O peso

Da primeira vez que tudo desmoronou de verdade eu tinha a sensação de que ia chegar em casa e derrubar todas as coisas. Conseguia ver a estante de livros despencar sobre o canto do sofá, a geladeira quebrando a pequena mesa, o sofá revirado, minha TV no chão junto dos livros. Minha sensação de que o mundo todo havia caído no chão ultrapassava algum limite: não eram só meus sentimentos, era a necessidade que eu tinha de que todo o resto acompanhasse esse esborrachar.

O que eu sinto hoje é uma espécie de asco por mim mesmo. Quando algo sobre o último relacionamento me incomoda, sinto automática vontade de vomitar, sinto pena de mim como se finalmente me enxergasse pelos olhos de outra pessoa (uma vez que tudo o que quero é chamar atenção, ainda que de mim mesmo) e sinto que aqueles momentos bêbados inconscientes quando a gente nem sabe que ainda existe nesse mundo se tornam meio necessários (e talvez não acordar de algum desses momentos talvez fosse uma solução menos dolorosa e mais inteligente pra tudo mesmo).

Sacou o estado de espírito?

Pois é.

Eu queria o alento de pensar menos e ter mais amigos por perto. O que acontece é justamente o contrário. Acabo chegando a conclusões tão catastróficas pra minha cabeça que vai demorar até tudo se acertar de novo em mim. Lidar com a rejeição é uma espécie de karma com o qual tenho de lidar, aparentemente.

Só não sei quanto mais disso eu posso aguentar.

Ficar pra trás

ilustração: Corgo

Paramos para viver intensamente vidas que não são as nossas, histórias diferentes das que imaginamos para nós mesmos. A cômoda ternura de dias que nunca deveriam ter sido.

E a Terra segue girando. De dia vivemos, de noite reinamos. Fazemos contas sobre o que deixar de pagar no mês seguinte para sermos menos miseráveis em relação aos padrões da TV, em relação aos amigos e vizinhos.

É isso ou ficamos pra trás.

Atrasados com nossos planos para o futuro, dispendiosos de nossas preguiças. Sem cargos excelentes, salários excedentes. Um grande contar de moedas de cinco centavos pra comprar um risole de padaria. Pra pagar o aluguel e dar as melhores comidas para nossos gatos. A nós nada. A eles, o mundo.

Consigo me imaginar. Sem nunca passar a ferro uma camisa sequer. Sem me preocupar com bons modos no elevador. Sem frequentar elevadores, ora. E aí vou ficando pra trás, olhando a fila seguir na frente, olhando o universo rodando a nosso favor, seja qual for a nossa desculpa.

Eu, parado, espero aquele momento que todos vão estar caminhando, bem distantes, seguindo em frente, indiferentes com o que quer que tenha restado pelo caminho já pisado. É nessa hora que eu viro as costas e não olho mais pra trás.

um demoreel das minhas bad trips em 2017

Parece que passamos, juntos, pelos piores tempos. Eu e este blog. Eu quis terminar tudo com ele ontem, percebi meu último final de ano e como ele tem se repetido de um jeito trágico durante tanto tempo. Eu passei a escrever aqui para desaguar da cabeça o monte de merda que mantinha comigo. Às vezes muito engraçada, grande parte das vezes trágica, e uma parte ainda maior das vezes cômica de um jeito psicótico, como se estivesse sendo escrita por alguém que realmente me detesta, ou quer iniciar uma nova escola de bullying profissional, com certificados do MEC.

Estes dias, durante o mais pavoroso dos finais de ano que já vivi, comecei a escrever um post amargurado sobre a fase que estou vivendo hoje e notei: estava falando o mesmo de anos atrás, mas agora sobre outras pessoas. Notei, enfim, que o problema sou eu e se existe alguém que precisa dar um tempo com isso aqui, essa pessoa sou eu.

Parece que não consigo mais ler, escrever, tocar, conversar, criar. Manter meu blog tem sido um fardo, pra dizer a verdade. Eu começo posts e não termino, eu tento mudar layouts e não quero mais, eu escrevi ontem um post de despedida e acabei de deletá-lo porque me detestei ainda mais fazendo isso.

Tem a ver com a vida que levo em 2017.

Me pego em silêncio olhando pro teto, ou pro infinito, mais vezes do que posso me orgulhar. Quando volto pra vida real, Marla me olha cabisbaixa, sem entender. Eu fiz dela uma gatinha um tanto triste com sua própria existência, assim como eu sou. Isso me machuca mais do que qualquer outra coisa.

Eu tive tantos planos pra coisas que não deram certo, tantos sonhos que não vingaram até agora, tantos amores que perdi por viver num mundo despedaçado que eu mesmo ajudei a construir. Agora eu tenho um puff grande pra deitar no chão, zero intenção de me tirar da lama, falta de criatividade, um coração rasgado em pedaços por tanta mágoa que consigo acabar esquecendo, mas que não deixa de ficar registrada. As marcas são pra sempre. Conviver com elas me faz forte, ao mesmo tempo que vai criando em mim esse ermitão que passa o ano novo com os gatos, esperando dar meia noite pra abraçá-los e evitar que eles tenham medo dos fogos.

Sou esse tipo de estereótipo em 2017. Caindo no chão de novo, olhando o mundo todos os dias como se fosse a última vez.

Minha distância do mundo das pessoas é algo pavoroso. Sinto falta de não pensar em nada que me machuque de alguma forma. É um sentimento mesquinho, egoísta, raso. Me sinto cada vez mais socialmente doente, cada vez mais sozinho e, caso pare de beber realmente, vou me despedir de vez das interações sociais (que hoje só se dão quando estou bêbado ou em vias de ficar bêbado).

E aí vem aquela vontade forte de deixar de existir.
Essa eu nunca consegui evitar.

5 minutes to wallow

Você não tava aqui.

Pra me ver despedaçar lendo as suas coisas. Suas frases, suas fotos, lendo nos seus sorrisos que tava tudo bem. Você não tava aqui quando eu senti o chão abrir, quando passei a flutuar olhando pra sua vida na tela. Eu realmente senti a pressão do ar se transformando em tempestade. Eu senti de novo o vácuo, a ansiedade de ter subido alto demais imaginando que no fim daria tudo certo. Eu senti o calafrio que sinto desde o pior janeiro da minha vida. Eu sentia todos os dias daquele janeiro, muitos dias de fevereiro e alguns dias no resto do ano. Cada vez menos, até nunca mais. E o nunca mais talvez nunca venha.

Agora não é mais você aqui. O sonho é outro e tão tolo quanto. O sonho é um osso a ser roído até não restar mais nada pra enterrar. Desses que só existem pra gente se esborrachar e ter pelo que sair correndo no corredor do trampo de cabeça baixa pra se desesperar em lágrimas escondido no banheiro sem perturbar a paz alheia dos fones de ouvido do escritório.

E tem aquele trecho de Elizabethtown (obrigado Fefa, por me fazer reassistir esse filme no melhor timing de todos) em que o Orlando Bloom está seguindo o mapa da viagem de volta para casa, quando vê o seu pior fracasso estampado na capa de uma revista. E o guia de viagem, feito pela personagem da Kirsten Dunst, dizia: “Você tem cinco minutos para mergulhar nessa deliciosa angústia. Aproveite-a, abrace-a, descarte… e prossiga”.

Aí você sai da cabine do banheiro e diz pra si mesmo que tá tudo bem.

*

E veja que o tema do excerto pessoal-constrangedor acima é basicamente “Tem gente que a gente nunca supera”, que foi o que conversava no final de semana com Mariri, minha partner in crime no Projeto 2005 (curtam a fan page), no qual tocamos músicas emo do começo dos anos 2000. Estamos numa empolgação inacreditável, gravando vídeos e esquecendo de tirar selfies para a página. Se Dance of Days, Noção de Nada, Emoponto, Garage Fuzz, Aditive, Fresno, Houdini e Polara fazem algum sentido na sua vida, há uma boa possibilidade de curtir o que estamos fazendo.

Eu não acredito mais no mundo

imagem via André Dahmer

Podem me chamar de superficial ou de rebelde sem causa, ou de jovem Che Guevara, mas o que venho aqui dizer considero extremamente sério, principalmente por não ter solução: O capitalismo fodeu com o planeta. E não encontro no vernáculo forma mais clara de dizer isso.

Ora, não fossem as buscas e competições por empregos decentes, os filmes, a expectativa inalcançável de sucesso, a corrida dos ratos e a busca por essa vida média e fácil não teríamos tanta gente com empregos desnecessários por aí e, por conseguinte, não teríamos um mundo tão amplamente deteriorado.

É preciso que você tenha um emprego que as pessoas comentem, porque as pessoas querem saber o seu cargo antes de qualquer outra coisa. Não interessa se você está estudando a cura do câncer ou formas de eliminar o lixo do Rio Pinheiros. É uma cultura e pressão social que leva milhares de pessoas se tornarem jornalistas, publicitários, designers e marketeiros com o sonho de que suas vidas se transformem em documentários no Vimeo (ps.: estou criticando aqui, basicamente, toda a minha lista de amigos e conhecidos).

Quando eu era pequeno gostava de desmontar e montar despertadores, relógios, televisores, seja lá o que desse para abrir com algumas chaves, eu gostava de saber como era por dentro. Não fossem meus pais seres humanos médios ou de pouco tato, talvez hoje eu estivesse em algum simpósio falando sobre os avanços da rede neural robótica. Mas não, sou um jornalista, porque era o lugar mais fácil que poderia ter me encaixado. Uma faculdade média, quatro anos entediantes, sucessivos empregos entediantes enquanto o mundo e a evolução se fodem.

Essa é a primeira parte.

Em segundo plano vem a oferta e a procura. O negócio que fez as duas versões do iPad. As quatro versões do iPhone. Eles não podem ajudar. Empresas precisam crescer, tecnologias precisam avançar então “vamos lançar o primeiro sem webcam mesmo sabendo que podemos lançar com vídeo conferência e muito mais utilidades só pra ver o resultado”. A terceira versão vem com slot pra cartão de memória, quem sabe.

Mas este é apenas um exemplo ridículo sobre algo maior e extremamente mais ridículo. A constatação de que é o dinheiro que move o planeta. O trabalho não é mais uma causa, o trabalho precisa existir para mover qualquer instituição sem utilidade. Para ilustrar melhor e parar por aqui, digamos que as pessoas querem empregos mais fáceis ainda que não se sintam úteis para o contexto geral de suas vidas. Isso quer dizer que, se elas puderem viver uma vida decente, com três banhos por dia, um cachorro e uma TV a cabo, elas vão fazer isso mesmo que sejam contratadas para produzir conteúdo na internet servir cafés. É mais fácil não se envolver com a construção de um planeta melhor.

E então, a última parte.

Ser uma pessoa incrível e fazer uma descoberta incrível não tem mais tanta utilidade no mundo em que vivemos (ps.: me considero jornalista mesmo escrevendo jargões como “no mundo em que vivemos”). Se um cara descobre “a segunda roda”, por exemplo, ou uma forma dos carros voarem, ele vai fazer daquilo o big shot da sua vida. Não tem porque compartilhar seus feitos e ajudar a melhorar a vida na Terra se você pode guardar e montar toda uma estratégia empresarial para se tornar milionário e vizinho do P. Diddy.

Nada mais se usa em prol da humanidade. É tudo mercado. As pessoas vendem suas idéias, seu tempo, sua vida, só pra conseguirem um canto onde morar, um carro para buscar os filhos na escola e uma boa aposentadoria aos 65. Fico imaginando como seria caso no modelo de mundo que temos hoje, ainda não houvéssemos descoberto a roda (é, eu sei). Nego trabalhando pra conseguir comprar um carro com roda, nego maluco pra mostrar pros amigos seu novo carro com roda.

O ser humano deixou de se importar com o mundo para se importar com sua própria vida e, como temos visto nos noticiários, o planeta não anda muito contente.

Como disse no começo do texto, o Capitalismo não vai sair de moda e esse é o mundo que vamos ver acabar, as utopias de que um dia tudo vai mudar estão se reduzindo a pensamentos solitários em mesas de boteco. Então supere, it’s not gonna happen, kids.

[antes que me xinguem de moralista, eu sei que faço parte de toda essa cadeia de gente que escolhe o mais fácil e não participa da construção do mundo. Por isso o título distópico do post]