que o exercita aos finais de semana e feriados. Gente que guarde no porão.

É inevitável perceber a contradição da evolução humana. Ao mesmo tempo que criamos carros, aviões, máquinas que nos ajudem a executar trabalhos com maior facilidade, criamos um sistema social em que as pessoas podem ter empregos e vidas inteiras destinadas a não exercitar o cérebro. Tudo foi transformado em máquina, numa negação de sentimentos e questionamentos, numa negação à vida.

Talvez a galera dos feudos não estivesse numas de ambição. Talvez estivesse tudo bem, o mundo era essa rede de colaboração e parceria, todo mundo com o sorriso do Netinho de Paula na cara. E então eles amadureceram a idéia depois que o primeiro canalha decidiu trocar sementes de feijão por trabalho camponês. E daí pra frente a descensão, a história, o horror.

Se isso não tivesse acontecido talvez fôssemos apenas seres vivos, mais parecidos com os animais, vivendo em vilarejos no meio da natureza. E não haveria toda essa catástrofe, nem todo esse desespero, nem todas essas contas do Bradesco em que você possa depositar dinheiro aos desabrigados. Não haveria desabrigados. E então poderíamos chamar o planeta de nosso lar e ter todo o tempo do mundo para manter nosso cérebro no lugar e funcionando, que é onde ele merece estar.

Ou talvez esse seja só mais um texto que toca diversas feridas expostas da nossa época, embora não chegue a conclusão alguma. =)

  1. Aline, muito obrigado pela visita e pela reflexão (é sensacional quando isso acontece, mesmo). Teu blog em breve estará na seleta lista de boas leituras! =)

  2. Adorei o texto! Infelizmente tenho uma visão de que desde do feudo já se tinha ambições, negação aos sentimentos e questionamentos… A diferença é que em cada época tivemos uma proporção diferente… O que parece é que os “defeitos” da sociedade como desigualdade social, homofobia e etc. aumentam cada vez que o tempo passa, ao contrário do que a mídia e o Estado “tentam” e dizem que “promovem. Nossa sociedade é hipócrita e começa pelo fato de sermos humanos negando nossos instintos animais… Seu texto é ótimo! Poderia ficar dias aqui tentando comentá-lo, questionando minha visão, a sua e talvez não chegar a lugar algum… Mas ele desperta no leitor ao que se propõe… colocar o cérebro pra passear… Parabéns!

  3. Clap! Clap! Clap!

    E quem precisa de conclusões com um texto desse. O que vale é o questionamento. Enquanto questionamos estamos vivos, nos debatendo como peixes fora d’água. Buscando o sentido vital de tudo isso.

    “a gente passa tanto tempo no esquema padrão de trabalho, diversão e compromissos sociais que a gente se esquece de tentar descobrir o que diabos a gente está fazendo aqui. A gente esquece de pensar.”

    MAGISTRAL!

  4. Nao sei se voce se lembra desta tarde, mas pra mim é inesquecível. O dia em que eu, voce o Gabriel e o Diogo discutiamos sobre o Rousseau e o filme Zeitgeist. Fui pra casa ver o filme e ler sobre os assuntos relacionados.
    A evolução necessária trazendo consequencias desnecessárias. Pelo menos é assim que eu vejo.
    E seu texto me remete a um outro texto que uma vez reproduzi no meu blog. http://agoodvibrations.blogspot.com/2009/11/o-paradoxo-de-nosso-tempo-george-carlin.html
    Post sensacional, entrou no meu “Was no Jive Top 5”. Mas tambem me pergunto: Se temos a clareza de saber que é o jeito errado de se viver, porque não conseguimos mudar?

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