Grandes questões da humanidade #001

Você está sentado esperando uma moça entrar na sala e lhe fazer perguntas sobre os lugares em que você trabalhou nos últimos anos, como você conheceu a empresa, enquanto você responde assistindo ela jogar os cabelos e bater a caneta na mesa prestando atenção como se todas aquelas informações vazias sobre como você se esforçou na vida curasse os males da alma. Até que então, ela deflagra a pergunta que estreia mais este quadro aqui no caldeirão esta série de posts despretensiosos acerca de assuntos aleatórios e praticamente sem função social:

Como você se imagina daqui a 5 anos?

Bem, moça veja bem, sentado numa mesa como essa respondendo uma pergunta como essa é que eu não gostaria de estar. Na verdade, se eu ficasse conjecturando qualquer otimismo sobre meu futuro eu sairia perdendo, uma vez que, veja, a vida nunca me sorriu o suficiente para que eu não precisasse ter de conversar sobre meus empregos anteriores numa salinha como essa.

Digamos que eu aceite o seu jogo e queira lhe dizer sobre novembro de 2019, carros voando, telefones-implante, talvez um dropbox ilimitado. Um mundo diferente, uma guerra diferente, gente diferente falando diferentes baboseiras sobre assuntos sem valor. Eu me imagino vendo o mundo com essa mesma adolescência que Deus me deu, querendo apenas uma conversa sincera que me tirasse do tecido da realidade às vezes, um violão manero, meu pequeno home estúdio e uma felicidade constante de poder chegar na alta cúpula e entrar sem pagar simpatia, como dizia o brown já quase duas décadas atrás, mas não me entenda errado, por “alta cúpula” eu quero dizer aqueles desconhecidos que sabem exatamente do que precisam pra viver e não a Ivete Sangalo.

Possivelmente pouco ou nada dessas coisas vão acontecer, porque a vida não evolui conforme os anos que vão passando então poder ser que eu consiga qualquer coisa que eu disser nessa entrevista em um ou dois anos ou pode ser que eu jamais consiga e nada disso quer dizer que fracassei, mas quer dizer que mesmo sem ter tudo o que quero, eu consegui chegar a este mesmo dia cinco anos no futuro encontrando formas de me sentir menos derrotado em comparação com o mundo.

O mais provável mesmo é que eu esteja me lembrando desse dia cinco anos atrás e solte um semisorriso com um ar de inexistente superioridade e diga pra mim mesmo: azideia.

No more Hawaii Five-0

O amigo André Maleronka me parece um grande fã de The Wire. Eu, com a primeira temporada quase enferrujando em casa, estava sem vontade de assistir e quase deletava antes de levantar a bola uma Twitter se alguém havia visto, perguntando, basicamente, se a tal série não se passava de outro CSI, porque essa bolha de séries policiais parece não enxergar limites.

Então ele me disse pra ver que era sensacional, mas só me convenceu mesmo depois de mandar essa entrevista da revista Vice com David Simon, o criador da série.

E abaixo, a parte mais sensacional, embora desse pra quotar a entrevista toda:

Me parece que as pessoas querem ser especiais, únicas, e o lance shakespeariano discursa isso.
Isso! Vamos celebrar a mim e a maravilha que sou. Não é sobre a sociedade. Os gregos, especialmente os atenienses, eram consumidos por questões sobre o homem e o estado. Eles deram cicuta para Sócrates porque as sua ideias eram antiéticas em relação às noções deles de estado. Olha, isso, de qualquer maneira, é totalitarismo mas para ele, ele era cínico em relação à democracia e um iconoclasta em relação aos princípios democráticos. Isso atingiu o âmago do pensamento grego. Foi algo do tipo, “Não mexa com isso”. Agora, o que foi exaltado e o que consome o entretenimento norte-americano é o indivíduo sendo maior do que a instituição. Quantas vezes iremos assistir a uma história onde alguém…

Se rebela contrariando as expectativas?
“Você não pode fazer aquilo.” “Sim, eu posso.” “Não, você não pode.” “Eu vou te mostrar.” E no final ele é reconhecido só como um rebelde de bom coração com a justiça ao seu lado, e eventualmente a cidade percebe que dançar não é tão ruim. Eu posso inventar milhões deles. Essa é a história que queremos que seja contada sem parar, e sabe por quê? Porque em nossos corações o que nós sabemos sobre o século XXI é que a cada dia vamos valer cada vez menos, não mais e mais.

Valer menos enquanto povo, você quer dizer?
Enquanto seres humanos. Alguns de nós vai ganhar mais dinheiro e valerá mais. Existem pessoas destinadas à celebridade, riqueza ou poder, mas o norte-americano comum, a pessoa comum no mundo, no planeta Terra, vale cada vez menos. Esse é o triunfo do capital, e aí que está o problema. Você olha para isso e pensa a que ponto chegamos, e é para lá que estamos indo, e é tipo, “Pode me contar outra história de ninar sobre como as pessoas são especiais e como cada um de nós é importante? Você pode me contar uma merda dessas?”

Análise de mídias sociais, 2007

Lembro que, numa entrevista desencanada numa dessas empresas que você vai conhecer imaginando o que passa na cabeça das pessoas quando te vêem entrar de calça larga e camisa básica, eu entrava numa sala pequena, parecida com aquelas redações antigas de filmes, cheias de calhamaços de papel, mesas decoradas com fotos de crianças e provavelmente alguma pistola ilegal escondida numa gaveta trancada entre antidepressivos e cartas do Serasa amassadas.

O lugar era legal, mas eu pensava ‘conhvenhamos, amigo, olha pro cara que veio de terno riscado e pasta na mão duelar uma vaga com você nessa assessoria, não viaja’, outro daqueles pensamentos desnecessários em que a gente se põe pra baixo e exalta qualquer fulano sem atentar pra besteira em vários níveis que é ir de terno numa entrevista (Alô, amigo Xuxa, se um dia ler isso, essa é pra você!).

E aí que a moça com marcas de expressão que só 20 anos de carreira em relações públicas podem oferecer decidiu nos colocar lado a lado e discursava algo sobre sermos recentes formandos de universidades pagas quando começou a perguntar onde tínhamos estudado, o que estávamos lendo (na época eu sempre respondia ‘O gato preto e outras histórias’, com um desinteresse padrão para entrevistas, sim, podem me julgar). A pergunta principal era sobre quais sites a gente passava mais tempo na internet. Imaginei que fosse uma dessas pegadinhas. Uma dessas que você não precisa responder. Coisa invasiva. Tive de responder Twitter, Orkut e uns blogs e pensei ‘ohh, come on, GTFO!’ tentando acreditar que o carinha do terno realmente acessava o eBay com frequência.

Em seguida, uma prova. Cinco questões sobre assessoria de imprensa, cinco sobre CONHECIMENTOS EM INTERNET (Ahh, 2007, essa semana de 22 das mídias sociais). Daí que, respondi três perguntas de assessoria do mesmo jeito que enrolei a professora de psicologia por um ano inteiro. Você escreve o suficiente pra ela achar que você sabe o resto da resposta sem precisar ler, taí, revelado o segredo. E só fiz o que realmente sabia, a parte sobre internet respondendo perguntas genéricas sobre o futuro das redes sociais. ¬¬

Terminamos juntos, praticamente, eu e o Mr. Pink, o Godfella barato. Ela pediu que eu descesse para o hall que depois me chamaria. De volta à confortável poltrona, já ciente que não teria chances, só percebi que havia algo errado quando pensei em pegar a IstoÉ Dinheiro pra dar uma folheada. Não, eu não devia estar ali, nunca gostei do trabalho de assessoria de imprensa, embora saiba respeitar quem tem culhão suficiente pra puxar o saco de clientes 24/7. E então levantei, dei três passos, saí do tapete, quando ela desceu se despedindo do cara do terno.

E eu, com aquela feição de ‘OK, vamos terminar logo com isso’ não mudei de expressão quando ela pediu pra conversar no sofá da recepção (a rima aqui não foi intencional). Por onde iríamos começar? Talvez dizendo que eu não era o perfil da empresa? Quem sabe mostrando os pontos positivos do cara do terno e as respostas erradas que dei na prova. Tudo desnecessário, ok, vou prestar atenção em você:

– hm.. vamos lá, você nunca trabalhou com assessoria mesmo, né? – Pois é, não… – tentei emendar mas… – Sua prova, é, eu percebi.
– É, eu nunca me interessei muito, acho que por causa de ter que tratar com clientes e eu prefiro… – ao que ela me interrompe (essa Norma é a versão real da personagem da novela, sério)
– Mas sua prova de internet, cara! – ela batia na folha com a intensidade que um nóia bateria um saquinho cheio de cápsulas de cocaína
– er.. sério?
– Sim, não precisávamos de um guru de assessoria, mas sim de um cara que entenda esses nichos, essas redes, como usar as ferramentas, um cara dessa galera.
– er… bom, eu poderia até dizer que… – a pompa começava a dar sinais
– 350 (isso, trezentos e cinquenta) reais por mês.
– OK, segunda-feira estou aí.

Aversão à entrevistas

Antes eu achava que, sei lá, não tinha terminado direito o curso de jornalismo por conta do meu TCC galhofa em 2006, que apelidei como o ano que não existiu. Um dia eu conto melhor os porquês.

Sempre guardei todos meus escritos, meu textos do último ano, com anotações sobre anotações, hierarquias esquisitas, esqueletos de um bom livro que nunca exisitu, um calhamaço que hoje se situa dentro de uma mala de viagem, em casa. Um dia eu tiro uma foto.

Mas aí, passada a paranóia, vi que não era exatamente isso. E lembrei de toda vez que tento uma entrevista com alguém, envio um e-mail agradável perguntando se fulano gostaria de ser entrevistado para o site, o blog, o zine.

Sempre, a repúdia.

Nego não consegue dizer: “porra, velho, até que teu zine é maneiro, mas não sei muito o que dizer numa entrevista, saca? Acho que vai ficar meio piegas e tudo, e tal. Nego prefere o silêncio.

E se tem uma coisa que eu não sei fazer é responder e-mail cobrando uma resposta decente. Talvez seja esse o princípio moral do jornalismo: Encher o saco até que o entrevistado responda tudo puto da vida. Um dia eu consigo.