Bem, obrigado

O período em que deu-se a minha entrada de férias foi a semana mais maluca e psicologicamente confusa de todos os tempos tendo em vista que trabalhei como um revisor com metas inalcançáveis por uma semana inteira, fiz um rolê absolutamente lindo na véspera de feriado e no dia seguinte estava tocando com a banda que tá pra voltar, embora nunca volte verdadeiramente, numa noite em que tomei duas ou três intervenções de amigos e acabou dando tudo certo no fim das contas e no dia seguinte ganhei cervejas de Fefa e vimos a ocupação da Hilda Hilst comentando sobre o absurdo de você ter uma vida dedicada a arte e depois de anos da sua morte as pessoas passarem a venerar uma folha da sua agenda com um desenho tosco que você fez enquanto falava no telefone com a moça do Mappin pra saber se dava pra trocar aquele presente da sua tia que você ganhou e não servia.

Em uma semana a vida passou a ser uma Cajamar no sentido de que esta cidade tem mais subidas e descidas do que jamais poderia imaginar, eu moro no fim do morro, dá pra ver os arco-íris e toda a neblina cobrindo a cidade, por exemplo.

Faz tempo que não curtia a sensação do novo. A sensação de primeiras vezes, de não saber como lidar com a situação. Não sei se é melhor que a monotonia, mas certamente é mais divertido. Estou feliz, em muito tempo. Embora isso não queira dizer muita coisa, afinal, a felicidade é ponto de vista, passageira, cobradora e motorista (desculpem por isso).

Sinto meio que um feriado mental, não sei se é uma boa expressão, mas é como se minha mente me desse uma folga, como se o mimimi do overthinking já não fosse mais tão pesado.

Vai tudo bem quando a gente não se tortura tanto.

E estamos aqui chuva negra, paramos de crescer, passamos a envelhecer, a se degenerar. Meus dentes quebram toda semana e eu já não sinto muito que vou durar, essa é uma verdade que digo apenas para mim (e pros meus milhares de leitores, beijo brasil).

Desculpem a melancolia, passou um Edgar Alan Poe aqui por quinze segundos. E fica o aviso para Camila que o clube da depressão da madrugada, aparentemente, está de volta por 20 dias úteis, vemk me abraça.

Cês que se virem

Lembrei com saudades de uma época que não vivi em que prestava atenção em cada mínimo detalhe da vida. Desci do metrô a passos lentos para contemplar a Paulista e chegar até meu único lugar no mundo, a rua Augusta. Comprei água de três reais para poder usar o banheiro do restaurante de rico, mas essa parte era desnecessária no texto, desculpem.

Aconteceu muita coisa na noite de sexta. Dei uma moeda a um solitário tocador de sanfona que executava a música triste mais linda que já ouvi na vida. Conversei com um andarilho do Heliópolis a quem reservei outra moeda. Me tornei amigo de um carismático malabarista de rua que falava espanhol. E poderia dedicar todo esse texto a essa galera a quem esgotei meu bolso de moedas e ao BOOMSHAKALAKA de estar entre alguns dos poucos e bons amigos que conheci na vida.

Mas nunca é só isso. Os detalhes da vida começam a se auto arquivar para um outro momento quando a história do post começa a acontecer de verdade.

Descia o escadão da Frei Caneca/Nove de Julho lá pelas cinco horas da manhã (não recomendo etc). Um cara subia meio assustado, mas balançando a cabeça negativamente. O bom senso me faria olhar antes e hesitar. Uma noite de Brahmas na minha cabeça me fizeram seguir em frente, afinal, ‘a responsa de chegar garante o seu retornex’, lembrei de termos concordado com o Criolo em grande parte da noite.

Ao descer o primeiro lance que dá acesso ao restante da escada, percebo dois garotos de calças abaixadas praticando sexo ao ar livre. Exato. Numa normalidade como se estivessem trancados num quarto, longe dos julgamentos preconceituosos da sociedade. Não era um local ermo, não às cinco da manhã quando gente já passava indo trabalhar ou voltando do trabalho, era no canto do lance de escadas.

O garoto que comia o outro olhava pra trás com receio e continuava, como se não visse ninguém, mesmo sabendo que os passantes viam tudo, numa notável habilidade de I don’t give a fuck. Eu passei batido, óbvio. O que você tem a ver? Já vi acontecer com prostitutas, com pessoas comuns e se fosse um homem transando com uma foca adestrada eu passaria incólume da mesma forma.

Ouvi uns gritos de socorro quando cheguei ao final da escada e, graças a Deus, nenhuma notícia triste no jornal de hoje. Foi uma correria, um pega pra capar, uma treta feia provavelmente de cunho moralista dispersa em segundos, quando perdi de vista todos os envolvidos.

O moralista ideal escroto diria que o casal pediu pra apanhar, ou facilitou. Eu só diria que toda essa falta de bom senso numa sociedade cheia de moral e bons costumes como a nossa só garante o arrimo ao preconceito, uma militância ao contrário, um reforço ao pensamento “Tá vendo? Esses viados não respeitam ninguém. Só querem saber de sacanagem”, como lembra o idiota feliz. O que estou tentando dizer é que já deve ser difícil ser homossexual no Brasil por motivos óbvios e transar na rua não ajuda em nada.

Como lidar quando está tudo errado? Existe ponderação ou é um conceito absoluto? Quem está mais errado neste caso, o cara que se intromete, o cara que não tem bom senso, o ovo ou a galinha? Respostas que dariam eficientes teses de doutorado sobre sociologia, acredito.

Se você cavar bem fundo é até meio moralista pensar nisso, porque no fundo eu fecho com todo mundo pelado ganhando desconto. Mas aí vocês se virem pra julgar também.