A vida é feita de escolhas

Confesso sentir uma inveja desmedida dessas pessoas que sabem exatamente o que escolher num bar, restaurante ou banca de pastel. Esses governadores da predileção, que sabem escolher cada ingrediente de seu ravióli do Spoletto como se fosse algo absolutamente óbvio.

Isso sempre me pareceu pouco fácil, se tornando um massacre sem tamanho ter de decidir entre pimenta do reino, milho ou pedaços de bacon (eu sempre escolho o bacon, BTW). Como naquele jogo do Big Bang Theory com perguntas do tipo ’em um mundo em que rinocerontes são animais domesticados, que vence a Segunda Guerra Mundial?’. Não existe lógica nenhuma, a não ser aquela que consigo inventar de bate pronto, em que o bacon e a ervilha tem nível 4 numa escala internacional de sabores, ficando abaixo apenas do alho poró e da cebola roxa, respectivamente.

Sem contar os fancy choosers e é desses que eu realmente quero falar. Do malandro que não sabe chegar numa barraca de pastel e pedir ‘um de pizza e uma coca’, ele tem que encher os pulmões e esvaziá-los dizendo: mê vê um de carne seca com cebolas picadas e azeitonas pretas chilenas, com um suco Del Vale de frutas cítricas no copo de plástico e dois canudos de cores diferentes.

Outro tipo clássico é o que não sabe pedir um café puro ou pingado e um pão na chapa. Ele precisa pedir um café espresso macchiato com bastante espuma e um sanduíche de queijo brie na chapa com algumas pitadas de cebola. Sempre a cebola, reparem, este é o condimento principal para se tornar insuportável.

A parte disso tudo, meu sério problema é com aquela cafeteria que salvou a vida de Michael Gates Gill. Não consigo pedir a bebida adequada em ocasião nenhuma. Sempre peço ‘aquele gelado de café e chocolate tamanho grande’ e sempre tenho respostas secas para confirmar quando o atendente me diz: ‘o senhor quer então o Frappuccino Blended Beverage Java Chip à base de café tamanho Venti?’. Daí respondo com aquele olhar cínico, esbanjando uma fingida superioridade: ‘claro, amigo, claro’.

Outro fato completamente insensato dessa minha vida infernal é que não consigo pedir pizzas além da prática, default e pouco espirituosa meia mussarella, meia calabresa. Embora eu devore todos os sabores sem nenhum problema, é necessário que, de alguma forma, em algum oitavo das pizzas haja queijo e calabresa.

É aí que está o segredo. Parece de uma frescura sem tamanho, mas é exatamente o contrário. Eu tenho uma boa relação com todos os sabores, o que não me confere exatamente a liberdade de optar pela quatro queijos em detrimento da marguerita, afinal que culpa ela tem? E assim eu sigo dramatizando conceitos culinários como respostas para minhas grandes fraquezas.

Era um garoto

“I need a camera to my eye
To my eye, reminding
Which lies I have been hiding
which echoes belong
I’ve counted out days
to see how far
I’ve driven in the dark
with echoes in my heart”

Wilco, Kamera (do disco Yankee Hotel Foxtrot)

Naquela época eu tinha 16 anos e jogava futebol. Era velho demais pra jogar no time dos pequenos, até os 15, e era novo demais para jogar com os grandes, de 17 pra cima. Jogando com os pequenos era sempre vantagem, ser zagueiro e gigante pra minha idade, acentuava isso como você pode imaginar. Com os grandes era nítido, ficava completamente perdido no campo. Ainda que maior e aparentemente da mesma idade deles, não tinha as manhas do jogo. Embora o técnico sempre me encaixasse.

Dez anos mais tarde estou na frente de uma estação de trabalho, ganhando metade do salário que gostaria, criando meu inferno pessoal entre planilhas e e-mails que não respondo, ganhando a vida.

Sou novo demais pra fazer o que gosto de fazer, que é ficar em casa plantado lendo meus livros, lendo o Google Reader e quem sabe admnistrando os estoques de pipoca e suco de laranja da casa. Ao mesmo tempo, quero ver o Leo e passar um final de semana jogando X-box e trocando idéias sobre a vida, como outras vezes, quero dormir na sala do apartamento do Diogo e acordar podre de ressaca. Só o fato de querer ser inconsequente, díspar e até um pouco arrogante, faz com que me sinta velho demais pra isso.

Embora a vida sempre me encaixe.

So maluco?

Trabalho de tempos em tempos a minha dificuldade psicológica em dizer o que ando fazendo para aqueles amigos distantes que vez ou outra aparecem no orkut.

Seria de bom grado dizer: estou amando uma pessoa infinitamente boa, lendo bons livros e tentando resolver minha vida financeira pra poder recomeçar a pensar no futuro de maneira menos vaga e distante. Mas, por inflexões sociais que julgo necessárias, acabo dizendo: to trampando em tal lugar, mó longe, que treta, ce nem imagina. Não trabalho com o que estudei na faculdade, nem sequer faço exatamente o que gosto. Mas vou sair daqui, em breve.

As pessoas precisam do drama.