Tá falando sério que esse texto é sobre o Tiago Iorc?

Eu consigo entender grande parte do que vejo nas redes sociais. Algumas coisas de um jeito mais natural como as indiretinhas-todo-mundo-sabe-pra-quem-você-tá-falando-velho-guarda-pra-você, outras que precisam de alguma reflexão política mais profunda (por cima do muro mesmo, só pra tentar entender vocês, de coração, quem sabe um dia eu consiga melhor).

O que, definitivamente, não posso entender é a seletividade do ódio musical. De onde vem, do que se alimenta, como pode fazer fácil a cabeça de tanta gente.

No meu Facebook tem gente que odeia Matanza, gente que odeia Worst, gente que odeia o Projota, o Sambô, Lulu Santos, o Los Hermanos, o Funk em geral, até o Raça Negra entrou na roda esses dias.

SÉRIO, O RAÇA NEGRA!

Daí calhou de passar o fim de semana na praia com meus pais. E aconteceu também de não ter internet (vai saber quando vou lembrar de postar esse texto), embora role uma tv a cabo com o ao vivo do Tiago Iorc no Multishow, cantor esse que figura nessa listinha de top 5 odiados da timeline.

– Pera. Você escreveu um manifesto a favor dos sapatênis e agora vai defender o Tiago Iorc?

– Isso. Bem, mais ou menos.

– A mão da Roleta do unfollow chega coça hein?

– Fechou. Amei te ver.

– MANO.

Sendo bem sincero, eu tentei ouvir Tiago Iorc uma vez quando Mariri me contou sobre. Me soou alegre demais pra um cara no violão. E a gente gosta de coisa densa, poética, conceitual, pesadona. A gente é demais, mano. Como assim o cara tá feliz cantando? Nunca ouviu Nick Drake, truta? Things behind the sun, irmão! Nunca ouviu o Grace? Te falta Mojo. Senta e reescreve. Para com isso aí.

Aí me identifiquei com o som do violão, primeiro porque não consegui ler a marca (acho que vou me decepcionar se procurar no google e descobrir que ele mandou escrever “Iorc” no lugar). Depois porque ele usa as notas abertas que eu curto tanto usar em tudo do We hit concrete, embora com aquela batida Jorge Vercilica que não me agrada muito, na real.

Em meia hora de show deu pra entender o cara. Toda essa mistura de pós ator da malhação com memes underground lado B do tipo “troco likes” ou “era sol que me faltava” e letras que parecem ter sido cooptadas diretamente daquele blog que parecia do Juca Kfouri, mas só falava de amor, são a receita pra que uma geração mais atual de adolescentes tenha um novo Fiuk.

Trocando em miúdos: era a brecha que o sistema queria.

Talvez eu tenha chegado a uma idade na qual odiar esse tipo de artista é algo que não tenho mais tempo pra fazer. Afinal, o cara canta suas músicas de amor com notas abertas e simplonas com o violão, lota a Fundição Progresso de meninas ensandecidas por ele, ganha placa de platina no final do show (existe até uma plaquinha nova de 100 milhões de views no YouTube).

Ao que ele se predispôs a fazer, está fazendo muito bem e alcançando uma carreira pop brilhante (tocou até Anitta, se meu ouvido não me engana).

Toda essa seletividade me faz pensar que não precisamos de mais uma grande guerra: nossos egos estão tretando todos os dias, criando barreiras em nós mesmos, nas coisas que acreditamos.

Sem a gente perceber, enchemos o mundo de trincheiras, de aversão ao que é diferente, ao que não é da gente. Nosso pequeno universo fica cada vez mais retraído e cheio desse pessoal que cruza os braços durante o show sem movimentar o corpo uma só vez no processo. Essa gente que não ri em exposições de grandes galerias de arte, que se faz de profunda e sábia, mas no fim das contas só quer um check-in e já tá pensando se escolhe Mostarda e Mel ou Chipottle de molho no Subway.

E, note, em quase nenhum momento desse texto eu disse que gostei do som (na verdade em nenhum momento, te poupo de voltar pra reler). Porque é OK não gostar de algumas coisas também. Você só não pode se esquecer que existem outras vidas ali. Um cara que senta e escreve suas músicas. Que encanta uma casa de shows entupida, que vive 24 horas isso. Uma menina que saiu de casa, comprou uma faixa e colocou na cabeça, cantando “amei te ver” como se estivesse a sós com o ídolo. É a cabeça dela que você tá tentando confundir. Tenho péssimas notícias: você vai continuar tentando. Porque semana que vem ela vai em outro show, dessa vez com um cartaz. Quem sabe com uma camiseta do fã-clube. E você vai estar choramingando na sua timeline sobre como o cara é horrível.

Esse ódio irrefreável contra alguns alvos da música me faz pensar que é a gente que cria toda essa distância entre nós mesmos. Tenha críticas ao que você talvez não goste muito. É saudável e você não vai estar ofendendo ninguém, se souber escolher bem as palavras. Se não tiver muito bem de escolher, se encolhe, vai ouvir teu sonzão-conceito no quarto e sai da internet mano, para de fazer da sua vida uma distribuidora de bad trip com traços de papelão.

Ensaios de Férias

Daí você chega no trabalho e mudaram tudo. E você fica lembrando seus insights incríveis no chuveiro, com aquela euforia de que todo mundo vai ouvir suas idéias numa reunião cheia de risinhos de reconhecimento e cabeças confirmando tudo, olhares cínicos invejando seu júbilo, sinfonias tocando Wagner nos seus ouvidos ao sair da sala e um ‘belo trabalho, Robson’, sinal de gratidão, cereja do bolo.

Apesar de tudo, não foi nada tão assustador assim e basicamente vai continuar tudo a mesma coisa, por enquanto. Eu é que estava com planos demais na cabeça.

“É próprio das pequenas almas soterradas sob o peso dos negócios não saber se desprender totalmente deles, não saber largá-los e retomá-los”
–Montaigne, Sobre a experiência.

***

Finalmente terminei os Ensaios, de Montaigne. Assustadora e vergonhosamente, o primeiro livro do ano. Quase 600 páginas de puro êxtase filosófico sobre tudo o que a gente teme ou evita pensar. Aspas de Sêneca, Ovídio e vários outros clássicos que deveria ter lido há mais tempo, grandes citações, um volume da Companhia das Letras que me orgulho de guardar todo marcado com post-its e páginas amassadas, trademark dos vagões cheios na linha 9 da CPTM.

“Os Essais são um auto-retrato. O auto-retrato de um homem, mais do que o auto-retrato do filósofo”. Marquei isso na Wikipédia enquanto tentava definir minha sensação ao terminar o livro. E foi isso, exatamente. Fica nítida também a evolução ou amadurecimento do pensamento de um homem que troca seus primeiros escritos ferozes e cheios de vida da mocidade (olha, “mocidade” é uma palavra bonita em extinção) por reflexões sobre cólicas renais e males da medicina ao envelhecer.

Como a vida, sempre.