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O arrastão psicológico

Parecia apenas outra virada cultural. Dessa vez, diferente dos anos anteriores fui especialmente assistir apenas duas bandas e não atravessar toda a terra média. Não fui ver o Racionais, nem o Blackstar, nem o George Clinton. Embora quisesse, não estava nos planos enfrentar aquilo tudo sem o Gandalf.

O que vou contar se passou após voltarmos de lá. E não tem (quase) nada a ver com assaltos ou arrastões..

Depois de sair do centro, paramos naquela rede de comida árabe famosa por criar aperitivos pequenos como mini hot-dogs, mini bolinhos de bacalhau e mini churros. Bem, acho que ela é mais famosa pela esfirra de carne mesmo. Estávamos lá de madrugada, eu, Aline e K.

Todo e qualquer ambiente que funcione até o último cliente jamais imaginou que existem grandes possibilidades do último cliente ser um babaca em potencial. Não íamos ficar ali muito tempo, mas percebemos uma mesa com algumas mulheres e dois caras que falavam muito alto e chamavam os atendentes de “bicha” e “chupetinha”, em doses alternadas, sempre que pediam algo. Faziam questão de falar também alto no celular “tem mulher? só vamos se tiver mulher!”, bradava o George Clooney do Capão Redondo às três da madrugada de sábado.

Eis que entra um casal, tranquilo, naquela paz de quem acaba de sair do motel pegou um cineminha e parou pra comer algo. Eles ficam numa mesa ao fundo, de canto, quase que escondidos. Falavam baixo e pareciam estar juntos pela primeira vez. Acontece que o pessoal que gritava perjúrios da mesa infelizmente conhecia o moço. E, visivelmente bêbados, começaram a chamá-lo – palpites? – de “bicha” e “chupetinha”, também de maneira alternada.

As cenas que se seguiram foram constrangedoras para todos os presentes, bem, exceto pelos dois bêbados que pareciam não se importar ao dizer coisas como “porra, chupeta, já tá com outra? ontem era a morena, hoje é a loira, assim não dá” e chamar a atenção do casal com um bullyng ainda mais agressivo em frases como “essa daí é aquela que te ajudava com as entregas de pizza?’ e “porra, bicha, você tava com uma hoje lá na rua eu fiquei sabendo hein”.

Paramos a conversa e espiamos o casal que, desconcertado, agora sentava de costas para os agitadores. Claramente perturbados, não pediam nada. Aline tomava seu sorvete e nós três na mesa, que antes vínhamos tratando de assuntos ótimos desde a saída do centro, paramos de conversar e procurávamos nos esconder no celular, ou na taça de sorvete.

Já estávamos consternados, sem ter o que dizer a nós mesmos e esperando apenas o momento de levantar e se retirar de todo aquele clima de recreio de escola. Pouco antes de sairmos os caras superlegais da mesa pediram para entregar um pudim na mesa do chupet… do moço, que recusou, o que gerou ainda mais impropérios e um “ô chupeta, vê mais duas caipirinhas de vodka pra gente aqui?”, dessa vez se referindo ao garçom que, anotando o pedido, sorria como se estivesse entre grandes amigos.

Foi dessa forma que sofremos um arrastão psicológico depois da Virada Cultural.

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Esta rede de quase comida árabe já me esculachou de todas as formas possíveis faltando apenas que um garçom mandasse minha mãe tomar no cu tratou super bem, sempre atenciosos, lisonjeiros e jamais me pressionaram a pegar uma sobremesa. Ao receber a conta, percebemos que constavam apenas duas batatas fritas e um valor abaixo de dez reais. Nós que somos vidas loka da pior espécie isso mesmo, não estamos nem aí ótimas pessoas resolvemos que era melhor avisar aqueles cavalheiros que nossa conta havia sido hackeada por um acaso e que pagaríamos tudo que fosse nosso dever como cidadãos de bem.

Só que não.

Ainda deu pra zerar a falta de compromisso cívico ao ajudar uma tiazinha que pedia dinheiro no estacionamento.

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Apenas para constar: passamos duas ou três horas da noite de sábado na virada cultural, no largo do Paissandu, onde estava montado o Palco Test, com bandas de metal, onde veríamos alguns amigos tocar. Presenciamos (e por muito pouco não ficamos no meio de) diversos arrastões pesados, desses de espancamento que estão falando por aí. Vi um cara ser agredido numa crueldade que espantar e as gangues correrem livremente pelas pessoas, escolhendo suas vítimas, procurando carteiras fáceis e isso tudo que estão falando. E tenho lido relatos de amigos e conhecidos que foram violentados, espancados e roubados por essas gangues de moleques e que sofreram também pelo mal atendimento das enfermarias e no atendimento policial.

Se você olhar bem de perto é toda uma estrutura feita pra dar bosta.