Ensaios de Férias

Daí você chega no trabalho e mudaram tudo. E você fica lembrando seus insights incríveis no chuveiro, com aquela euforia de que todo mundo vai ouvir suas idéias numa reunião cheia de risinhos de reconhecimento e cabeças confirmando tudo, olhares cínicos invejando seu júbilo, sinfonias tocando Wagner nos seus ouvidos ao sair da sala e um ‘belo trabalho, Robson’, sinal de gratidão, cereja do bolo.

Apesar de tudo, não foi nada tão assustador assim e basicamente vai continuar tudo a mesma coisa, por enquanto. Eu é que estava com planos demais na cabeça.

“É próprio das pequenas almas soterradas sob o peso dos negócios não saber se desprender totalmente deles, não saber largá-los e retomá-los”
–Montaigne, Sobre a experiência.

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Finalmente terminei os Ensaios, de Montaigne. Assustadora e vergonhosamente, o primeiro livro do ano. Quase 600 páginas de puro êxtase filosófico sobre tudo o que a gente teme ou evita pensar. Aspas de Sêneca, Ovídio e vários outros clássicos que deveria ter lido há mais tempo, grandes citações, um volume da Companhia das Letras que me orgulho de guardar todo marcado com post-its e páginas amassadas, trademark dos vagões cheios na linha 9 da CPTM.

“Os Essais são um auto-retrato. O auto-retrato de um homem, mais do que o auto-retrato do filósofo”. Marquei isso na Wikipédia enquanto tentava definir minha sensação ao terminar o livro. E foi isso, exatamente. Fica nítida também a evolução ou amadurecimento do pensamento de um homem que troca seus primeiros escritos ferozes e cheios de vida da mocidade (olha, “mocidade” é uma palavra bonita em extinção) por reflexões sobre cólicas renais e males da medicina ao envelhecer.

Como a vida, sempre.

‘So sorry, that’s over’

Último dia de férias é o domingo mais longo do ano. É aquele climão do final do Fantástico elevado a potências de valor infinito. Sou eu assistindo Filhos do Pai Eterno na Rede Vida com meus pais às cinco da tarde, abençoando água e tentando zerar o Google Reader sem usar o ‘Mark All as Read’.

Em um balanço geral, as férias cumpriram bem o propósito e tal. Mesmo não conseguindo dar ok em metade daquelas metas que tinha previsto, descobri que esse período que te pagam para cochilar de tarde e ligar na portaria porque a molecada está brincando demais do lado do seu carro, é também uma época para lembrar como era aquele tempo em que você voltava da escola, não tinha quase nada pra fazer e podia passar suas tardes comendo Trakinas com leite e vendo Um Maluco no Pedaço, Chaves, Chapolin e Malhação (isso explica muita coisa).

Outra descoberta dessas férias é a de que não existe mais saída para o trânsito da cidade de São Paulo. Esse pessoal que diz “daqui a pouco, até domingo de tarde vai ter trânsito” já está bem atrasado. Duas vezes eu tentei sair de carro, uma para Pinheiros, outra para o Centro. Ambas, às duas da tarde e sem qualquer sucesso.

Bem, acabou. Foram dias em que deu pra ver como funciona meu bairro enquanto eu não estou aqui. As tiazinhas mancomunam o editorial de fofocas que irá pautar as reuniões no banco da rua de noite, que só vejo quando passo ao voltar do trabalho. Deu pra notar também que essa galera sempre feliz caminhando no mercado terça-feira às duas da tarde são apenas desempregados formadores de alguma triste estatística.

E, por aqui, estamos de volta com a programação “normal”.

Ainda em férias

Uma semana para voltar de férias. Se isso aqui anda abandonado, tem lá seus motivos: quando não estou por aí pegando trânsitos mortais às 15h (sério), estou em frente à TV colocando filmes e séries em dia (na pior das hipóteses), ou compondo -e quem diria que um dia eu voltaria a falar assim.

Volto semana que vem e já desisti das metas. Como bem disse o Lipe depois da final do Paulistão, ontem, ‘a gente programa as férias todas e no final fica frente a televisão coçando e achando foda’. Faz todo o sentido, mesmo com uma programação do tipo Um maluco no pedaço, Todo mundo odeia o Chris, Vale a pena ver de novo etc.

Mas tem o MTB, que estou pensando seriamente em tirar, mesmo com os itens ‘acordar cedo’ e ‘pegar fila’ fora da lista do que fazer nas férias. E tem essa mostra de cinema suiço no CineSesc e CCBB (só a Denise mesmo), que parece ter alguma ou outra coisa legal, vamos ver. Não é o In-Edit, que perdi feio pras inconstâncias e leis de tempo-espaço, mas dá pra passar.

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Semana passada conheci o amigo Toninho Moura. Marcamos de ‘tomar uns bons drink’ [] no Ton Ton, em Moema, que estava fechado e, avaliando o contexto mais tarde, não era tão receptivo e acolhedor quanto o barzinho de esquina no qual passamos uma noite fria bebendo cerveja e trocando idéias sobre a vida, o universo e tudo o mais.

Conexões importantes essas, não? A gente vive achando que não vai conhecer as pessoas e de repente lá estão elas na sua frente com seus dogmas, seus conhecimentos literários e parecendo com o Danny de Vitto na medida em que você fica mais e mais embriagado. O cara é incrível, sabe de cada personagem de seus contos mais do que você conhece seus próprios colegas de trabalho, para dar um exemplo mais simples. Gente fina, desse tipo mais difícil de encontrar por aí.

Uma satisfação, mesmo.

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Lendo o texto do Leo sobre conhecer o pai da Sandra lembrei que volto a trabalhar na semana que vem. E segue aqui o raciocínio de como cheguei a essa lembrança.

Minha mudança de local de trabalho foi até agora meio conturbada e sem diretriz, saca? Primeiro mês no novo lugar conheci algumas pessoas, passei batido para várias outras por toda uma dificuldade de me adaptar a gente nova sem me exaltar, fazer piadas demais, passar por fanático religioso ou alcoólatra, essas coisas.

E agora vem as férias, quebrando todo um ciclo (não é uma reclamação, eu realmente precisava esfriar a mente que vinha num funcionamento corporativo contínuo desde 2009).

Espero, ao voltar, poder fazer as piadas certas, admitir meu cristianismo envolvendo ‘Deus, um delírio’ e dizer que bebo vodka com schweppes, que é um negócio socialmente mais aceitável que Caninha da Roça com Pepsi.

Que Deus me ajude. Ou não.

Status das metas descumpridas

Postei uma lista das metas das férias e já comecei mal ao perder a sessão dupla do in Edit na sexta talvez com os dois únicos filmes que eu gostaria de ver na mostra, um sobre o Lost Poets e outro sobre a cultura folk nos anos 60? Talvez.

Poderia descontar o problema dizendo que prefiro ficar em casa passando o tempo com qualquer outra coisa inútil, mas o fato é que eu tentei duas vezes e desisti depois de falhar miseravelmente.

Na primeira tentativa, eu iria até Pinheiros ver os preços de um pedal para guitarra, um teclado controlador e consultar a reforma da guitarra. Bem, digamos que eram duas horas da tarde e eu só consegui chegar no Largo da Batata às 16hpouco, desistindo antes de chegar na Henrique Schaumann, se é que alguém conseguiu chegar aquele dia.

Esse tópico musical eu consegui, uma vez que acabei comprando o controlador no sábado e vendo o preço da troca de captadores para a guitarra no mesmo dia, embora não tenha sido exatamente como eu esperava.

E então, na sexta, iria ao MIS, num workshop sobre produção de vídeo, aguçado pela quantidade de clipes que vejo e parecem não ter fio condutor, ou serem variáveis de uma câmera na mão e uma idéia na cabeça. Claro, o cara tem uma idéia deslumbrante, executa em duas cenas
e depois tenta enrolar os outros 4 minutos de vídeo com qualquer bobagem.

Quando percebi que não iria chegar a tempo do workshop, decidi ir até a Matilha Cultural onde ia rolar a sessão dupla e onde, num misto de mal entendidos com o dono do estacionamento, os horários da Denise e da sessão, acabou não rolando. Nem pelo torrent, o que é bem mais triste.

Pois os dois primeiros tópicos falharam, not a big deal, eu diria. Ainda sobram meu MTB, os westerns, o livro, o Insanity. Bem, talvez o próximo post eu fale sobre como desisti deles também.

Tudo das últimas semanas

Primeira noite sem preocupação de trabalho no dia seguinte. Férias, finalmente. Adiaram, não pagaram, mas cá estou eu em casa com minha “galera”, que se resume em uma pizza, uma garrafa de vinho, o HDMI, e uns 14 Lucky Strikes.

Não sei marcar exatamente o ponto em que as coisas pareceram mudar de lugar. Mas de repente tudo mudou, como naqueles clichês de pagode do Chrigor. Tem a ver com vir trabalhar mais perto de casa, eu sei, me reacostumar ao trem e sentir pena de quem precisa ir para o trabalho de carro, sem julgar, mas poder pegar o trem com sono e lendo aquele Montaigne foi meu grande acontecimento desse ano.

A semana conturbada do meu aniversário também ajudou. Entrou tanta coisa na minha cabeça que agora estou conseguindo filtrar o que deve ser útil manter por aqui. Só não tenho mais certezas. De nada. E nunca me senti tão bem a respeito de tudo.

Deixei de postar com frequência, mas preciso arrumar um jeito. Talvez quando terminar Friends (Estou na oitava temporada, o Joey está apaixonado e, olha, acho que vou ver tudo entre hoje e amanhã do jeito que isso anda).

E entrei no antigo blog da minha banda de seis anos atrás, lembrei de uma época que me achava o mais legal da banca por ser um poeta de versos sem sentido. Constrangedor lembrar dessas coisas. E não, nunca gostei de Legião direito.

Então, vá lá, as pequenas metas das pequenas férias:

  1. Ver três filmes no in-Edit (o Duardo me recomendou chamado The Last Poets, Made in Amerikka, um filme sobre o clubinho de poesia do Gil Scott Heron. Daí pra frente me empolguei e vou listar três pra assistir)
  2. Fazer um orçamento da manutenção da guitarra em algum Luthier da Teodoro
  3. Tirar meu MTB (ainda tenho traumas da faculdade, mas já faz cinco anos e eu entrei numas de que preciso superar)
  4. Fazer uma semana de Insanity, aquele programa de exercícios monstruosos que os moleques assistiam na Cultura pra ver as mulé alongando.
  5. Começar o livro novo, revisar o velho (se eu achar o arquivo) e ver quanto custa uma impressão estilo pocket book.
  6. Assistir sete westerns (ainda a escolher)

Já que fico por SP, vou marcar algumas coisas que não faço faz tempo, tipo ver os instrumentos na Santa Ifigênia e testar amplificadores valvulados que nunca vou comprar. Comprar um boné sem marca, se ainda existir aquela loja de bordados na galeria do Rock. Comer a mortadela do mercadão, talvez com meu pai, olha, que idéia. Talvez seja a hora certa de tirar proveito do Google Calendar.