Drops do Subsolo #1

​Devo começar pelo fato de que meu carro está apodrecendo por dentro desde a minha viagem para tocar naquele casamento no interior.

Como fiquei semanas sem sequer descer do apartamento, nossos copinhos de doce daquele dia haviam virado uma infestação de fungos, assim como as bordas do meu boné novo.
Aquele carro precisa de um amigo que o leve no lava rápido urgente.

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Por falar em lava rápido, estou fazendo freela de social media para um. Se estou me dando bem jamais saberemos, o esquema é meio distante, mas funciona bem.

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O cara da pizza veio fazer entrega fumando um eight e acho que esse foi o ponto alto do meu dia.

SAC da droga e perca o medo de dirigir

Dois causos, porque a vida, amigos, sempre volta ao normal.

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Dois amigos meus estão afastados das drogas há uns bons seis meses, pelo menos. E isso é muito sério, não vou fazer a piada padrão do CQC e dizer que eles deixaram de ouvir Calypso. Eram drogas, mesmo, substâncias ilícitas que podem levar à prisão ou a uma forte dependência química.

Daí que um terceiro conhecido liga em casa ontem, 23h30 me perguntando se sabia outro telefone de um deles, porque havia ligado e nada. Respondi que só sabia aquele número mesmo e faz tempo que não o vejo etc. Dou o telefone do outro amigo. Ele retorna e diz que ele não está em casa.

E é quando eu descubro.

– Po, zuado, mas ele nem tem mais celular – digo naquela vibe, ‘porra, mano, não posso mais te ajudar, se vira!’
– Sério? Ele transformou o celular em pedra?
– heheh, pode crer. ¬¬
– Então, velho, é que eu queria um esquema pra pegar um papel
– Ah, é foda, mas então…

E essa é a história de como meu telefone de casa se tornou uma central de relacionamento para viciados. Isso sem contar minha inabilidade para perceber que o cara queria pedir drogas para dois amigos que estão se esforçando no level hard para manter a sobriedade.

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Vindo para o trabalho hoje, na avenida perto de casa, a mulher do carro da frente pisa no freio como se estivesse à beira de um precipício e quase me faz voar pelo vidro na tentativa de não encostar no carro dela.

Se eu pelo menos a conhecesse, ela teria acesso à minha aula psicológica para novos motoristas que consiste na única frase: “dirigir é a mesma coisa que andar na rua, você só não pode esbarrar em ninguém”.

Ando vendo muita gente dirigindo devagar e só pode ser uma das duas alternativas: ou (a) estou sempre muito atrasado e querendo todo mundo fora do meu caminho ou (b) meu bairro se transformou numa vila para auto escolas clandestinas “perca o medo de dirigir” style.

Diga não às drogas

Estava eu ano passado num show na quadra da Peruche, com o From.

Na fila, no meio de um desses small talks marotos com dois caras que estavam na nossa frente, um deles me solta ‘ah, mano, essa molecada de hoje tá perdida, é só funk, só droga, não tem mais aquilo de antes, entendeu, de curtir o som, ficar tranquilo, com seu pessoal, tals, os cara só quer saber de fumar, cheirar… não vira’. Continuamos a conversa até entrarmos e nos perdermos numa humilde multidão.

DJ KL Jay tocava uns clássicos enquanto eu esperava com o coração inquieto a entrada do show principal. Tomávamos uma cerveja inocente, falávamos alguma coisa sobre como a cena era forte, mesmo que descentralizada, não nestes termos, uma vez que ‘descentralizada’ não é uma palavra que você consegue falar quando está bebendo. De repente, malandrílson da fila passa pela gente frenético, pára com uma garrafa de catuaba e fala:

-Oooo, manos, trombei uns camaradas meus ali, vamo lá?
-Não, velho, tamos tranquilos, vai lá.
-Ah, demoro, mas aí, eles tão com vários pinos, se quiserem dar um ‘rata’, só chegar, firmeza, família? (i.e ‘temos cocaína, se quiserem usar, venham comigo’)
-heheh, ok.

Só pra ter certeza de que não tinha bebido tanto assim perguntei pro From se aquilo era verossímil, se o cara tinha realmente falado que odiava drogas e depois veio nos oferecer, destruindo em segundos sua imagem pré-estabelecida de crítico da juventude. Poderia aqui pontuar uma extensa lista de fundamentos morais que ele infringiu, mas não, afinal, ‘quem sou eu pra falar de quem cheira ou quem fuma?’. Essa é a crítica insider, um novo e inesperado mercado profissional pronto para decolar.

Ou não.