sobre falar

Com o tempo, deixei de falar. Acho que acostumei demais com a ansiedade que as palavras dos outros me trazem e percebi o quanto falar pode criar no outro sensações estranhas, diferentes, confusas.

Tenho vivido os piores dias de novo. Procuro o que fazer para não ter que parar e pensar no que me trouxe até esse quarto, no escuro, tirando fotos das paredes como se fosse encontrar fantasmas revelados nas luzes fracas.

O que descobri dessa vez é que minha mente fica transtornada de um jeito que eu falo coisas amplamente desnecessárias, tanto para mim, quanto para o próximo. Nessas, você acaba machucando as pessoas. Com sorte, elas acabam entendendo que você não tá numa fase boa. Isso com sorte. Na maior parte dos casos, você é apenas esquecido mesmo.

De silêncio em silêncio me arrasto, recolho meu cansaço e desfaço em mim qualquer esperança que já tive. A vida vai seguir assim, como um não-poema colado num sticker na augusta, postado no facebook, numa fan page de geniais e pretensiosos não-poetas.

Amargurado, cheguei ao silêncio, minha maior ruína e vou nessa até que as combinações químicas do meu cérebro se reorganizem e me tirem desse mar revolto da falta de esperança.

Janeiro vai passar.

 

Ensaios de Férias

Daí você chega no trabalho e mudaram tudo. E você fica lembrando seus insights incríveis no chuveiro, com aquela euforia de que todo mundo vai ouvir suas idéias numa reunião cheia de risinhos de reconhecimento e cabeças confirmando tudo, olhares cínicos invejando seu júbilo, sinfonias tocando Wagner nos seus ouvidos ao sair da sala e um ‘belo trabalho, Robson’, sinal de gratidão, cereja do bolo.

Apesar de tudo, não foi nada tão assustador assim e basicamente vai continuar tudo a mesma coisa, por enquanto. Eu é que estava com planos demais na cabeça.

“É próprio das pequenas almas soterradas sob o peso dos negócios não saber se desprender totalmente deles, não saber largá-los e retomá-los”
–Montaigne, Sobre a experiência.

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Finalmente terminei os Ensaios, de Montaigne. Assustadora e vergonhosamente, o primeiro livro do ano. Quase 600 páginas de puro êxtase filosófico sobre tudo o que a gente teme ou evita pensar. Aspas de Sêneca, Ovídio e vários outros clássicos que deveria ter lido há mais tempo, grandes citações, um volume da Companhia das Letras que me orgulho de guardar todo marcado com post-its e páginas amassadas, trademark dos vagões cheios na linha 9 da CPTM.

“Os Essais são um auto-retrato. O auto-retrato de um homem, mais do que o auto-retrato do filósofo”. Marquei isso na Wikipédia enquanto tentava definir minha sensação ao terminar o livro. E foi isso, exatamente. Fica nítida também a evolução ou amadurecimento do pensamento de um homem que troca seus primeiros escritos ferozes e cheios de vida da mocidade (olha, “mocidade” é uma palavra bonita em extinção) por reflexões sobre cólicas renais e males da medicina ao envelhecer.

Como a vida, sempre.