Cracking Music Chronicles #2 “Home, Money, Love”

Adquiri o costume de colocar um som do celular durante banhos no escuro (já contei dos banhos no escuro? Talvez a melhor maneira de pensar na vida). O EP do Better Leave Town é realmente a escolha mais eficiente para o estado de espírito em que me encontrava nos dias mais pesados desse ano.

Já adianto que esta certamente é a banda que mais ouvi em 2014 também. Já falei pra muita gente que é o novo Foo Fighters, que devia abrir o show daqui, banda de estádio, cara, banda-de-estádio! Um som tranquilo, embora com guitarras distorcidas e muito sentimento, uma banda linda, pra mim, capaz de shows em grandes festivais, banda que não dá pra entender como pode ser desconhecida, ou pouco famosa, ainda que nos meios hardcore seja uma das grandes.

Home Money Love traz três músicas tão completas com os sentimentos complexos de olhar sua companheira reclamar do trabalho e tentar acreditar que vai ficar tudo bem, que o dinheiro vai dar, desejar um dia bom, mesmo sabendo que o trabalho vai ser uma merda, que vamos ficar tristes de ver o dinheiro ir embora com o vento. Em “Memories and numbers” eu estava no chão do box, lamentando cada sonho e cantando “and I hate myself for all the plans I made, for things that never change”. Talvez não haja saída. Era escuro, era água caindo nas costas e a sensação de não ser nada.

No ano passado, por muitas vezes tive vontade de quebrar a casa inteira. E não digo isso poeticamente, digo isso porque pensava em como estaria a estante por cima do sofá ou a geladeira da porta estourada, mesa da cozinha, meu pequeno armário, eu sentia uma indescritível raiva e “Mr. Banana Monster” me trazia de volta, ainda sendo uma bem triste, uma balada sobre alguém que perde “who’s gonna be the first one to cross that door?”, eu tentava me levantar, dizendo a mim mesmo que as coisas precisavam ser do jeito que viriam e “good night, sleep tight”.

Landless Hearts me zerou. Com a empatia por uma canção feliz que diz “Just give a man a place to go like a reason to live. So take this reason and he will drown set adrift on his own fears”, me levantei, tomei uma água gelada no rosto, a coisa parecia revigorar a vida, eu já cantava os backing vocals “cold eyes, staring inside”, vendo a mim mesmo uma luz dentro que parecia vir do infinito, mas vinha do vizinho que acabara de entrar no banheiro da janela que dá pro meu prédio.

Porque a vida é bem menos milagrosa e poeticamente bela do que a gente acredita.

Cracking Music Chronicles #1 “Os Condenados da Terra”

Outro dia assisti o Liberal Arts, um filme dirigido pelo Ted (desculpem, mas depois de How I Met Your Mother não tenho como chamar o cara de Josh Radnor) que tem uma história de amor meio avessa, que era pra ser uma espécie de comédia romântica e acaba soando como um drama muito bonito. Recomendo muito, dá pra ver online, legendado e tudo, coisa fina.

Num trecho do filme, o Ted – que não é só o diretor, como também o ator principal – fala algo sobre como a trilha sonora pode afetar o que a gente sente em relação ao mundo. E, com a trilha sonora certa, todas as pessoas que ele via na rua lhe pareciam amantes em potencial, pessoas lindas, atraentes. Se não me engano demais, acho que ele ouvia música clássica, ou algo assim.

Eu já tinha pensado nisso por muitas vezes, mas a experiência que narro nesse primeiro texto me motivou a buscar melhores trilhas sonoras para cada situação em particular. Portanto quando encontrar no título “Cracking Music Chronicles” (que quer dizer algo como crônicas na tentativa de destravar o código do mundo por meio da música),  você deverá saber que vai entrar nessa viagem infinita ao nada absoluto que é a minha cabeça em relação ao mundo portanto, seja feliz e siga adiante (ou vá fazer umas torradas, porque torradas estão em alta – aqui em casa, pelo menos).

*

Dia desses, numa ida ao centro de carro durante a semana, me peguei no trânsito impraticável da avenida Rebouças. Havia passado no trabalho do amigo A. e pego um CD da banda dele, uma dessas que eu não costumo compartilhar porque muito provavelmente ninguém vai entender. Para resumir bem porcamente, O Mito da Caverna toca música lenta, muito pesada, gritada em quase-óperas de meia hora ou mais. O disco “Os Condenados da Terra” tinha uma só música e se extendia por 33 minutos de um êxtase inacreditável.

(Eu avisei que ninguém ia entender)

Portanto fui pela metade do trajeto ouvindo o disco pela primeira vez, maravilhado com minha ideia rasa de músicos que conseguem contar tempo em músicas com mais de meia hora. O primeiro ato dessa epifania suburbana deu-se dentro do túnel que dá acesso a Rebouças, já no final da primeira audição, num trecho em que se ouve uma declamação com voz de locutor, que destoa dos berros guturais da música toda. Eu estava com os vidros semicerrados, escutando aquele assovio sempre distante vindo das saídas de ar, parado em meio a montes de gente atrasada, motoboys buzinando e me perguntei o que eu fazia ali, dentro daquele túnel, naquela tarde de calor, com aquele bando de gente enfileirada em suas máquinas. Eu sabia o que ia fazer no centro, não é bem essa a questão. A pergunta era sobre o que diabos havia pra mim nisso tudo. Como os anos se passaram até que eu chegasse ali naquela escuridão do túnel, naquela claustrofobia comum. Aquele som me fazia flutuar de maneira indecifrável sobre a história do mundo e descobrir que eu não era muito mais do que uma história num poço sem fundo de histórias e que Deus, em sua grande onipotência, apesar de grandioso e imenso, começava a se reduzir ao tamanho dos homens, sendo ele também mais uma porção de história nesse poço. E daí o trecho da música preencheu o restante da lacuna que se abria em mim:

“Então Deus compreendeu que nunca tivera, verdadeiramente, no mundo que julga seu, o lugar de majestade que havia imaginado, que tudo fora, afinal, uma ilusão, que também ele tinha sido vítima de enganos, como aqueles de que se estavam queixando, as mulheres, os homens e as crianças e, humilhado, retirou-se para a eternidade”

No segundo ato, eu já estava próximo ao metrô Anhangabaú, parando de semáforo em semáforo, com os vidros fechados, prestando ainda mais atenção em cada trecho da música e ainda mais espantado com tudo. E ali no cruzamento da Sete de Abril fui tomado por outro devaneio desses que me levam pra muito longe. As pessoas andavam em câmera lenta, embaladas pelo ritmo quase fúnebre, envoltas cada uma em seu descaso predileto, um homem andava coberto por um lençol e comia um pedaço de pão, alheio aos timbres de guitarra que na minha mente o faziam macabro, cheio de raiva e desgosto. Mesmo as mulheres e crianças, bem vestidas e preparadas pro mundo me pareciam perdidas, desorientadas, distantes, frutos inconscientes de uma mente perturbada. Era tudo muito bonito, era tudo tão terrível. Era como se tivessem desligado o botão da realidade por trinta e três minutos e eu estivesse experimentando ali cada ranhura e fórmula riscada no código fonte do universo.