Classe de 2006

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Meu reencontro com o pessoal da faculdade foi mais feliz do que eu imaginava que seria. Semanas antes já me imaginei cantando classe de 97 no caminho de volta, “prefiro ter na memória os dias em que fomos iguais”, chorando pela sensação de derrota social que estes eventos podem proporcionar numa cabeça já repleta demais de overthinkings.

O que aconteceu lá foi apenas a certeza de ter amigos distantes de verdade, mas ainda assim, amigos o suficiente. Me espanta a quantidade de histórias das quais não participei, happy hours que não frequentei quase que exclusivamente por ser como sou. A única péssima sensação foi a de que eu deveria ter encontrado mais essas pessoas todas nestes anos.

Sim, 10 anos atrás éramos outras pessoas, mais idealistas, pós adolescentes, ensimesmados enchendo a cara no bar de quinta feira. Hoje somos pessoas adultas, profissionais, com famílias novas e histórias melhores pra contar.

Tragic scenes of life: A merda do meu TCC

O ano, 2006. A faculdade, Unisa. Tinha acabado de terminar um namoro de pouco mais de um ano com uma mina que estudava na minha sala e estava no período traumático em que se recolhe as misérias no silêncio e no riso contra vontade. Último ano de faculdade, isso é também preciso dizer. Recentemente demitido do estágio, outro fato importante desta trágica historieta.

O trabalho de conclusão de curso tive que fazer sozinho após acabar o relacionamento. Optei pela monografia clássica, cujo maior problema eram as regras da ABNT e o contato do Mr. Manson, uma vez que a parada se tratava de blogs.

Sem contexto definido, li muita coisa entre conclusões de curso, estudos, livros de cibercultura, mas nada disso me entregou de bandeja a base para tematizar meu texto. Acabei escrevendo sem rumo, separei os capítulos, fiz um trabalho de pesquisa digno, ao menos. Se tivesse tempo, Deus sabe, teria feito um compêndio sobre a blogosfera mundial.

E o mundo se degladiava dentro da minha cabeça.

Na hora de apresentar, gravei um CD com AC/DC, Explosions in the Sky, Interpol, New Order, Mogwai e God Speed You! Black Emperor, músicas de background para poder falar tranquilamente sem perder o foco e tal, me arrumei mais decentemente que no resto do ano, chamei o From e o Regino, que me deram o conforto de suas presenças.

Subi no palco, discursei para três professores que me olhavam – e se entreolhavam – com uma indiferença que jamais vou esquecer, enquanto minha orientadora (até então não mencionada no texto pois falou comigo apenas uma semana antes da apresentação) tentava claramente entender o que eu dizia. Terminei. Parei de tremer e esperei alguma observação, crítica construtiva ou coisa que acalentasse o terror da oratória.

-Você fala aqui de interatividade, pode nos explicar um pouco melhor?
-Bom, interatividade é a relação entre o leitor e o produtor do conteúdo, o blogueiro, através de comentários, de citações e hyperlinks. São as possibilidades de aproximação entre o usuário e o público.
-Mas esse é um conceito vago, não?
-Bem, o conceito geral é esse.
-Não, interatividade para o tema do seu trabalho não é isso, interatividade é como o leitor lê o blog, como isso é facilitado, como, sabe… de que forma o leitor enxerga, como ele lê, como ele acessa o site…
-Também, mas isso tem mais relação com usabilidade, que não achei necessário abordar no trabalho
-Bom, mas tem uns erros de português também e…

O que testemunhou-se a seguir foi uma execução sumária de quatro anos de estudo e disciplina (deixei de frequentar o boteco ainda no primeiro ano). Fui taxado de iletrado, pouco dedicado e analfabeto digital. Minha orientadora, na sua vez de falar, desculpou-se por não ter exercido seu trabalho corretamente e tentou amenizar a fúria desregrada dos outros professores da banca, que comandavam o excrutínio.

Tirei um sete no trabalho, média que me garantiu o diploma e a participação na festa da formatura. Embora, desde então, eu considere como se nunca tivesse terminado a faculdade.

***

Nota: A professora que começou a me escrotizar publicamente em frente de todos os meus amigos, alunos de anos anteriores e inclusive da ex-namorada em questão, costuma me adicionar em suas redes de relacionamento e me convida para sites tipo Bebo e essas redes brasileiras que prometem porcamente ser os Twitter Killers.

“Luto por um mundo em que…”

Aconteceu comigo uma vez. Um amigo tentou me mostrar o caminho das pedras para encarar o período pós-faculdade de cabeça erguida. Acho que ele se esqueceu de que tinha terminado o curso dois anos depois de mim. Eu já sabia o que era o pós-faculdade e já tinha conseguido a minha cota de Valium pra conseguir dormir.

De qualquer forma, o cara tinha um plano: arrumar um trabalho decente pra pagar as contas sustentado por freelas em horários vagos e projetos promissores em que seríamos o Rupert Murdoch de nossas vidas.

E isso me lembrou outra ocasião, quando estava com uma jaqueta com alguns patches de bandas punk e um moleque no limiar de seus 13 anos puxa uma conversa sobre com-que-gangue-eu-andava. Depois de 15 minutos tentando convencer o garoto que eu não era o punk que ele sonhava encontrar e lhe contaria toda a história do Social Distortion, ele se vira pra mim e diz: “continua curtindo essas bandas aí cara, você tá fazendo certo”.

A vontade era responder: “Moleque, quando você nasceu eu já roubava Sonho de Valsa nas Lojas Americanas”. Ou então “Moleque, quando você nasceu eu já tinha visto duas Copas do Mundo”. Acredite, eu tenho em mente uma infinidade de variações destas frases.

Mas voltando ao assunto.

Lá estava eu, confiante que algo bom poderia realmente acontecer ao meu currículo (além do inglês intermediário e do curso de montagem e manutenção de computadores), frequentando palestras culturais, escolas de arte, bibliotecas públicas, envolvidão com aquele clima estamos-amadurecendo-as-idéias-pueris-que-tínhamos-na-faculdade e estava tudo bem. Mesmo. Aí vieram os tais projetos.

Éramos jornalistas, certo? Criaríamos a Caros Amigos do Capão Redondo. Brinks. Mas a idéia até que ficou razoável depois de numa reunião em que retiramos da cabeça do “chefão” a idéia de fazer 10.000 cópias SEMANAIS de uma revista com 240 páginas.

E então, o mano me liga:

-Vamos entrevistar o chefe regional da igreja… whatever! temos que chegar bem CQC (!) tá ligado, na caruda, ele vai estar saindo do culto, você pega o gravador e vai atrás perguntando o que ele acha das atuais acusações de lavagem de dinheiro na igreja.

-Demorou… (bocejo) onde a gente se encontra?

-Então, mano, é que hoje é aniversário da minha irmãzinha, não vou poder, mas vai lá e já era, tamos com você.

Faltou dizer… “e relatório na minha mesa às 17h. Abs!”

Se você quer mandar em alguém, você precisa assumir que é apenas o executivo por trás da idéia, o “chefão” e não vai arredar o pé para qualquer pesquisa em campo porque é insensato alguém de tamanha genialidade se misturar à raça. Ou seja, você precisa deixar claro: o trabalho é pra vocês, medíocres. “I’m the boss, I make the jokes”, como diria o Sheldon.

Meu ponto é: mesmo se você assumir toda essa sua megalomania, você ainda pode correr o risco de ninguém querer trabalhar pra você, entende? E não, eu não te entendo. Quer as glórias de mão beijada? Cria um fake do Gugu Liberato no Twitter e vai ser feliz.

Não dou valor às pessoas lutam por sei lá, salários mais altos, uma vida melhor e não têm a decência de dar a cara à tapa, ou de dizer: “Aí, Folks, o barato é comigo agora e eu vim pra brigar”. Talvez seja por isso que não temos mais grandes heróis ou grandes prêmios Nobel. Ou grandes revistas em bairros pobres.

Prezo aquele maluco que vivia reclamando da gerência do condomínio e certo dia desceu com um amplificador e um microfone na reunião dos moradores e começou a cagar suas regras contra a síndica vigente. Ele não precisa estar certo. Voltaire, que também foi meio maluco, disse mais ou menos isso “posso não concordar com picas do que você diz, mas pelo seu direito de dizê-lo, tamo junto!”.

Luto por um mundo em que as pessoas desperdicem menos tempo falando, planejando e carregando meus textos com infinitas possibilidades de gerúndio.