Old but gold

Tenho uma memória muito fraca que foi obliterada com a indevida quantidade de Dreher com limão nos períodos em que a vida empurrava você dez passos pra trás (praticamente todos os períodos). Então não me lembro exatamente da primeira vez que estive na internet. Lembro de alguém falando “mano, dá pra entrar no site do FBI! At[é no site da NASA”. Como se fôssemos fazer algo errado e invadir o banco de dados dos caras. Também não entendo bem pra que eu ia entrar na porcaria do site do FBI ou da NASA. Tenho alguma lembrança de tentar configurar o mIRC e usar uma vez sem entender direito o que pessoas desconhecidas estariam fazendo ali conversando (o que é, basicamente, o princípio motor da comunicação na internet).

Minhas primeiras lembranças reais datam de antes dos anos 2000, quando no meu primeiro blog num serviço chamado webblogger (obviamente sucumbiu à evolução), em que fiz três amizades:  (a) uma menina do sul cujo nome já me falha a memória, (b) um casal de um blog coletivo chamado segredos de liquidificador (eu não conhecia Cazuza e achava o nome genial, vale deixar claro) e (c) uma senhora com um blog cheio de gifs com glitter que republicava textos falsos do Luis Fernando Veríssimo.

“Um dia eu li um blog. Um blog que encontrei ao acaso. Não sabia bem o que era, nem como ou do que era feito. Procurei saber, encontrei um portal de bloggers, procurei explicação sobre tudo, montei o meu. Comecei escrevendo minha vida, do jeito que eu a conhecia, não do jeito que gostaria que me vissem, para que todos pudessem ter um pouco de mim, ainda que nestas frias linhas. E assim o fiz, dediquei aos amigos, aos que pouco me conhecem, a todos que se interessassem. Muita gente entrou no começo, era mais verdadeiro…Agora caiu num mar de reflexões sem rumo, mas que ainda tem uma ponta de verdade ou coerência. Ainda sou eu, do jeito que poucos conhecem…Só gostaria de ser mais real, e não escreve apenas quando estou deprimente.”

“Crônicas de um louco”, março de 2003

Meu primeiro blog era um diário pessoal da época do diário do pão com manteiga, em que eu contava coisas sobre o dia, explorava o vácuo da minha misantropia pueril aguçada e terminava com um “até”. Tinha até um contador de visitas que quando chegou a marca de 100 me deu orgulho o suficiente para escrever um post em homenagem. Quando chegou aos 1000 eu me senti importante e achei que alguém fosse me reconhecer na rua (onze anos depois este staying alive was no jive tem 60 mil views e ninguém me pede sequer um autógrafo. Chateadíssimo. Mentira).

Foi a época que conheci K. também, num chat do UOL, em que eu entrava postando frases sem sentido e deixando aquele robas_ro@hotmail.com, que até hoje está em atividade guardando os melhores comentários dessa época. Até hoje também converso com K. por e-mail, mesmo com tanta mudança de vida e de internet, embora sejamos menos próximos do que naquela época.

A internet se parecia muito com o que hoje é o Rotaroots, essa comunidade de blogueirxs saudosistas que surgiu com a ideia de posts mensais sobre o mesmo tema (um dos temas deste mês é a internet old school sobre o qual escrevo neste post). A gente fazia amigos que comentavam nos nossos blogs e conhecia pessoas pela fotos que estavam nos perfis do Blogger.

Pouco antes disso, meu único costume na internet era ter um ICQ. O meu ID era 102196397 e só me lembro até hoje porque o seu número do seu ICQ era como um documento pessoal neste comunicador instantâneo cheio de notificações detestáveis e amigos da escola. Tinha uma comunidade também, o netmigos, um perfil que você adicionava e incluía automaticamente umas 500 pessoas de todo o Brasil no seu ICQ, prontas para não conversar sobre nada em especial.

À época era impensável baixar um vídeo com aquela conexão discada e usada apenas a partir das 6h da manhã de domingo. EU lembro de um site que era o pai do Assustador.com, em que postaram as fotos dos corpos triturados dos Mamonas Assassinas e criaram meus piores pesadelos contando histórias escabrosas sobre fotografias velhas e fantasmas.´

Ah, obviamente tinha o Cocadaboa que era, disparado, o melhor da internet. Rolava umas tretas por direitos autorais das piadas que o Kibeloco copiava, com prints de e-mails, horários e tudo mais. Foi na época que deram o apelido de Kibe pro Tabet. E eu de testemunho ocular da história online, com 19 anos participando do bolão pé na cova e abraçando as causas do Mr. Manson.

Meu buscador favorito era o Cadê e eu usava o del.icio.us, porque um dos sites que mais lia naquela época, o blog d’o Primo compartilhava links direto por lá. Não sei se foi na mesma época, mas havia também um coletivo de blogs que eu me amarrava, mas já me foge o nome também. Era algo meio cult com um nome em francês (?) e eu estava prestes a ingressar na faculdade de jornalismo, então me dava o trabalho de ser o mais pedante possível.

Não havia muita coisa a se fazer na internet no começo dos anos 2000 a não ser lamentar miseravelmente o fato do bug do milênio ter um nome desses e ter servido apenas para zerar o relógio dos computadores, mas olha, que época, amigos, que época.

Toda vez que chego em casa o wi-fi da vizinha tá na minha… sala!

Passei o último ano inteiro usando a internet da vizinha amiga que até hoje não soube como colocar uma senha, ou esteja numa solidariedade tamanha conosco que não tivemos a boa vontade de procurar instalar a parada aqui em casa, mas como vocês devem se lembrar (claro que não se lembram, mas é uma ótima frase), ela desliga o roteador em intervalos de tempo que ela determina.

(Observação a tempo: eu não sei de que vizinho é a internet sem fio da qual estou tratando aqui, mas o nome da rede é “pucca” o que fez com que eu estabelecesse que é uma mulher, ou uma garota, ou uma senhora. Claro que pode ser de um cara mais sensível que curte o desenho etc, ou de um senhor pervertido e doente, bem, preferi optar pela hipótese mais racional)

(Outra observação a tempo para um futuro terapeuta que talvez venha a visitar este blog: Por que tento explicar tanto as coisas?)

Pois então uma nova rotina tornou-se necessária por conta dessa internet usada ao acaso. Toda vez que está disponível aqui eu tento (a) acessar tudo o que posso e isso conta como facebook, emails, linkedin (ainda sem trampo, me ajudem) e atualizar isso aqui (b) zerar Google Reader* que mudou pro Old Reader e agora não diz mais o seco e grosseiro “+45000 items” em inglês e sim algo como “faz tempo que você não acessa aqui, deixamos apenas esses 11.000 itens fresquinhos” (c) ler blogs dos amigos e saber assim da sobrinha do Leo e da falta de tempo de todo mundo pra atualizar essas coisas com mais de 140 toques.

Portanto, sim, o wi-fi alheio mudou minha maneira de usar a internet. Inclusive os amigos que frequentam minha casa conhecem a rede por nome e não raro chegam perguntando se a pucca está, antes de perguntarem se estou bem, como vai a casa etc. Seus espertofones estão devidamente configurados para acessar a rede sempre que ela estiver disponível. Meu notebook está configurado da mesma forma, como se a rede fosse, ora, por que não, minha!

Acho que isso explica um pouco toda minha quase ausência nas redes sociais, neste blog e nas coisas da rede no último ano, afinal só uso quando sei que não estou atrapalhando (não vou baixar torrent em horário nobre, por exemplo). Na minha última hipótese, imaginei que a pessoa que deixa esse wi-fi aberto sabe das consequências e, gente boa, opta por deixar assim mesmo.

Portanto esta é uma singela homenagem. De todos os utensílios domésticos que ganhei no open house do ano passado para poder me adaptar bem ao fato de morar sozinho (agora realmente sozinho, falei que meu irmão mudou? enfim, numa próxima ocasião) a internet da vizinha foi definitivamente a melhor de todas as doações. E ela nem apareceu na festa que quase me ocasionou uma multa na primeira semana de condomínio.

Obrigado, ma’am.

*O Google Reader vai acabar dia 1 de julho, mudem seus feeds pro The Old Reader que parece mais compromissado com a causa (ninguém deve usar essa informação, mas vale a pena deixá-la registrada aqui)

Tablets e toda essa choradeira

Melhor atual definição sobre tablets veio num making of promocional do Xoom, o novo gadget da Motorola que teve pré-lançamento numa página lindona no site da firma. O vídeo é gringo e estava um pouco em cima da hora demais para legendar, mas esse trecho chamou muita atenção:

“Você pode fazer um tablet, mas dependendo da maneira que funciona o software, a experiência não é otimizada para um tablet. Então você sente que comprou um smartphone e que ele só não cabe mais no seu bolso.”

—Jim Wicks, Vice Presidente da Motorola

Certo que o Android Honeycomb (o novo sistema operacional dedicado a tablets) promete melhorar tudo, mas a verdade tá aí. Ou não. Realmente não faz sentido algum andar com um “smartphone de 10 polegadas” por aí. Também não faz sentido dizer: “vale a pena se a conexão for rápida” porque o fator tamanho não tem relação nenhuma com o fator usabilidade. E esse sou eu levando isso muito a sério.

Ter um tablet que rode o mesmo Android do seu celular não agrega. A não ser que você seja um aficcionado por exibir seus pertences por aí, como esses carinhas que ouvem sets de funk e sertanejo no metrô. Ou que você tenha quatro metros de altura e bolsos gigantes.

É justamente por não querer toda essa conectividade, interação, joguinhos, mídias sociais e câmeras de alta definição que eu ainda prefiro os tablets dedicados a leitura como o o Kindle ou o Positivo Alpha.

Bendita inclusão digital

Nesta semana, por um acaso um tanto trágico que depois explico aqui, passei uma boa parte da noite mostrando algumas maravilhas da modernidade para meus pais no computador. Eles são velhos sim, nunca se interessaram muito por computadores, internet e até hoje não entendem direito cada emprego novo que eu arranjo: ‘ah, tá, redator web, mas o que você faz lá?’, essas coisas.

Então liguei o notebook pelo HDMI na TV.

Daí que entrei no Street View e fomos até Mongaguá, ver a casa da praia, depois voltamos para o condomínio e todos os lugares do Capão que moramos quando eu não tinha idade pra me lembrar. Até na casa da minha avó, a primeira casa que meu pai morou, no Socorro, a escola que virou uma loja de peças, o condomínio que eu ficava na janela vendo meu pai jogar futebol na quadra, o bar do meu tio. Ficaram maravilhados. E então fui pro orkut das minhas primas do Maranhão procurar algumas fotos sem muito sucesso (apesar de ter encontrado umas bem pesadas).

Pra fechar a noite, vimos pelo Youtube umas danças típicas do Maranhão, o bumba meu Boi, minha mãe fica bem emocionada vendo essas paradas, enquanto eu e meu pai não aguentamos por mais de um minuto inteiro porque (a) você não consegue entender bulhufas do que o cara está cantando e (b) a música é infernal demais para eu conseguir explicar.

Ao meu pai falta descobrir a quantidade de filmes que ele pode ter em casa com essa banda larga que assinou (só hoje baixei Guidable do Ratos de Porão, Saw 1 a 4 e três westerns). Se ele aprendesse essa parada ficaria completamente obssessivo. E descobrir isso aqui, esse negócio de escrever um texto num blog pessoal para que, com sorte, algumas pessoas possam saber o que se passa na sua cabeça, deixaria ele maluco também.

Quanto à minha mãe, acho que só de entender como funciona uma webcam, já ficaria de cabelo em pé e não deixaria de entrar no MSN para conversar com seus parentes no outro extremo do país. Só que isso demanda que a parte da família que mora longe também entenda e o processo é extremamente mais complicado.

Muita coisa mudou desde então, eles querem resolver os problemas do computador para que possam pelo menos tentar acessar essas-coisas-que-o-robson-acessa-na-tv. Sempre fico me imaginando nessa idade e se as coisas vão mudar tão rápido que eu não possa acompanhar e meu filho vaio tentar me explicar como ele montou essa empresa pelo celular, essas coisas, mas não é novo pensar que as mudanças causadas pela internet nos últimos 20 anos relegaram gente como meus pais a um triste novo tipo de analfabetismo. E parece um trabalho meu tirá-los disso, estou certo?

*no final das contas, não perdi o post. Mas as críticas ao notepad e ao botão insert seguem firme.

Meu negócio com as redes sociais falidas

No fotolog, ainda posto umas fotos, escrevo umas babaquices, nada construtivo, só respostas de mim mesmo para coisas que ninguém quer saber (mas não é esse o lema da web 2.0?). Como disse dia desses, o lugar virou a cracolândia digital da cena musical independente. Bandas omissas, gente despreparada quase implorando pra que você acesse o myspace deles e aperte o play.

E então, o Myspace. Mais parecido com um parque de diversões abandonado, como bem retratou o Saturday Night Live, o site peca na falta de estrutura, mudanças repentinas sem aviso, desinteresse pelo usuário. Tenho duas bandas e um perfil pessoal lá, mas, por conta disso tudo, acesso semestralmente as três de uma vez, limpo as mensagens só volto no ano seguinte.

Pra fechar a tríade, Orkut. Sinônimo de depressão. Apesar do layout bonito – agora facebookeado – me ocorre invariavelmente a sensação de todos viverem a vida dos seus sonhos, com todas as fotos de baladas, festas à fantasia e viagens pra argentina.

E, no final, me enjoa saber da vida igual de tanta gente.

Adeus, Internet Móvel

Bem, bloquearam minha linha telefônica um dia antes do meu aniversário (isso vai estar também no post final sobre o inferno astral deste ano). Não recebi ligações dos milhares de amigos espalhados pelo país de meus 6 amigos atuais, nem vi as mensagens, e-mails, nada.

Por que? Porque eu não paguei.

Primeiro, me cobraram o dobro do valor nos últimos dois meses. Quando li a frase “Chegou sua conta” no envelope, imaginei alguém da Vivo segurando a risada e me entregando o envelope.

E eu, que só usava o smartphone por conta da internet móvel, ainda tentei explicar para a moça do atendimento que era uma cobrança indevida. Mas ela só fez parcelar em tantas vezes e me cobrar até o mês que eu não usei.

Vivo, incompreensão como nenhuma outra.

Agora, se me derem licença, vou desbloquear o celular, esquecer a Vivo e abraçar o SPC-Serasa. Bem-vindos à minha vida.

Robson Assis abandona a vida móvel deixando uma conta ativa no foursquare com seis badges.


Nossos sentimentos à família.