Quase que completamente burro

“Eu tenho um plano
E creio ser possível
Ser de novo invisível
E voltar
Mas são quatro da manhã
E o posto ainda é meu
A esquina me acolheu
Vou honrar
Velho e acabado no espelho
Estou mal
Olhos vermelhos
Um BO de três mil graus
Travesseiro frio
Espaço vazio
Arredio
E a essência denuncia célebre ausência”
–Mano Brown, “Felizes

Eu espero meio quase que completamente burro por aquele episódio em que Ted espera Tracy dar três passos à frente, enquanto ele fica parado olhando. Ela pergunta o que é, ele diz “eu quero me lembrar desse momento”. E quando você começa um texto dizendo o quanto você é meio quase que completamente burro já significa como todas as coisas estão sendo do outro lado deste computador.

Acho que, no fim das contas, o grande mal de nossa época é basear nossas experiências de vida na indústria cultural mesmo. Grandes amores, grandes descobertas, aventuras e realizações acontecem e indepedem se você terminou ou não todas as temporadas de Grey’s Anatomy. Só não vai acontecer com você caso você seja meio quase que completamente burro e fique acreditando muito que existe uma historinha com a sua cara neste mundo e que ela pode emocionar as pessoas caso você conte.

É, eu sei, tô amargurado, superem. Sempre passa.

Eu acho que espero a cena do Ted com a Tracy porque no fundo, bem no fundo, eu acho que existe uma vida que não me seja tão babaca e errante quanto eu gosto de dizer. Que seja simplesmente leve e que me faça querer acordar todos os dias querendo viver de verdade, não apenas passar por aqui.

Enquanto isso sigo errante pela vida, falando quantas bostas tiver de falar, aumentando a compulsão alimentar a níveis estratosféricos, vendo a luz no fim do túnel se tornar apenas mais uma lembrança, dormindo sem saber como cheguei na cama e fazendo outras péssimas escolhas na vida.

Não há outro jeito de superar situações traumáticas.
Mas só funciona pra quem é quase que completamente burro.

Rio 2016

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Teve esse momento na vida que não sei exatamente bem quando se deu, mas provavelmente por volta dos 30, quando eu passei a me desapegar de gostos por qualquer coisa fora da realidade do meu violão e do meu pequeno universo particular. Acho que veio junto com o fato de nenhuma TV nunca funcionar em nenhum lugar onde morei fora da casa de minha mãe (e o fato de eu também não estar muito ligando em reclamar disso pro proprietário). Acontece que perdi o gosto por baladas, por confusões de gente querendo se divertir a todo custo, cinemas, praças de alimentação, teatros (não que eu tenha ido ver alguma peça nesse tempo todo). E então passei a não assistir futebol de quarta nem de domingo, nem me interessar pela NBA, nem pelas Olimpíadas.

Esta última tem me causado reflexões. Porque, veja, em todo portal de notícias que você entrar, lá vão estar notícias sobre atletas os quais você nunca ouviu falar e sequer se importa. O que não os torna menores que você, acontece que eles fazem parte da sua vida tanto quanto os tiozinhos barbados de chapéus extravagantes abraçados na Oktober Fest de um ano qualquer ou quanto uma mandioca gigante colhida numa pequena fazenda de São José do Rio Preto (pausa in memorian das 5 pessoas que você conhece que fariam piadas automáticas com o termo “mandioca gigante”).

Claro que temos polêmicas gigantes também. Gente horrorizada com a hipersexualização da mulher como se fosse a grande novidade do mundo (provavelmente nunca assistiram pânico na TV), gente rebatendo essas críticas falando de coisas como o tumblr de C. que elogia a beleza e os corpos de atletas masculinos também. Debates que deixam de lado tudo o que circundou esse evento antes que ele acontecesse, como gente que foi desalojada e humilhada durante o processo de construção de um Rio de Janeiro mais gringo-friendly que o habitual.

No fim das contas, a reflexão tem ficado num lugar comum: o futuro. Fico imaginando como será que vou lidar, caso um dia chegue a ficar velho e me perguntem “você lembra muita coisa das Olimpíadas de 2016?” e eu só possa responder com “poxa, pra ser sincero não me lembro muito bem, mas acho que C. tinha um tumblr com corpos de atletas sarados”.

Qui vivra verra.

do futuro só Deus sabbath

A última semana de 2015 foi uma parada de filme. Uma espécie de “Esqueceram de mim”, mas sem toda aquela parte sobre gente tentando entrar na sua casa e você colocando tacos de baseball pendurados na porta. Foi tipo o começo do filme, Macaulay Culkin deitado na cama dos pais assistindo desenhos na tela grande e comendo um pote de sorvete. Dez dias seguidos. Da mais pura e honesta vagabundagem da alma. De beber e fumar descontroladamente e sem critérios. De assistir todos os Porta dos Fundos dos últmos 11 meses (tá bom, mas tá ruim). De ver Avengers, Terminator, Mad Max, X-Men Dias de um futuro esquecido, esse filmes que os “nerds” de hoje tanto reclamam. Ser nerd, no cenário atual, significa manjar tanto de histórias em quadrinhos e passar a detestar qualquer filme, Marvel ou DC, criar um vlog e falar que o diretor, ou o roteirista, ou o cara do 3D podiam ter feito melhor. Ser nerd, no cenário atual (ando curtindo essas frases que soam de um jeito babaca), é ser presunçoso o suficiente para ter ressalvas sobre tudo o que o universo cultural “nerd” produz de novo.

Enfim, dez dias dessa merda.

Grace Gianoukas, em entrevista pro João Gordo, disse uma das coisas mais importantes que ouvi no ano passado. Sobre todo mundo ser um pouco estranho. A gente sabe quem a gente é, mas viver esse personagem social que convive bem com as pessoas, que ouve problemas, que dá conselhos, que faz piadas e ri junto das pequenas misérias. E, ao mesmo tempo, ao chegar em casa, despido de todo compromisso social, escondidos em nossas caixinhas, temos nossos medos, angústias, nossas batalhas pessoais, nossos traumas. Acho que viver uma semana nessa caixinha fez revigorar uma parte de mim esquecida e essa foi a melhor forma de fechar o ano de um jeito honesto e cheio de gratidão.

Claro que no domingo eu já havia acordado 13h e fui dormir só às 2h30 pra acordar às 5h de hoje e sair correndo pro ponto de ônibus morrendo de sono. Claro que as pessoas do escritório continuam exatamente a mesma coisa, com os mesmos embates e as mesmas ideias, as mesmas conversas desinteressantes com pequenas exceções. Claro que o barulho das teclas segue exaustivo, te fazendo se sentir no clipe de “Do the evolution”. Claro que o netflix vai continuar sendo o site mais acessado da empresa.

Claro que eu não sei até onde vai isso aqui.

Zeca e a Anitta

Meu professor de sociologia foi, certamente, o educador a quem mais tive proximidade. Zeca talvez enxergasse em mim algo que ele tivesse sido no passado. Manter o coração comuna e passar dos quarenta deve ser uma vitória foda pra gente (meio besta) como a gente.

Passei a lembrar muito do Zeca toda vez que estou em uma situação social limite: Uma balada, ou um lugar qualquer muito cheio, como num dia desses enquanto passava de ônibus pela Vila Madalena vendo muita gente se amontoando nos fumódromos e calçadas num horário de happy hour. Eu assistia de dentro do ônibus gente que flertava, garotas que cochichavam, caras que gesticulavam um aparente trecho de lepo lepo sobre possíveis assuntos sexuais, gente triste sorrindo demais que obscurecia gente feliz e sem sorriso no rosto. O que Zeca diria?

Neste dia, de dentro do ônibus apelidei o evento de Simba Safari social. Estava ali de dentro de uma condução, indo sabe-se lá para onde (disse “um dia desses”, mas faz uns anos) e, como um apresentador da Discovery, narrava pra mim mesmo coisas como “o grupo de fêmeas se diverte enquanto do outro lado machos vagarosamente se aproxima para o acasalamento”.

Este texto ficou tanto tempo parado no notebook que eu passei a frequentar bares como aquele e imaginar o que pensavam as pessoas de dentro dos carros e ônibus vendo todo mundo ali, na rua, como animais em busca de uma sensação de comunidade perdida nos olhares semicerrados das horas do rush, do trânsito, do mau-humor cotidiano e institucional.

Como Zeca, pude observar de dois ângulos a coisa toda e vi que existia algo ali. Algo em não se sentir superior apenas por ter gostos diferentes das pessoas, afinal, pessoas são pessoas e podem se permitir. Estar em casa ouvindo o disco solo do Noel Galagher e assistindo House of Cards com meus gatos sábado à noite não me faz alguém com escolhas melhores.

Outro dia desses no trampo chegamos à conclusão de que o preconceito acontece quando você não-aceita-que/não-entende-como outras pessoas gostem/possam-gostar de algo que você não gosta. E o grande ponto dessa coisa toda é ver a internet cheia de gente repelindo o funk, o axé e a Dilma e, ao mesmo tempo glorificando babaquices como Jethro Tull, Megadeth e José Serra (babaquices na minha opinião, portanto o preconceito fez o seu papel de estar por toda parte).

Foi então que comecei a entender o gosto alheio como a insalubridade de comemorar aniversários em baladas que nunca foi na vida ou a falta de sensibilidade em praticar cooper num domingo frio de manhã, ou a coragem de ouvir Lucas Lucco e assistir o programa da Sabrina Sato. Obviamente são apenas coisas que não quero pra mim, o que não dá pra entender é a sensação de superioridade de pessoas que têm gostos diferentes dos gostos populares.

Mais do que indicar livros que levei pra vida toda e me dizer com firmeza “política, Robson, política” no abraço da formatura, Zeca foi um dos caras que me ensinou a enxergar de um panorama superior o que quer que você esteja vivendo. Do funkeiro todo errado ao garotinho que acha que vai mudar o mundo com uma guitarra elétrica, todo mundo deve fazer o que achar melhor na vida e é permitido também se achar incrível, mas menosprezar o gosto alheio é o que faz de toda nossa sociedade ter personagens tão violentos; é o que, tomando as devidas proporções e vendo o problema desde o cerne, cria a homofobia, a raça pura, o ódio ao que vem de fora, ao diferente. É toda essa nossa pequena arrogância de “você-é-burro-porque-gosta-de-anitta” que faz o mundo cada vez mais omisso, perverso e inescrupuloso, ou seja, como um pouco de nós mesmos.