Encarar

Algo já não lhe cabe mais.

Nesse plano, nessa época, nessa fase da vida. Algo que você perdeu no tempo, como uma linha de pipa que estourou e você tenta salvar o que restou, enquanto enrola na lata e sabe que daqui pra frente é só lamentar.

Fico imaginando o que será que se perdeu. Quando foi que essa linha estourou que ninguém viu. Que merda de cerol é esse do moleque da rua de cima que corta até a brisa?

Do outro lado desse vazio escroto, tem um acordando cedo pra trabalhar, olhando o céu e sendo preconceituoso com óculos escuros. Quem, em sã consciência prefere deixar de ver a luz do dia, assistindo sua própria vida com um filtro escuro e opaco.

A vida já é escura e opaca demais, na moral, chega de trazer mais merda pra esses bueiros entupidos que somos.

Semanas atrás comemorei (?) meu aniversário de 33 anos já preparado para piadas como “idade de Cristo, bingo!”, mas ainda não preparado para como a vida nos trata depois dos 25. Esse negócio de encarar o mundo como a personagem de Girl Boss “como assim eu preciso de um emprego pra ter plano de saúde?”.

Nossa única certeza é encarar tudo o que temos, tudo o que ficou pra trás, tudo o que um dia seremos. Afinal, somos toda essa incompreensão. Seja isso uma maldição ou uma forma de nos fazer entender ao menos um pedacinho dessa pequeneza existencial.

Dia após dia, sensação escrota atrás de sensação escrota, são as microalegrias que abrem a cortina pra mostrar a grandiosidade do universo.

Vinte e nove

Estou de joelhos pro mundo. De joelhos, não como quem se prostra, mas como quem se abandona. Um jogador depois de perder o último pênalti na Copa do Mundo. Olhando a tudo cada dia menos surpreso, cada dia mais calado e distante. Eu sinto o mundo me batendo pelas costas, sinto a força da humanidade me crucificar como o que não foi feito pra se encaixar em lugar algum. A quem cobram saúde, roupas limpas e cabelo cortado e que, a despeito disso, segue se alimentando mal de madrugada, usando as mesmas camisetas amassadas e o cabelo desgrenhado como nunca antes. Eu estou sentado à beira do universo, perdendo controle sobre o chão, à beira de um precipício em que tudo parece mais seguro, ao menos, como uma criança que balança os pés sentada num banco de praça muito alto. E eu não sei tocar o chão.
*
Leo, encarando foda a chegada aos trinta, a crise que nunca falha.

Porra, J.J Abrahms

Num plano ideal, eu não veria problema em trabalhar na função que exerço hoje, porém teria (a) um plano de carreira (b) um salário que desse pra pagar minhas contas, juntar dinheiro pra previdência e tomar meu Java Chip na Starbucks toda semana sem peso na consciência; (c) trabalharia a menos de 10km de casa.

Haveria um (d) que diria, trabalhar 6 horas diárias. Mas não há, porque se eu trabalhasse a uma curta distância de casa não me importaria de ficar 10 horas na frente do ecrã.

Todavia, esse oplano ideal não ocorre porque (a) vou morrer escrevendo textos pra câmeras digitais e aparelhos de ginástica (b) como disse outro dia mal consigo manter um café da manhã diário de R$3,00 (c) a empresa fica a 45km de casa somando, no mínimo, 90km diários. É como se eu fosse pra Mongaguá todos os dias.

Porra, J.J Abrahms, cadê minha realidade alternativa, mano?

Crise monstra

Não consigo escrever um texto, um conto, uma crônica, um release, uma lista de mercado, sem esbarrar em questionamentos e dúvidas que mais parecem bifurcações cruzadas de mão dupla que me fazem desistir na metade. Porque antes esquecer um texto sobre um assunto pífio que não ia chegar a lugar algum do que começar um TCC sobre o tal assunto pífio e também não chegar a lugar nenhum, mas com algumas dores de cabeça de brinde.

Além disso, não consigo postar diariamente – um dos sonhos esquecidos dos anos 00 – nem conciliar uma boa rotina de produção pessoal.

Sem falar no livro do Takami, Tudo sobre fotografia, que está desconsolado na gaveta, esperando austeramente que eu o estude e volte a me empenhar em algo.

Pra fechar, dos meus poucos e majestosos salários mínimos, me sobrou uma nota de 20 reais para todo o mês de junho. Lembrando que sábado, amigos, é dia dos namorados.

Você que chega ao final do mês com alguma sobra de renda, eu realmente não te entendo.