No more Hawaii Five-0

O amigo André Maleronka me parece um grande fã de The Wire. Eu, com a primeira temporada quase enferrujando em casa, estava sem vontade de assistir e quase deletava antes de levantar a bola uma Twitter se alguém havia visto, perguntando, basicamente, se a tal série não se passava de outro CSI, porque essa bolha de séries policiais parece não enxergar limites.

Então ele me disse pra ver que era sensacional, mas só me convenceu mesmo depois de mandar essa entrevista da revista Vice com David Simon, o criador da série.

E abaixo, a parte mais sensacional, embora desse pra quotar a entrevista toda:

Me parece que as pessoas querem ser especiais, únicas, e o lance shakespeariano discursa isso.
Isso! Vamos celebrar a mim e a maravilha que sou. Não é sobre a sociedade. Os gregos, especialmente os atenienses, eram consumidos por questões sobre o homem e o estado. Eles deram cicuta para Sócrates porque as sua ideias eram antiéticas em relação às noções deles de estado. Olha, isso, de qualquer maneira, é totalitarismo mas para ele, ele era cínico em relação à democracia e um iconoclasta em relação aos princípios democráticos. Isso atingiu o âmago do pensamento grego. Foi algo do tipo, “Não mexa com isso”. Agora, o que foi exaltado e o que consome o entretenimento norte-americano é o indivíduo sendo maior do que a instituição. Quantas vezes iremos assistir a uma história onde alguém…

Se rebela contrariando as expectativas?
“Você não pode fazer aquilo.” “Sim, eu posso.” “Não, você não pode.” “Eu vou te mostrar.” E no final ele é reconhecido só como um rebelde de bom coração com a justiça ao seu lado, e eventualmente a cidade percebe que dançar não é tão ruim. Eu posso inventar milhões deles. Essa é a história que queremos que seja contada sem parar, e sabe por quê? Porque em nossos corações o que nós sabemos sobre o século XXI é que a cada dia vamos valer cada vez menos, não mais e mais.

Valer menos enquanto povo, você quer dizer?
Enquanto seres humanos. Alguns de nós vai ganhar mais dinheiro e valerá mais. Existem pessoas destinadas à celebridade, riqueza ou poder, mas o norte-americano comum, a pessoa comum no mundo, no planeta Terra, vale cada vez menos. Esse é o triunfo do capital, e aí que está o problema. Você olha para isso e pensa a que ponto chegamos, e é para lá que estamos indo, e é tipo, “Pode me contar outra história de ninar sobre como as pessoas são especiais e como cada um de nós é importante? Você pode me contar uma merda dessas?”

Day 22 – a song that you listen to when you’re sad

É, eu tinha esquecido o meme, depois de tantas reviravoltas por aqui. A sequência é essa, a música triste. Eu jurei que não ia repetir, mas fiquei com a preguiça extrema de ver todos os dias. Então é isso, “que diferença o dia é igual pra mim”, esse 4 do Los Hermanos poderia se perder no espaço e ser o maior compêndio de sentimentos humanos que já exisitu.


Os Pássaros, Los Hermanos

Day 21 – a song that you listen to when you’re happy

Eu lembro do clipe, sempre, e de umas tardes na rua, todo mundo de skate errando os flips, aquela inocência, o Caio tentando fingir que acertava a bateria da introdução, minha primeira banda, tanta coisa. Mas não é tudo sobre nossas memórias. Sempre que estou feliz eu quero ouvir o Blink pra lembrar que a vida é engraçada, dramática e nostálgica, nas suas devidas proporções.


Blink 182, First Date

Análise de mídias sociais, 2007

Lembro que, numa entrevista desencanada numa dessas empresas que você vai conhecer imaginando o que passa na cabeça das pessoas quando te vêem entrar de calça larga e camisa básica, eu entrava numa sala pequena, parecida com aquelas redações antigas de filmes, cheias de calhamaços de papel, mesas decoradas com fotos de crianças e provavelmente alguma pistola ilegal escondida numa gaveta trancada entre antidepressivos e cartas do Serasa amassadas.

O lugar era legal, mas eu pensava ‘conhvenhamos, amigo, olha pro cara que veio de terno riscado e pasta na mão duelar uma vaga com você nessa assessoria, não viaja’, outro daqueles pensamentos desnecessários em que a gente se põe pra baixo e exalta qualquer fulano sem atentar pra besteira em vários níveis que é ir de terno numa entrevista (Alô, amigo Xuxa, se um dia ler isso, essa é pra você!).

E aí que a moça com marcas de expressão que só 20 anos de carreira em relações públicas podem oferecer decidiu nos colocar lado a lado e discursava algo sobre sermos recentes formandos de universidades pagas quando começou a perguntar onde tínhamos estudado, o que estávamos lendo (na época eu sempre respondia ‘O gato preto e outras histórias’, com um desinteresse padrão para entrevistas, sim, podem me julgar). A pergunta principal era sobre quais sites a gente passava mais tempo na internet. Imaginei que fosse uma dessas pegadinhas. Uma dessas que você não precisa responder. Coisa invasiva. Tive de responder Twitter, Orkut e uns blogs e pensei ‘ohh, come on, GTFO!’ tentando acreditar que o carinha do terno realmente acessava o eBay com frequência.

Em seguida, uma prova. Cinco questões sobre assessoria de imprensa, cinco sobre CONHECIMENTOS EM INTERNET (Ahh, 2007, essa semana de 22 das mídias sociais). Daí que, respondi três perguntas de assessoria do mesmo jeito que enrolei a professora de psicologia por um ano inteiro. Você escreve o suficiente pra ela achar que você sabe o resto da resposta sem precisar ler, taí, revelado o segredo. E só fiz o que realmente sabia, a parte sobre internet respondendo perguntas genéricas sobre o futuro das redes sociais. ¬¬

Terminamos juntos, praticamente, eu e o Mr. Pink, o Godfella barato. Ela pediu que eu descesse para o hall que depois me chamaria. De volta à confortável poltrona, já ciente que não teria chances, só percebi que havia algo errado quando pensei em pegar a IstoÉ Dinheiro pra dar uma folheada. Não, eu não devia estar ali, nunca gostei do trabalho de assessoria de imprensa, embora saiba respeitar quem tem culhão suficiente pra puxar o saco de clientes 24/7. E então levantei, dei três passos, saí do tapete, quando ela desceu se despedindo do cara do terno.

E eu, com aquela feição de ‘OK, vamos terminar logo com isso’ não mudei de expressão quando ela pediu pra conversar no sofá da recepção (a rima aqui não foi intencional). Por onde iríamos começar? Talvez dizendo que eu não era o perfil da empresa? Quem sabe mostrando os pontos positivos do cara do terno e as respostas erradas que dei na prova. Tudo desnecessário, ok, vou prestar atenção em você:

– hm.. vamos lá, você nunca trabalhou com assessoria mesmo, né? – Pois é, não… – tentei emendar mas… – Sua prova, é, eu percebi.
– É, eu nunca me interessei muito, acho que por causa de ter que tratar com clientes e eu prefiro… – ao que ela me interrompe (essa Norma é a versão real da personagem da novela, sério)
– Mas sua prova de internet, cara! – ela batia na folha com a intensidade que um nóia bateria um saquinho cheio de cápsulas de cocaína
– er.. sério?
– Sim, não precisávamos de um guru de assessoria, mas sim de um cara que entenda esses nichos, essas redes, como usar as ferramentas, um cara dessa galera.
– er… bom, eu poderia até dizer que… – a pompa começava a dar sinais
– 350 (isso, trezentos e cinquenta) reais por mês.
– OK, segunda-feira estou aí.

Faz parte do meu show

Houve uma época em que eu queria ser sozinho. Ter meu apartamento alugado, perto do centro, provavelmente com uma boa vista pra nove de julho, usar araras ao invés de armários, ter o Playstation instalado permanente no rack da sala, aquele tapete de banheiro do Wu-Tang clan, o o espelho da revista Time. Afinal, quem mais gostaria de ficar em casa lendo, ou no escuro à luz de um abajur ouvindo Paralamas do Sucesso? Quem gostaria de debater as notícias mais rasas e frias do jornal com a profundidade de várias ciências sociais que eu debatia sozinho? Não havia nada desse mundo que me movesse da minha visão de futuro que era eu falando sozinho sentado numa escrivaninha à meia luz batendo o cigarro num cinzeiro do Malvados.

E aí, houve a Denise, o plot twist da história da minha vida.

Eu poderia dizer que as coisas mudaram e que agora eu sei o que é certo e o que é errado na vida, essa coisa de namorado adestrado. Mas não funciona assim. Na verdade eu tenho sorte de ter encontrado aquela pessoa que aceite essa maluquice de curte debater comigo todos esses pontos profundos em notícias cruas, enquanto ouvimos Lanterna dos Afogados na luz baixa da sala. E não consigo ver mais sentido na arara porque os vestidos dela talvez empoeirassem e a integridade física dos vestidos dela talvez façam tanta diferença quanto meus livros ou meu DVD do Clube da Luta. Acho que naquela época eu precisava entender que ela não estragaria nada dos meus planos, ela entraria neles junto comigo. Talvez acrescentasse alguma coisa e tentasse me dizer que aquilo do cigarro deixaria de fazer sentido em alguns anos. Naquela época que eu projetava o futuro do meu apartamento com vista pra Nove de Julho eu achei que outra pessoa atrapalharia todos os meus planos, hoje eu digo que não consigo pensar mais os planos sem colocar ela no meio.

É como um desses romances bonitinhos, inocentes e simples das músicas do Cazuza que a gente acha bobo e dedicado e afetado demais, e que na verdade é tudo isso mesmo.

Day 20 – a song that you listen to when you’re angry

Prefiro beber com raiva do que triste. Quando você bebe triste existe uma intenção boba de se autodestruir, como se resolvesse alguma coisa. O máximo que você consegue no fim da noite é ver que sua edição de As flores do mal está irreversivelmente manchada de vinho barato e que essa inconsciência toda quebrou uma taça e deixou o chão fedendo. Já beber com raiva faz aquilo dá uma sensação de liberdade. Mas veja bem, apenas a sensação. Te abre caminhos, faz você conhecer novas pessoas, ouvir conversas as quais não daria a mínima se estivesse consciente. Tudo para esquecer a raiva de uma semana pesada no trabalho, ou para alimentá-la e vagar nômade em trezentos lugares inapropriados durante a madrugada de sábado.


Matanza, O Chamado do bar

Day 19 – a song from your favorite album

Lembro do dia que pedi aos meus pais a permissão para comprar um disco de rap que tinha palavrão nas letras. E de ganhar os 20 reais do meu pai, ir até a loja perto de casa, comprar o ‘Sobrevivendo no Inferno’, dos Racionais MCs por R$ 17,99. Voltar quase tremendo de ansiedade, colocar no aparelho de som. Ouvir o disco inteiro, parte com minha mãe e meu irmão do lado (talvez meu irmão mal entendesse o que queriam dizer alguns dos palavrões).

E tinha essa música 11, que eu considero épica. É como o tema principal da minha ligação com o meu bairro. Talvez não só a minha, mas a de um monte de gente. Eu lembro de um disco que tinha uma vinheta de um cara falando algo do tipo ‘quando o Racionais lançou Pânico na zona sul foi como se eles tivessem me mandado uma carta me chamando pra guerra’. Posso dizer que essa música e todo o disco me fizeram enxergar de outra maneira o mundo que eu vivia, tudo o que exisita ao meu redor, de uma hora para outra começava a ter mais significado do que antes. Era como se me tirassem de frente de um televisor CRT de 14″ e me levassem pro IMAX.


Racionais, Fórmula Mágica da Paz

Writer’s block? Chama o síndico

Fim do Fantástico, todo mundo havia ido dormir. Na clara tranquilidade do domingo à noite, no prólogo da madrugada, eu ouço os carros bem longe, penso num post pro blog e a idéia não vem de jeito nenhum. É quase meia noite e eu vergonhosamente fechando os editores de texto (porque sinto informar, mas amassar papéis e jogar num cesto de lixo superlotado é uma imagem ultrapassada e inverossímil de um escritor, forte abs).

Daí o Caio chega aqui no copndomínio e faz um barulho infernal ouvindo um pagode qualquer no carro. Geral dá aquela acordada de leve e volta a dormir se perguntando quem é esse maluco, xingando baixo até embalar novamente no sono mais curto da semana.

Passam.3.minutos. Eu fazia uma listinha de músicas no notebook, um desses memes do Facebook que a gente faz mas não tem coragem de postar. Com o som da TV no mute, ouvia minha lista quando o síndico começa uma gritaria (só se ouve a voz dele) no hall principal do prédio: ‘Quem vocês pensam que são?’, ‘pessoal vai trabalhar amanhã’, ‘todo mundo dormindo’, ‘é multa, vou multar’, ‘tira a mão de mim que eu não sou moleque’, frases corriqueiras nesse tipo de situação.

Quando acontece uma parada dessas, cada apartamento se transforma numa área VIP do nosso Teatro homemade, cuja peça em cartaz é sempre uma preciosidade. Dessa vez era o síndico, o Caio e sua família, alguns amigos, uma voz que dizia ‘sai daí Caio’ vinda de qualquer lugar do céu (Deus? Quem sabe não desse um bom roteiro) e o cara que cantarolava numa janela escura ‘umnovezeeero, to ligando, uuuu-uuu, uuuumnooovezeeero’, quase uma vuvuzela em forma de gente.

Ele fazia parte de uma platéia admirável. Sério, admirável. Porque nego não consegue somente assistir da janela, a interatividade está em alta, tão aí as redes sociais que não me deixam mentir (oiq?). Os atentos espectadores começaram a surgir em vultos nas janelas sob os gritos de ‘multa mesmo!’ e ‘parabéns ao nosso síndico’ seguidos de palmas lancinantes para o convívio social.

Eu só aguardava sair um tiro, ou qualquer coisa assim, os gritos eram histéricos e estavam numa crescente. Mas isso durou até ouvir a voz do Caio e do Nando, quando percebi que era só o síndico levando suas frustrações madrugada adentro para a casa de todo esse público lindo. A briga acabou do mesmo jeito que começou, sem sentido. De um segundo para o outro as vozes cessaram, é como se o dono do teatro tivesse desligado os microfones alegando que a locação do espaço era só até 00h30.

Mas pelo menos eu consegui meu post. Um abraço a todos os envolvidos.

Day 18 – a song that you wish you heard on the radio

O Hardneja Sertacore eu conheci num programa de TV (eu ainda não consigo expor publicamente o fato de ter assistido Altas Horas algumas vezes). É uma banda que faz covers de música sertaneja, as mais conhecidas, numa versão hardcore. Sim, mais ou menos o que o Ramones fez com Do you wanna dance, do The Mammas & the Pappas. Bem, eles me ganharam e eu que não fiz três gols (mais uma referência a um programa da Globo e eu deleto esse blog, sério) gostaria muito que vocês tocassem essa.


Hardneja Sertacore, Pare!

Call me Suzy

Não sei nem por onde começar. Talvez se eu tivesse respondido que sou só um redator que sabe o básico de linguagem HTML e tableless, só teria piorado as coisas, criado uns hard feelings na conversa ‘e aí, você está capacitado para fazer isso ou é difícil demais pra você?’. Mas eu também coloco dois ‘só’ na mesma sentença sem pensar em variáveis, sério, qual o meu problema?

Sabe aquela vergonha pública que você mais teme por estar num lugar em que todas as pessoas parecem saber mais do que você sobre seu próprio trabalho? Não chega a ser um pesadelo, mas o clima mantém aquela tensão de quando será que eles vão te humilhar publicamente. Não considero o jeito certo me perguntar no meio de todas as pessoas do trabalho se eu estou apto a fazer um trabalho pelo qual não fui contratado, o que é de menos, comparado ao fato de que eu não faço idéia de por onde começar. No caminho de volta à minha mesa pensei numa infinita sorte de respostas que poderia ter dito, mas que só agravariam a situação, como o exemplo que dei no acima.

Como disse, voltei para a mesa, restaurei a aba do programa, segurei a respiração por dois segundos e soltei meneando a cabeça, como quem se perguntasse o que diabos estaria fazendo ali tentando restaurar o Dreamweaver e editando textos simples e bobos, enchendo de tags, fazendo tudo que de melhor você pode como um redator, como alguém cuja função principal é escrever (não que a gente só trabalhe exatamente com aquilo pelo qual somos contratados, eu também sei disso). E foi então que comecei a cogitar o sintoma da perseguição quando vi os outros computadores e percebi gente no Facebook, mostrando os virais do dia, trocando fotos não seguras pra ver no trabalho pelo MSN.

Eu devia ter notado antes. E deveria dar exemplos mais claros aqui, mas bem, o que interessa é o desabafo. Eu tinha a melhor chefe que eu poderia ter tido (que ainda é minha chefe, o que torna tudo isso ainda mais difícil de explicar), que me avisou sobre o ninho de cobras ao qual eu poderia me enfiar antes que qualquer coisa acontecesse, que me avisou sobre tudo o que estava acontecendo com a sabedoria de quem gosta de você de verdade, de quem te quer longe de enrascadas, esse tipo de coisas.

Talvez o bando de fulanos, como eu mesmo fiz neste texto, esteja se perguntando o que eu estou fazendo ali. Eu aprendo algo novo todos os dias, eu começo a entender como peças são produzidas desde o início, desde a idéia inicial, como eles ‘startam’, diria o Jofa. Que eu não sou suficientemente bom para esse trabalho já tentaram demonstrar a todos, não num mural de metas, mas em cada pequeno ‘ah, se você não sabe então tudo bem, senta lá’. Vamos assim até descobrirem que podem contratar quatro caras pra cuidar dos links patrocinados e deixar de lado isso aí que você faz nas páginas de produto’.

Enquanto isso eu trabalho com os números, com as metas e com a qualidade e sei que já não vale a pena raciocinar aqui se eu devo ou não me posicionar quanto a isso como fiz nos happy hours com a Chiba e o Guto naquele boteco do Jaguaré. Para a melhor chefe que já tive quero somente dar a certeza de orgulho, de crescimento pessoal, como eu daria a minha família. Quero fazer o certo e ir pelos caminhos certos, porque você pode ser menino o quanto for, mas você faz 27 anos sabendo ao menos as pessoas que realmente querem seu bem. Mas para eles, que meu trabalho represente apenas uma coleção de conhecimento que eu possa adquirir e que de quebra pague minhas contas no final do mês até quando puder ser assim. E que eu consiga fazer o melhor que eu puder, demosntrar amor, como as putas. Porque a gente consegue restaurar tudo, mas a dignidade tende a ficar bloqueada na barra de tarefas.

***

Desculpem a vibe da amargura. Sabe quando seu computador fica no caminho de todas as pessoas e elas vêem você usando a internet, comentam entre si e te jogam um trabalho do qual você não faz a menor idéia de como fazer, mas no pensamento deles você pode tentar, já que não está fazendo nada? Bem, foi relativamente isso que aconteceu.

Day 17 – a song that you hear often on the radio

A coisa mais impossível da minha vida atual é ouvir rádio. A não ser algumas transmissões de futebol com o Nilson César ou algumas poucas vezes com a Denise, indo pra praia, quando eu esqueço de selecionar bem os discos do pendrive.

Aí, toda aquela patacoada de sempre, remix de remixes, mashup de mashupes (Chupa, Equador!) e uma infinidade de locutores com vozes felizes, bem, vocês sabem. E procuro entender como a Denise tem tanto tempo para conhecer as letras de todas as músicas que tocam no dial.

E tem essa música do David Guetta e da Rihanna (isso eu só descobri agora, sério) que toca às vezes e para a qual eu reinventei o refrão para “desta vida bem vivida, desta vida quem não gosta… Who’s that chick, who’s that chick?”, Cognatas style. Não perguntem.


David Guetta & Rihanna, Who’s that chick?

Day 16 – a song that you used to love but now hate

Passei dias pensando nessa. E então cheguei a conclusão do quanto é difícil odiar uma música que alguma vez você já amou. É como trazer de volta uma época e, por mais que você não sinta o mesmo que te fez ficar olhando pro teto feito besta anos atrás, mesmo aquela lembrança pueril carrega em si alguma ternura.

Então deixo aqui uma música da qual já comecei a ouvir bem adolescente e que só não ouço mais todo dia. De uma época em que eu mataria qualquer viajante do tempo dizendo que anos mais tarde o Chorão escreveria que “azul é a cor da parede da casa de Deus”.


Charlie Brown Jr, Essa é por quem ficou pra trás
(clique no botão do youtube no player pra ouvir)

Pra provar todo esse mimimi da ternura daquilo que você ouvia 10 anos atrás, procurando alguma do Charlie Brown Jr. pra “dar o exemplo”, acabei criando uma lista de reprodução chamada ‘Charlie Brown Jr, Essencial’, me processem.

Day 15 – a song that describes you

Eu relutei muito antes de conhecer Los Hermanos. É uma parada dessas que tem data certa pra acontecer. Se eu tivesse ouvido seis anos atrás, a banda não teria o mesmo impacto, o mesmo sentido, sabe? Conheço há bem pouco tempo e desde então somos amigos de infância. Lembro de ter ouvido ‘De onde vem a calma’ repetidas vezes até me convencer de que realmente era outra pessoa que havia escrito aquilo e não uma versão minha num dia triste.

‘É o mundo que anda hostil, o mundo todo é hostil’


De onde vem a calma, Los Hermanos

Pensando no superlativo

A primeira vez que fui trabalhar numa empresa, estava com frio na barriga sobre o que deveria dizer, ou me portar, os sorrisos certos, conhecer pessoas, manter alguns laços iniciais de amizade para serem lembrados depois com alguma ternura. E fui trabalhar. Lembro que tive de ler um manual de vendas de sei lá, 350 páginas, cheio de ilustrações e com textos corridos muito bobos. Terminei antes do almoço e tive que reler. Terminei às três horas e depois repassei todos os pontos até o horário de ir embora.

Cheguei em casa bem feliz, meus pais me receberam com alegria, eu contei meu dia, falei sobre as pessoas, sobre como a gerente parecia rica, mas também parecia uma pessoa muito simples. Jantei e fui dormir. O primeiro pensamento do dia seguinte foi: “caramba, não tinha pensado que seria todo dia”.

***

Marquei mentalmente São Bernardo do Campo como a cidade do Subway. Não sei se foi alguma sorte do meu caminho, mas em meia hora dentro da cidade eu vi dois Subways de rua e uma placa gigante sobre outro.

Peguei um freela itinerante de final de semana que se resume em digitar contratos imobiliários com atenção naqueles stands de venda com apartamentos decorados. Essa é a parte que eles avisaram durante o treinamento. Não disseram sobre uma pequena sala cheia de gente rindo alto, sobre trabalhar em meia baia com sinal de rede oscilante, numa cadeira de plástico dessas de boteco, mas principalmente, não falaram sobre o gordinho espaçoso que sentaria ao meu lado com um arsenal de piadas batidas sobre o Rogério Ceni que ele repetia em voz alta para cada um que entrava. Calcule.

Dá pra levar, é de vez em quando e rola um pagamento honesto. Era isso ou montar uma lojinha online aqui no blog (nota mental 1: a idéia não foi de todo descartada) pra vender meus CDs, DVDs e artigos inutilizados do armário (nota mental 2: não os livros, nunca os livros).

Eu queria poder dizer que foi legal estar trabalhando no sábado, afinal, eu procurava uma parada exatamente como essa pra recobrar a ordem financeira da minha conta bancária. Mas a gente sempre acaba achando um jeito de pensar na vida de um jeito superlativo que acaba ferrando tudo. Quero dizer que, estamos ali trabalhando amarradões, quando entre um contrato e outro eu penso que não me via aos 27 anos de idade tendo que fazer um bico desse pra que as coisas pudessem voltar ao normal. As coisas já eram normais, fui eu que deixei elas se esculhambarem ladeira abaixo. Mesmo assim eu descobri que não consigo lidar muito bem com o fato de ter outra obrigação da qual dependo dessa forma.

Claro que é exagerar um pouco as coisas, mas é como pensei outro dia, enquanto esperava a marmita esquentar e vi alguns amigos voltando do restaurante. De todos os futuros que previ, em nenhum deles estava ainda estar morando com meus pais e tendo que me esforçar tanto pra terminar de pagar um carro; nem que eu estaria feliz com a possibilidade de escrever textos de 7000 caracteres por R$ 30,00 (é, eu já desisti da idéia), nem que fosse esperar a marmita esquentar enquanto lia alguma coisa na cozinha.

Um trabalho pode ser algo que você adore fazer, mas nem sempre vai ser assim. E digo que se amanhã você não está muito afim, isso quer dizer que você não adora seu trabalho tanto assim, certo? Você pode não reclamar das suas tarefas e correr pra que tudo dê certo no final do dia, mas nada disso caracteriza adoração. E talvez por isso nunca estaremos satisfeitos com nada do que vier. Mesmo um alto salário, uma dose exagerada de independência ou uma cartela de bons benefícios podem te fazer olhar à sua volta e pensar sua vida no superlativo.