Elo

Meu estado de consciência atual lembra muito Peter Parker tentando se desvencilhar daquela gosma preta que cria o Venom no Homem Aranha 3. Por mais que eu tente, vai voltar. E vai ser horrível tentar de novo quando aquilo grudar em você.

Faz um sol de rachar no jardim Umuarama. Aa janelas enormes daqui deixam tudo extremamente claro. Enquanto isso estou no escuro do quarto, com a janela fechada, numa sessão de autopunição que ainda deve demorar meses pra acabar.

Inclusive, tenho praticado bem esse revezamento: sessão de autopunição matinal, seguido de episódios de Big Bang Theory (estou tentando de novo, mas não tem jeito de achar o Sheldon legal), mais uma tarde de autohumilhação com ênfase em plataformas digitais e de noite um lanchinho, com maços de cigarro e duelo de menta (4 reais no posto), o suficiente pra demorar 10 minutos de muleta no trajeto sala-quarto.

Me desgrudar de toda essa sensação vai depender muito de descobrir o que tá tão errado assim em mim. E talvez encontrar na rejeição meu elo para viver em paz.

E seguir em frente, de coração aberto para tudo o que tiver de vir.

um demoreel das minhas bad trips em 2017

Parece que passamos, juntos, pelos piores tempos. Eu e este blog. Eu quis terminar tudo com ele ontem, percebi meu último final de ano e como ele tem se repetido de um jeito trágico durante tanto tempo. Eu passei a escrever aqui para desaguar da cabeça o monte de merda que mantinha comigo. Às vezes muito engraçada, grande parte das vezes trágica, e uma parte ainda maior das vezes cômica de um jeito psicótico, como se estivesse sendo escrita por alguém que realmente me detesta, ou quer iniciar uma nova escola de bullying profissional, com certificados do MEC.

Estes dias, durante o mais pavoroso dos finais de ano que já vivi, comecei a escrever um post amargurado sobre a fase que estou vivendo hoje e notei: estava falando o mesmo de anos atrás, mas agora sobre outras pessoas. Notei, enfim, que o problema sou eu e se existe alguém que precisa dar um tempo com isso aqui, essa pessoa sou eu.

Parece que não consigo mais ler, escrever, tocar, conversar, criar. Manter meu blog tem sido um fardo, pra dizer a verdade. Eu começo posts e não termino, eu tento mudar layouts e não quero mais, eu escrevi ontem um post de despedida e acabei de deletá-lo porque me detestei ainda mais fazendo isso.

Tem a ver com a vida que levo em 2017.

Me pego em silêncio olhando pro teto, ou pro infinito, mais vezes do que posso me orgulhar. Quando volto pra vida real, Marla me olha cabisbaixa, sem entender. Eu fiz dela uma gatinha um tanto triste com sua própria existência, assim como eu sou. Isso me machuca mais do que qualquer outra coisa.

Eu tive tantos planos pra coisas que não deram certo, tantos sonhos que não vingaram até agora, tantos amores que perdi por viver num mundo despedaçado que eu mesmo ajudei a construir. Agora eu tenho um puff grande pra deitar no chão, zero intenção de me tirar da lama, falta de criatividade, um coração rasgado em pedaços por tanta mágoa que consigo acabar esquecendo, mas que não deixa de ficar registrada. As marcas são pra sempre. Conviver com elas me faz forte, ao mesmo tempo que vai criando em mim esse ermitão que passa o ano novo com os gatos, esperando dar meia noite pra abraçá-los e evitar que eles tenham medo dos fogos.

Sou esse tipo de estereótipo em 2017. Caindo no chão de novo, olhando o mundo todos os dias como se fosse a última vez.

Minha distância do mundo das pessoas é algo pavoroso. Sinto falta de não pensar em nada que me machuque de alguma forma. É um sentimento mesquinho, egoísta, raso. Me sinto cada vez mais socialmente doente, cada vez mais sozinho e, caso pare de beber realmente, vou me despedir de vez das interações sociais (que hoje só se dão quando estou bêbado ou em vias de ficar bêbado).

E aí vem aquela vontade forte de deixar de existir.
Essa eu nunca consegui evitar.

5 minutes to wallow

Você não tava aqui.

Pra me ver despedaçar lendo as suas coisas. Suas frases, suas fotos, lendo nos seus sorrisos que tava tudo bem. Você não tava aqui quando eu senti o chão abrir, quando passei a flutuar olhando pra sua vida na tela. Eu realmente senti a pressão do ar se transformando em tempestade. Eu senti de novo o vácuo, a ansiedade de ter subido alto demais imaginando que no fim daria tudo certo. Eu senti o calafrio que sinto desde o pior janeiro da minha vida. Eu sentia todos os dias daquele janeiro, muitos dias de fevereiro e alguns dias no resto do ano. Cada vez menos, até nunca mais. E o nunca mais talvez nunca venha.

Agora não é mais você aqui. O sonho é outro e tão tolo quanto. O sonho é um osso a ser roído até não restar mais nada pra enterrar. Desses que só existem pra gente se esborrachar e ter pelo que sair correndo no corredor do trampo de cabeça baixa pra se desesperar em lágrimas escondido no banheiro sem perturbar a paz alheia dos fones de ouvido do escritório.

E tem aquele trecho de Elizabethtown (obrigado Fefa, por me fazer reassistir esse filme no melhor timing de todos) em que o Orlando Bloom está seguindo o mapa da viagem de volta para casa, quando vê o seu pior fracasso estampado na capa de uma revista. E o guia de viagem, feito pela personagem da Kirsten Dunst, dizia: “Você tem cinco minutos para mergulhar nessa deliciosa angústia. Aproveite-a, abrace-a, descarte… e prossiga”.

Aí você sai da cabine do banheiro e diz pra si mesmo que tá tudo bem.

*

E veja que o tema do excerto pessoal-constrangedor acima é basicamente “Tem gente que a gente nunca supera”, que foi o que conversava no final de semana com Mariri, minha partner in crime no Projeto 2005 (curtam a fan page), no qual tocamos músicas emo do começo dos anos 2000. Estamos numa empolgação inacreditável, gravando vídeos e esquecendo de tirar selfies para a página. Se Dance of Days, Noção de Nada, Emoponto, Garage Fuzz, Aditive, Fresno, Houdini e Polara fazem algum sentido na sua vida, há uma boa possibilidade de curtir o que estamos fazendo.

Tentativas de mim

Gostaria de pensar que tudo faz sentido, que as peças se encaixam, que cada passo é dado em direção a algo maravilhoso e glorificante. Que nossas vidas são sagas que sempre despencam num final feliz e que, não importa o que te digam, você é importante demais para o mundo e para todas as pessoas ao seu redor. Gostaria de não ter esse torpor, gostaria que essa fé me invadisse, que eu pudesse olhar pro céu e ver as estrelas como possibilidades, como esperança. Gostaria de poder dizer que cada erro é uma construção irremediável de quem sou e não o contrário, gostaria de poder sorrir sem imaginar o dia de amanhã, as contas empilhadas e qual das moças do setor de cobrança vai me ligar dessa vez. Gostaria de não pensar no talvez, de poder enfiar a mão num saco de feijão e sentir felicidade, ‘é o que falta às pessoas’, dizia a Vera. Gostaria que tudo fosse mais simples. Gostaria de acreditar que um dia isso tudo vai passar. Mas hoje, eu simplesmente não posso.

Tô bem, sério, é só uma bad trip de final de ano.