Starts e atitudes

Eu assistia a Discovery e veio um desses comerciais de programas que são exibidos sábado de noite e ninguém assiste porque, bem, é sábado de noite. Era sobre um cara que frequentava lugares inóspitos da humanidade como tribos indígenas, ou vilarejos isolados na floresta, esse tipo de alucinação.

E o apresentador falava sobre o programa, quando lançou: “é importante conhecer esse mundo que daqui há alguns anos não vai mais existir.”

Comecei a pensar nos meus possíveis filhos. E não sei como, cheguei ao pensamento quase febril de que um dia eles teriam de conviver com esses personagens babacas dos desenhos animados de hoje.

Foi então que tomei essa louvável decisão e acabei baixando 195 episódios de Pica-Pau de 1940 a 1972 e as cinco temporadas dubladas da Liga da Justiça.

Porque, né, nego entra na minha mente com uma frase e espera que eu salve a humanidade?

Explica, Discovery

Acho que a grande diferença entre a minha geração e a de meus pais se baseia em metalinguagem, análise crítica e auto questionamento. Acredito que as pessoas como eu que eram jovens nos anos 70 não se importavam tanto em pensar em determinados aspectos de suas experiências, ou não se importavam tanto sobre como era feita a produção de livros, filmes e dispositivos culturais em geral (ok, ‘dispositivos culturais’ eu aprendi num edital do governo).

Estava assistindo um programa da Discovery que se chama Casal Selvagem. Nele, um homem e uma mulher se jogam em lugares perdidos do mundo como uma savana africana, florestas da América do Sul ou ilhotas no meio do oceano índico e mostram como sobreviver para não ser picado por mosquitos que transmitam malária ou comido por jacarés.

Gosto muito deste tipo de programação, embora não acredite no que isso poderá me ajudar um dia, visto que, numa hecatombe apocalíptica, eu, o gordo que fuma e corre menos que o resto da humanidade, tenho chances reduzidas de me salvar.

Estes programas são compostos pelo seguinte casting: o casal, protagonista, que vai caçar, montar o abrigo com folhas de bananeira e correr dos leões; uma equipe de câmeras-man que acompanham, provavelmente dois, no máximo três, tendo em vista o jogo de câmeras, mesmo à noite, por exemplo; e um helicóptero que faz vídeos aéreos. Preste atenção no helicóptero, ele será bem útil ao final deste texto.

Se todo o programa é seguido por câmeras-man, eles é que deviam receber os louros. E devemos refletir também: se o casal está no meio de uma tenda de folhas acovardados pelos perigos de um lugar misterioso, o que dirá dos câmeras, que durante todo o processo de montagem desse abrigo estavam apenas registrando tudo?

O casal passa três dias no lugar e, quando começam a se ambientar, vão embora. Funciona mais ou menos como meus finais de semana no litoral. No terceiro dia, um helicóptero vasculha a região em sua busca. OK, agora vem a dúvida: como o programa pode apresentar imagens aéreas no seu decorrer e depois alegar que um helicóptero vai vasculhar o local em busca da equipe, supostamente desaparecida?

A não ser que a produção do programa tenha contratado águias selvagens formadas em audiovisual para fazer as imagens aéreas, algo não encaixa direito em toda essa história.