Dreher Chronicles #001

Chovia muito. Na sala, à meia luz, eles falavam sobre como eu era inteligente, sobre como conseguia articular tudo isso sem me tornar chato, insensível ou arrogante e como conseguia explicações simples para qualquer complicação que fosse. Comentavam também meu comportamento tímido, meu humor negro, cada um contando sua experiência individual de adaptação ao meu convívio. Diziam que eu lia muitos livros, muitas notícias, raramente não sabia do que estavam falando. Verdade, também comentavam que eu sempre sabia do que estava falando e, caso não soubesse, procurava entender.

Algum trecho do meu cérebro ainda conseguia ouvir essa conversa, bem longe, enquanto me escondia numa bebedeira que só teria fim quando eu não conseguisse mais chegar na geladeira para alcançar outra lata. Lembrei de uma ex-namorada que lia o dicionário pra poder lidar comigo. Ela não lidou e sumiu. Eu lidei, deixei de ouvir a conversa da sala e fui até o bar, tomar um conhaque com limão e tentar provar de uma vez por todas que nada daquilo que falavam era sobre mim.

[causo da festa da firma, 2010]

Jingle Bells Rock

Daí que passei o natal mais uma vez sozinho em casa. Não acho ruim, sério, acho até confortante ouvir a galera estourar morteiros no vão livre do condomínio, onde ficam as janelas dos banheiros. Por mim, ótimo.

Desliguei a TV, continuei lendo o livro, reclamando que a Denise bem podia ter virado o natal na casa dela, ao invés de ir para um aniversário, evitando todo esse desconforto. Depois me envergonhei por ainda ter passado no Extra, às 23h30, imaginando que estaria aberto e que o destino me receberia de braços abertos para comprar uma garrafa de conhaque.

Acabei em casa, escrevendo um texto medíocre, que outro dia posto, se houver necessidade. E depois, pra não perder completamente a madrugada, fui encontrar meus amigos sem imaginar como essa poderia se tornar a decisão mais desacertada que poderia ter tomado no aniversário do menino Jesus.

O primeiro deles, foi o tal do Kenan (Lembrem-se: não repitam o nome dele três vezes que ele aparece, onde quer que você esteja. Isso é muito sério). Ele falou de todos os tópicos de sua vida atual que achava interessante, incluindo um monólogo sobre homofobia e neo nazistas, traduções de Sartre e todo um tratado sobre como o meu espumante não tinha álcool algum. Cagou pra noite de natal e pro salvador de cá (a piada que ninguém entendeu é gratuita).

Consegui despistar o fulano lá pelas duas da manhã, quando encontrei novos amigos e alguns viciados, quase subindo pelas paredes em busca de uma lojinha para comprar entorpecentes. Entre os amigos, estava o Wolvs, recentemente incluído na minha lista de ex-addicts e que estava longe daquela vibe Trainspotting no feriado mais cristão do ano.

Foi então que fomos encontrar outros amigos no bairro vizinho. Outros amigos roqueiros com mais de 30 anos, apaixonados por tempos musicais, escalas diatonicas e Jetro Tull. Mas digamos que foi meio embaraçoso estar de canto, fumando um cigarro, enquanto seis marmanjos cantavam Highway Star do Purple como se suas vidas dependessem disso.

Consegui voltar pra casa ainda sem tomar uma cerveja devidamente gelada às 4h30, quando encontrei outros amigos mais próximos e pude, enfim, terminar o dia com o sol amanhecendo, na companhia de uma caixa de Brahmas, um biscoito doce e um amigo desacordado no banco de trás do carro, que xingou todos nós quando acordou.

Drink problems

Ontem fiz uma daquelas merdas monumentais que a gente se pergunta ‘onde é que eu estava com a cabeça?’. E, claro, decepcionei a Denise, a família dela, meus pais e a torcida jovem do Flamengo, basicamente.

Bebedeira no casamento da Chiba.

Claro, eu perdi o controle com o Black Label a vontade. Me lembro de ter ido pra pista dançar, – você, leitor deste blog, não tem noção do desprendimento moral que isso significa pra mim – depois tenho três flashes. No primeiro estou caído na sarjeta de uma alameda, tentando sair do carro. Na segunda, estou vomitando na minha camisa e, finalmente na terceira, estou no chuveiro da casa do meu cunhado.

Abandonei aquela fase imbecil em que bebemos só pra contar o quanto de bebida aguentamos e como somos inconsequentes etc. Uma bebedeira como essa vai ser inesquecível, mas de um jeito grotesco, como uma desgraça, uma maldição.

Tudo o que eu não queria aconteceu. A Denise me acompanhou, fez de tudo pra me levar pra casa seguro. A única coisa que perguntei a ela foi se eu a tinha envergonhado publicamente. Derrotados, eis seu novo líder.

Errar é uma parte da vida que a gente não decide. E a consciência pesada é meu túmulo de más escolhas. Pedi desculpas óbvias, mas eu não espero que ela aceite.

A aliança ela deixou na minha carteira.

e, provavelmente, nem vou falar sobre o Rage Against no SWU, devido aos fatos.

Bebida, blah!

Pois é, em 2010, consigo contar nos dedos minhas bebedeiras.

Existem algumas sensações um tanto dolorosas.

Uma delas não é a saudade do sabor do álcool, nem nada parecido. O que faz falta é a sensação de ter ultrapassado os limites de sua razão, de desligar o botão da civilidade, de se comportar como alguém que não dá a mínima pra nada.

Aquela leveza que te dá dividir 4 garrafas de cerveja e uma ou outra dose de qualquer bebida quente com um amigo em um boteco sujo na rua Augusta, em volta de uma mesa de bilhar, roubando bolas e colocando Raça Negra na Jukebox, só porque você lembra que o vocalista tem a língua presa e isso vai ser motivo de risadas pelo resto da noite.

E você, amigo do fórum, que está numas de me indicar o canhamo e imaginou que eu ainda não pensei nisso como uma solução tátil para o problema: Think again.

Outro fator: quando estou bêbado, qualquer lugar parece seguro, o que já me fez caminhar de madrugada pelo escadão da nove de julho, do Pq. do Lago ao Capão Redondo, como se fossem lugares vigiados 24×7, numa tranquilidade como se andasse com guarda-costas ou como se estivesse só no mundo.

Mas claro, dá pra sentir falta de whisky, por exemplo. Logo, a primeira decisão para 2011 é comprar uma garrafa de Jack Daniels e sair pelo Capão Redondo a pé.