Colaborar, não competir

O fulano de tal que costumava redigir os textos deste blog está participando de um livro colaborativo pela DVS Editora e acaba de postar a terceira parte da história (e começou a escrever em terceira pessoa o que só corrobora a tese de que ele está enlouquecendo aos poucos).

[Para contextualizar, o personagem é um brasileiro morando em Portugal e está voltando ao Brasil na tentativa de recuperar uma herança deixada pelo seu tio, cuja cláusula única é casar-se com uma mulher católica. Quem quiser ler as primeiras partes, estão aqui nas veias abertas do facebook]

No caminho para o aeroporto encontro Rafaela, aquele amor perdido que surge numa dessas noites perdidas em que você pouco se reconhece ao olhar no espelho daquela matinê do aniversário do seu primo. Aquele amor que ainda com todos os pontos contra passa dois anos tentando fazer você entender que ternos risca de giz e o foursquare não valem mais a pena. 

Trazia o melhor de si naquele vestido alaranjado e cheio de estampas ridículas, pensei que talvez ela soubesse de minha partida e fosse tentar algo novo, uma ultrarrápida escapada no banheiro público da praça central ou um apelo dramático que venceria qualquer premiação de performance em reatar relacionamentos – caso existisse uma premiação babaca dessas. 

Olhou pra mim e disse ‘oi’, seguindo em frente sem parar. Como se houvesse visto um vizinho distante ou um estagiário temporário de um ex-emprego. E, bem, eu era o estagiário – Ou o ex-emprego, dependendo do seu ponto de vista. 

Um silêncio ensurdecedor se fez presente. Minha cabeça não estava preparada para o descaso, logo agora que preciso de alguém para preencher este vazio que existe em mim, digo, em minha conta bancária etc. “Dois anos juntos e ela nunca usou o maldito vestido laranja”, foi o primeiro pensamento após todo esse hiato mental – coisa de três ou quatro segundos, chutando bastante alto. 

Aquele vestido laranja dizia algo além de marcas voluptuosas no corpo da moça, obviamente. Dizia quem eu era anos atrás quando entrei naquela loja de departamento a procura do primeiro presente de aniversário de namoro e de como foi sentir-se parte distante de si mesmo, de encarar aquela visão de mundo parcial e desconexa, enfrentar a cada dia um novo porém, não só pela garota, mas porque poxa, a vida parecia mais promissora antes dela e você ainda ficava afim de fazer check-in no foursquare e ganhar uma badge constrangedora, entende? E de repente se via abandonar toda sua história ao parcelar no crédito aquele pequeno e atual sonho de outrém. 

No minuto inteiro em que passei olhando pedaços da cidade pela janela do avião ainda parado, percebi que Rafaela era o ícone maior das coisas que eu deixava pra trás, as certezas que foram vencidas pelo tempo. No momento daquele ‘oi’ sem grande atenção, Rafaela deixara de existir, Portugal deixara de existir. Naquele instante eu era apenas o Brasil, a grana do tio, minhas notificações no celular e um senhor obeso no banco ao lado que certamente deveria ter comprado um assento extra.

O maluco do ponto de ônibus

Um cara simples e exímio desconhecedor de moda, usa calças sujas e camisas velhas por padrão. Está todos os dias sentado no mesmo ponto em que costumo tomar meu ônibus a caminho do trabalho, sempre com um skate no colo e um sorriso. Parece frase construída para dizer o que cara é uma boa pessoa, mas não: ele está todos os dias com um notável sorriso no rosto.

Das primeiras vezes que passei pelo sujeito imaginei que estivesse ouvindo rádio, ou uma dessas bandas engraçadas ou áudios de stand-up comedy (ou horário político ~aqueles). Fui longe demais pra só depois perceber que ele não costumava usar fones de ouvido.

Não quero começar com o moralismo do “nós vivemos num mundo em que”, mas o sorriso do cara tem um caráter político e provocador muito significativo. Não existe lugar para nego estar mais de cara fechada quanto num ponto de ônibus em horário de pico. Onde todo mundo está ligando para o seu chefe dizendo que o coletivo atrasou. Um lugar onde as pessoas semi choram por entenderem de certa forma que o tempo de suas vidas não lhes pertence (e elas esquecem assim que chega o ônibus delas).

E lá está nosso herói, caminhando displiscente na plataforma, sozinho com o skate na mão e um sorriso tímido em contraste com a aparência de quase mendigo que, por um deslize do azar, acabou dando certo na vida. Com a leveza de quem possivelmente não precisa trabalhar, mas este é só meu pensamento errado de novo. Não, ele não fica rindo aleatoriamente ou da cara de pessoas que passam. Ele sorri. E isso é mais provocador que muita coisa.

Sorri de cada um nós, do povo correndo pra chegar, apertando dentro do coletivo, do tio que vende balas, da miséria humana, da pequeneza deste minúsculo ponto de luz do universo onde estão nossas vidas, nossos sonhos e tudo aquilo que criamos com a nossa mente. Ou lembrando de alguma pessoa, ou rindo do que pode encontrar durante seu dia, da beleza imensurável de estar ou permanecer vivo.

No fundo ele deve estar bem louco, isso sim. Mas ainda acho que vale embelezar o real.

#soudaepoca

Já tive um email hiphop_rbs@bol, daqueles que você ainda tinha que limitar a quantidade de mensagens na caixa de entrada pra não receber a cobrança vexatória do servidor dizendo que você está atingindo sua cota e que poderia deixar de receber emails novos caso alguma atitude não fosse tomada. Fazendo um paralelo com a vida adulta é praticamente o mesmo trabalho do serviço de proteção ao crédito.
Daí o gmail veio para, acima de tudo nos ensinar que aquelas mensagens simples e sem anexos pesavam muitas vezes menos de 1kb e que, disponibilizando uns GB a mais talvez ninguém mais precisasse deletar qualquer coisa.
O que, obviamente, vai da sua inclinação pessoal.
Da minha, vocês sabem, o passado é um top1 do disk mtv de 98, você até lembra com algum constrangimento ou não, mas sabe hoje em dia não faz o menor sentido.
Ela era pra mim uma conversa boa no msn. Minha ligação com o mundo no qual as pessoas não apenas trabalham e carregam suas vidas na coxa. Que me chamava pro Indie hip hop e me contava como estavam os roles punks dos amigos. Aquela conversa que sem perceber ultrapassa horas e só termina quando alguém precisa sair do trabalho (sempre eu) ou pra estudar/dar aula (sempre ela).
E os chats se amontoaram na inbox do gmail que, como se não bastasse, também armazena as conversas do gtalk. Como da vez que M. vendeu um ingresso sobrando do SWU pra ela ou quando lamentávamos/exaltávamos a vida (às vezes ao mesmo tempo, sério, impressionante). O que minha inbox conta é o que ela representa pra mim. Da amizade de 2009 ao carinho e planos de 2012. Uma história de amor, de aventura e de magia contada em 223 conversas.
Lógico eu que nunca pensei em um dia encontrar alguém que pudesse desvendar pelo que exatamente minha alma se move. Logo eu que sempre adorei os escritores solitários e detestáveis imaginando um dia ser um deles. Logo eu que sempre achei a felicidade limitante me peguei chorando no carro ouvindo uma música do hateen que peguei do computador dela. Logo eu que nunca sinceramente havia sentido a falta de alguém.
Assim o gmail se transmutou neste espelho da consciência.
A melhor parte é que o primeiro comentário dela ao ler esse texto vai ser: Peraí, como assim você chorou ouvindo hateen mano?

Em falta: profissionais de redes

Essa é rápida (porque tá todo mundo dizendo que eu abandonei isso aqui etc)

Daí que tem um vizinho imbecil  alguém super legal lá no prédio com um wi-fi aberto, obviamente utilizado por nós, os vizinhos chatos, que ainda não conseguimos contratar um serviço de internet decente etc.

Muitas vezes funciona, algumas vezes não. Provavelmente com uma rede há muito tempo desprotegida, essa pessoa acostumou-se a desligar o aparelho para ninguém roubar a conexão ENQUANTO ELA NÃO USA, o que faz todo o sentido mesmo, parabéns.

Estou fazendo um estudo comportamental apurado sobre o dono desse roteador baseado em algo que vem acontecendo com frequência:

1. Eu chego às 22h, ligo o notebook, lá está a rede abertinha e conectada (já deixei memorizada para conexão automática como se não bastasse a mordomia de não pagar pela internet).

2. 15 minutos depois, enquanto faço a comida, a rede está desconectada.

3. Após jantar, descansar e desistir, vou pro quarto, desligo as luzes da casa, fecho a janela e tranco a porta.

4. 5 minutos depois, a rede volta a funcionar.

quer dizer

ESSA PESSOA ESTÁ VIVENDO EM FUNÇÃO DE LIGAR/DESLIGAR O ROTEADOR NO MOMENTO EM QUE EU ESTOU EM CASA/ACORDADO.

Nada mais justo.

Viver e crer

“Se dou um passo à frente já estou em outro lugar
Não preciso de suas muletas pois os pés eu vou usar
É ter autonomia pra guiar, 
Olhar pra qualquer lado e ter o direito de me esborrachar”Viver by Deadfish on Grooveshark

Abro a porta do apartamento e ligo as luzes e a televisão pra curar uma solidão quase bonita e ter a sensação de que a casa está completa, mesmo quando estou sozinho. Tomo coragem para arrumar outra das malas da mudança e desisto por ainda não ter exatamente um quarto definitivo, móveis suficientes e aquela arara que a Chiba vai me doar quando fizer a mudança com o Guilherme. Acabam os horários de barulho no condomínio, aqui as pessoas parecem tão mais frias e eficazes no quesito não aparecer ou conversar ou cumprimentar. Aqui as pessoas são a multidão silenciosa, restrita e fria de São Paulo. Cara, o silêncio desse lugar é europeu (não conheço a europa e estou me baseando no que ouvi falar mesmo, chupa jornalismo). A galera não parece feliz com o lugar, com a vida, ou com um monte de festas que esses dois do 112 tão patrocinando nas últimas semanas.

Sim, estou morando com meu irmão há duas semanas, relativamente perto da casa dos pais, mas com uma independência definitivamente necessária para ambas as partes. E demora até você desistir daquele happy hour pra comprar mantimentos, ou o gás, ou trocar sua guitarra por uma geladeira (sério, Amaury, obrigado). Demora pra perceber que, seja lá o que for que você queira fazer, você vai conseguir de uma forma ou de outra. E não, você não leu errado, tomamos essa chamda na xinxa da foto pela administração por conta da festinha aos amigos que temos em comum (não todos os 135, obviamente).

Posso estar bem enganado e, em alguns meses, me ferrar, cair em mais dívidas, não ter pra onde correr ou voltar pra casa dos pais, o que não é bem uma opção sensata. De qualquer forma, mais do que esse tempo em silêncio, essa casa ecoando as teclas em que escrevo esse texto meia boca, esse local de reunir amigos e influenciar pessoas, eu estou aqui pela necessidade que tenho de “olhar pra qualquer lado e ter o  direito de me esborrachar”.

E não há nada que faça a vida valer tanto a pena.

A cada dia

A cada dia mais endividado, a cada dia mais ligações de cobrança, a cada dia mais trampos que não quero terminar e mais horas que não gostaria de perder. A cada dia morre em mim uma esperança e a cada dia nasce em mim um ponto de luz. A cada dia o passado fica mais mitológico e a cada dia o presente corre em minhas veias e me faz viver. A cada dia eu tento descobrir quem sou, a cada dia lembro um pouco do que fui. A cada dia me ajeito mais prolixo e menos detestável. A cada dia descubro como fazer as pessoas conversarem sem sequer precisar de um assunto. A cada dia me escondo em uma taverna do subconsciente e a cada dia que permaneço nela busco algo de novo pra me manter vivo. A cada dia que me perco nos olhos dela acredito mais em algo que seja divino e tenha me trazido tanta felicidade. A cada dia que passa eu olho pra trás balançando a cabeça sem raiva. A cada dia que envelheço escrevo linhas mais tristes e muito mais próximas. A cada dia eu ganho amigos, eu comparo teorias e escolho o que fazer da minha vida. A cada dia tento ser menos pré-vestibulando e mais humano. A cada dia eu choro por um mundo que se dependesse apenas de mim não seria tão medíocre. Ou choro porque seria ainda mais. A cada dia eu me perco pelas coisas da vida e a cada dia eu volto pra casa. É de cada dia meu amor e minha febre. Foi a cada dia que resolvi dizer a mim mesmo ante o espelho: deste dia em diante, te dedico cada um destes dias.

Retrato de um sujeito cansado

Uma corrente de bem estar, enxurradas de sorte do dia, gratuitas palavras de afeto direcionadas a ninguém em especial, enquanto você atrasa seus planos, comete erros bobos em planilhas que mensuram dados que nunca fazem a menor diferença. Você só cansou de ouvir gente resolvendo problemas que não lhe dizem respeito ou para os quais você não dá a mínima. Este é o retrato de um sujeito cansado e com um monte de projetos pendurados no varal da espera, que a gente só corre pra tirar as roupas na hora da chuva.

Gostaria muito que fizesse algum sentido pra mim chorar as mágoas em Paris, ou viver fantasias infantis que sempre acabam em dramas dolorosos. No fundo, não gostaria que fizesse sentido não. Meio que cansei de mentir sentado sobre o muro. As pessoas regurgitam suas ideias sobre as ideias de outras pessoas e fazem do mundo esse saco de vômito cheio de relações pessoais com erros baseados em experiências anteriores, o que não faz o menor sentido se vc reler prestando atenção. Você deveria aprender com a vida e deixar que ela te espanque mais vezes, até que você possa calejar. Quando estiver cansado de tanto apanhar e o sangue seco começar a colorir o asfalto, você vai entender que não importa. Que nada importa. Que a sua vida vai seguir em frente. E como naquela epifania do filme dos Simpsons, os galhos vão começar a te soltar.

E aí sua sorte começa a mudar.

“Com insônia, nada é real”

Daí você precisa comprar copos descartáveis porque todo mundo viajou e você precisa evitar que algum geógrafo apareça na sua porta para dar um nome científico à pilha de louças sujas na pia. E você vai no atacadista perto de casa, porque não existe melhor forma de comprar 50 copos descartáveis.

Você se esquece do dia 5.
Você se esquece que é véspera de feriado.

A quantidade de gente/carrinhos na fila é como um jogo fechado de dominó humano. Ninguém anda. Você começa a notar os ovos de páscoa sumindo e lembra a cena da toupeira roubando flores naquele desenho da Disney. Você sutilmente ignora os sinais que o mundo lhe oferece enquanto disputa as bandejas de frios com uma tiazinha empolgada.

[corte seco na história]

Como foi que eu cheguei em casa com três pastéis do Sacolão e duas caixas de cerveja é uma resposta que você não vai encontrar em nenhum dos 24 volumes de Freud, sério.

O mundo das pessoas normais

Outro dia segui o raciocínio que me leva a crer que sou muito moleque pro mundo. Por ter que, daqui umas semanas, perguntar pro Adolfo o que significa aquela sigla do imposto de renda e se eu preciso mesmo colocar tudo aquilo e PRA QUE MANO, PRA QUE?. Porque um dia, alguém de bom coração vai me ensinar como foi que deu tudo errado pro mundo e como é que tem gente do mesmo bairro que eu comprando tênis de marca custando 600 realidades. E talvez me dando sinais de como é que eu fui parar longe deles. Porque a nossa noção do que é certo e errado só depende de nós mesmos. Pode ser que eu queira amanhã assinar a Veja, acreditar no Pondé e entrar numa via de mão única pra vida a qual hoje eu não preciso. Não hoje, nunca hoje. Sentado no sofá de casa com minhas três músicas no violão, com o John Mayer que a Camila me ensinou a escutar, tomando a Glacial que o From me ensinou a beber, lembrando do Leo sobre não postar qualquer foto no Facebook (é sempre bom evitar um murro na cara, fica a dica pras futuras gerações).

É então que a gente descobre que não existe isso de se sentir moleque. Eu passei um tempão da minha vida com essa frase na cabeça “não há nada aqui pra mim ou pra você”, puta que fase, uns 45 dias de MSN, acredito. Porque eu só conseguia enxergar esse pessimismo como única forma de escapar da tragédia de viver nos limites, numa cerca infantil cheia de brinquedos da Alô Bebê enquanto seus pais assistem televisão. De qualquer forma, viver a sua vida é não precisar provar nada pra ninguém, e o mundo das pessoas normais é o mesmo mundo que o seu. Acredite, você é uma puta pessoa normal, talvez com um cercadinho um pouco mais amplo que os outros (do seu ponto de vista, óbvio). E isso você só consegue descobrir sozinho, por mais abas de comunicador instantâneo que seu windows vista consiga suportar.

“They love to tell you ‘stay inside the lines’
But something’s better on the other side”