O Aprendiz: Bicos

Me alistei num desses trabalhos de fim de semana. Desses que a gente tem vergonha de dizer por fazer parte de uma classe média que não consegue admitir que um marceneiro ganhe mais dinheiro que um analista de mídias sociais (nota mental: escrever sobre isso qualquer dia). Não, não é marcenaria. Agora, em alguns finais de semana, sou digitador de contratos nesses stands de venda de condomínios.

Não é um trabalho de todo mal, eles entendem que estão te roubando seus dias de descanso e até pagam relativamente bem. Não foi tempo perdido, somos tão jovens. Pra resumir a função: um casal feliz passa em frente ao stand de vendas e decide comprar um apartamento. Levam os documentos, preenchem formulários e aguardam enquanto eu encaixo todas as informações num modelo de contrato em duas vias com uma formatação horrível, cheio de redundâncias e subtítulos.

Posso dizer que dei um valor muito maior ao meu emprego atual depois do meu segundo dia de trabalho nesse famigerado bico. É necessário pra comprar uns presentes e pagar as contas. Quando eu tinha uns 19 anos descobri do pior jeito que vender não era meu forte e agora descobri que não tenho muito apreço por gente que vende, gente que precisa vender pra garantir comissão. Portanto se minha vida dependesse disso, eu pensaria duas vezes antes de aceitar. Nesse nível.

Eles têm coragem de me chamar de freelancer. O que não deixa de ser verdade e confere até um certo profissionalismo. MINTO. Confere o único profissionalismo do lugar. É uma espécie de remake de Loucademia de Polícia, mas neste caso o Eddie Murphy é uma gordinha simpática com síndrome de gatinha cantando Pôneis Malditos de.hora.em.hora. Aquela velha sensação de que todos os softwares são ilegais, a rede sem fio é roubada do vizinho e o dinheiro que te pagam é proveniente de uma vaquinha dos funcionários. Eu devia ter desconfiado quando eles exigiram que eu tivesse um veículo próprio, mas mudaram de assunto quando perguntei se eles pagavam combustível (o que, convenhamos, devia ser uma pergunta desnecessária).

Estou naquele impasse de deixar pra lá, afinal, todo mundo entende que você está sem grana pra comprar aquele presente de aniversário; ou então continuar, afinal, acontece apenas uma ou duas vezes por mês, a grana vale a pena e, com a trilha sonora certa, a ida e a volta podem ajudar muito. Vamos ver como me comporto quando vier uma nova escala, porque uma gordinha saliente (diria minha mãe) cantando uma música chata não é exatamente o tipo de coisa que me incentivaria a continuar com isso.

A Mochila de Pedras

Algumas coisas me fazem mal, como ouvir uma mentira que você sabe a versão real, ou ter que se envolver nessa mentira, ou cigarros etc. Apesar disso, nada me faz tanto mal quanto ter que dizer: “olha, hoje não dá, eu não tenho dinheiro”.

Porque, convenhamos, todo o tempo estão te chamando pra frequentar churrascos, festas, baladas, jantares, confraternizações com a qual você não dá a mínima, mas iria de bom grado se você não tivesse pago aquela fatura do cartão de crédito, pra felicidade da atendente da Visa que já tinha até decorado os horários que você estaria em casa.

E dizer essa frase é como ter de admitir outro fracasso, afinal, você não está bem (pelo menos financeiramente). Pra mim, chega próximo mais ou menos de dizer, ‘olha, não posso ir nesse churras amanhã porque não fui bom o suficiente para me permitir estar com vocês’. OK, nem tão dramático, mas esse é o viés da história.

Eu tento evitar, mas acontece de às vezes, como agora, ter de carregar ainda mais minha mochila psicológica de pedras, como a Chiba sugeriu. ‘Todas as vezes que você não fala ou não expõe o que você pensa, ela disse ‘você tem que carregar mais peso na sua mochila’. Acontece com alguma regularidade. E ao dizer essa frase, coloco pelo menos outras dez das grandes e sigo em frente, até o ponto em que ela fica insuportável, estoura e recomeça a encher.

Claro que nada disso tem a ver com o posto que estou atrasado para comparecer depois desse post, na verdade vai ajudar muito a relaxar e esquecer um pouco disso tudo.

Itaú, nem parece banco

Daí que mudaram as datas de pagamento aqui no trabalho. Agora recebemos vales, pra não ficarmos sem grana o mês inteiro etc. E, claro, para os desorganizados como eu o negócio se tornou uma tempestade irreparável.

E fui em minha caríssima agência do Banco Itaú (linkei até o twitter para esses covardes do monitoramento web encontrarem rápido essa crítica), alterar datas de pagamento de um velho acordo.

Acho que tenho uma certa habilidade para escolher agências em que os gerentes são antipáticos e arrogantes no limite da falta de sensibilidade. (tem a ver também com a localização da agência e o pensamento que negros desajeitadamente fora de moda não devem ser tratados decentemente, mas isso é pra outro texto). A primeira resposta é, naturalmente: ‘não posso te ajudar, tenta ligar na central’. Ao contrário do que se pensa, eles só ajudam o cliente em último caso, antes de dar alguma merda jurídica.

E, bem… não, eles não podem alterar a data de vencimento sem fazer uma odisséia a respeito.

Nota

Perto do dia 15 de cada mês começo a ter sintomas da minha depressão mensal, que a Denise chama carinhosamente de TPM financeira. Os sintomas são a queda abrupta do espirituosismo, acentuada por uma presença online menos frequente e que, no dia 15, chega a níveis tão baixos que os instrumentos mais avançados sequer conseguem detectar.

(outro sintoma é escrever textos com explicações absurdas como esta)

E como o trabalho não para de pulular estou offline e pouco orgulhoso disso.

Volto em breve.

Porra, J.J Abrahms

Num plano ideal, eu não veria problema em trabalhar na função que exerço hoje, porém teria (a) um plano de carreira (b) um salário que desse pra pagar minhas contas, juntar dinheiro pra previdência e tomar meu Java Chip na Starbucks toda semana sem peso na consciência; (c) trabalharia a menos de 10km de casa.

Haveria um (d) que diria, trabalhar 6 horas diárias. Mas não há, porque se eu trabalhasse a uma curta distância de casa não me importaria de ficar 10 horas na frente do ecrã.

Todavia, esse oplano ideal não ocorre porque (a) vou morrer escrevendo textos pra câmeras digitais e aparelhos de ginástica (b) como disse outro dia mal consigo manter um café da manhã diário de R$3,00 (c) a empresa fica a 45km de casa somando, no mínimo, 90km diários. É como se eu fosse pra Mongaguá todos os dias.

Porra, J.J Abrahms, cadê minha realidade alternativa, mano?

Porque a vida é agora

Daí aquela operadora de cartões de crédito me liga no sábado.
Reproduzo abaixo o diálogo:

-Ow, filhão, não quer fazer um acordo? Pelo menos seu nome não vai pro SPC-Serasa.
-Demorou, fechadão.
-Nossa proposta é tantas vezes de 600 paus.
-Não vira.
-Quanto você consegue pagar?
-200 mangos.
-Vou ver, faz uma média aí na linha.
[…após a média]
-Olha, consegui em tantas vezes de 299 paus.
-Mas só consigo 200.
-Tá, olha, o que eu posso fazer por você é dar um desconto em cima da parcela, interessa?
-Sim! Vê aí.
-Olha, consegui aqui o desconto de 1 real sobre cada parcela. Assim você paga tantas vezes de apenas 298 paus.
-Porra, agora sim.
-Posso confirmar?
-Claro, mas vai logo que não quero perder essa oportunidade única!

Não aconteceram as ironias finais. Tive pena da pobre atendente de telemarketing “eu-só-trabalho-aqui-moço”.