Das descobertas

Houve, enfim, uma semana exaustiva. Descobri que o criador de Sons of Anarchy é mesmo cara que interpreta o Otto (certamente o personagem mais comprometido da série), um maluco encarcerado que acaba se ferrando de todas as maneiras que você possa imaginar, tudo por sua crew. E descobri também que o cara é casado com a atriz que interpreta Gemma, veja bem, outra personagem extremamente incrível desta série.

Ok era só uma empolgação momentânea, eu sei.

Daí estávamos no escritório falando sobre como João, um dos meus amigos desde os tempos de escola, que tocava exemplarmente “Hoje a noite não tem luar” no violão, nos idos da oitava série, talvez. Fomos ver o vídeo da Legião Urbana, obviamente (produtividade, não trabalhamos) e lá estava Renato Russo, no acústico falando sobre “aquela dos menudos” antes de começar a música. Sim amigos, descobrimos que esta linda canção é uma versão para uma música dos Menudos (e se você já sabia disso me perdoe o espanto deste que vos escreve).

E na sexta-feira, descobri que a Glacial é certamente a melhor das cervejas de milho. Os amigos mestres cervejeiros (inclusive João, o amigo citado acima, apresenta o ótimo Malte Show, fica aí minha ~publicidade) vão dizer que é-tudo-a-mesma-merda-para-mano, mas só quem tem o paladar devidamente escrotizado por tanto tempo consegue notar as nuances de uma fábrica mal instalada e de cada pequena barata que aquela caixinha encontrou até chegar à minha geladeira. Nojento, você diz? Eu chamo de exótico.

Até então havia sido já uma semana de ótimas descobertas, amigos, mas o futuro me sorria como quem dissesse “segura aí, champ, que vem coisa melhor pela frente”.

Foi então que descobri o amor neste garotinho filho de Camila e Danilo que certamente devem ler isso um dia desses quando a criança parar de chorar, embora Fabrício seja tão bonzinho quem nem deva estar dando tanto trabalho. E eu descobri uma motivação linda em uma criança, uma dessas coisas que a gente não imagina que vá acontecer. Lá estava eu deixando as rosas do lado de fora do quarto do menino, apertando de leve esses pezinhos pequenos, como naquele episódio de How I met your mother em que eles passam o tempo todo com uma meia de bebê dizendo “sock” com voz de criança e repensando por um momento toda uma existência baseada em fechar bares e cometer atrocidades sociais depois das duas horas da manhã.

Da vida, atualmente, eu só quero a coragem de segurar esse bebê no colo e deixá-lo dançar esse pequeno arrocha.

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Desrebelar-se


“Vêm os dias, vão os anos. 
Vivendo o dia a dia, mais cinzento a cada estação. 
Indignado com a injustiça 
Firme como o aço 
Moldado no fogo, venço o mundo 
Inquebrável, cuspo sangue. 
Vêm os dias, vão os anos, de jovem a maduro sem se prostrar 
Senhor do tempo 
Rugas do sábio 
Vêm os dias, vão os anos 
A casca se perde 
Cicatriz é prêmio 
Mente jovem 
E o espírito vivo.”
–O Cúmplice, Cronos

Apareceu um menino, enquanto eu afinava a guitarra, antes de começar a tocar. Ele insistia pra tocar depois da gente, última banda da noite, porque eles eram de são josé e estavam de passagem, eram punks, eram anarquistas e a favor de causas. Eu já tinha aceitado antes dele começar a dar outros motivos, mas ele ainda disse que seria uma satisfação imensa, que a galera ia curtir, que eram só três músicas, “ok, cara, agora calma”.

Quando terminei de tocar, passei a guitarra pro menino que disse a outro pra “chamar os punks lá” e, por milagre, uma pequena multidão de meninxs punks se arrumou dançando e cantando as músicas, gritando “Êra Punk” (uma espécie de “Viva!”) e sorrindo. Eu estava achando tudo meio insistência demais, o baterista tocava todos os componentes da bateria ao mesmo tempo o que fazia parecer que ele estava batucando numa carteira de escola. Tocaram cinco músicas, seis, acredito, por mais insistência de outro punk com um chapeuzinho que se destacava dos demais chapeuzinhos punks em questão.

Daí eu comecei a ver os caras dançando, as meninas dançando, gritando “Êra Punk” infinitamente, numa possível felicidade compulsória, cheia de bebida e ideais libertários. E pensei em mim, saindo de casa cansado, após sete horas de internet e depressão autoacusatória, colocando instrumentos no carro, pegando as cervejas de cachê, conversando sobre nada enquanto todo mundo ao redor fumava maconha, não tendo nada que me alegrasse completamente, a não ser A. ter reconhecido um cover que a gente toca da antiga banda dele.

Eu parei pra pensar que xs meninxs punks eram muito mais felizes que minha vida cheia de pequenas coisas sem direção. Eram bem mais felizes pogando e falando sobre a causa indígena, eram bem mais felizes bebendo uma garrafa dentro de um saco de pão. Imaginei um mundo em que tudo é novo, as questões sociais, a desigualdade, a revolta, o sistema, como seria novamente se rebelar por algo que você jamais sequer pensou em fazer. Eu fiquei pra trás, eu sempre fico. Senti um vazio imenso, como se nada mais valesse a pena, ou tivesse o mesmo sabor de verdade, eu senti o tempo fumegar pelos poros e me encher de uma névoa espessa como numa tirinha de jornal. Eu senti que não haveria qualquer palavra de conforto que destronasse a terrível sensação de se perder em algo que sempre foi completamente seu.

E foi a primeira vez em que eu pensei em parar.

Como a sexta-feira começou bem

Sabe aquele seu amigo que fica bravo porque você tá indo embora do rolê às 5h30 da manhã, já fritado? Aí, numa reles sexta-feira, você fica sabendo que o malandro vai ser pai.

Robson: caralho, você vai ser pai?
FYAH: vou mano, 1000 grau, hahahahaha
Robson: é brin-ca-de-ra, ahuahuuhahuauh, sério memo?
FYAH: é serio mano. se não tá nem ligado, é caraio!
Robson: que fita!
FYAH: fitassa!
Robson: porra, mano, nem conheço sua mina, huahuahua
FYAH: hahaha, nem eu a sua 😉
Robson: é quente =/
FYAH: vc é um lixo!
Robson: putaquepariu! mas e aí, tá firmão?
FYAH: to suave… felizão, voo hoje no 1º ultrassom
Robson: suave, então, parabéns, caraio! ultrassom! mano, que preza. Quantos meses?
FYAH: 5 semanas hahahahahahah, não to acostumado ainda
Robson: pode cre, nem to acreditando
FYAH: ninguem acredita