in deus, jives

O Guina não tinha dó

Estava eu na tentativa árdua de terminar um dos livros prateleira de promoções que tenho em casa. Difícil, sobre o pós 11 de setembro, carregado pra ler no trem, mas bem, faltavam 20 páginas.

– Opa, tudo bom? Desculpa eu atrapalhar o começo da sua leitura aí
– Não, que isso, diz aí.
– [tímido, olhando pros lados, procurando palavras] Cara, não sei se, sei lá, você pode me achar um louco, cara, mas eu tenho uma coisa pra te falar.

EU.TENHO.UMA.COISA.PRA.TE.FALAR, sério, foi a primeira boa olhada que dei na direção do sujeito, porque se você quer me dizer algo, você não diz que tem que dizer, você só diz (fica difícil até de explicar, percebe?). E aí pensei que poderia estar sonhando, e o cara se transformaria num Balrog de asas que devoraria minha cabeça, ou diria que foi um grande fã da minha extinta banda, o que é sempre provável de alguém dizer (quando estou sonhando).

– Não sei se, sei lá, às vezes é possível, alguém já pode ter falado com você, cara, mas sei lá, preciso te falar, JESUS TE AMA.
– Da hora, cara.

Foi a única frase que consegui pronunciar durante a viagem. É, para adiantar, fomos juntos até a estação Vila Olimpia, onde desço diariamente. E não consegui terminar de ler o livro.

Aliás, ‘da hora, cara’ não foi a única frase que disse. Eu tenho uma teoria sobre manter conversas apenas fingindo que você está participando. Quando é uma pessoa normal, as frases variam entre ‘é foda’, ‘caraca, pois é’ e ‘putz, mas meu’. Quando a pessoa tem algum problema com palavrões (é o que se espera de um cristão embestado), as frases tendem a ser menos gritantes ficando entre ‘da hora, cara’, ‘nossa, que coisa, né’ e ‘pode crer, é verdade’. Você precisa variar essas frases sempre para não mostrar sinais de indiferença. Funciona em grande parte dos casos, usem.

– Você pode não acreditar, sei lá a sua história, mas Jesus tá te chamando de volta, cara, se Ele te mostrou pra mim e eu tô aqui falando com você, pode acreditar nisso.
– Pode crer, é verdade, cara.

A ‘conversa’ era ele falando sobre as graças de Jesus nos seus 18 anos de vida (vou deixar de fora desta análise a idade dele, sério). E já que estávamos ali e eu teria de manter uma conversa com o moleque, descobri que ele é estagiário de um banco legal, não imagina que vai crescer e tem umas ideias bem fracas sobre o mundo em que ele vive. Tirando a parte de trabalhar num banco legal, tudo isso poderia ter sido usado pra me definir aos 18 anos também, fato este que criou um vínculo entre nós. Quem sabe em nove anos ele não estaria ali pegando o metrô com a mesma birra social/misantropia que eu tenho hoje e teria de ouvir outro jovem falando na cabeça dele.

E tem isso de eu não conseguir deixar essa galera falando sozinha. Fiquei tentando descobrir onde foi que esse moleque ouviu que parar alguém na rua é saudável e vai trazer a pessoa de volta ao caminho de Jesus e como foi que entraram na mente dele. Sempre que desviávamos muito ele mudava de assunto dizendo pra aparecer na igreja se eu pudesse (o que foi devidamente descartado com uma historieta simples). Ele conseguiu um dos meus e-mails spam-friendly nesse convite.

Depois de descer na estação e considerar que o moleque estava de boa fé, era relativamente gente fina de se conversar, mesmo sendo o tipo de gente que volta qualquer conversa para Jesus (nunca Deus, reflita) eu lembrei o nome da igreja que ele tinha comentado e percebi que ela fica em frente ao meu condomínio e recebe semanalmente o testemunho do Guina (é, aquele Guina), recuperado das drogas, do crime e das mãos do diabo, segundo os cartazes.

A única coisa que tenho contra igrejas é o fato deles te prenderem numa bolha mais do que a sociedade pode fazer. Por exemplo, ler de manhã pra mim é tão importante quanto evangelizar é importante pra ele. Digo isso, porque se eu fosse lá na igreja dele tentar mostrar como O Guia do Mochileiro das Galáxias é legal de ler, ele não ia gostar.

Pareço um moleque de 18 anos escrevendo desse jeito.

Não tenho absolutamente nada contra igrejas, mas tenho algo contra a ideia de gente tentando colocar na minha cabeça o que é certo e o que é errado. Se possivelmente existe um Deus e Ele quis que um moleque de coração bom me notasse na rua e me dissesse umas palavras legais de manhã, legal, fico feliz, fico até mais esperançoso pelo futuro e tudo mais.

No fim das contas gostei do moleque, mesmo acreditando que ele é um Jimmy Bolha evangélico e tal. Não vou aparecer na igreja dele, não vou responder e-mails dele, embora talvez leia um ou outro ‘pps’, na amizade. Quem sabe ele não me convence e ‘aí o Guina dê mó ponto’.

  1. Hahaha, sensacional, man! Histórias pitorescas a caminho do trabalho. Sempre bons textos e idéias novas de assuntos antigos. Na minha rua tem a Igreja da Restauração da Filadélfia. Sonho com o dia que Rocky Balboa entre com seu roupão Preto/Amarelo, no canto esquerdo, pesando 91kg e grite em alto em bom som seu testemunho ferrenho: – Yo, Adrian! I did it!
    Palavra da salvação!

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