Laços

A gente discute e fica triste, se entreolha, os dois se sentindo as pessoas mais erradas do mundo. Provavelmente é isso que resolve tudo. E enquanto isso estamos ali, sentados, ambos de cabeça baixa, procurando pontos fracos no discurso um do outro pra justificar qualquer coisa sem importância que tenha antecedido nosso encontro.

Qualquer coisa boba que no ano que vem não vamos nos lembrar.

Fazemos perguntas sem sentido um ao outro também. Perguntas das quais sabemos a resposta, mas precisamos ouvir da boca do outro pra ter certeza do que já temos certeza. Uma forma de fraqueza tão bonita, tão juvenil. É quase a versão analógica de curtir suas próprias fotos no facebook.

E, num passe de mágica, nossas mãos estão juntas. Estamos sorrindo com meias lágrimas nos olhos, entendendo como é tudo tão pequeno perto daquele laço. Se ainda estivermos chateados, começamos a dizer palavras de conforto sabendo também que seja qual for o monstro, vai ficar tudo bem.

Mesmo assim, ela ainda está sem falar muito, com visível cansaço depois de protagonizar mais aquele emocionante capítulo da novela. Eu olho pra ela imaginando como gostaria de não ser um problema e na merda que seria caso ela não estivesse aqui. Dramatizando como um rei, sempre.

E então ela levanta e veste meu chinelo 44/45, que em seus pés pequenos parecem dois esquis de neve. Caminha com alguma dificuldade até a cozinha e me diz de longe que deixei queimar os pães de alho.

Daí fica tudo bem.

Uns dias melhores que outros

Não gosto tanto assim de presentes e festas nos dias certos. Os dias “errados” carregam algo de muito mais humano, uma trivialidade cheia de privilégio. Eles não precisam de campanha de marketing, ou de gente te pressionando sobre como se deve ou não presentear quem você ama. Sou mais a grandeza dos dias simples que a pequenez da obrigação datada.

Hoje somamos o segundo dia dos namorados juntos. Os melhores de todos, sem preocupações maiores ou pressões, porque Aline, assim com eu, pensa que a felicidade acontece mais nos dias comuns do que em datas marcadas. Sem grandes mimos que não podemos pagar, jantares e excessos, talvez nos baste saber o que representamos de verdade um ao outro.

Daí que ela, num desses dias “certos” (12 de junho, hoje) posta uma frase aleatória do Belchior que eu encaro como um presente indireto e, mesmo invalidando parte de tudo isso que escrevi, faz da nossa cumplicidade ainda mais autoexplicativa.

A ela, de volta, outro trecho, outra música:
 

“Mas quando você me amar, me abrace e me beije bem devagar
Que é para eu ter tempo, tempo de me apaixonar
Tempo para ouvir o rádio no carro
Tempo para a turma do outro bairro, ver e saber que eu te amo
Meu bem, o mundo inteiro está naquela estrada ali em frente
Tome um refrigerante, coma um cachorro-quente
Sim, já é outra viagem e o meu coração selvagem
Tem essa pressa de viver”

Um feliz dia comum pra nós.

Algo único

Queria dizer a ela que essas crises acontecem toda hora na minha cabeça, que eu sei por onde ir, mas às vezes não consigo lidar com o que penso e com o que sou ao mesmo tempo. Que ela está fazendo tudo certo e que eu espero novamente acreditar no que sou. Outro dia li algo num tumblr que dizia “esteja rodeado por tudo o que te faça sorrir” e, cara, ela é o ponto principal de tudo isso de viver com alguém que saiba pelo que seu coração se move.

Eu precisava estar de pé quando outro mês chegasse, quando conseguisse superar toda aquela fase pesada e ela estava lá, com uma pasta cheia de trabalhos debaixo dos braços e eu, com meu embaraço, sem acreditar no que poderia estar acontecendo ali.

Descobri querer que as coisas sejam pra sempre porque preciso de paz, preciso levantar todos os dias de manhã e saber que ela está lá, que está comigo e que não estamos perdendo tempo com escolhas desacertadas. Eu passei um bom tempo pensando que o máximo que a felicidade poderia me proporcionar era estar presente na vida de alguém que fosse feliz e, dessa forma, mesmo se eu estivesse distante da minha própria vida, tudo ficaria bem. Ao lado dela nada tem a necessidade crua de ser feliz, por isso é tudo tão natural e bonito e confuso – 29 anos de insegurança não conseguem ser derrubados da noite para o dia.

Estou cheio de constatações. De terríveis constatações sobre mim. De traumas e lições de vida que não me causaram nada além de dor e afastamento. Queria dizer a ela que o silêncio às vezes é por isso. É como se você estivesse no meio de um sonho e os personagens começassem a te avisar, mas você está vivendo grandes dias e não pode estragar tudo só porque tem um cara criado pelo seu subconsciente dizendo que tudo não passa de imaginação.

Sigo esperando que ela continue a enxergar em mim esse algo único que eu enxergo nela.

É impossível não amar alguém que lhe cause ataques de riso com coisas bobas. A despeito de todo o desamparo em que me encontro emocionalmente, Aline está fazendo o nerd do colégio, da adolescência e da faculdade se sentir o maior brasileiro de todos os tempos™.

#soudaepoca

Já tive um email hiphop_rbs@bol, daqueles que você ainda tinha que limitar a quantidade de mensagens na caixa de entrada pra não receber a cobrança vexatória do servidor dizendo que você está atingindo sua cota e que poderia deixar de receber emails novos caso alguma atitude não fosse tomada. Fazendo um paralelo com a vida adulta é praticamente o mesmo trabalho do serviço de proteção ao crédito.
Daí o gmail veio para, acima de tudo nos ensinar que aquelas mensagens simples e sem anexos pesavam muitas vezes menos de 1kb e que, disponibilizando uns GB a mais talvez ninguém mais precisasse deletar qualquer coisa.
O que, obviamente, vai da sua inclinação pessoal.
Da minha, vocês sabem, o passado é um top1 do disk mtv de 98, você até lembra com algum constrangimento ou não, mas sabe hoje em dia não faz o menor sentido.
Ela era pra mim uma conversa boa no msn. Minha ligação com o mundo no qual as pessoas não apenas trabalham e carregam suas vidas na coxa. Que me chamava pro Indie hip hop e me contava como estavam os roles punks dos amigos. Aquela conversa que sem perceber ultrapassa horas e só termina quando alguém precisa sair do trabalho (sempre eu) ou pra estudar/dar aula (sempre ela).
E os chats se amontoaram na inbox do gmail que, como se não bastasse, também armazena as conversas do gtalk. Como da vez que M. vendeu um ingresso sobrando do SWU pra ela ou quando lamentávamos/exaltávamos a vida (às vezes ao mesmo tempo, sério, impressionante). O que minha inbox conta é o que ela representa pra mim. Da amizade de 2009 ao carinho e planos de 2012. Uma história de amor, de aventura e de magia contada em 223 conversas.
Lógico eu que nunca pensei em um dia encontrar alguém que pudesse desvendar pelo que exatamente minha alma se move. Logo eu que sempre adorei os escritores solitários e detestáveis imaginando um dia ser um deles. Logo eu que sempre achei a felicidade limitante me peguei chorando no carro ouvindo uma música do hateen que peguei do computador dela. Logo eu que nunca sinceramente havia sentido a falta de alguém.
Assim o gmail se transmutou neste espelho da consciência.
A melhor parte é que o primeiro comentário dela ao ler esse texto vai ser: Peraí, como assim você chorou ouvindo hateen mano?