Quando crescer quero ser a Amazon

Recebi uma lista dessas com comentários de clientes da loja. O cara que mandou teve o inacreditável trabalho de separar os 3095 pareceres em níveis de sensibilidade que incluíam “atraso de entrega”, “mau atendimento”, “preço do frete” & shit. Aí, claro, os filtros que me chamaram atenção imediata eram “nunintendi” (hype doTeletube?) e “bobagens, desconsiderar”.

O filtro “nunintendi” trazia um texto sobre mensagens subliminares com o número da besta numa piscina infantil de 666 litros. Fair enough. Alguma falta de coerência e neurose religiosa pode acabar com a dignidade que resta às pessoas.

Mas era no filtro “bobagens” que estava o plot twist deste texto. O cliente falava sobre um conversor digital. Começou explicando que a imagem é realmente boa, apesar disso não caracterizar nenhum mérito, já que a ÚNICA função do aparelho era essa. E então ele diz que o conversor tem poucas facilidades, liga e desliga sozinho, esquenta muito, o teste de paciência que é usar o controle remoto etc. Críticas simples, inclusive bem escritas em detalhes. Se eu fosse comprar um conversor digital no site, gostaria de saber que tudo isso acontece com o aparelho. Mas, óbvio (nas empresas de e-commerce), emails como esse que denigrem a imagem do produto acabam sempre no limbo das memórias coletivas e back-ups de e-mail.

Uma das premissas de QUALQUER loja de e-commerce que abra suas portas é se parecer um pouco com a Amazon. Seja na qualidade dos textos ou apenas no botão de comprar com um clique só. O que ainda não foi descoberto é que a Amazon só é a primeira do mundo porque trata seus clientes como usuários de uma plataforma colaborativa de idéias e experiências em que se contribui criando reviews de produto por texto ou vídeo. Óbvio que tudo vai ser avaliado antes de ir pro site, mas se você der uma olhada na página do Kindle, por exemplo, vai ver que as pessoas falam abertamente sobre o produto, comparam, contradizem os textos publicitários, fazem do cu sanfona para contar sua história e fazem melhor para que ela apareça no site.

Esse é um problema cultural que envolve vários lados. Na Amazon, acima de tudo, o review de um cliente é avaliado pelos outros clientes, por isso chamei de “plataforma colaborativa”. É esse o mote que pode fazer o cara escrever algo sensato e deixar de lado frases soltas pejorativas que não acrescentem em nada. Isso permite que o cliente se esforce em escrever sua história da melhor maneira possível mesmo que denuncie a porcaria que é o tal aparelho.

Ainda assim, as grandes lojas de e-commerce nacionais possuem uma uma cultura de mercado que trata o consumidor como um núcleo aberto de onde se pode extrair dinheiro e não como a parte mais importante do processo de venda. Se o cliente achar o produto terrível e fake, ele é que não deveria ter comprado em primeiro lugar. Sabe, ignóbil assim? É jogar nas costas do público toda a deficiência dos aparelhos e fazer o cara se cansar em tentativas telefônicas para o atendimento.

Isso não é algo tão novo de se pensar ou tão complicado assim, o grande problema é que essas críticas, por mais construtivas que sejam só aparecem no site quando são positivas para a marca ou para a loja. Na cabeça desses mestres do varejo virtual, o cliente precisa acessar e ver apenas o que é bom no produto, se limitando a vasculhar o Reclame Aqui ou alguns fóruns confusos (no caso de aparelhos eletrônicos). As críticas ele guarda pra enfiar no rabo para as redes sociais, blogs e divulgação negativa boca a boca. Que é exatamente nosso limbo natural onde se perde todo esse conteúdo colaborativo que a Amazon tanto valoriza.

<-update em tempo-> Claro que depois de algumas trocas de e-mails, incentivadas pela chefe, o post rendeu mais do que eu mesmo poderia esperar. Rendeu debate, idéias e novas descobertas. Soube que o cara que mandou esse email está mais empenhado do que eu imaginava e que as idéias por aqui andam batendo muito. =)

Life is Life

E, bem amigos, foi só agora que eu, trabalhador otário honesto desse mundo injusto, ao ocultar a barra de tarefas do Stumble Upon, perceber que estou sem comer há pelo menos 12 horas e olhar para o relógio do escritório que marca 22h03, descobri que chegou o final do ano e para nós, que vendemos produtos desnecessários que as pessoas compram como mariolas para esquecer a merda das suas vidas que trabalhamos com e-commerce, o mundo torna-se um lugar menos sadio e respeitável.

O ano inteiro é esse terror psicológico, mas em dezembro o negócio aperta seu cérebro como um vírus, invade cada centímetro de decência que ainda existe em você e faz com que você desista dela (lembre-se, eu entrei às 10 da manhã, são 10 da noite e eu ainda estou por aqui). Mais do que isso, faz você querer o começo do ano novamente, um ciclio desnecessário que não se pode interromper. Ao menos não tragicamente.

Portanto nos vemos, entre uma transpiração ou outra, quando minha cabeça funcionar durante os dias que se seguem.

A imagem é do Graphic Design Blog

Sou E-Commerce webwritter (Redator Web)

Imagine uma loja qualquer que venda produtos quaisquer. Além de ter representação física, essa loja tem um site de comércio eletrônico que vende seus produtos e um setor comercial responsável pela compra e venda desses produtos para os consumidores da internet.

Cada um dos produtos comprados pelo setor comercial para a venda no site precisa estar em uma página com título, descrição do produto, texto de venda, galeria de imagens, preço e demais informações. Porque quem compra pela internet precisa saber tudo sobre o produto que não está em suas mãos. Certo?

Digamos que essa loja tenha 10 categorias (esportes, cine e foto, eletrônicos, informática, essas coisas) e que o setor comercial responsável por cada categoria trabalhe com pelo menos 10 marcas diferentes que trabalhem com 50 produtos diferentes.

Sim, muitos produtos.

Logo, precisamos de gente para colocar essa informações, imagens e textos no site. Entra o meu setor: Produção/Redação Web. Nós cadastramos em um portal administrador do site as informações que vão para a página de cada produto, com sua devida foto e suas devidas especificações. A câmera Compact 102 preta da Agfaphoto precisa de um cadastro, a câmera Compact 102 vermelha precisa de outro.

Então, temos uma grande equipe muito unida e também muito ouriçada para executar o serviço braçal.

Esclarecedor, não?

É, eu sei que não.

Bem, sabe quando um funcionário sai do estoque com um carrinho cheio de produtos, chega numa prateleira vazia e vai encaixando tudo? Eu faço isso, mas na internet.

Um dia a humanidade vai entender.