Caminhando, cantando e cozinhando metanfetamina

Outro dia, passando por um dos bares mais “perigosos” do bairro (digo perigoso apenas como unidade de medida, uma vez que ali estão muitas pessoas erradas na vida, mas em seu habitat natural, portanto tranquilas. Sempre apareço por lá quando me sinto mal – ah, sim, falo do Enoch), pensei em como seria chegar batendo na mesa e derrubando garrafas e copos em cima dos traficantes locais, mandar todo mundo a merda que eles mereciam aquilo mesmo, só pela represália de tomar uns tiros ou ser espancado na frente do lugar. Uma bela forma de morrer, não?

E esse sou eu falando de suicídio. Tenho certeza que em algum momento, meu irmão – que nunca mais deu as caras no Capão Redondo – vai ler isso um dia desses e dizer “CHE CHECHE CHE Esse Robinho é Pesado CHEECHECHEEHEHEH” e depois me contar. Saudades, Diguinho.

Mas veja bem, se você está pensando esse tipo de atrocidades no milionésimo de segundo em que está de passagem pelo traficante no auge da carreira (19 anos), o mesmo que você viu crescer roubando salgado na lanchonete de 50 centavos, alguma coisa está mortalmente errada na sua vida.

(Prefiro muito mais escrever “deadly”, mas entrei numa reabilitação de pedantismo fortíssima aqui).

Daí que esse ano tem de tudo pra ser o ano em que deu bosta. Sabe aquela cena de Independence Day em que fica todo mundo olhando a nave mãe abrir as comportas e então começa a sair uma luz azul bonita e, de repente, ela estraçalha o prédio? Essa vibe, basicamente. Tirando o fato de eu não ter um barril com dez milhões de dólares, 2013 está como a quinta temporada de Breaking Bad: tudo dando errado do pior jeito possível.

A propósito, se estiverem precisando de auxiliares de laboratório para cozinhar metanfetamina, sabem meu número.

Jesse e Jane



[Contém spoilers da terceira temporada Breaking Bad]

Uma das grandes cenas de Breaking Bad acontece nesse episódio S03E11, em que Jesse começa tendo um flashback de sua namorada Jane que morreu ao seu lado, enquanto dormia sob o efeito da heroína.

No episódio anterior ele estava pensativo ao ver um cigarro sujo de batom no cinzeiro do carro que foi deixado por Jane antes de morrer. Então seu pensamento volta no dia em que foi ao museu com a garota conhecer as obras de uma artista chamada Georgia O’Keeffe.

(os dois conversam dentro do carro)

Jesse: Sabe, não entendo. Por que alguém pintaria o quadro de uma porta uma dúzia de vezes sem parar?
Jane: Mas não era igual.
Jesse: Era sim.
Jane: Era o mesmo modelo, mas sempre diferente. A luz era diferente, o humor era diferente. Ela via algo novo toda vez que pintava.
Jesse: E isso não é loucura pra você?
Jane: Então por que fazer qualquer coisa mais de uma vez? Eu deveria fumar só um cigarro? Talvez devêssemos transar só uma vez já que é a mesma coisa.
Jesse: Não…
Jane: Ver só um pôr-do-sol? Ou viver apenas um dia. É porque é sempre diferente. Cada vez é uma experiência nova.
Jesse: Certo, tudo bem. Acho que as imagens do crânio da vaca eram legais, mas… uma porta? Digo de novo: Uma porta! Zzzzzz (fingindo sono)
Jane: Por que não uma porta? Às vezes nos fixamos em algo e nem entendemos o motivo. Você se abre e segue em frente, para onde quer que o universo leve você.
Jesse: Então o universo a levou até uma porta e ela ficou tão obcecada que precisava pintar 20 vezes até ficar perfeita.
Jane: Não, eu não diria isso. Nada é perfeito.
Jesse: É? Bem, algumas coisas são.

(momento romântico da cena, em que Jesse beija a garota)

Jane: Foi tão fofo que acho que vomitei um pouquinho.
Jesse: hahah, você não consegue admitir que pelo menos uma vez eu estou certo. Ora, vamos, a O’Keeffe ficava tentando sem parar até que a porta estúpida estivesse perfeita.
Jane: Não, a porta era importante e ela a adorava. Pra mim se trata de fazer o sentimento durar.

(Jane apaga o cigarro)