in bandas, jives, música, vida real

Quando eu estiver gritando

 

Quando, um dia, você me vir perder a linha em cima de um palco, num estúdio, num desses vídeos e fotos do youtube em que estou gritando frases desconexas em músicas também desconhecidas, lembre-se que eu passei a semana inteira reclamando da merda da minha saúde, como estou comendo poucas frutas. E que passei vergonha quando falaram qualquer merda sobre regimes e eu tive de colocar o fone de ouvido pra deixar pra lá o fato de que fulano “nossa deu uma engordadinha” não está sequer próximo de estar fora de seu peso ideal.

Lembre-se, sempre que me ver perdido e de olhos fechados, fazendo um acorde na guitarra, mesmo que esse acorde esteja errado e que me pareça a coisa mais certa a fazer naquele momento apenas fechar os olhos e embalar o que quer que eu esteja declamando em berros, lembre-se que nenhuma merda de camiseta das bandas que eu amo me servem. Lembre-se que me visto com roupas de uma cor só porque são as que me cabem, as que me caem minimamente bem, embora nenhuma delas realmente me faça sentir como uma pessoa comum: lembre-se que eu invejo cada pessoa com uma camiseta do RVIVR na rua e que quando nada mais me cabe e eu sinto o peso da barriga aumentar para todos os lados, eu não tenho ninguém ali comigo pra abraçar qualquer lado dessa encruzilhada e me dizer que vai ficar tudo bem.

Lembre-se de que tudo que eu tenho são meus livros, meus gatos, meus pais, meu irmão. E um monte de amigos que gostaria de ver por mais tempo.

Lembre-se que todos os dias eu penso que gostaria de ter mais tempo.

Lembre-se disso quando eu estiver gritando e me debatendo como se fosse uma pessoa comum, embora seja essa pessoa imensa e cheia de arrependimento e traumas. Lembre-se que eu me liberto deste corpo pesado e tudo o que eu tenho é um barulho dissonante e distorcido de válvulas e pedais e cordas e berros. Lembre-se que eu me sinto mal por me olhar no espelho e por me ver em vídeos e fotos que as pessoas tiraram durante essas festas e shows, mas jamais se esqueça: é naquele lugar – e só naquele lugar – que eu me sinto exageradamente em casa.

*

esse é para todos os que já me acharam ridículo um dia (eu incluso).