Sozinho e inimigo íntimo

Eu geralmente sou um cara amargo pra mim mesmo. Um cara que se julga, que se aniquila, sozinho eu sou o meu inimigo íntimo. Escrevi tão pouco aqui no ano passado por ter se tornado uma espécie de portfolio sobre as coisas que iam bem, mesmo quando não iam (maquiar e ostentar é premissa para portfolio, note). E menti diversas vezes pra mim mesmo, tentando levar as coisas de um jeito mais natural e cômodo. E ainda quando reclamei da vida, foi sempre tão vago que eu mesmo não me reconheci.

Comecei 2014 vencendo partidas de 69 (jogo de dominó individual mais dinâmico/diver, uma febre) e ouvindo as melhores do Raça Negra com amigos que considero como família, que mudam a minha vida constantemente. Amigos os quais consigo chorar na frente sem precisar me explicar e que me seguram quando tudo dá errado. Amigos cujas piadas nos são tão internas e incrustadas que, de fora, muitas vezes não faz o menor sentido. Passei o final de ano com muitas das minhas referências pra vida, basicamente.

Comecei o ano com esperança.

Eu vinha escrevendo coisas num caderno preto de lamentações que comprei justamente pra isso, uma quase biografia de tudo que me atormenta na vida. Desisti por não ter mais a força de alimentar esse tormento (essa frase é influência de Raça Negra mesmo, provavelmente, estou ouvindo o dvd, me julguem). Esses escritos devem ter um final digno, algo como queimar na churrasqueira enquanto eu assisto e encho as casas vizinhas de fumaça.

Me parece hora de parar com toda essa auto encheção de saco. Acho que preciso apenas tratar bem quem me quer bem, essas fitas. Desistir de entender quem mente tanto a si mesmo. Porque, afinal, minha vida é essa aqui, sabe. E a vida é bem simples. Tenho a meu lado a predisposição de ser sincero com quem amo, de evitar o que detesto e viver a minha vida com a simplicidade que der, sem levantar bandeira de merda nenhuma, só estar vivão e viver.

A primeira vez que me olhei no espelho este ano, me reconheci. E isso não quer dizer nada sobre como me sinto depois de tanta perda no ano que passou, quer dizer que entendo que devo aos poucos esquecer quem era e voltar a ser quem sou (eu achei que era frase de Fernando Pessoa, mas parece que é de facebook mesmo). E mesmo com toda a dificuldade em aceitar tanta merda, é preciso estar ciente pra saber atrás de qual prejuízo correr.

Tudo o que quis dizer com tudo isso é: vivam bem e dêem mais valor ao Raça Negra.

Rdio Jives, “Esperança” nov/13

Comecei a usar o Rdio na esperança decrépita de encontrar um grooveshark mais tranquilo e menos lento de usar. Tô curtindo tanto que resolvi fazer a listinha mensal do que mais toca nestes fones de ouvido baratos. Espero conseguir continuar uma lista mensal com essas coisas.

Por falar em esperança, novembro tem sido um mês de esperança. Da vontade de acordar cedo e ver as portas dos comércios abrindo. Embora ainda seja um mês de quartas-feiras pesadas, de lembrar tudo o que tá errado na vida, as coisas parecem um tanto melhores.

Claro que a listinha ajuda.

2011, um brinde

Reveillón sempre traz de volta aquela sensação da sua tia do interior que você gosta tanto, embora ela cozinhe porcamente. Então ela te oferece o clássico bolo de laranja grudento e doce demais, você diz que está uma delícia, mas não quer outro pedaço.

Todos nós temos sonhos, desejos, fazemos promessas, queremos uma vida perfeita. Listas de desejo para o ano seguinte tendem a fracassar, embora todos as façamos. Emagrecer, estudar mais, parar de fumar. Queremos todos nossos próprios shows de Truman, nossas dramédias particulares, que o mundo gire em função de nossa vida, não o contrário. Don’t get me wrong, o errado nisso não está em querer ou desejar alto demais, mas em não enxergar no espelho exatamente quem somos e o que precisamos para que nossa vida melhore significativamente.

O afastamento da infância me criou sérios problemas de ordem psicológica e comportamental. Substituí a vergonha de conversar com as pessoas por dificuldades de convívio, sublimadas pelo post rock e trilhas sonoras instrumentais de filmes; troquei também alegrias de jogos lúdicos pela rotina de escritório. E também tem isso de perguntarem o que queremos ser quando crescer.

Não viver o que queríamos ser quando crescêssemos é de uma intrincada melancolia. É isso que gera pessoas vazias, enfeitadas e escondidas em seus avatares. Ter o conhecimento de causa, saber que não fui o astronauta, nem o cientista com um laboratório maluco me fez perder a confiança em muita coisa, me fez pensar que o mundo não foi feito pra gente como eu. Mas para tudo, diria Einstein, existe um meio termo (ele diria que tudo é relativo, mas vamos lá).

Uma música um tanto desconhecida diz, ‘Sim, a vida é maior que nós‘. Podemos contar com inúmeros momentos felizes, sempre, por mais passageiros que eles sejam. Costumam dizem que é isso o que ‘dá jogo’ à vida. Estar com seus amigos, lembrar de seus pais, olhar o futuro com esperança e incerteza, é o que nos faz seres humanos. E a felicidade está nesse limbo, nesse meio termo, na linha tênue que separa nossas insatisfações do caminho correto, da vida que esperamos.

A virada do dia 31 para o dia 1º significa então o momento da conclusão do caminho, ou da continuação do caminho, não importa, desde que seja um inevitável rumo à mudança.

Sua tia vai sempre tentar melhorar seu bolo, tal qual o tempo vai sempre tentar melhorar o ano seguinte. E décadas se passam assim. Vão embora deixando algumas saudades e lembranças de outros sabores ruins que gostaríamos de esquecer. No final de tudo sigo dizendo que gostei, embora não aceite mais outro pedaço.