O novo velho

Com o tempo, todas as sensações e sentimentos acabam passando de fase, mudando de nível, tornando-se outras completamente diferentes das iniciais. Pra ser bem rude com o exemplo, é mais ou menos igual quando falavam pra você sobre a Pizza Hut nos anos 90 e aquilo parecia intocável e distante, daí você chega em 2017 se segurando pra não ir lá todos os dias da sua vida.

Eu disse, bem rude.

Lembro da primeira vez que chorei por alguém. O sentimento de perda e afastamento parece tão irremediável e lancinante. O tempo faz a gente perder o contato com essa superfície.

Foi quando perder se tornou apenas mais uma parte do caminho.

Muita gente aprende a lidar, seguir em frente. Eu acho que nunca aprendi. Acumular dores, decepções e todas essas palavras com uma carga dramática maior do que você gostaria de lidar, acaba criando cascas nas nossas bagagens pessoais. Você passa de extremamente magoado a uma pessoa olhando o infinito pelo menos umas 14 vezes durante o dia sem pensar em nada, ou chorar agressivamente, como convém a pessoas nesse estado de espírito. E quando você sai daquele estado, a única coisa que consegue raciocinar é que aquela merda precisa passar logo.

O grande mal em ser adulto é ver todas as nossas histórias se tornarem apenas boas lembranças.

Espero um dia escrever sobre lidar com tudo isso de um jeito menos autodestrutivo.

Pastel ou Revolução?

Você passa a entender o preço da carne, do feijão, do tomate, mesmo quando ele ficou mais caro que dois maços de cigarro. E você entende o preço dos maços de cigarro, geral vai parando de fumar aos poucos. É a melhor deixa pra quem não parou depois da faculdade. Acredito que quando ficar no valor de um almoço no Capão – 7,99 num lugar justo ali pra dentro do São Bento -, é o meu limite.

A única gourmetização que não admito é a do pastel de feira (e a do Molejo, claro). Deve haver alguma explicação plausível, obviamente, mas não dá pra acreditar como um negócio tão rua se transformou de um jeito tão escrotamente desproporcional (acho que acabei resumindo o rap nacional também).

Poderia estar aqui sugerindo uma revolta social para a derrocada do sistema, mas sigo problematizando sobre o preço do pastel que vale mais a pena, afinal você pode criticar o capitalismo o quanto for, mas se na segunda-feira você está no seu trabalho pra ganhar o seu sustento e não morrer de fome você está automaticamente dentro do sistema. Por mais que não acredite, por mais que queira que tudo venha abaixo (e olha que são 29 anos nessa, amigo), existe sempre uma segunda-feira.

Além disso, o fato de ficar criticando o tempo todo algo do qual você faz mais parte do que imagina lhe faz parecer uma tiazinha de prédio que reclama de cada milímetro de inclinação dos carros estacionados, que liga na portaria às 22h30 se ouve dizer que vai ter uma festa (mesmo que não seja no seu prédio e que não tenha ouvido barulho nenhum). A mesma tia que pede umas regalias de vez em quando, deixa o neto estacionar na vaga dos outros, “mas só hoje, ninguém precisa ficar sabendo”.

O que mais conheço é gente criticando o sistema desde que lhe resguardem o direito de frequentar os lugares badalados para suprir seus caprichos. Lugares cheios de gente servindo-se de refeições livres e ainda mais caprichos, “mas só hoje, ninguém precisa ficar sabendo”. E voltam pra casa reclamando do capitalismo. Acho que o negócio nisso tudo é uma via de mão dupla em que você pode se jogar às armas e ir pra guerra ou simplesmente perceber que a vida não é exatamente uma reunião de condomínio para você ficar reclamando do zelador o tempo inteiro.

Aonde ficou a coerência deste texto: jamais saberemos (e quem achar ganha uma moto).