Três negros e meu sonho de Copa do mundo

Estávamos assistindo a Copa do Mundo USA de um ano qualquer. Era um negócio bem 3D, dava pra ver o jogo perfeitamente, o bar era bacana, as garçonetes prestativas, a coisa toda.

Foi quando, do.nada, levanta o Akon do outro lado do bar e bate numa garçonete, que cai no chão aos prantos, derrubando a bandeja com copos e guardanapos. Um pessoal, indignado vai pra cima do cantor, que continua rindo e bebendo, como se nada de terrível tivesse acontecido.

O pessoal reclama, mas não faz nada a respeito e sai de perto.

É nesse instante que eu, já cego de raiva, levanto e parto pra cima do Akon, que de relance segura meu soco, mas depois não aguenta quando eu o coloco no chão e esmurro sua cara. Ele fica desacordado por alguns minutos, se mexendo pouco. Volto pra minha mesa, com as mãos ensanguentadas e recuperando minha visão moral dos fatos.

Quando ele acorda e se levanta na mesa, volto lá. Mas, como por encanto, o Akon tinha virado o Adolfo (eles são parecidos mesmo), amigo meu. Discutimos muito, ele disse que eu não deveria me intrometer, a vida era dele etc.

Ele se levanta. Quando eu viro a cara, ele se transforma no Daniel, outro amigo, que com os olhos roxos pelas porradas estava também desgostoso comigo e com o Guto, que agora me ajudava para que ele percebesse a merda que tinha feito ao bater na garçonete (perceba, era a mesma pessoa que se transformava em várias).

Dizíamos algo como ‘Mano, quando você fizer dessas a gente vai te dar três tapas na cara, seu puto’. Ele começa a voltar da bebedeira em que se encontrava, pega um prato de salada de tomate e joga nos meus ombros com um ‘vão à merda vocês’.

Um sonho sem final, como todos os outros, mas categoricamente épico.

Bússola moral

Em todos os campos da vida existe aquele grupo de pessoas ou aquele ser humano único com o qual você se guia, que faz você seguir em frente mesmo que as coisas estejam ruins, mesmo quando tudo parece perdido.

No meu emprego anterior eram muitas pessoas desse tipo. Houve estágios, claro, os primeiros amigos que fiz, cujo baque foi implacável quando saíram em grupo.

Já no estágio final, tinha minha garota por motivos óbvios e quatro amigos próximos que conversavam sobre música e fumavam juntos sempre com alguma teoria sobre como usar o dinheiro que ganhássemos na loteria.

E aqui, na empresa seguinte, hoje, tinha o Guto.

Um cara sem precedentes. Um cara que você não critica e, se ver alguém criticando, sai de perto ou bate de frente. Melhor, um cara que qualquer um sai em defesa, mesmo se ele estiver errado – o que não deixa de ser impressionante.

Existe um parâmetro inusitado em quase todas as amizades: a forma como elas acontecem. Com o Guto, pra não entrar em detalhes, foi num dia em que não pude voltar pra casa e acabei com ele e outro amigo num boteco no Butantã, com jukebox de samba, tiozinho conversando com amigo imaginário e senhoras bêbadas cantando Lecy Brandão com o copo levantado, respingando o suor de seus passos confusos numa cadência imperfeita.

Bonito assim.

E hoje, ele sai. Melhor, claro. Oportunidades da vida que corre do lado de fora dessas paredes pré-montadas. Fico num jogo de resta 1 foda, com o norte da bússola quase pifando e já sem saber, como Joe Strummer, se fico ou se vou. Ao menos resta o coração alegre e a esperança de poder conhecer outros nortes como ele vai continuar a ser.