in solidão

solidão em pequenos atos

Você tira ela pra dançar. Pensa em contar que a ama secretamente. Ouve no fundo da sua alma algo irritante dizendo que não, é melhor ficar assim mesmo, chega desses traumas. Você ignora, vem dar valor ao que é bom nessa vida, cara. E diz pra ela. Ela encosta a cabeça no seu ombro ao mesmo tempo em que manda um tsc, baixinho. Diz seu nome antes de completar uma frase sobre como vocês jamais dariam certo juntos ePERA É O RENATO ALI? A moça te larga e corre para abraçar um cara que você sabe que ela adora. Você acena pros dois sorrindo, caminha em direção à mesa, olha pro copo, assiste as pedras de gelo rodando e se debatendo. Imagina uma miniatura sua sobre uma ilha em que só cabe você, segurando uma flor na mão direita. Cenas de amores despedaçados sempre têm uma flor coadjuvante. Só dá pra ver um mar imenso de bourbon e pedras de gelo que seguem rodando e se debatendo. Você manda o último gole e deixa o copo na bandeja do garçom que passa no mesmo momento. E pega outro copo. Quem dera fosse o último.

*

É tarde. O posto de gasolina parece estar fechado, mas pelas luzes, é só falta de movimento mesmo. Você pede os cigarros de segunda linha que aprendeu a fumar depois que aumentaram os preços. A moça do caixa diz que parou de fumar. Você não perguntou, mas ela diz que passou a sentir o gosto das coisas. Você acha poético e diz que fuma pouco. Pega o troco e agradece o cigarro. Ao entrar em casa, joga dois maços no lixo, junto com qualquer esperança de um sábado decente. Senta no sofá e põe o primeiro episódio de Demolidor enquanto o gato decide caminhar pela sala. Ela olha pra você soltando fumaça do nariz. Continua a caminhar em direção à janela, onde finalmente pára e se deita sobre uma caixa de som roída pelo tempo. Você estica as pernas no sofá e dá outro trago. A TV congela a cena, a internet cai, você derruba o cinzeiro quando se move. Recolhe o lixo, caminha à meia luz pelo corredor da casa. Seu mundo desabou faz tempo e você sequer notou.