Ser tudo

Um dia desses tudo que vivemos será suprimido pela nossa não existência. O dia em que deixarmos de ser, não teremos mais que esperar filas, torcer nossos anseios, aguardar senhas. Todas as nossas dores, nossas mágoas, enfermidades e preocupações serão suplantadas. Não estaremos mais aqui. E talvez a graça em não ser esteja em ser apenas parte do todo.

Tenho ficado confuso com a idade.

Os momentos em que a gente se sente mais vazio e distante, são os momentos de maior contemplação daquele pó do qual viemos e não acreditamos apenas retornar. Não é possível que todos esses anos enfrentando as frustrações do capital se resumam em flores e uma caixa de madeira lotada de verniz. É preciso mais. Aliás, é preciso mais que um campo verdejante com um sol a pino. Eu não quero aquele sol. Eu quero a paz de enxergar o tempo, a leveza de ser o próprio ar, a solidão do universo com a grandeza do infinito. Quero a pressão de ser tudo, com a pureza de não ser nada.

Ainda que continuem as filas, as dores, as angústias e as senhas rodando no painel, eu quero ter a sorte de dias mais cônscios, perto da realidade e longe da ficção, para que o silêncio do fim seja apenas uma fagulha, diante da imensidão da existência.

Dreher Chronicles #001

Chovia muito. Na sala, à meia luz, eles falavam sobre como eu era inteligente, sobre como conseguia articular tudo isso sem me tornar chato, insensível ou arrogante e como conseguia explicações simples para qualquer complicação que fosse. Comentavam também meu comportamento tímido, meu humor negro, cada um contando sua experiência individual de adaptação ao meu convívio. Diziam que eu lia muitos livros, muitas notícias, raramente não sabia do que estavam falando. Verdade, também comentavam que eu sempre sabia do que estava falando e, caso não soubesse, procurava entender.

Algum trecho do meu cérebro ainda conseguia ouvir essa conversa, bem longe, enquanto me escondia numa bebedeira que só teria fim quando eu não conseguisse mais chegar na geladeira para alcançar outra lata. Lembrei de uma ex-namorada que lia o dicionário pra poder lidar comigo. Ela não lidou e sumiu. Eu lidei, deixei de ouvir a conversa da sala e fui até o bar, tomar um conhaque com limão e tentar provar de uma vez por todas que nada daquilo que falavam era sobre mim.

[causo da festa da firma, 2010]