Um ano

Eu todos os dias acordo pensando que a gente não devia estar aqui nessa cidade, com essas pessoas, com esse trânsito e essa insensatez.

Todo o meu tempo feito de horários curtos.
De prazos.
De novelas que não pedi pra estrelar
Problemas que não cogitei um dia ter.

Ficar pra trás

ilustração: Corgo

Paramos para viver intensamente vidas que não são as nossas, histórias diferentes das que imaginamos para nós mesmos. A cômoda ternura de dias que nunca deveriam ter sido.

E a Terra segue girando. De dia vivemos, de noite reinamos. Fazemos contas sobre o que deixar de pagar no mês seguinte para sermos menos miseráveis em relação aos padrões da TV, em relação aos amigos e vizinhos.

É isso ou ficamos pra trás.

Atrasados com nossos planos para o futuro, dispendiosos de nossas preguiças. Sem cargos excelentes, salários excedentes. Um grande contar de moedas de cinco centavos pra comprar um risole de padaria. Pra pagar o aluguel e dar as melhores comidas para nossos gatos. A nós nada. A eles, o mundo.

Consigo me imaginar. Sem nunca passar a ferro uma camisa sequer. Sem me preocupar com bons modos no elevador. Sem frequentar elevadores, ora. E aí vou ficando pra trás, olhando a fila seguir na frente, olhando o universo rodando a nosso favor, seja qual for a nossa desculpa.

Eu, parado, espero aquele momento que todos vão estar caminhando, bem distantes, seguindo em frente, indiferentes com o que quer que tenha restado pelo caminho já pisado. É nessa hora que eu viro as costas e não olho mais pra trás.

Intocável

Muitas vezes me permiti pensar em ser alguém comum. Não hoje. Não nestes dias. O que me acontece é ser um troglodita com coração de menino. De um menino que nunca vai entender ninguém, nem se encaixar em nada sem aquela sensação de que, em algum lugar, alguém está vivendo essa merda de verdade.

Segundo A., eu preciso passar por este inferno absoluto (com essas palavras, porque A. é uma pessoa dessas ótimas de trocar uma ideia). Eu preciso viver e superar meus traumas, esquecer. Na base da Itaipava do mercadinho porque a vida nunca me foi assim tão doce.

Quanto mais pessoas conheço, mais me torno vazio. E me perco num monte de gente falando coisas que não concordo, ouvindo, presente, como quem assiste empolgado um teste de DNA no programa do Ratinho. Cercado de uma moda de não ser o que você realmente é, não assumir os erros, não desembestar na desenfreada sorte em apenas manter-se vivo. Todo mundo numa correria maluca atrás de uma personalidade. E eu aqui, nestas mal fadadas linhas tentando explicar a mim mesmo o motivo de ter escrito “mal fadadas” só porque fazia muito tempo que não lia esta palavra.

Hoje me torno intocável. Principalmente pela sensação de de estar quebrado como os rádios velhos em lojas de coisas antigas que vendem rádios velhos quebrados. Me torno intocável por já ter tentado demais viver vidas que não foram feitas pra mim. Construir histórias que, por mais bonitas que fossem, só me trouxeram angústia e madrugadas insones esperando mensagens que nunca mais vão chegar.

Me torno intocável porque é a condição que preciso para viver sem esperar mais nada. E ter histórias de verdade pra contar. Vou continuar chorando o gosto amargo dessa tristeza por um tempo, o problema é que não vai passar. A gente só vai em frente porque tem que ir e não existe outro jeito. Se fosse pra trás eu errava menos, fazia escolhas menos piores e até me divorciava dessa horrível sensação de que não tem nada pra mim aqui. O negócio é que, aparentemente, viver é assim mesmo.

Tentativas de mim

Gostaria de pensar que tudo faz sentido, que as peças se encaixam, que cada passo é dado em direção a algo maravilhoso e glorificante. Que nossas vidas são sagas que sempre despencam num final feliz e que, não importa o que te digam, você é importante demais para o mundo e para todas as pessoas ao seu redor. Gostaria de não ter esse torpor, gostaria que essa fé me invadisse, que eu pudesse olhar pro céu e ver as estrelas como possibilidades, como esperança. Gostaria de poder dizer que cada erro é uma construção irremediável de quem sou e não o contrário, gostaria de poder sorrir sem imaginar o dia de amanhã, as contas empilhadas e qual das moças do setor de cobrança vai me ligar dessa vez. Gostaria de não pensar no talvez, de poder enfiar a mão num saco de feijão e sentir felicidade, ‘é o que falta às pessoas’, dizia a Vera. Gostaria que tudo fosse mais simples. Gostaria de acreditar que um dia isso tudo vai passar. Mas hoje, eu simplesmente não posso.

Tô bem, sério, é só uma bad trip de final de ano.