in cajamar

So long, Cajamar

Eu vim pra Cajamar por pura necessidade. Um ano de freelas faz você repensar tudo o que você quer, pra onde a vida está te levando etc. Você cria alguns hábitos horríveis, desapega do convívio de pessoas porque afinal, quando a sua vida pesar, elas não vão estar ao seu lado. Elas vão desaparecer no limbo dos semi-conhecidos e vão acabar ocultas no gtalk porque você simplesmente prefere nem lembrar que elas existem.

Da primeira vez que peguei o fretado pra cá, estranhei a rua. Fiz o caminho mais longo, pelo quarteirão de trás, nas entranhas obscuras do Jóquei, encontrando travestis voltando de uma noite qualquer. O cara que abria o bar da esquina já tinha se acostumado comigo e me dava bom dia pegando um pão de queijo e um café puro no balcão.

Uns 2 meses depois de acostumar com o café deste boteco, me mudei pra Cajamar, num ano que tinha tudo pra dar certo, Copa do Mundo no Brasil (ainda é possível pegar uma concha em qualquer praia brasileira e escutar “VIROU PASSEIO AMIGO” ecoando pela eternidade). 2014 foi um ano bastante tranquilo, necessário pra continuar vivendo. Uma espécie de ano sabático gritando gol sozinho num condomínio em que ninguém tinha a menor preocupação em socializar, nem pra Copa.

Sair daqui também foi fácil, na mesma intensidade em que eu precisei vir pra cá livrar a minha mente dos Dumb reminders, eu precisava muito voltar pra SP.

Aí hoje me toquei que hoje era provavelmente a última vez que eu vinha pra cá trabalhar. Meu último dia no escritório daqui. Últimos cafés, últimas conversas. Daí fiquei assim, nostálgico. Numa cidade cuja energia fica caindo toda hora, desligando computador de todo mundo. Onde 45 pessoas dividiam mesas de três lugares pra almoçar em horários malucos. Onde a gente se esforçava ao máximo pra entender a moça da limpeza que tinha uns dentes faltando e uma língua presa. Onde você recebia um apito do segurança caso descesse por qualquer escada sem segurar no corrimão, ou uma advertência por andar de carro rápido demais.

Pior que vai dar saudade.