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Deus, irmão

Sinto falta de dizer “eu te amo”.

De todas aquelas vezes que sabia que você me falava isso nas entrelinhas de um gesto, num olhar mais atencioso.

Sentir falta significa instantaneamente sofrer. Não saberíamos o valor de tudo o que temos sem o sofrimento que nos causa a perda, o afastamento, o esquecimento.

Eu consigo enxergar a gente sentado na beira da praia. Agradecendo a hospitalidade do vendedor de sorvete. Eu tentando te convencer sobre como o picolé de fruta não faz sentido, sujando a mão toda de chocolate derretendo. Você dá risada me reprovando, enquanto eu levanto para jogar as embalagens no lixo. Você me olha voltar pela calçada, enquanto eu presto atenção em dois barquinhos de pescadores, na pontinha do horizonte. Como será que vivem aqueles moços? Me pergunto se em algum momento do dia de trabalho eles param pra olhar a infinitude do mar e refletem sobre a pequeneza de suas existências. Quando volto o olhar, você está com a mão sobre os olhos, escondendo o sol, se esforçando pra me enxergar. Eu chego e sento ao seu lado. Um abraço. Te olho bem no fundo dos olhos e digo que quero guardar aquele momento pra sempre. Você encosta a cabeça no meu peito e vemos voltando aqueles barcos e seus pescadores filósofos conversando algo engrandecedor:

– O mar é grande demais né, mano, já pensou?

– Deus, irmão. O barato é louco.