Voltar

Vai completar dois meses que moro neste aparamento e já vi duas perswguições policiais na rua. Pode ser sorte (ou azar), pode ser coincidência, ou pode ser que a criminalidade tenha mesmo tomado conta da cidade, como gabriel, o pensador, previa.

Voltar pra quebrada tem dessas.

2015

Começou como sempre. Uma dúvida aqui, uma luz de um lado, um pânico abstrato e desconhecido de outro. Tocando violão todos os dias. Morando em Cajamar, distante de minha família, meus amigos, dos happy hours no seu Zé (faz falta hein, cacete, vamo marcar). E os gatos dormindo no sofá, enquanto eu terminava de ver alguma série com a minha internet 3G sofrível.

No começo do ano eu estava com o coração apertado por dúvidas que me faziam passar horas sem dormir. E aí teve o dia em que fui com Fefa no tempo Zu lai, um dia incrível. Um dia de muito calor também. Semanas depois, vi o show da banda que jamais imaginava ver, tendo em vista que com os preços praticados em shows no Brasil eu daria uma bela entrada numa CGzinha.

E então teve a despedida do João para Buenos Aires e meu carro pegando fogo, um episódio à parte que se deu dentro do condomínio e no qual só consegui apagar graças ao extintor do meu prédio. Com o carro quebrado, intensificaram minhas viagens de ônibus intermunicipais até a lapa e depois até o capão, voltando no domingo e subindo a ladeira do condomínio no interior como um alpinista (sério, Cajamar cidade dos morros).

Fui perseguido pela bad trip de relacionamentos que já se foram. De relacionamentos que começariam e eu não tive o dom de levar pra frente. Eu sabia estar fazendo a coisa certa, mas o que fica é só tristeza. A gente acha que vai dar tudo errado até alguém provar que vai dar certo, mas espera, estou pulando o espaço-tempo.

Colei quadros nas paredes com a última formação do Sig Sauer e a primeira formação do Pode Pá, bandas que levarei para sempre no coração, embora tenha uma quase certeza de que elas jamais voltam. Tentamos o Parazite por dois ensaios, mas não foi a lugar algum (ainda). Dan tocou no xEscurox e no Trust no one, Bruno montou o Romantic Bipolar, Billy voltou com o Justa Causa. Eu gravei o We hit concrete, meu projeto de músicas tristes pra cacete, tão tristes quanto as coisas que escrevo neste blog, só que melodiosas e intensas (rolou uma dessas músicas no final de uma matéria extremamente triste pela Rede TV, valeu Rodrigo etc).

Deu tudo certo pra todo mundo.

Foi na mesma época em que conheci Mariri. Na mesma época em que combinamos de tocar, mesmo sem jeito, mesmo sem tanta amizade. Covers de bandas que a gente ouvia dez anos atrás. Não seria demais? Seria. Começamos o Projeto 2005 sem a menor certeza de nada, fazendo covers pra agradar a nós mesmos. Eu não sei explicar exatamente como se dá essa parada de energia, mas o que a gente tinha ali, poucas vezes tive com relação à música. Bil chamou a Mariri pra cantar ao vivo com o Zander no Inferno Club. Rey também, no Hangar 110. Teco também, no Zé Caramujo Hostel.

Chamaram a gente para uma reunião na Universal Music.

Não dava pra entender direito o que estava acontecendo. Estávamos em contato com o cara responsável por contratar bandas. Pediu pra levar o violão e, numa sala de reunião, com uma mesa de reunião, tocamos algumas músicas dos vídeos que já havíamos postado. Ainda não sabemos exatamente no que vai resultar isso, ou se vai mesmo resultar em algo, mas passamos a gravar um EP com 10 músicas no estúdio TOTH, para ver até aonde pode ser de verdade tudo isso.

A despeito de qualquer tipo de sucesso, de todos os comentários, likes, compartilhamentos, quase 2000 pessoas curtindo uma página de dois desconhecidos que ainda não conseguiram sequer fazer um post patrocinado pelo facebook por falta de grana, eu e Mariri nos tornamos mais família do que podíamos imaginar. E isso faz das coisas mais de verdade, mais reais, mais tocáveis. Sucesso é viver, mano.

Foi então que rolou o batizado de Fabrício, em julho. Filho da Camila e do Danilo, dois dos meus melhores amigos, e certamente o ser humano mais lindo deste universo (já colou até no parque pra ver o projeto). Na semana seguinte, E. disse que havia uma garota perguntando quem eu era, pois tinha visto uma foto deste dia.

A primeira vez que falei com Mariana, sabia o que estava para acontecer. É aquela parada do how I met your mother, o Lebenslangerschicksalsschatz, uma expressão alemã que quer dizer “o tesouro do destino ao longo da vida”, ou coisa que o valha. E eu estava ali sabendo onde ia dar. Sabendo que na semana seguinte eu não ia mais aguentar, eu tinha que levá-la junto comigo pra ver o mundo, pra me deixar ver o que eu mesmo havia escondido. É estranho a sensação de ansiedade que o passado nos dá. É estranho toda essa bagagem acumulada como se a gente andasse por aí literalmente cheio de malas (ok, parei com as referências de HIMYM). Malas mentais, bolotas encrustadas em toda a nossa história. Traumas, aflições, brigas das quais você teve que aturar, brigas das quais você teve que ouvir, traições, mentiras, gente que gostava de você o suficiente pra te aprisionar numa cela, gente que gostava de você só enquanto você servia para alguma coisa. A vida, ela pode ser muita treta às vezes.

E aí chega alguém como a Mariana. Que me deu uma caixa de chocolates quando a gente fez um mês de namoro. Que sabe o que quer da vida, que me escolheu, que faz uma questão imensa de se ver no nosso dia. Aliás, dia 23, hoje mesmo (para enviar presentes favor entrar em contato via inbox). Mesmo com tanta certeza dela, eu achei que não merecesse. Eu achei que, como sempre, daria tudo errado. Ela me fez acreditar que não. E meu palpite é que ela vai me fazer acreditar mais um pouco todo dia. E assim que minha mente deixar de brincar de se martirizar com o passado, eu terei alguma oportunidade de ser feliz com ela.

Isso tudo, 4 meses atrás.

E lá estava eu, mudando de novo. Com um bom motivo, me despedindo de Cajamar, que já me expulsava aos poucos. Os cachorros do condomínio me detestavam, assim como detestavam muitos outros moradores. Eu já estava querendo sair faz um tempo. Me mudei novamente com o meu irmão, pela necessidade desse aluguel absurdo de São Paulo. Um apartamento manero, uma cobertura no Butantã. Os gatos acharam legal, depois do tempo de adaptação em que Tyler ficava só embaixo da cama, saindo apenas para comer. Agora tá tudo bem.

2015 foi uma ano a ser lembrado para sempre. Definitivamente bastante diferente de 2014, em que eu estava por aí juntando os cacos que restaram de mim, afinal, caia dez vezes, levante onze etc, foi um ano em que as coisas passaram a fazer algum sentido. Eu toco instrumentos diversos há tipo 15 anos. Este ano, enquanto eu estacionava o carro e tirava o violão do porta malas, um vizinho de Cajamar, essa cidade pequena, mas genuinamente interessada na vida alheia (pode-se ler intrometida também) me perguntou: “opa, vc é músico?” e eu, voltando o olhar para o violão e para ele pensando bastante nesses três segundos de drama disse: sou.

Foi o ano em que fiz uma tatuagem no braço, o ano em que gravei na mão três músicas do Rodrigo e toquei ao vivo, no estúdio, com ele. O ano em que tirei mais de cem músicas no violão e terminei o ano lembrando as notas do cavaco. Um ano que me trouxe tanta energia boa, tantas pessoas boas que eu só tenho a agradecer. Espero ter a sabedoria necessária para aproveitar melhor os anos seguintes, para viver da melhor forma possível, me culpar menos, ser mais atento para quando a vida pedir mais de mim, coisas desse gênero.

Que o nosso 2016 seja incrível.

Naturalidade, não trabalhamos

Esses dias eu notei que uma parte de mim já não consegue mais se habituar às novidades do mundo. Veja que eu estava lá vendo tudo na internet nascer, crescer e verdejar, mas veio essa parada de foto pra todos os lados. Meu irmão posta pelo menos umas 8 fotos por dia, alguns amigos postam até mais. Fotos de tudo. Abre o programa no computador, foto. Folha da árvore balançando de um jeito diferente das outras folhas das árvores, mas na verdade não, elas balançam todas iguaizinhas, só tem a diferença de que essa você está olhando agora e pensando no vídeo com uma legenda de positividade ou #deusnocomando, foto.

Eu notei que estava chato pra cacete com isso e passei a usar mais a câmera. Fiz, inclusive, um tumblr de fotos panorâmicas tosquíssimas, tiradas com o celular. As pessoas tem 500 likes nas fotos e eu escondendo as minhas no servidor do tumblr. Essa é minha vida, sim senhorx.

Então ok, tava ali postando umas fotinhos, às vezes até duas por dia, veja você.

Certa vez, meu irmão fez um vídeo meu com um amigo, tocando racionais no violão, uma versão bonitona, dedilhada, com solos na pentatônica mais repetitiva do universo. Gravamos o vídeo umas 5 vezes. Faltava o ângulo certo, a luz certa, os pequenos momentos certos. Põe boné. Melhor sem? Vem pra cá. Fica do lado da luz. Balança a cab…

Era só um vídeo pro instagram, sabe?

Foi então que passei a notar sobre como as personalidades são criadas a partir de cenas completamente montadas e como eu estava tentando ser honesto com a internet quando o Tyler vestiu a sacolinha de mercado e pousou na minha frente como um super-herói e eu precisei jurar de pés juntos que aquilo tinha acontecido involuntariamente e eu não fui lá colocar o saco na cabeça do gato para uma foto por motivos de princípios etc. Ou quando Marla e Tyler sentaram no rack da sala como se estivessem me esperando para uma conversa séria.

Eu estava sendo muito honesto com a porra da internet.

Numa outra ocasião, R. estava com a gente voltando do centro para o estúdio e disse que queria tirar uma foto com a GoPro que consistia em: a) o carro ia parar no farol b) colocaríamos a câmera no timer c) encaixaríamos a câmera num espaço do painel em que ela ficasse firme e pegasse nós três d) cada um de nós ligaria a lanterna de seu espertofone e apontaria de longe para a sua face tomando o cuidado de não deixar o celular aparecer na foto ou da luz ficar muito forte a ponto de encobrir a cara.

Não preciso dizer que demoramos pelo menos uns 5 ou 6 semáforos até que a foto saísse com essa pose toda natural.

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mais uma meta, cara?

Tem algo com a terça-feira. Na verdade tem algo com essa terça-feira. Acordei tarde, ressaca do fernet. Com a pequena tristeza das manhãs que você simplesmente quer ficar na sua cama até não ter mais jeito e os gatos passarem a insistir para que você levante.

Nada se fará sozinho.

E você levanta e vai ver o dia, ele é cinza e confuso, como todos os outros dias. As pessoas estão cada vez mais mal humoradas. Teco* disse pra gente fazer uma banda. Disse que as pessoas estão em estado de guerra. Que é preciso encontrar a paz. Teco me pediu opinião sobre a ponte do violão, elogiou o Takamine que não é meu.

Teco é gente fina pacas.

Dentre outras fitas, Teco disse que todo primeiro dia do ano faz uma lista de afazeres para o ano que começa. Estampa na porta do quarto, como metas a serem cumpridas, metas das quais ele vai olhar todo dia em que sair do quarto. Achei uma ideia excelente. Acho que já tinham me dito algo sobre isso, mas não confio muito em gente que leu ‘O segredo’, desculpa gente.

Foi então que passei um tempo inacreditável tentando escrever a lista. Eu. A pessoa que não consegue finalizar um post no próprio blog por motivos de falta de prática. Falhando miseravelmente em concluir coisas escritas. Então para o ano seguinte, ainda que as pessoas tenham relativamente desistido deste espaço virtual com meu nome e algumas ideias confusas, a meta para 2016 até o momento é:

1. escrever no blog no mínimo quatro vezes por semana.

A quem eu quero enganar?
Jamais saberemos.

* O Projeto 2005 foi banda de abertura~ no show do Teco Martins em Santos no final de semana, vale dizer.

um mix de sensações

A vida está ligeiramente ridícula como conversar com uma atendente da NET debaixo de chuva porque o sinal de telefone não pega muito bem dentro do escritório. E você precisa ouvir Jucilene dizendo que cobraram quase trezentos contos a mais, só que vai demorar setenta e duas horas pra ver se eles podem fazer alguma coisa por você que, bem, a esta altura já desencanou do cheiro de mofo de que vai ficar a roupa quando voltar pra sua mesa.

Você volta pra mesa e descobre que o cara da Hostgator resolveu o seu problema sem dar desculpas, mesmo com o chat demorando pra atualizar e o Edson digitando há 14 dias. Tem apenas um pedido de desculpas e a mensagem de que seu domínio já está de volta, ou seja, tudo certo com Edson, nada de setenta e duas horas pra me dar uma boa desculpa.

A máquina de café do trampo tem um papel sulfite escrito NÃO TEM CHOCOLATE, uma baita desfeita com as outras bebidas, imagine. O chá passou a adquirir síndrome do pânico, enquanto o espresso longo a essa hora já está com problemas de aceitação. E nem sequer temos um suporte do CVV especializado na máquina de bebidas.

Tudo isso para dizer apenas que o site voltou porque a gente não sabe fazer um texto simples escrito “voltou gente!”, tem mesmo é que sair por aí vomitando palavras num notepad e colocando o título mais clichê da história das pessoas que escrevem em blogs, tá certo, tá bem certo mesmo, viu.

Calma.

receita de panquecas com recheio de soja pvt ou “your own personal bela gil”

Para a massa:
1 ovo (qualquer ovo)
1 pouco de farinha
1 pouco de leite
1 pouco de sal

Preparo:
Note que o ovo é a única medida que faz algum sentido e o resto é tudo no olho mesmo. Jogue no liquidificador e vá colocando mais farinha ou mais leite, até que a massa fique não muito dura tipo de bolo, nem muito mole tipo vitamina de banana.

Separe.

Unte uma frigideira e vá fazendo pequenos círculos. Espere dar uma secada de um lado e vire até o outro lado dar uma queimadinha. Jogue pro alto, se divirta. Vá testando com pouca massa na frigideira, quanto mais fina, mais legal fica na hora de montar.

Você chega lá.

Para o recheio:
1 punhado de soja PVT
1/2 cebola
1 pouco de alho
Tempero que você achar melhor (use chimmy churry sempre)
1 pouco de água
1 pouco de molho de tomate

Preparo:
Refogue ali a cebola por um tempo até dar uma amareladinha. Jogue o alho (é este o esquema pra não queimar). Deixe o alho ali por um tempo até que eles olhem de volta pra vc e digam “ok, agora vamos começar a queimar cara, tira a gente dessa”. Aí vc joga o punhadinho de soja PVT (sem hidratar mesmo, fica tranquilo, vai dar tudo certo).

Mexa com uma colher pra misturar a soja e o refogadinho. E então, jogue água até cobrir o que está na panela. Acrescente os temperos que achar legais (na minha versão coloquei chimmy churry, salsinha e um mix de cebola e alho desidratados que fica bem legal). Tampe a panela e aumente o fogo até a água baixar.

Quando a água secar (não espere ela secar de todo, ou vai queimar o fundo da panela etc), jogue um pouco de molho de tomate desses prontos mesmo. Coloque até formar uma gororoba firmeza, de fácil manipulação.

*

Montagem das panquecas:
Abra a massa redondinha e jogue uma quantidade sóbria de recheio de modo que dê para enrolar a parada.

Enrole a parada.

*

Toque final:

Monte a sua marmita para o dia seguinte e esqueça tudo na geladeira (o verdadeiro motivo deste post que você estava estranhando até aqui, pode dizer a verdade)

=)

c’est la vie, truta

Devidamente instalado no Butanclan (embora a Vivo esteja me enrolando pacas pra instalar a internet do apartamento novo), tenho passado a ir e voltar do trabalho em um fretado que, magistralmente, passa perto de casa. Nessas, descobri que o shopping Raposo, onde desço de noite, é um lugar que tá de parabéns.

Estou esperando na fila da casquinha. A fila da casquinha não é exatamente uma fila, mas uma famíliazinha se amontoando enquanto a moça do caixa monta os pedidos. Olho pros lados, distraído. Quando volto meu olhar pro caixa a moça tinha feito um sundae com uns 15 canudinhos de wafer.

QUINZE.

Em outra cena maravilhosa, o gordinho da galera se achando divertidão/malandrex faz seus amigos voltarem da escada rolante pra olhar as promoções da CVC.

– Olha, Paris, 6 mil reais, mano, tá louco!
– Nossa, mas que bica mesmo.
– Vou pra Paris pra que? Sei nem falar inglês, tio.

Baita lugar.

moving mountains

É preciso contar que estou de mudança novamente. De volta para São Paulo, mais perto da cidade, onde eu possa pegar um metrô de leve e tocar com os amigos. Eu tinha ido, mas tudo o que sempre amei continuou no mesmo lugar. Quando as coisas passaram a ficar sérias em diversos sentidos, decidi voltar. São muitas notas de 50 reais viajando todo final de semana.

O apartamento de Cajamar continua sendo o mais legal que já vivi. Continuo agradecendo sempre que me lembro de fazer isso. Os gatos adoram, é um silêncio incrível. Um entardecer incrível, um sol incrível. Só não dá mais pra morar tão longe assim da sua própria vida.

Meu outro motivo de ter mudado também se esclareceu.

Inabilidade para selfies ☑ Cara de bobo em selfies ☑ Lebenslangerschicksalsschatz 💓 ☑

Uma foto publicada por Robson Assis (@bigblackbastard) em

calma cara

Acho que a língua portuguesa deveria ter uma palavra para quando você tem uma notícia boa e tem que se segurar para não estampá-la na sua testa e sair gritando pro mundo (se bem que eu estava literalmente gritando pro mundo ontem, no bar, com Mariri – melhores cenas, a propósito). Eu, que nunca soube lidar com o fato de alguém me olhando diferente e com orgulho por qualquer coisa que eu faça na vida, tenho que superar certas coisas.

É como se você estivesse segurando uma explosão dentro de você.

Pode chamar de ansiedade também.

escritório no interior

Algumas vezes eu detesto trabalhar no semi-interior de SP. É longe, fode com os happy hours etc. Outras vezes tá um dia de inverno e fica uma foto linda do lado de fora. Ou temos passarinhos na janela querendo entrar de qualquer maneira (são Anus-Brancos, descobrimos com o tempo – e com o google). É uma confusão de sentimentos porque você tem dias que você presencia queimadas desnecessárias/criminosas no horizonte e dias em que você vai buscar o carro e vê uma estrela cadente. Então o lugar, no frigir dos ovos, como diz meu pai, é maravilhoso e a gente fica caçando defeitos na vida porque, bem, porque não tem mais o que fazer mesmo.

IMG_20150513_130459467
IMG_20150515_093918417 IMG_20150731_093523556(Fefa não concedeu direitos de imagem e essas horas deve estar me xingando etc)

 

million dollar idea #001, um app de compartilhar comida

Um aplicativo em que as pessoas disponibilizam cafés da manhã, almoços e jantares em suas próprias residências. Você se cadastra e, quando for sobrar comida, por exemplo, disponibiliza um prato amigo para uma pessoa que estiver próxima (via geolocalização, claro). “Prato amigo”, pode ser o nome, inclusive.

Pode funcionar no esquema do Tinder e coisas nesse sentido. E aí, com um cadastro lá, as pessoas podem passar a te avaliar como companhia para as refeições, por exemplo, ou dar pontos para as comidas servidas, entre outros critérios (a ver).

Os usuários podem cobrar por refeições (mas haverá um aviso de que restaurantes ou estabelecimentos em geral não podem ser cadastrados, pq assim foge do propósito e vira um ifood maluco).

É possível criar uma opção de marmitas, assim, caso a pessoa não queira ninguém na casa dela esses-enxerido-sai-daqui-me-deixa, ela faz uma pequena marmita (embalagens com logo Prato Amigo vendidas a 50 reais o cento, por exemplo) e disponibiliza da mesma forma. E então quem se interessar é só ir até lá e pegar no portão.

Algum programador a fim de se tornar co-bilionário com essa startup?

no consultório médico

– Moço, não pode apoiar os pés em cima da cadeira.
– Ah é, moça? Pois sabe o que também não pode? Me fazer ligar aqui e marcar um exame para as 13h20 e chegar me dizendo que o médico só atenderá a partir das 14h deliberadamente, porque vocês presumiram que eu pudesse gastar uma hora a mais do meu dia aqui dentro da merda desse consultório sem wi-fi de vocês. E tem outra coisa, eu estou perdendo a paciência e você devia me ouvir quando eu digo que colocarei meus pés na sua cara se não for em cima dessa adorável cadeira. Tá vendo essa arma? É uma pistola com o pente cheio e pronta para disparar em qualquer filho da puta que venha me falar qualquer m…

– SENHOR ROBSON CARLOS, sua vez.

(pareço legal, mas finjo que sou o Jules do Pulp Fiction mentalmente)

Corporativo

É muita treta não se render completamente ao mundo corporativo. Claro que você trabalha oito horas por dia, claro que você bate ponto, claro que você, sei lá, almoça marmita e usa o tempo vago pra stalkear desconhecidos no facebook. Claro. Não é o meu ponto. Estou dizendo sobre encarnar o esterótipo colaborador-do-escritório que fala coisas como “vamos alinhar este processo e startar em agosto” ou “acredito que estejamos diante de um impasse de prioridades”, se bem que essa última frase é bonita e eu usaria, julgue-me.

Uma coisa é a gente falar gírias que estão em moda na internet, quem nunca? (viram o que fiz aqui?), outra é o cara do TI formalizar a necessidade de abrir um chamado no dia seguinte, desejar bom descanso e você responder com um “firmeza Thiagão, é nóis!”.

Nunca aprendi, possivelmente nunca aprenderei.

Junino

Os motivos das pessoas próximas ficarem putas comigo, em geral, são (a) o fato de eu jamais ter comido camarão na vida (b) eu nunca responder comunicadores instantâneos com a destreza exigida—acabei de ver o whatsapp web chorando aqui, calma, já vou, gente— e (c) detestar festas juninas.

Veja, não é um detestar de ódio eterno, é um detestar como a gente detesta livros de colorir, mentira, agora a gente ama livros de colorir, verdade, tem essa. É um detestar como a gente detesta baladas depois dos 30 anos, ou coisas de adolescente, em geral, ou como a gente detesta aquele jeito de falar do Gugu Liberato.

Sabe?

Ok, há o fato de ser uma festa essencialmente com coisas gostosas do tipo pipoca doce e pé de moleque e aquele outro doce duro de amendoim também. E canjica e cachorros quentes, talvez aquela paçoca quadradinha, doces de leite diversos, doces derivados de milho, aquele milho assado no ponto certo pra casquinha ficar quase crocante, caldo verde, cuscCARA, AFINAL DE QUE LADO VOCÊ ESTÁ?

Sério, eu não gosto mesmo, gente.

As comidas são ótimas, mas é uma festa sem a menor noção quando você é um adulto, afinal você não vai desenhar um bigode na cara, você já deveria estar cultivando um (e se você não tem bigode, você está automaticamente errado no mundo). Você também não vai costurar remendos na sua calça jeans, muito menos usar um… bem, os chapéus são legais, talvez eu compre um no caminho amanhã, antes da festa do trampo e

É oficial: não sei de que lado estou na minha própria polêmica.

O assunto veio parar aqui por motivos de eu ficar até tarde no trampo esperando arrumarem as festividades do dia seguinte que se resumem a:

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O 3º melhor lugar do mundo

Melhores lugares do mundo são em especial, lugares em que posso ficar sozinho ou ser pouco incomodado para ler, tocar violão ou apenas pensar em voz alta. Daí que no domingo, depois de um dia de ensaio em que perdi a chave e acabei perdendo eventos como o Againe no CCSP (dsclp Mariri) e Johnny Marr no memorial (dsclp Camila), eu encontrei o terceiro melhor lugar do mundo voltando pra casa.

Sabem que faço um caminho ultra alternativo para chegar em Cajamar. Por dentro de Alphaville, passando por uma saída estranha, chegando a uma parte avessa de Santana de Parnaíba, onde há uma espécie de downhill e bastante espaço para deixar o carro e ficar numa boa.

Antes do final de semana, meu irmão contou via Whatsapp que vai para o trabalho ouvindo as músicas que gravei por esses tempos. Que outro dia perdeu o ônibus porque queria terminar o cigarro ouvindo uma delas. Outro amigo disse que encontrou naquela música tudo o que eu realmente quis dizer, ainda que o objetivo da música não tivesse sido alcançado.

Foi aí que às margens do rio piedra eu sentei e chorei sentei entre pessoas andando de rolemã e longboard para gravar essa música do jeito mais simplório possível, porém com o coração cheio e talvez até alguma esperança (um ‘ooow’ e um barulho de bateria fraca do celular):

E aí eu poderia dizer que cheguei em casa cantando Strawberry fields forever para soar poético e bonito no final do post, mas quando me dei conta estava tirando roupas da mochila e cantarolando “eu trouxe a corda só me falta a caçamba eu sei que você tem: OBÁ! não nega se você gosta de samba e samba como ninguém, casaca-samba-casaca-samba…”

Falo que eu te escuto

Vivemos uma época maluca.

Intelectuais, ou coisa que o valha, formam opiniões em segundos, com trejeitos e termos construídos por páginas de facebook e pensamentos prontos. Foi assim que surgiu o antipetismo, é assim que vejo surgir agora uma espécie de bolha da esquerda que vê erros em tudo, que critica qualquer coisa que possa ser considerada ofensiva para as causas tidas como causas de esquerda. Do meu ponto de vista, o feminismo, a liberdade religiosa (a verdadeira, aquela que dá chance a ateus também, não a “cristofobia” do feliciano), a causa gay, os direitos humanos, não tem nada a ver com a rixa política de esquerda e direita, afinal, são causas maiores e por pura liberdade humana. Entretanto os rótulos estão aí. E defender direitos humanos te torna um ladrão que recebe dinheiro do governo, assim como ser de direita te torna automaticamente a favor de barbáries policiais e contra a liberdade sexual.

Boechat me representou muito com aquele discurso. E, vejam, não é exatamente um discurso. É apenas  relato sobre alguém que você odeia. Imagine alguém que te odeia, certo? Você simplesmente (toda babada) ignora aquela pessoa. Mas um dia, ela vem e fala mal de você, que depois de um tempo acaba descobrindo. Naquele momento você escolhe ser completamente sensato e racional e deixar tudo pra lá, ou escolher ser humano e entrar na briga, porque ser humano é entrar de cabeça. Boechat me representa primeiramente pelo fator humano de mandar à merda os seus inimigos.

Numa outra instância, Boechat me representa também por tomar partido contra um dos maiores hipócritas, aproveitadores e disseminadores do ódio em toda a história desse Brasil até onde pude conhecer. Um desses caras que não vai te escutar quando você disser que ódio se cura com amor (nem parece que falamos aqui de um religioso). Um cara que precisa ouvir, precisa ser ofendido e precisa se sentir ridicularizado em frente à sua plateia. Independente do que ele ouça. A partir do momento em que você ofender esse senhor, eu estarei do seu lado.

Eu sempre tendo a me deixar de lado nos debates porque, muitas vezes, colocar uma posição reflexiva numa verdade absoluta libertária é trabalhar ou ajudar a construir o discurso do inimigo (e também existem frases prontas para, assim como a direita, deslegitimar a sua opinião). Nesse caso, ocorre exatamente o mesmo: quando se diz que Boechat pensa que a solução dos problemas do mundo é uma rola, que Boechat está sendo homofóbico, patriarcal e falocêntrico (obrigado redes sociais por mais uma palavra nova), você está meio que do lado do Malafaia. De tabela.

Se não foi exatamente a resposta que você queria que Malafaia tivesse recebido, tudo bem, cara, nem tudo é como a gente quer (acho um absurdo que as pessoas ainda precisem ouvir isso às vezes). Ainda assim, foi uma resposta contra anos desse senhor dizendo impropérios sobre a religião dos outros, sobre a sexualidade dos outros e sobre o jeito de viver dos outros. E você está dizendo que Boechat deveria ter ficado calado. Deveria ter deixado Malafaia falar e seguir com esse discurso que imbeciliza.

Quando alguém diz que tal frase está reproduzindo conceitos (machistas, homofóbicos ou qualquer coisa nesse sentido) está também deixando de lado todo um background em que o maior filho da puta de todos os tempos está sendo escrotizado em rede nacional. Mais do que isso, está caçando pelos em ovos. Está focando numa parte errada de um discurso, apenas pelo fato de que precisamos de motivos para defender quem quer que seja contra a reprodução de pensamentos reacionários. Precisamos culpar, antes que nos culpem. E aqui me encorajo a dizer que, caso fosse gay, continuaria me sentindo representado. Não porque um falo é o centro do universo, mas porque essa frase representa mais do que isso, representa uma ofensa a uma pessoa em especial. Uma ofensa que faz completo sentido a uma pessoa em especial e, caso fosse proferida diretamente a gays ou mulheres, deveria ser repreendida, mas não nesse caso.

Resumindo, se você é contra isso, eu realmente não sei de que lado você está. Vem ser humano e assistir de camarote o inferno desse pastor. Ofender o que Malafaia pelo que ele tem de mais importante—a merda da falsa fé baseada em ditar como a vida dos outros deve ser—é imensamente maior que tudo isso, gente.

dropdead nigga

Eu pareço legal, mas diferencio as pessoas que gostam de gato das que não gostam (porque é inadmissível não enxergar doçura em bichos quaisquer, até mesmo numa raposa, como não?). Ontem, K. disse que o front do Mogwai ama gatos e a banda tornou-se ainda mais magnífica. Eu também diferencio as pessoas que tem perfil no last.fm das que não tem, mas acho que é uma outra história.

*

Daí outro dia li num post do Koelho uma música do The Invisibles, banda que nunca conheci direito, embora soubesse o estilo e tudo mais. Daí eu ouço e passo a amar, como eu nunca toquei um som desse tipo na vida? Lembrei de um projeto com um amigo que ainda temos de tocar pra frente. E nunca vamos tocar pra frente, porque somos assim. Lembrei que tenho 5 bandas na teoria, zero na prática. E quando é assim, dá tudo meio errado na vida.

Descobri então que o vocalista do Invisibles está morando em NY—talvez até morasse antes também, aquele inglês era muito perfeito, sério—e tem uma outra banda, ou ele mesmo tocando sozinho que é demais, folk, esperançoso, melancólico, do jeito que eu gosto:

*

Me alegra ter encontrado outro dia o cara que me convidava pra tocar guitarra em bandas covers de heavy metal nos idos de 2002 (sempre quis dizer “nos idos”) e ver que ele se tornou um cara cheio de nostalgia da época-boa-do-Novo-Aeon-Rock-Bar-Sergião-ooow-que-saudade-bicho com provavelmente uma banda de heavy metal fazendo cover de Judas Priest e uns tiozões do TI. Descobri que ele não entrou na onda dessa reaçada de facebook, o que de certa forma foi um alívio (metaleiros são em grande parte conservadores dos piores tipos). E achei legal vê-lo pelo motivo de que se eu tivesse aceitado tocar com ele eu acabaria desistindo por falta de paciência em aprender covers com solos virtuosos. Acho que, no fundo, me alegrei de ver que estamos no mesmo lugar, somos as mesmas pessoas, embora tenhamos sido influenciados por estilos de vida diferentes e acabamos um de nós casado/ganhando dinheiro e o outro escrevendo posts sobre encontros casuais no blog.

*

Dia dos namorados é uma felicidade inacreditável na timeline pública. Tanta gente em momentos bonitos, poéticos, bucólicos, manifestando amor e um sentimento bom. E tem gente reclamando, mas isso nunca vai deixar de ter, superemos. Eu, que já fui bobo o suficiente (talvez feliz o suficiente) para gravar até uma mixtape nesta data, acho que não consigo mais. Embora admire de verdade a galera falando essas coisas no 12 de junho, é de bom tom ficar na minha pequena solidão ouvindo a playlist do Per Raps que é bem mais bonita (e não tem minha voz patética tentando soar romântico).

*

Não, o título deste post não tem absolutamente nada a ver com a série, nem com qualquer um dos acontecimentos citados acima e foi criado por motivos de eu achar interessante o trocadilho, sabe, pára de me pressionar gente, credo!  ~dsclp

que fita errada

Quero expor aqui um causo que explica muito sobre o desapego e/ou falta de interesse relacionado a minha pessoa (vai crase aqui? desaprendi). Ontem, cheguei em casa por volta das 20h, meu pai tinha dito pelo Whatsapp para ligar assim que chegasse, mas acabei não conseguindo e mandei uma mensagem de áudio:

— Oi pai, tudo bem? Não tô conseguindo ligar, mas tá tudo bem, acabei de chegar, vou dormir daqui a pouco, tô vendo um filme, tá tudo bem aí né? bjs

Meus pais me ligam basicamente todos os dias. Se eu passo dois dias sem telefonar, existe um drama imenso sobre como eu estou me distanciando ou apenas um “esqueceu do teu pai e da tua mãe?” dramático de Dona Bernarda. Meu pai diz às vezes que nem lembra como é minha cara, é daora.

E então, a resposta, minutos depois:

— Oi, Robson, tá tudo bem sim. Tua. mãe. foi. atropelada. mas tá bem aqui, na cama, deitada e descansando, mas tá tudo bem sim viu? bjs.

Calculem.

(No fim das contas, ela foi atropelada mesmo por atravessar o farol erradamente e meio que sem notar que é uma sexagenária. Acabou tudo bem e foi apenas um susto realmente, mas imaginar a sua mãe de quase 67 anos caindo no meio fio da estrada do campo limpo não é das melhores cenas que você pode ter que imaginar na vida morando há 45km de distância, sabe?)

5 minutes to wallow

Você não tava aqui.

Pra me ver despedaçar lendo as suas coisas. Suas frases, suas fotos, lendo nos seus sorrisos que tava tudo bem. Você não tava aqui quando eu senti o chão abrir, quando passei a flutuar olhando pra sua vida na tela. Eu realmente senti a pressão do ar se transformando em tempestade. Eu senti de novo o vácuo, a ansiedade de ter subido alto demais imaginando que no fim daria tudo certo. Eu senti o calafrio que sinto desde o pior janeiro da minha vida. Eu sentia todos os dias daquele janeiro, muitos dias de fevereiro e alguns dias no resto do ano. Cada vez menos, até nunca mais. E o nunca mais talvez nunca venha.

Agora não é mais você aqui. O sonho é outro e tão tolo quanto. O sonho é um osso a ser roído até não restar mais nada pra enterrar. Desses que só existem pra gente se esborrachar e ter pelo que sair correndo no corredor do trampo de cabeça baixa pra se desesperar em lágrimas escondido no banheiro sem perturbar a paz alheia dos fones de ouvido do escritório.

E tem aquele trecho de Elizabethtown (obrigado Fefa, por me fazer reassistir esse filme no melhor timing de todos) em que o Orlando Bloom está seguindo o mapa da viagem de volta para casa, quando vê o seu pior fracasso estampado na capa de uma revista. E o guia de viagem, feito pela personagem da Kirsten Dunst, dizia: “Você tem cinco minutos para mergulhar nessa deliciosa angústia. Aproveite-a, abrace-a, descarte… e prossiga”.

Aí você sai da cabine do banheiro e diz pra si mesmo que tá tudo bem.

*

E veja que o tema do excerto pessoal-constrangedor acima é basicamente “Tem gente que a gente nunca supera”, que foi o que conversava no final de semana com Mariri, minha partner in crime no Projeto 2005 (curtam a fan page), no qual tocamos músicas emo do começo dos anos 2000. Estamos numa empolgação inacreditável, gravando vídeos e esquecendo de tirar selfies para a página. Se Dance of Days, Noção de Nada, Emoponto, Garage Fuzz, Aditive, Fresno, Houdini e Polara fazem algum sentido na sua vida, há uma boa possibilidade de curtir o que estamos fazendo.

um dia daqueles

Apenas finalizando o descontentamento sobre o carro no post anterior. Depois de ter trocado o pneu às 7h da manhã explodindo com a minha programação, cheguei no escritório e meu computador não funcionou. O cara da TI descobriu que possivelmente havia queimado minha placa de rede. Pediu pra fazer um backup de tudo o que tinha no computador. Um backup. Com aquele monte de vídeos meus tocando violão, episódios de game of thrones que nunca levei pra casa, ensaios em mp3, músicas gravadas no celular pra mostrar pros amigos. Caio Fernando Abreu disse que um filho da puta sem arquivos no computador é um filho da puta que reiniciou a própria vida (proj. Leo Polisson de frases aleatoriamente inventadas para Caio Fernando Abreu). Como se não bastasse a pressão de ter de escolher entre arquivos que caberiam no meu pen drive, havia um cara me esperando para fazer isso. Acabei deletando quase tudo. Peguei o disco do Leo Middea que tinha acabado de levar pro trampo. Meu setlist do pode pá pro próximo show (ninguém vai lembrar, mas é bom sempre ter em mente). Duas fotos. Rascunhos e Excéis (pior palavra possível, desculpem). E mais nada. Daí o cara instalou um computador novo. Obviamente não funcionou e esta foi a história de como perdi todos os meus arquivos sem a menor necessidade, mas você também não esperava um final feliz aqui, vamos ser sinceros.

A padaria default

Hoje decidi deixar de frequentar minha padaria default.

É na padaria default que tomo café da manhã pelo menos duas vezes por semana – enquanto a renda permite. Parte do meu alívio diário acontecia lá, quando eu pedia os dois pães na chapa e o café puro de sempre e gastava R$2,00 (sim, dois reais).

Acontecia.

O preço não era o único atrativo. Os funcionários da padoca eram educados, gente classe, que poderia estar gerenciando equipes em grandes restaurantes ou vivendo o sonho, sei lá. Mas não, estavam numa padaria de bairro, entregando o suor de seus corpos para manter a qualidade do serviço prestado (OK, sei que estou exagerando um pouco no drama).

Tinha esse tiozinho. Um tiozinho que servia no balcão. Fazia o café, pedia os pães na chapa, regulava o que era cobrado nas comandas. Conversava com todos, free talker assumidão. Puxava assunto com os que conhecia, mas as risadas eram divididas por todos numa só canção (“numa só canção”, Robson?).

E tinha esse outro personagem anônimo da cozinha. Tipo um Luther Blisset, intocável para os clientes, suponho. Fazia um croissant que tornava o lugar mais mágico do que qualquer outra padaria que já tenha conhecido. Sem contar a exatidão e maestria incutida nos outros salgados.

Esses dois personagens foram, durante algum tempo, a alma padaria. Eu entrava sabendo que o tiozinho ia zoar um caminhoneiro chamando-o de mineiro ou qualquer coisa do tipo e todos teríamos um bom dia. E talvez visse alguém sair da cozinha imaginando que talvez fosse ele o Luther que fazia os salgados, talvez não.

De repente, num dia comum, percebi que a padaria default estava mais vazia que o normal. No caixa, percebi que o preço da minha comanda subiu para não tão admiráveis 3,00. E não acredito que exista um Copom especializado em preços de pães na chapa. E, semanas depois, os funcionários mudaram, entraram uns jovens que podem ganhar pouco e não vão reclamar inexperientes e uns tios mais sem graça que fazem café fraco.

Daí eu chego hoje, de manhã, como meus habituais dois pães na chapa comuns e tomo aquele café-tinta-de-impressora. E então peço, pra viagem, um croissant. Porque agora você não escolhe entre Queijo Minas, Calabresa com Queijo, Frango com Catupiry, Queijo e Presunto. Eles tem um único, que se chama apenas “croissant” e que o cara do balcão chama afetivamente de coraçán.

E então fui pegar meu Toddy, companheiro de aventuras, mas só havia um genérico, com uma placa ao lado “PROMOÇÃO: R$ 0,80” e claro, com o vencimento marcado pra hoje. No caixa, a garota indiferente me cobra a mais e, sem se desculpar, pergunta se tenho 70 centavos, pois ela não tem troco.

Foi só então que eu percebi que a padaria não estava mais lá.

Este é sobre política e pode pular, sério

“Eu morava na mesma rua do Neymar. Vi ele nascer e tudo, coisa linda, moleque bonzinho. Começou a jogar bola na rua de casa mesmo, ali, pés descalços. Eu na verdade nunca gostei muito porque sempre sobrava bola voando na cabeça dos que estavam de passagem, como eu.

Certa vez, Neymar, do alto de seus cinco anos de idade chutou a bola pra fora da “quadra” que se fazia na rua e a bola veio em minha direção.

Eu parei a bola nos pés e devolvi. Neymarzinho voltou, alegre a tocar bola com os amigos. E foi assim que eu dei ao mundo um dos maiores craques do futebol de todos os tempos. Obra minha. Tudo que ele joga é obra minha.”

(este texto fictício serve apenas para dizer como me sinto quando Aécio diz que o Bolsa Família é do PSDB)

*

Usar o Facebook está impraticável. Quando as pessoas querem vencer algo, é melhor deixá-las mesmo, acho que aprendi esse desapego com F. dia desses. Eu gostaria muito de ver Dilma presidenta por mais quatro anos, embora tudo esteja conspirando para termos aí um babaca sem escrúpulos cuja equipe de campanha tem o dom de esconder provas contra ele durante a campanha, uma vez que daqui a pouco todo mundo deixa isso pra lá.

Já disse pros amigos que esta, muito provavelmente, vai ser a pior ressaca eleitoral de todos os tempos. Obviamente nada vai mudar pra mim, que tenho lá alguns privilégios (e não me entenda errado, por “privilégios” eu considero um carro, um apê alugado, comida na mesa e um emprego), mas quem precisa deste país certamente vai ver as suas prioridades num limbo de pelo menos quatro anos.

Eu queria acreditar num Brasil que ainda é pobre, de gente que ainda mora muito mal e convive com os piores tipos de necessidades diárias. Aécio não está aqui para mudar nada. Está aqui para sugar e devolver o país para quem quer ver tudo isso crescer de cima e não fundamentalmente. Em uma lógica meio rasa é como se você não se importasse que pessoas morram de fome, desde que você possa comprar o seu Playstation 4 com dólar 1 pra 1.

Este candidato me irrita. Dentre muitos que já teve o PSDB, este, particularmente, me tira do sério, mas talvez nem seja por sua pose de playboy, ou todas as suas merdas já publicadas e maquiadas ou não respondidas. Me irrita ver gente que confia nele como se ele realmente fosse uma alternativa palatável para um país. É como se o Justin Bieber cuspisse na sua cara e você ainda assim quisesse um autógrafo.

Ou, neste caso, que ele dirigisse o seu país.

Nenhum voto para Aécio.

Quando eu estiver gritando

 

Quando, um dia, você me vir perder a linha em cima de um palco, num estúdio, num desses vídeos e fotos do youtube em que estou gritando frases desconexas em músicas também desconhecidas, lembre-se que eu passei a semana inteira reclamando da merda da minha saúde, como estou comendo poucas frutas. E que passei vergonha quando falaram qualquer merda sobre regimes e eu tive de colocar o fone de ouvido pra deixar pra lá o fato de que fulano “nossa deu uma engordadinha” não está sequer próximo de estar fora de seu peso ideal.

Lembre-se, sempre que me ver perdido e de olhos fechados, fazendo um acorde na guitarra, mesmo que esse acorde esteja errado e que me pareça a coisa mais certa a fazer naquele momento apenas fechar os olhos e embalar o que quer que eu esteja declamando em berros, lembre-se que nenhuma merda de camiseta das bandas que eu amo me servem. Lembre-se que me visto com roupas de uma cor só porque são as que me cabem, as que me caem minimamente bem, embora nenhuma delas realmente me faça sentir como uma pessoa comum: lembre-se que eu invejo cada pessoa com uma camiseta do RVIVR na rua e que quando nada mais me cabe e eu sinto o peso da barriga aumentar para todos os lados, eu não tenho ninguém ali comigo pra abraçar qualquer lado dessa encruzilhada e me dizer que vai ficar tudo bem.

Lembre-se de que tudo que eu tenho são meus livros, meus gatos, meus pais, meu irmão. E um monte de amigos que gostaria de ver por mais tempo.

Lembre-se que todos os dias eu penso que gostaria de ter mais tempo.

Lembre-se disso quando eu estiver gritando e me debatendo como se fosse uma pessoa comum, embora seja essa pessoa imensa e cheia de arrependimento e traumas. Lembre-se que eu me liberto deste corpo pesado e tudo o que eu tenho é um barulho dissonante e distorcido de válvulas e pedais e cordas e berros. Lembre-se que eu me sinto mal por me olhar no espelho e por me ver em vídeos e fotos que as pessoas tiraram durante essas festas e shows, mas jamais se esqueça: é naquele lugar – e só naquele lugar – que eu me sinto exageradamente em casa.

*

esse é para todos os que já me acharam ridículo um dia (eu incluso).

Desistências

ontem

– Essa fonte é a de 9V?
– Isso, mas testa lá, pode voltar aí se não funcionar..
– Opa, beleza. Valeu!

*

hoje

– Opa, voltei aí, não funcionou.
– … (mexendo nas prateleiras, puto)
– tem o negócio da polaridade, né?
– é.

                            tio puto atende o telefone ríspido.

“- alô (…) não, não vou (…) escuta, eu já falei pra vocês pararem de me ligar, entra com recurso judicial, mas para de ligar aqui, tá virando perseguição. Bom dia”

desliga furiosamente o telefone.

– Foda, bicho, mulher comprou aqui e agora quer o dinheiro de volta, tomar no cu!
– Putz! (digo isso em um óbvio semiestado de choque e pensando como o tio não se lembrou que eu vim trocar as fontes e que caso eu não queira uma gambiarra nas minhas fontes ele vai ter que devolver meu dinheiro e aí ele reclama pra mim sobre alguém que tem o mesmo problema que o meu, embora o meu tenha sido uma fonte de energia de 18 reais e a moça possa ter comprado um desses teclados vagabundos que claramente estão há anos parados nesta toca que ele afirma ser uma loja de instrumentos. Teclado esse que pode ter servido como casa para milhares de micróbios, bactérias em caixas onde viveram gerações inteiras de famílias de baratas e o tio ainda tem o dom de cobrar 580 reais. Agora o cara não vai querer me dar o dinheiro de volta e eu vou ter que dizer grosseiramente pro filho da puta ficar com as fontes pra ele, mas na saída roubo pelo menos uns quatro cabos e três jogos de corda, esse tiozinho vai ter o que merec…)
– Pô, não tenho sua fonte, mas posso fazer uma gambiarra aqui que vai ficar ótima, só inverter os cabos, te interessa?
– Cl-claro, manda ver!

Kid A

Levanto cedo, arrumo a louça, ajeito a comida dos gatos, coloco o café pra fazer enquanto tomo banho. “Você não precisa me dizer o quanto meu café é bom. É Bonnie quem compra porcaria, ok?”, diz um Tarantino vivendo o papel que criou para interpretar. Sento no sofá com tudo pronto e apenas a difícil escolha de um álbum pra começar um dia mais cinza que os outros, mais nublado e mais frio.

Abro a porta da varanda pros gatos brincarem. O vento agora balança uma árvore linda de frente pro apartamento, balança também um resto de pipa dos garotos pequenos que não sabem o que fazer quando a linha começa a pegar força. Eu lembro do Silas cortando minha linha quando meu pipa atrapalhava o dele no ecossistema de pipas que criávamos nas férias.

Tem uma nesga de luz vindo na parede, uma luz laranja do sol que ainda não foi encoberto pelas nuvens. O café começa a esfriar, a música aumenta um pouco, fico com medo de acordar os vizinhos. Lembro que meus pais vêm me visitar neste final de semana e talvez eu perca o churrasco dos amigos. A luz aumenta, criando uma espécie de esperança estética. Eu lembro do futuro “será que tem um intensivão pra ser adulto? Eu me matricularia” era a conversa de umas semanas atrás.

Passo a gostar dos pequenos barulhos que os gatos fazem ao brincar com as sacolas no chão. Gosto cada vez mais do clima que a música me traz. E o sol se esconde novo, o crossfader me leva a “optmistic”, simbólica. Lembro de todo mundo ao mesmo tempo, de cada piada não entendida, de cada banda que não deu certo e de todos os que ficaram pra trás. Dos amigos que ainda não conheci e que já me fazem tanta falta.

Preciso chegar cedo ao escritório, “só essa caneca e já era”. Agradeço pelo dia que começa, pela casa, pelos gatos, pela família, nesta ordem. A pequena esperança da casa em ordem me traz um alívio imediato pra seguir em frente, pra esquecer o que quer que tenha me tornado fraco com o pesar dos anos.

Está tudo em seu devido lugar.

Old but gold

Tenho uma memória muito fraca que foi obliterada com a indevida quantidade de Dreher com limão nos períodos em que a vida empurrava você dez passos pra trás (praticamente todos os períodos). Então não me lembro exatamente da primeira vez que estive na internet. Lembro de alguém falando “mano, dá pra entrar no site do FBI! At[é no site da NASA”. Como se fôssemos fazer algo errado e invadir o banco de dados dos caras. Também não entendo bem pra que eu ia entrar na porcaria do site do FBI ou da NASA. Tenho alguma lembrança de tentar configurar o mIRC e usar uma vez sem entender direito o que pessoas desconhecidas estariam fazendo ali conversando (o que é, basicamente, o princípio motor da comunicação na internet).

Minhas primeiras lembranças reais datam de antes dos anos 2000, quando no meu primeiro blog num serviço chamado webblogger (obviamente sucumbiu à evolução), em que fiz três amizades:  (a) uma menina do sul cujo nome já me falha a memória, (b) um casal de um blog coletivo chamado segredos de liquidificador (eu não conhecia Cazuza e achava o nome genial, vale deixar claro) e (c) uma senhora com um blog cheio de gifs com glitter que republicava textos falsos do Luis Fernando Veríssimo.

“Um dia eu li um blog. Um blog que encontrei ao acaso. Não sabia bem o que era, nem como ou do que era feito. Procurei saber, encontrei um portal de bloggers, procurei explicação sobre tudo, montei o meu. Comecei escrevendo minha vida, do jeito que eu a conhecia, não do jeito que gostaria que me vissem, para que todos pudessem ter um pouco de mim, ainda que nestas frias linhas. E assim o fiz, dediquei aos amigos, aos que pouco me conhecem, a todos que se interessassem. Muita gente entrou no começo, era mais verdadeiro…Agora caiu num mar de reflexões sem rumo, mas que ainda tem uma ponta de verdade ou coerência. Ainda sou eu, do jeito que poucos conhecem…Só gostaria de ser mais real, e não escreve apenas quando estou deprimente.”

“Crônicas de um louco”, março de 2003

Meu primeiro blog era um diário pessoal da época do diário do pão com manteiga, em que eu contava coisas sobre o dia, explorava o vácuo da minha misantropia pueril aguçada e terminava com um “até”. Tinha até um contador de visitas que quando chegou a marca de 100 me deu orgulho o suficiente para escrever um post em homenagem. Quando chegou aos 1000 eu me senti importante e achei que alguém fosse me reconhecer na rua (onze anos depois este staying alive was no jive tem 60 mil views e ninguém me pede sequer um autógrafo. Chateadíssimo. Mentira).

Foi a época que conheci K. também, num chat do UOL, em que eu entrava postando frases sem sentido e deixando aquele robas_ro@hotmail.com, que até hoje está em atividade guardando os melhores comentários dessa época. Até hoje também converso com K. por e-mail, mesmo com tanta mudança de vida e de internet, embora sejamos menos próximos do que naquela época.

A internet se parecia muito com o que hoje é o Rotaroots, essa comunidade de blogueirxs saudosistas que surgiu com a ideia de posts mensais sobre o mesmo tema (um dos temas deste mês é a internet old school sobre o qual escrevo neste post). A gente fazia amigos que comentavam nos nossos blogs e conhecia pessoas pela fotos que estavam nos perfis do Blogger.

Pouco antes disso, meu único costume na internet era ter um ICQ. O meu ID era 102196397 e só me lembro até hoje porque o seu número do seu ICQ era como um documento pessoal neste comunicador instantâneo cheio de notificações detestáveis e amigos da escola. Tinha uma comunidade também, o netmigos, um perfil que você adicionava e incluía automaticamente umas 500 pessoas de todo o Brasil no seu ICQ, prontas para não conversar sobre nada em especial.

À época era impensável baixar um vídeo com aquela conexão discada e usada apenas a partir das 6h da manhã de domingo. EU lembro de um site que era o pai do Assustador.com, em que postaram as fotos dos corpos triturados dos Mamonas Assassinas e criaram meus piores pesadelos contando histórias escabrosas sobre fotografias velhas e fantasmas.´

Ah, obviamente tinha o Cocadaboa que era, disparado, o melhor da internet. Rolava umas tretas por direitos autorais das piadas que o Kibeloco copiava, com prints de e-mails, horários e tudo mais. Foi na época que deram o apelido de Kibe pro Tabet. E eu de testemunho ocular da história online, com 19 anos participando do bolão pé na cova e abraçando as causas do Mr. Manson.

Meu buscador favorito era o Cadê e eu usava o del.icio.us, porque um dos sites que mais lia naquela época, o blog d’o Primo compartilhava links direto por lá. Não sei se foi na mesma época, mas havia também um coletivo de blogs que eu me amarrava, mas já me foge o nome também. Era algo meio cult com um nome em francês (?) e eu estava prestes a ingressar na faculdade de jornalismo, então me dava o trabalho de ser o mais pedante possível.

Não havia muita coisa a se fazer na internet no começo dos anos 2000 a não ser lamentar miseravelmente o fato do bug do milênio ter um nome desses e ter servido apenas para zerar o relógio dos computadores, mas olha, que época, amigos, que época.

Zeca e a Anitta

Meu professor de sociologia foi, certamente, o educador a quem mais tive proximidade. Zeca talvez enxergasse em mim algo que ele tivesse sido no passado. Manter o coração comuna e passar dos quarenta deve ser uma vitória foda pra gente (meio besta) como a gente.

Passei a lembrar muito do Zeca toda vez que estou em uma situação social limite: Uma balada, ou um lugar qualquer muito cheio, como num dia desses enquanto passava de ônibus pela Vila Madalena vendo muita gente se amontoando nos fumódromos e calçadas num horário de happy hour. Eu assistia de dentro do ônibus gente que flertava, garotas que cochichavam, caras que gesticulavam um aparente trecho de lepo lepo sobre possíveis assuntos sexuais, gente triste sorrindo demais que obscurecia gente feliz e sem sorriso no rosto. O que Zeca diria?

Neste dia, de dentro do ônibus apelidei o evento de Simba Safari social. Estava ali de dentro de uma condução, indo sabe-se lá para onde (disse “um dia desses”, mas faz uns anos) e, como um apresentador da Discovery, narrava pra mim mesmo coisas como “o grupo de fêmeas se diverte enquanto do outro lado machos vagarosamente se aproxima para o acasalamento”.

Este texto ficou tanto tempo parado no notebook que eu passei a frequentar bares como aquele e imaginar o que pensavam as pessoas de dentro dos carros e ônibus vendo todo mundo ali, na rua, como animais em busca de uma sensação de comunidade perdida nos olhares semicerrados das horas do rush, do trânsito, do mau-humor cotidiano e institucional.

Como Zeca, pude observar de dois ângulos a coisa toda e vi que existia algo ali. Algo em não se sentir superior apenas por ter gostos diferentes das pessoas, afinal, pessoas são pessoas e podem se permitir. Estar em casa ouvindo o disco solo do Noel Galagher e assistindo House of Cards com meus gatos sábado à noite não me faz alguém com escolhas melhores.

Outro dia desses no trampo chegamos à conclusão de que o preconceito acontece quando você não-aceita-que/não-entende-como outras pessoas gostem/possam-gostar de algo que você não gosta. E o grande ponto dessa coisa toda é ver a internet cheia de gente repelindo o funk, o axé e a Dilma e, ao mesmo tempo glorificando babaquices como Jethro Tull, Megadeth e José Serra (babaquices na minha opinião, portanto o preconceito fez o seu papel de estar por toda parte).

Foi então que comecei a entender o gosto alheio como a insalubridade de comemorar aniversários em baladas que nunca foi na vida ou a falta de sensibilidade em praticar cooper num domingo frio de manhã, ou a coragem de ouvir Lucas Lucco e assistir o programa da Sabrina Sato. Obviamente são apenas coisas que não quero pra mim, o que não dá pra entender é a sensação de superioridade de pessoas que têm gostos diferentes dos gostos populares.

Mais do que indicar livros que levei pra vida toda e me dizer com firmeza “política, Robson, política” no abraço da formatura, Zeca foi um dos caras que me ensinou a enxergar de um panorama superior o que quer que você esteja vivendo. Do funkeiro todo errado ao garotinho que acha que vai mudar o mundo com uma guitarra elétrica, todo mundo deve fazer o que achar melhor na vida e é permitido também se achar incrível, mas menosprezar o gosto alheio é o que faz de toda nossa sociedade ter personagens tão violentos; é o que, tomando as devidas proporções e vendo o problema desde o cerne, cria a homofobia, a raça pura, o ódio ao que vem de fora, ao diferente. É toda essa nossa pequena arrogância de “você-é-burro-porque-gosta-de-anitta” que faz o mundo cada vez mais omisso, perverso e inescrupuloso, ou seja, como um pouco de nós mesmos.

Espere

Deixei para trás uma época estranha. Parei de escrever por estar depressivo demais, por estar meio doente demais (e comemoro escrever “doente” por ser uma das palavras que deixei para trás também). Escrevo de minha casa, de um lugar escondido, como sempre foi, no fundo. De um lugar lindo, como é, essencialmente. Estou bem. Bem demais, por assim dizer. Alguém sempre me dizia pra não compartilhar a felicidade por ser alvo fácil de mau olhado (ainda tem hífen? hífen tem acento ainda?). Agora eu estou escrevendo de uma ilha, de um resort pessoal. Nada demais, não me entendam errado. Eu só queria agradecer por estar tão empolgado e bem comigo mesmo. Por saber que algumas coisas não voltam. Por saber que vou estar aqui, não livre, mas liberto de alguma forma.

Passei a enxergar. Talvez seja a idade. Passei a ver quem fala por falar, quem está realmente me dizendo algo de coração. Passei a acreditar no final do ônibus, no porteiro gente boa com sotaque de quem sempre morou aqui. Passei a acreditar que as coisas passam e que a gente precisa esperar. Passei a acreditar em mim sem precisar de ninguém pra me dizer isso.

Continuo escrevendo textos em primeira pessoa, essa autobiografia dos meus anos 20, mas parece que agora sei por onde ir. É como se tivesse andando pela galáxia escondido num almoxarifado de uma nave vogon até chegar aonde realmente deveria estar. E saí  sabendo que era aqui onde tudo deveria acontecer, onde a vida vai me levar por caminhos cada vez mais cheios dessa empolgação que tenho agora no coração.

Me desculpem toda essa ausência.
Estive longe por um tempo.

Só você e a sua sombra

Você sabe quando lhe falta maturidade em tudo. Por mais que esteja tudo correndo bem com a vida, vai rolar aquele momento em que você faz a parada mais escrota, pueril e babaca que alguém pode fazer consigo mesmo. E aí vai se sentir um merda querendo enfiar a cara na terra pra sempre, achando melhor não ter acordado de manhã, entre outras pequenas depressões.

E você vai saber o quanto lhe falta de maturidade.

A diferença é quando isso acontece aos 20, você pode escolher um culpado, dizer sobre a influência que tudo o que o cerca têm sobre você, pode querer culpar o mundo pelas redes sociais, fazer uma petição online para tirar a sua culpa da reta nessa inquisição pouco acolhedora que é a nossa mente.

Quando você tem (ou está chegando perto dos) 30, o único culpado é você. Por mais que você queira encontrar uma desculpa esfarrapada a si mesmo, quem vai dormir com aquele monte de chorume na cabeça é ‘só você e a sua sombra’. Na teoria acontece o mesmo aos 20, mas nessa tenra idade você está cercado de pensamentos que fazem você achar que é imortal e que os outros estão todos errados.

É deitado na sua cama olhando pro teto esperando chegar uma fagulha de esperança que evite lhe fazer pensar no que aconteceu ou lembre de algo pior que você fez numa outra oportunidade (note que não faltam oportunidades para se fazer merda nessa vida), que você vai pensar “bem, podia ser pior”. E vai ser pior, hora ou outra, pode acreditar que o que for acontecer de errado vai acontecer e você não vai poder fazer muita coisa a respeito, a não ser remediar uma merda consolidada que vai ficar na sua mente pelo resto da sua vida.

Claro que vai passar. Você vai esquecer. Vai ficar tudo bem quando sua mente decidir dar um autosave direto nesse armário de panos de chão que chamamos de subconsciente. Então um dia, quando você estiver cantarolando o primeiro riff do baixo de sweet child o’ mine, chutando pedrinhas num sábado ensolarado e vendo crianças jogando bola na rua que você vai se lembrar da merda que fez um dia.

E serão 30 segundos de culpa eternamente irritantes.

Beethoven, Cartas e Diários

Um livro um tanto boring, pra dizer-lhes a verdade. Beethoven – Cartas e diários é uma síntese das coisas que ele escrevia a outras pessoas (DÃR) e alguns rascunhos pessoais (estes sim, excelentes). Então você vai encontrar muitas cartinhas endereçadas a editores de música da época, cartas pedindo empregados e governantas, muita coisa biográfica que deve servir para estudiosos e fanáticos.

Tem um trecho excelente em que ele manda uma correspondência chamando a mulher de um cara pra sair (obviamente essas pessoas devem ter nomes e eu devia lembrar para descrever aqui), com o intuito de aproveitar o dia maravilhoso que se fazia. Na carta seguinte ele pede desculpas a ela e ao marido, dizendo que jamais imaginara que eles pudessem de alguma forma achar ruim (lembrando que ele convidou apenas a mina pra sair, não o cara) e ele não tinha a menor das más intenções.

Climão no século XIX, trabalhamos.

Com a surdez, foi tornando-se um cara chato demais, impaciente, desgostoso. Com a “pequena fama” como dizia, tornara-se estúpido com muitos ao seu redor. Respondia grosseiramente pessoas que lhe admiravam, mas pelas quais ele não tinha a menor afeição. Se achava o máximo por ter meio que adotado o sobrinho, quando o irmão morreu e a mãe não tinha a menor condição de cuidar do garoto.

É interessante de ler, mesmo com tantas trivialidades. No fundo, o interessante mesmo são as trivialidades que compuseram o gênio. E acabei descobrindo um monte de coisas, por exemplo que ele tinha uma parada de compor num lugar onde não houvesse um piano, para que ele não caísse na tentação de testar o que estava compondo e meio que perder a graça do negócio.

Tem a ótima passagem com Goethe, em que eles entravam num palácio de braços dados e deviam parar para cumprimentar os duques, mas Beets cochichou um “não devemos nada a esses fita, somos foda, eles que nos devem reverência” (obviamente não nessas palavras), mas Goethe desistiu, largou mão e foi falar com os picas. Beets, aparentemente, contava essa pequena história para todo mundo com um orgulho pueril de ter personalidade mais forte do que o poeta.

De todo o livro, o mais interessante mesmo é a forma com que ele fala sobre música, sobre arte. Sobre o quanto é preciso não apenas desmembrar a técnica e continuar estudando sempre, mas sobre o quanto é amplamente necessário entender a alma das coisas, dos compositores, dos gênios, alinhar o pensamento milenar que faz a criação musical ser tratada como uma espécie espiritualidade.

E tem um pano de fundo que acaba com o sonho de todo músico neste universo: o compositor da clássica nona sinfonia morreu pobre, nunca ostentou e meio que pedia favores pros editores, pros amigos, vivia de pequenos salários em tempos esparsos e não sabia quando receberia novamente. Um dos maiores gênios da música mundial teve uma vida quase pobre por viver de música e nego querendo assinar com o Rick Bonadio achando que vai ganhar a vida.

Fica a reflexão.

Ghost-free

 

“Porque quanto mais tempo sentada, mais o eco do mundo persiste. E quando você se levanta, ele se cala”, do excelente/mágico Pra Sempre, Por Enquanto

Esgotado deste último ano. Sério, fosse pra ter dado uma merda catastrófica, teria dado. E deu, em todo caso. Agora começo a me ajeitar e vem uma confusão toda maior na cabeça, obviamente mais relacionada ao amadurecimento real e não a trivialidades ou a tentar ajeitar-se onde você sabe que jamais se encaixaria. Nem em 800 anos de cursos preparatórios com mais 300 de certificação.

O que era preciso aprender, acredito ter aprendido das formas mais desconcertantes e constrangedoras possíveis. Aprendi que sozinho é extremamente mais fácil como eu havia previsto, embora seja bem mais pesado também. De qualquer forma o passado vai ficar onde sempre esteve, as pessoas vão embora e vai sobrar você, seu violão e uma gata rolando freneticamente no chão mordendo o que resta da sua mochila.

Um excelente momento para grandes mudanças (boa hora de perguntar a D. se a Folha está contratando pra escrever horóscopos também). Mudanças espirituais, sei lá, mas certamente territoriais. Eu não suporto mais estar aqui com estas sombras em mim. Se for pra ser calado, que seja num lugar em que nada fique falando tanto assim na minha cabeça.

No episódio 18 da sétima temporada de How I met your Mother (senta que lá vem spoiler – pare a partir daqui, essas coisas), Marshall e Lilly, casal que antes morava junto com Ted, está morando num município distante de Nova York, no subúrbio, numa vida meio solitária e loucos de vontade de voltar pra cidade. Ted, sozinho, após ouvir que o até então “amor de sua vida”, Robin, não o amava, decide deixar o apartamento para o casal, num gesto de carinho, por saber que eles queriam voltar. E principalmente porque ele precisava de uma mudança dessas. Sem avisar (pra dar aquela carga dramática boa que a gente ama), ele apenas esvazia o apartamento e deixa um bilhete:

Dear Lily and Marshall,

I don’t know if you know this, but I never took your names off the lease. Well, today I took my name off it.

The apartment is now yours.

And I think I finally figured out the best thing to do with Robin’s old room.

(nessa hora aparece o berço dentro do quarto – pois o casal espera um bebê)

See, for me, this place has begun to feel a little haunted. At first, I thought it was haunted by Robin, but now I think it was haunted by me. Well, no ghost is at peace until it finally moves on.

I need a change and I think you do, too. This apartment needs some new life. So, please, make our old home your new home. It is now ghost-free.

Love, Ted.

Ah, essa série é demais, sério.

Estou precisando deixar de ser esse fantasma para mim mesmo e superar o que não foi feito pra mim. Hoje eu saí da banda que mais me fez feliz em 2012, mesmo tendo dito que continuaria. Porque precisava aprender a tomar as rédeas de alguma coisa nessa merda (e precisava um dia desses ouvir aquela inbox diária da melhor amiga cansada de me falar que eu não resolvo nada, nunca – naquele nível de grosseria pedagógica que faz a gente meio que rever tudo do dia pra noite).

De qualquer forma, é melhor sair da cidade mesmo.
E eu tinha previsto tudo isso também.

A maré

Amar aos pares, aos amigos, amar aos passageiros do ônibus, aos cobradores e motoristas, garis (go garis!), moças do salão de beleza, moçxs da frente do shopping; amar gente reclamando na fila do hospital, meu vizinho que me pede a conta de luz bimestral, o pai, a mãe e a enteada na casa da frente, a pessoa que deixa papéis no vidro do meu carro abandonado na rua; amar quem se torna amigo demais sem perceber, quem já é amigo o suficiente pra sempre ser. Amar como se as merdas dessa vida jamais tivessem existido, ou como se tivessem sido levadas pra sempre.

Deixar de entregar amor como uma carta preciosa para uma só pessoa, em um só mundo, para assim entregar o amor como um trivial e corriqueiro folheto de farol.

(e amar Camila e Danilo  que me convenceram de que este blog estava pesado demais)

Intocável

Muitas vezes me permiti pensar em ser alguém comum. Não hoje. Não nestes dias. O que me acontece é ser um troglodita com coração de menino. De um menino que nunca vai entender ninguém, nem se encaixar em nada sem aquela sensação de que, em algum lugar, alguém está vivendo essa merda de verdade.

Segundo A., eu preciso passar por este inferno absoluto (com essas palavras, porque A. é uma pessoa dessas ótimas de trocar uma ideia). Eu preciso viver e superar meus traumas, esquecer. Na base da Itaipava do mercadinho porque a vida nunca me foi assim tão doce.

Quanto mais pessoas conheço, mais me torno vazio. E me perco num monte de gente falando coisas que não concordo, ouvindo, presente, como quem assiste empolgado um teste de DNA no programa do Ratinho. Cercado de uma moda de não ser o que você realmente é, não assumir os erros, não desembestar na desenfreada sorte em apenas manter-se vivo. Todo mundo numa correria maluca atrás de uma personalidade. E eu aqui, nestas mal fadadas linhas tentando explicar a mim mesmo o motivo de ter escrito “mal fadadas” só porque fazia muito tempo que não lia esta palavra.

Hoje me torno intocável. Principalmente pela sensação de de estar quebrado como os rádios velhos em lojas de coisas antigas que vendem rádios velhos quebrados. Me torno intocável por já ter tentado demais viver vidas que não foram feitas pra mim. Construir histórias que, por mais bonitas que fossem, só me trouxeram angústia e madrugadas insones esperando mensagens que nunca mais vão chegar.

Me torno intocável porque é a condição que preciso para viver sem esperar mais nada. E ter histórias de verdade pra contar. Vou continuar chorando o gosto amargo dessa tristeza por um tempo, o problema é que não vai passar. A gente só vai em frente porque tem que ir e não existe outro jeito. Se fosse pra trás eu errava menos, fazia escolhas menos piores e até me divorciava dessa horrível sensação de que não tem nada pra mim aqui. O negócio é que, aparentemente, viver é assim mesmo.

Pastel ou Revolução?

Você passa a entender o preço da carne, do feijão, do tomate, mesmo quando ele ficou mais caro que dois maços de cigarro. E você entende o preço dos maços de cigarro, geral vai parando de fumar aos poucos. É a melhor deixa pra quem não parou depois da faculdade. Acredito que quando ficar no valor de um almoço no Capão – 7,99 num lugar justo ali pra dentro do São Bento -, é o meu limite.

A única gourmetização que não admito é a do pastel de feira (e a do Molejo, claro). Deve haver alguma explicação plausível, obviamente, mas não dá pra acreditar como um negócio tão rua se transformou de um jeito tão escrotamente desproporcional (acho que acabei resumindo o rap nacional também).

Poderia estar aqui sugerindo uma revolta social para a derrocada do sistema, mas sigo problematizando sobre o preço do pastel que vale mais a pena, afinal você pode criticar o capitalismo o quanto for, mas se na segunda-feira você está no seu trabalho pra ganhar o seu sustento e não morrer de fome você está automaticamente dentro do sistema. Por mais que não acredite, por mais que queira que tudo venha abaixo (e olha que são 29 anos nessa, amigo), existe sempre uma segunda-feira.

Além disso, o fato de ficar criticando o tempo todo algo do qual você faz mais parte do que imagina lhe faz parecer uma tiazinha de prédio que reclama de cada milímetro de inclinação dos carros estacionados, que liga na portaria às 22h30 se ouve dizer que vai ter uma festa (mesmo que não seja no seu prédio e que não tenha ouvido barulho nenhum). A mesma tia que pede umas regalias de vez em quando, deixa o neto estacionar na vaga dos outros, “mas só hoje, ninguém precisa ficar sabendo”.

O que mais conheço é gente criticando o sistema desde que lhe resguardem o direito de frequentar os lugares badalados para suprir seus caprichos. Lugares cheios de gente servindo-se de refeições livres e ainda mais caprichos, “mas só hoje, ninguém precisa ficar sabendo”. E voltam pra casa reclamando do capitalismo. Acho que o negócio nisso tudo é uma via de mão dupla em que você pode se jogar às armas e ir pra guerra ou simplesmente perceber que a vida não é exatamente uma reunião de condomínio para você ficar reclamando do zelador o tempo inteiro.

Aonde ficou a coerência deste texto: jamais saberemos (e quem achar ganha uma moto).

Marla

Ela chegou num dia destes e, obviamente, eu não sabia o que fazer, além de colocar a comida e água e arrumar um lugar pro banheiro dela. Digamos que antes disso ela impossibilitou o uso de dois lençóis da cama. Ainda assim, nos outros dias passou a respeitar o lugar em que dorme comigo.

Sim, ela dorme na cama comigo, porque ela é linda. Ponto final.

Ela curte mais comida “humana” do que ração (estava aqui lambendo o prato com molho de tomate agora mesmo). Ela olha pela janela da sala como quem diz “um dia vou pular esses muros e você está ferrado, meu chapa”. Além de me ajudar a recolher as folhas do quintal e estar sempre derrubando coisas importantes para o limbo das tampinhas de coca-cola retornável, ela esconde os brinquedos e come os restos de cabos P2 pela casa. E se aproveita do tamanho pra se enfiar no meu amplificador (acabou de aprender essa, uma fofa).

Por pensar nela como um bebê, como uma criança crescendo comigo, comecei a entender aqueles maneirismos de pai quando o filho pequeno chuta uma bola e o cara diz orgulhoso: NOSSA MEU FILHO É O NOVO NEYMAR ELE CHUTA AS BOLAS CARA, VOCÊ PRECISA VER.

Ainda assim, uma das paradas que preciso treinar em mim é não chamá-la de filha, ou de adjetivos que façam parecer que ela me pertence, como “minha gata”, “a gata que eu peguei”, sabe? Eu tenho (e compartilho sempre que posso) um pensamento de que os animais que vivem com a gente não são nossos. E, principalmente, não são nossos filhos, a não ser que você seja um gato também e esteja lendo isso de um tablet. E que se um dia eles pularem o muro e não voltarem, quer dizer que foram viver a vida deles de outra forma e, bem, você automaticamente já não é mais parte da vida deles. Partindo eternamente do princípio de que nada/ninguém lhe pertence, não existe mais decepção que não se cure. Ponto final.

Ela é a Marla, minha companhia e eu, companhia dela. E isso é pra sempre (ou enquanto durar o estoque de vida). Enquanto isso vamos levando mordidas e arranhadas, entendendo quando ela fica puta dizendo (porque na minha cabeça ela diz coisas) “mas o whiskas sachê custa 1 real tá ligado, mano, não tô pedindo muita coisa”.

E eu só respondo: “você me conheceu numa época muito estranha da minha vida”.

O anticristo

Daí minha mãe sonha com alguém dizendo pra ela que eu sou anticristo. E me manda uma mensagem de madrugada dizendo que eu preciso acreditar em Deus para que minha vida evolua, essas coisas, toda preocupada como se eu fosse o próprio Aleister Crowley.

E eu, culpado por um sonho dela, vou ter de pedir desculpas ou dar explicações por algo que jamais me passou pela cabeça.

Porque a vida continua assim, uma brastemp ótima, precisa ver. Vou começar a cobrar royaltie do porta dos fundos, porque certeza que essa vida que levo serve de base para uma ou outra esquete.

Deus, me livre.

The Cave

Eu tinha dado uma cansada da caverna. Levei por um tempo e tudo, mas o chuveiro começou a incomodar, assim como o aperto e a desordem das coisas em seus pequenos aconchegos. E então eu vi uma barata no armário. Uma senhora barata, com antenas da TV Gazeta, desenvolvida o suficiente para me dizer olá e conversar um pouco sobre o negócio do Stephen Hawking ter meio que duvidado de sua teoria dos buracos negros.
Desenvolvida o suficiente pra ser morta com brutalidade também.
Eis que fui fazer uma faxina, antes de encontrar uns amigos. Tirei todos os móveis de lugar, minha cozinha ficou parecendo um sorteio do caminhão do Faustão (sério, quem é que teve essa ideia genial de colocar aquela pilha de cartas toda no chão?). Quando fui colocar as coisas de volta, vi que rolava abrir um pouco o espaço interno, ganhar um centro de sala, essas coisas que dá pra falar como se não fosse somente um quarto/cozinha e eu realmente morasse numa dessas mansões da revista KAZA. Bem, arrumei do jeito que deveria ter sido desde o começo, com uma distância ideal da entre a prateleira de livros e a cama e um espaço que permita sentar com os amigos pra teorizar sobre essas fitas do universo em desencanto.
(pra beber, claro)
Ainda falta mudar a posição de uns cartazes (tem vários importantes escondidos atrás da estante), mas me deu uma sensação ótima de finalmente estar em um lugar tranquilo e mais amigável pra mim e pro futuro gato.
“E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.”**Prometo parar de citar Fernnando Pessoa assim que uns cinco dos oito leitores deste blog vierem até em casa (e trouxerem uma caixinha de cerveja, obviamente).

Dois mundos

Vivo em dois mundos. Em um deles eu sei o que é perfeitamente ideal para a minha vida, o que eu devo fazer para que tudo caminhe no sentido de ficar bem comigo mesmo e voltar a pensar no mundo como algo praticável. No outro eu sou arrastado por uma correnteza de acontecimentos que me levam a caminhos em que me perco sem saber o que fazer, em que preciso tomar decisões e desvios, em que o confronto é sempre inevitável e presente. Obviamente me cabe a segunda opção, a primeira é apenas um mundo de ideias em que eu pelo menos consigo manter o cérebro pulsando feliz.

A despeito de tudo isso, eu preciso muito de um felino que me faça companhia.

Quédizzê.

(O neologismo do final é em homenagem a C., que mudou pra Curitiba por esses dias – privando a todos nós de uma macarronada excelente.)

Em prol dos sapatênis

Dentre quase todos os meus amigos inteligentes, de esquerda ou modernos, existe uma coisa em comum: o fato de relacionar os chamados sapatênis a um estilo de vida tão coxinha quanto o de um rei do camarote. Uma visão de mundo em que todas as pessoas que usam sapatênis frequentam o Franz Cafe e baladas da Vila Olímpia (o que em alguns círculos é o mesmo que dizer que come cocô e usa pochete).

E logo eu que sempre fui o mais crítico neste assunto, certo dia peguei-me numa loja de departamentos tendo de comprar um sapato que custava um tanto caro em comparação ao que costumo gastar e acabei levando também um sapatênis que não me parecia de todo mal, num primeiro momento (a foto está no post anterior, julguem). Ele custava menos da metade do preço do sapato e era, inclusive, mais barato do que os tênis que uso frequentemente. Mas tá, ainda era um sapatênis.

Fui condenado a um paredão de injúrias, de humilhação pública. Pessoas pasmas me olhavam com feições que diziam “como você pôde fazer isso com a gente?”, rostos chocados nos quais podia-se claramente ler “eu pensei que você era diferente”.

Foi o primeiro movimento que traí.

Agora vem a parte em que me defendo. Olha, fazia tempo não usava um tênis tão confortável. Eu acabei comprando outro na sequência e posso dizer, sendo um sapatênis mais rasteiro, ou mais robusto, ambos tem níveis de conforto inacreditáveis. O outro acabei não gostando muito por ser realmente meio coxinha demais, mas esse da foto praticamente calça sozinho.

Daí vem uma pequena dúvida: não sei se todos os sapatênis são baratos ou apenas os que se encontram em lojas de departamentos, mas até agora, não me decepcionaram.

O fato é que também dane-se, né?

Segundo melhor lugar do mundo

O rolê hipster de ocasião no domingo foi uma manhã e tarde quase noite de risadas para desafogar com N. e R., desde a Augusta até a adega, passando pelo chá da tarde na Benedito Calixto e R. chamando as pessoas de Angélica e o garçons de Alfredo, basicamente, resumindo bem porcamente o rolê mais legal do ano até então.

Voltamos um tanto tarde, eles precisavam viajar de volta pra casa e então os deixei em Pinheiros e passei por um lugar que não ia faz muito tempo (é, esse da foto), um lugar que eu costumava frequentar, do qual tenho uma pancada de lembranças, mas um lugar que ficou pra trás, como todos os outros lugares ficam pra trás.

Este lugar é um retiro. É uma praça que você só encontra errando muitas ruazinhas no começo do Alto de Pinheiros. Feita para tiozinho brincar com cachorro e fazer exercício pela manhã. Uma praça na qual o primeiro cigarro que você acende faz você se sentir automaticamente um punk sem futuro – especialmente pelas caras de ódio e negação que fazem as tiazinhas ricas praticando corrida, seu lixo.

Deitei no banco da praça tentando te esquecer adormeci e sonhei com você apenas para esvaziar a cabeça, admirar as árvores, receber picadas de uns pernilongos mais ligeiros que meus tapas. Não tinha ninguém lá. A tia que corria em volta parou depois de um tempo, provavelmente com receio de dar alguma merda, uma vez que apareci do nada, como um fantasma ou um sequestrador (não julgo, mas #freerolezinho).

É o segundo melhor lugar do mundo. O primeiro melhor lugar do mundo é a internet obviamente fica dentro de clube para funcionários públicos perto do Jd. Horizonte Azul. Não tem nada a ver com o clube. É apenas um espaço de grama que dá pra ver a represa de Guarapiranga como nenhum outro lugar (ninguém passa por lá também, o que é uma excelente prerrogativa para ser candidato a melhor lugar do mundo).

Os lugares continuam sendo lugares, os fuscas azuis continuam sendo fuscas azuis. E a vida vale cada vez menos, escorrendo pelos dedos sem a gente notar. Parece poético, mas eu estava num estado de embriaguez semi transtornado nível 7: precisando demais de um teletransporte pra casa.

(sobre a foto: sim, é um sapatênis, me processe. prometo, para breve, uma elegia ao sapatênis. 2014, bitches)

Até não doer mais

Rasgar a pele e triturar a alma. Ter bons motivos para ficar em silêncio assistindo as vísceras da sua dor se debatendo. E ter ainda mais motivos para não acreditar em nada. E para acreditar em como tudo faz sentido, como as coisas se encaixam. Ser pra sempre essa peça a mais no tabuleiro, que consome os restos, devora as bordas, a pedra no sapato, o botão de pause e slow motion em “festas que estive e ninguém me viu atirando bolo aos peixes”.

Daí ter novamente comigo. Ter uma saudade de estar num bar na esquina sem se importar com as caras que passam, sem se importar com a vida que se encerra, ou com lugares ou pessoas melhores com quem poderia estar. Sem se importar com o sorriso dela. Sem pensar “onde quer que esteja”.

Abrir o ferimento como quem abre um buraco na terra. E cavar fundo, para ver a escuridão e morrer por alguns segundos. E começar a jogar terra por cima. Terra, infinita terra. E reabrir sempre que necessário. E remendar todos os dias. A cada tapa da aposta. A cada violência autopunitiva.

Até não dar mais.
Até não doer mais.

Kenan Knows

Hoje encontrei Kenan (sim, o mesmo Kenan que me fez vegetariano). Me disse sobre um amigo gay que estava com medo de se assumir e de como era o preconceito nos anos 90 em comparação aos dias de hoje. Disse também que está se alimentando bem e se exercitando muito, “porque a noite cobra demais da gente, cara”. Falou algo sobre o Love Story e no mesmo momento traduziu o nome da balada (motivo: jamais saberemos).

E então começou a me falar sobre como é preciso ocupar a mente com coisas melhores que o amor, “porque o amor nos desgasta demais, cara”, disse que todos nós temos um tempo de sofrer, é natural e necessário. Disse que é preciso tomar cuidado para saber exatamente o quanto dura esse tempo e não se maltratar mais do que o ideal, pois é a gente que escolhe sofrer quando todo o sentimento ruim já deveria ter ido embora.

Ele me deu essa semipalestra motivacional sem eu ter dito nada a ele.

Desrebelar-se


“Vêm os dias, vão os anos. 
Vivendo o dia a dia, mais cinzento a cada estação. 
Indignado com a injustiça 
Firme como o aço 
Moldado no fogo, venço o mundo 
Inquebrável, cuspo sangue. 
Vêm os dias, vão os anos, de jovem a maduro sem se prostrar 
Senhor do tempo 
Rugas do sábio 
Vêm os dias, vão os anos 
A casca se perde 
Cicatriz é prêmio 
Mente jovem 
E o espírito vivo.”
–O Cúmplice, Cronos

Apareceu um menino, enquanto eu afinava a guitarra, antes de começar a tocar. Ele insistia pra tocar depois da gente, última banda da noite, porque eles eram de são josé e estavam de passagem, eram punks, eram anarquistas e a favor de causas. Eu já tinha aceitado antes dele começar a dar outros motivos, mas ele ainda disse que seria uma satisfação imensa, que a galera ia curtir, que eram só três músicas, “ok, cara, agora calma”.

Quando terminei de tocar, passei a guitarra pro menino que disse a outro pra “chamar os punks lá” e, por milagre, uma pequena multidão de meninxs punks se arrumou dançando e cantando as músicas, gritando “Êra Punk” (uma espécie de “Viva!”) e sorrindo. Eu estava achando tudo meio insistência demais, o baterista tocava todos os componentes da bateria ao mesmo tempo o que fazia parecer que ele estava batucando numa carteira de escola. Tocaram cinco músicas, seis, acredito, por mais insistência de outro punk com um chapeuzinho que se destacava dos demais chapeuzinhos punks em questão.

Daí eu comecei a ver os caras dançando, as meninas dançando, gritando “Êra Punk” infinitamente, numa possível felicidade compulsória, cheia de bebida e ideais libertários. E pensei em mim, saindo de casa cansado, após sete horas de internet e depressão autoacusatória, colocando instrumentos no carro, pegando as cervejas de cachê, conversando sobre nada enquanto todo mundo ao redor fumava maconha, não tendo nada que me alegrasse completamente, a não ser A. ter reconhecido um cover que a gente toca da antiga banda dele.

Eu parei pra pensar que xs meninxs punks eram muito mais felizes que minha vida cheia de pequenas coisas sem direção. Eram bem mais felizes pogando e falando sobre a causa indígena, eram bem mais felizes bebendo uma garrafa dentro de um saco de pão. Imaginei um mundo em que tudo é novo, as questões sociais, a desigualdade, a revolta, o sistema, como seria novamente se rebelar por algo que você jamais sequer pensou em fazer. Eu fiquei pra trás, eu sempre fico. Senti um vazio imenso, como se nada mais valesse a pena, ou tivesse o mesmo sabor de verdade, eu senti o tempo fumegar pelos poros e me encher de uma névoa espessa como numa tirinha de jornal. Eu senti que não haveria qualquer palavra de conforto que destronasse a terrível sensação de se perder em algo que sempre foi completamente seu.

E foi a primeira vez em que eu pensei em parar.

We hit concrete

A treta mesmo é só respirar a madrugada. E acordar toda porra de dia pensando nela. E procurar o rosto dela em todo lugar na rua. E não saber explicar nada pra quem pergunta. E evitar dizer pra quem não sabe. E segurar a onda do teto imóvel, desabando no seu sonho. E sonhar com a realidade alternativa em que tudo ficava bem. E responder que não, só quando alguém pergunta se você tá bem. Sentir-se passageiro como a chuva. Dá pra sacar agora como é sentir que você não foi nada. M. disse que vou passar a colocar a culpa no destino. A treta ainda é entender que foi simplesmente sonho demais subir tão alto e esperar que tudo desse certo, esperar que o chão não fosse assim tão duro e confortavelmente aterrador.

A treta mesmo é manter-se vivo (outra boa tradução pro nome do blog, reparem, não é à toa).

Se você tivesse a possibilidade de sentir-se a pessoa mais feliz e realizada que já habitou o mundo por apenas dez segundos, o que você faria sabendo que após o prazo você voltaria a mergulhar no mar de lama que é a sua vida? Como você encararia todo o autodesprezo por saber o que você pode ser e ser apenas o que você é?

Não é retórica, não é só o refrão.

Rdio Jives, “Neurastenia” jan/14


Eis uma mixtape sem critério, coisas que estou ouvindo, que estão me dizendo o que fazer, em que acreditar, fossa, neurastenia, depressão lite, talvez um pouco de misantropia indie.

Sobre o assunto “fossa”, eu não estou bem. Aconteceu aí, no fim de ano e, bem, vocês sabem que não sou das melhores pessoas para encarar um fim de relacionamento, principalmente se estava absolutamente envolvido e confiante (“apaixonado”, embora descreva exatamente como me sentia, é uma palavra em desuso).

Me desculpem, mas preciso demais escrever sobre o assunto. E tudo bem deixar de ler a partir daqui, porque certamente não melhora muito.

Na verdade, não melhora nada. Último aviso.

Eu gostaria de pensar em mim mesmo daqui uns sete anos, queria deixar de dar scroll até chegar na foto dela, ou tentar aceitar que mereço mesmo tudo que tem acontecido, pois quando fiz com alguém que me amava o que ela fez comigo, eu não olhei pra trás, eu não quis saber. Queria não ficar mais olhando o celular esperando uma mensagem de whatsapp que não vai chegar, uma ligação pra marcar uma conversa que não vai existir.

É torturante o silêncio ao deixar os amigos em casa depois do estúdio, olhar pros móveis da sala da casa onde uns tempos atrás me senti como se houvesse recebido um presente. Restou o silêncio. A rua, em completo silêncio, e eu pensando em subir até a casa dela só pra dar sorte de encontrar no caminho, esperar na rua, fumar um trilhão de cigarros distante o suficiente pra não ser visto. Mas nem pra stalker me dou.

A lembrança, o tempo tratará de descolorir em tanta lágrima.

Estou passando dias inteiros com a angústia de não contar com ninguém, de não querer encher o saco de ninguém sobre esse assunto (mas este é meu blog, né, gente, se não puder fazer isso aqui, onde mais?). Com uma tristeza que não vai ceder tão breve, que vai perdurar por muito tempo até eu aceitar que quando alguém escolhe se afastar é por querer a vida de volta. E, no fim das contas, eu era realmente apenas um peso atrapalhando o desenrolar da história.

A vibe do começo de 2014 é almoçar no Britão, ensaiar a banda nova, anestesiar a mente com atividades menores como colar cartazes na parede de casa e chorar todos os dias por alguém que, basicamente, já te esqueceu (e o Raça Negra diário, tem duas na mixtape, delicie-se).

Em resumo: curto muito as veias expostas da minha própria vida. Tendo me conhecido, Fernando Pessoa jamais teria escrito o Poema em Linha Reta.

Eu sou ótimo.

Sobre reduzir-se para caber

Poucas coisas me entediam tanto e me deixam com cara aquela cara de desolação em que a pessoa não vai entender nem se eu tentar explicar. Ter bandas é uma dessas. Tem sempre alguém perguntando se estou ganhando dinheiro com isso (e se não ganha, por que continua?), afinal, as pessoas baseiam sucesso e felicidade apenas ao dinheiro, jamais a satisfação pessoal de fazer algo que liberta.

Daí que Grey’s Anatomy tem os personagens coadjuvantes mais legais de todos os tempos. São sempre os pacientes, dizendo algo super profundo. Neste caso, um cantor de ópera bem gordo recebe a notícia de que pode ter seu pulmão retirado caso algo complique a sua cirurgia, o que pode levá-lo a jamais cantar novamente. Depois de muito argumentar com seu marido, ele dá a resposta definitiva (que anotei pra vida, embora tenha sido usada em outro contexto aqui):

“Eu sou grande. Muito grande. Eu não consigo sentar em poltronas de avião. E como Jeff (seu parceiro) está sempre me dizendo, minhas sensações não se encaixam às situações. Se minha comida vem cozida demais no restaurante, eu fico furioso. Eu quero matar o garçom. Mas não. Eu, polidamente, peço a ele que traga de volta a minha refeição do jeito que pedi. Eu passo dias tentando me reduzir. Ser aceitável. E tudo bem. Porque à noite, quando estou no palco, eu experimento o mundo da forma que o sinto. Com uma fúria indescritível. Uma tristeza insuportável. E uma enorme paixão. À noite, no palco, eu assassino o garçom e danço sobre o seu túmulo. E se eu não puder fazer isso, se tudo que me restar for uma vida me reduzindo, então não quero viver”

Grey’s Anatomy, s06e12, “I like You So Much Better When You’re Naked”

Sozinho e inimigo íntimo

Eu geralmente sou um cara amargo pra mim mesmo. Um cara que se julga, que se aniquila, sozinho eu sou o meu inimigo íntimo. Escrevi tão pouco aqui no ano passado por ter se tornado uma espécie de portfolio sobre as coisas que iam bem, mesmo quando não iam (maquiar e ostentar é premissa para portfolio, note). E menti diversas vezes pra mim mesmo, tentando levar as coisas de um jeito mais natural e cômodo. E ainda quando reclamei da vida, foi sempre tão vago que eu mesmo não me reconheci.

Comecei 2014 vencendo partidas de 69 (jogo de dominó individual mais dinâmico/diver, uma febre) e ouvindo as melhores do Raça Negra com amigos que considero como família, que mudam a minha vida constantemente. Amigos os quais consigo chorar na frente sem precisar me explicar e que me seguram quando tudo dá errado. Amigos cujas piadas nos são tão internas e incrustadas que, de fora, muitas vezes não faz o menor sentido. Passei o final de ano com muitas das minhas referências pra vida, basicamente.

Comecei o ano com esperança.

Eu vinha escrevendo coisas num caderno preto de lamentações que comprei justamente pra isso, uma quase biografia de tudo que me atormenta na vida. Desisti por não ter mais a força de alimentar esse tormento (essa frase é influência de Raça Negra mesmo, provavelmente, estou ouvindo o dvd, me julguem). Esses escritos devem ter um final digno, algo como queimar na churrasqueira enquanto eu assisto e encho as casas vizinhas de fumaça.

Me parece hora de parar com toda essa auto encheção de saco. Acho que preciso apenas tratar bem quem me quer bem, essas fitas. Desistir de entender quem mente tanto a si mesmo. Porque, afinal, minha vida é essa aqui, sabe. E a vida é bem simples. Tenho a meu lado a predisposição de ser sincero com quem amo, de evitar o que detesto e viver a minha vida com a simplicidade que der, sem levantar bandeira de merda nenhuma, só estar vivão e viver.

A primeira vez que me olhei no espelho este ano, me reconheci. E isso não quer dizer nada sobre como me sinto depois de tanta perda no ano que passou, quer dizer que entendo que devo aos poucos esquecer quem era e voltar a ser quem sou (eu achei que era frase de Fernando Pessoa, mas parece que é de facebook mesmo). E mesmo com toda a dificuldade em aceitar tanta merda, é preciso estar ciente pra saber atrás de qual prejuízo correr.

Tudo o que quis dizer com tudo isso é: vivam bem e dêem mais valor ao Raça Negra.

Um copo

Eu sentei de frente pra ela e na mesa de canto do Charm, ouvindo com atenção sobre algum feito de alguma pessoa que ela conhecia, que ela sempre contava. Uma Skol, dois copos. Continuava atento às palavras e tentava conversar de volta até o garçom deixar na mesa aquela garrafa e um copo de cada lado.

Enchemos, brindamos. Na metade do primeiro copo a voz dela começou a abaixar e minhas mãos começaram a tremer. Olhei pra rua sem ouvir muito bem os sons dos carros, as pessoas, de repente, tudo ficava mudo e só conseguia olhar os copos, com os olhos baixos e perdido num mundo em que só aquilo fazia sentido, por algum motivo.

Passou.

E daquele momento em diante eu soube que em algum tempo, no Charm, só haveria o meu copo na mesa.

Vinte e nove

Estou de joelhos pro mundo. De joelhos, não como quem se prostra, mas como quem se abandona. Um jogador depois de perder o último pênalti na Copa do Mundo. Olhando a tudo cada dia menos surpreso, cada dia mais calado e distante. Eu sinto o mundo me batendo pelas costas, sinto a força da humanidade me crucificar como o que não foi feito pra se encaixar em lugar algum. A quem cobram saúde, roupas limpas e cabelo cortado e que, a despeito disso, segue se alimentando mal de madrugada, usando as mesmas camisetas amassadas e o cabelo desgrenhado como nunca antes. Eu estou sentado à beira do universo, perdendo controle sobre o chão, à beira de um precipício em que tudo parece mais seguro, ao menos, como uma criança que balança os pés sentada num banco de praça muito alto. E eu não sei tocar o chão.
*
Leo, encarando foda a chegada aos trinta, a crise que nunca falha.

Rdio Jives, “Esperança” nov/13

Comecei a usar o Rdio na esperança decrépita de encontrar um grooveshark mais tranquilo e menos lento de usar. Tô curtindo tanto que resolvi fazer a listinha mensal do que mais toca nestes fones de ouvido baratos. Espero conseguir continuar uma lista mensal com essas coisas.

Por falar em esperança, novembro tem sido um mês de esperança. Da vontade de acordar cedo e ver as portas dos comércios abrindo. Embora ainda seja um mês de quartas-feiras pesadas, de lembrar tudo o que tá errado na vida, as coisas parecem um tanto melhores.

Claro que a listinha ajuda.

Pilot

Estaria levando uma vida de seriado se estivéssemos contando a forma com que chego em casa de noite, depois de um dia relativamente exaustivo, cansado dos transportes coletivos da cidade e paro três segundos olhando pra dentro da pequena casa ainda escura, à procura de uma sensação de estar de volta ao lar, que só vem mais tarde, ao trancar a porta e ligar as luzes.

Outra cena boa seria eu preparando a comida para o dia seguinte, mexendo uma panela como quem sabe realmente o que está fazendo. Provando pra ver se o tempero ficou bom, embora na minha cabeça passe apenas um “coloca um pouco de tudo que fica tudo bem”.

E eu olho pra panela lembrando das pequenas grandes coisas, uma ligação da Aline, conversas ocasionais de amigos, a necessidade de continuar no freela, meus pais preocupados com minha situação financeira. Arrumo tudo em pequenos potes, dobro a roupa sobre o sofá, encaixo edredom em cima de edredom sobre a cama. Pego no sono pensando numa palavra que havia esquecido durante o dia.

Uma cena melhor é quando bato no celular despertando cedinho dizendo “FUCK” ou o “OH MY GOODNESS” ao sair das cobertas. A forma com que eu sento na cama, cedo, à meia luz, olhando pro infinito de olhos semicerrados. Quem sabe até a cena tomando cereal e assistindo Grey’s Anatomy contem para um bom roteiro.

Seria tudo um excelente piloto para uma série de drama, mas na sequência vem a cena em que eu entro no banheiro e tomo um banho de balde porque o filho da puta do locatário ainda não teve o dom de arrumar a vazão de água do chuveiro.

Abandono de incapaz

Daí tem essa pessoa que deixa um bebê dentro do carro, na rua do freela. Um carro fechado, sim. No primeiro dia, achei estranho, comentei com a tia que também estava apavorada.

Um cara ligou na polícia. Disseram que tinham trocado o bebê por um boneco, ou que o bebê era um boneco, algo sobre um boneco, enquanto o cara do freela jurava que tinha visto o bebê se mexer e tudo.

Eu passei por lá novamente hoje, lá estava o bebê. E, bem, como não vi se mexer novamente, talvez seja mesmo um boneco desses super reais.

Você precisa de um certo esforço pra entender esses bonecos super reais. De um maior esforço pra entender gente que gosta de bonecos super reais. Agora calcule o esforço em entender alguém que deixaria um boneco desses super reais com o cinto de segurança encaixado na cadeirinha especial pra bebês do carro.

Sim, exatamente.

O Sebo de Custódio

Comecei uns tempos atrás um processo pesado de me desfazer do que não uso. O processo de sempre. Foi-se o baixo, foi-se o Playstation 2 (vendido por um valor que não dá pra pagar uma das 12 parcelas do PS4). Pilhas de roupas e cds. Vinis que ouvi uma vez e larguei. Uma sacola de livros. Bem, a sacola eu guardei por um tempo.

Daí esses dias fui me desfazer dos livros. Ia fazer uma doação numa instituição para crianças com uma doença terrível da qual não me lembro o nome (estou na sétima temporada de Grey’s Anatomy e não lembro o nome de uma doença. Alzheimer mandou um abraço). Antes disso, fui até dois sebos amigos ver quanto valia a sacola de livros. Não preciso explicar essa, vai. No fim das contas não consegui vender porque prefiro doar a me desfazer dos livros por um preço irrisório. De qualquer forma, segue um relato deste dia maravilhoso.

O primeiro sebo era desses chiques, com papelaria, material escolar e tudo mais. Funcionários treinados subindo em escadas seguras, livros em bom estado, gente afetuosa demais segurando o riso pelos meus pobres e amarelados exemplares. Não aceitaram a sacola, obviamente.

Estava com receio do outro sebo. Conheço o dono das vezes em que estive lá. Certamente o ser humano mais caricato dentre os donos de sebos. Vamos chamá-lo de Custódio, porque me parece um bom nome para um dono de sebo caricato. Custódio não sabe formar palavras sem embaralhar sílabas. Custódio é um cara de meia idade visivelmente confuso, que te deixa esperando mesmo que você tenha os livros escolhidos em mãos e só queira pagar. Seu caixa consiste numa mesa com uma tela e uma calculadora. Por detrás dos livros empilhados num corredor onde só passa uma pessoa por vez ele faz uma consulta em alguma espécie de sistema especializado para sebos (foi o que pensei da primeira vez) e lhe dá o valor final. Se formar uma fila você vai precisar dar a volta no sebo inteiro pra encontrar um corredor vazio onde consiga sair dali. Dá pra processar por cárcere privado, inclusive, fica a dica. Não, sem dicas! Pobre Custódio.

Seu tratamento com o público é perspicaz. Se você está procurando por um livro específico, Custódio diz que acha que tem, te deixa um cartão de visita impresso em folha sulfite e pede pra você ligar de volta pra confirmar. Sim, ele te expulsa do sebo com um número e a probabilidade dele jamais lembrar de procurar o seu livro. Custódio não deve receber muitos telefonemas.

Outro interessante ponto do sebo de Custódio: nada que está ali foi organizado de maneira alguma. E não estou apenas imaginando coisas. Enquanto esperava ele debater qualquer coisa com o único funcionário do local (outro caricato, ouvindo sem fone de ouvido seu funk e gangsta rap nacional na mesa do caixa e reclamando porque queria sair cedo pra encontrar a namorada), uma cliente apareceu pedindo livros de serviço social:

– Moço, boa tarde, vocês tem livros de serviço social?
– “Sevicial”, “Sevicial”… “Sevicial” né? Acho que temos alguma coisa de “Sevicial” sim, tem alguma coisa por aí sim.
– Eles estão separados por tema? – diz a moça muito tempo depois, após conseguir relacionar “sevicial” a “serviço social”
– Não, não tá separado não. Não tive tempo. Mas pega meu cartão, dá uma ligada com os títulos que você precisa.

Faz dois anos que conheço o sebo. Nesse biênio de provavelmente muita conversa perdida com seu único funcionário e certamente envolvido por todo aquele funk e gangsta rap nacional, Custódio jamais encontrou tempo de organizar seu acervo de 35 mil livros. A propósito, a informação sobre a quantidade de livros eu consegui sem ao menos perguntar, assim como o fato dele não ter dinheiro naquele dia porque teve de pagar muitas contas. Aparentemente, Custódio acha o máximo perder o pensamento nessas pequenas conversas.

Da última vez que estive lá tirei a prova sobre o sistema especializado de sebos usado para chegar no valor cobrado pelos livros. O preço dos produtos é formado a partir de uma conta simples: Custódio lê o título, digita no Google e abre o primeiro site que esteja vendendo o livro. Desconta 10 reais e aí está o preço final. Pode ser o Maktub ou a coleção completa dos escritos de Freud. Você vai pagar dez reais a menos. Imaginei a possibilidade de Custódio lhe devolver  troco caso o livro custe oito reais, por exemplo.

Está mais do que na hora de escrever uma carta ao Luciano Huck pedindo um fonoaudiólogo e um curso de biblioteconomia a Custódio. Eu faço a minha parte.

(este post corresponde ao ‘Day 17 – Descreva um lugar ou alguém que não goste’ do 30 days writing challenge do blog Spleen Juice.)

Laços

A gente discute e fica triste, se entreolha, os dois se sentindo as pessoas mais erradas do mundo. Provavelmente é isso que resolve tudo. E enquanto isso estamos ali, sentados, ambos de cabeça baixa, procurando pontos fracos no discurso um do outro pra justificar qualquer coisa sem importância que tenha antecedido nosso encontro.

Qualquer coisa boba que no ano que vem não vamos nos lembrar.

Fazemos perguntas sem sentido um ao outro também. Perguntas das quais sabemos a resposta, mas precisamos ouvir da boca do outro pra ter certeza do que já temos certeza. Uma forma de fraqueza tão bonita, tão juvenil. É quase a versão analógica de curtir suas próprias fotos no facebook.

E, num passe de mágica, nossas mãos estão juntas. Estamos sorrindo com meias lágrimas nos olhos, entendendo como é tudo tão pequeno perto daquele laço. Se ainda estivermos chateados, começamos a dizer palavras de conforto sabendo também que seja qual for o monstro, vai ficar tudo bem.

Mesmo assim, ela ainda está sem falar muito, com visível cansaço depois de protagonizar mais aquele emocionante capítulo da novela. Eu olho pra ela imaginando como gostaria de não ser um problema e na merda que seria caso ela não estivesse aqui. Dramatizando como um rei, sempre.

E então ela levanta e veste meu chinelo 44/45, que em seus pés pequenos parecem dois esquis de neve. Caminha com alguma dificuldade até a cozinha e me diz de longe que deixei queimar os pães de alho.

Daí fica tudo bem.

Via NYC

Sem relação alguma, mas lembrei desse caso lendo essa parada que Diego compartilhou do Alt.

Certa vez eu peguei um ônibus indo trabalhar nos idos de 2002 ou 2003. Pois bem, nesta época eu pegava o coletivo num horário super escroto e portanto tinha sempre a remelenta mania de ficar encostado na porta da frente, ao lado do motorista, uma vez que essa porta só se abria quando o ônibus já estava relativamente vazio e eu podia ir pra trás e me acomodar junto aos companheiros de humilhação coletiva diária (acho que chamam de passageiros hoje em dia).

Foi então que uma moça parou ao lado do motorista com um papel e falando palavras aleatórias do tipo “não sei onde”, “moço eu”, “ai, devia ter ligado”. Eu sempre olhava pro painel pra ter certeza de que a placa de “fale com o motorista apenas o indispensável” estava lá. É como ficar cutucando Deus dizendo que você não sabe o que vai ser do seu futuro enquanto, bem, ele está tentando entrar na marginal com um ônibus de infinitas articulações.

Após uns segundos e prestando atenção pra ver se podia ajudar (quem nunca?), eis que a personagem solta a frase:

– Moço, eu preciso ir pro Central Park.

Eu olhei pra trás achando que era pegadinha, ou imaginando que o Luciano Huck talvez aparecesse em algum momento, mas aparentemente a moça pegou realmente um Vila Mariana via Avenida Ibirapuera esperando que ele passasse em Nova York.

O sorriso de Vercilo

Eu gostava do sorriso do Jorge Vercilo.

É uma dessas coisas que a gente guarda (e uma dessas excelentes frases pra começar um texto aqui, provavelmente). A nova MPB pra mim era o sorriso do Jorge Vercilo. E eu lembro quando comecei a procurar ouvir umas coisas novas de MPB porque, bem, devia ter algo bom e novo, que fosse alegre, mas fosse profundo, espiritual, qualquer coisa. Mas não, não tinha nada. Tinha gente sorrindo. Sempre. E nunca sorrindo como o Jorge Vercilo, que pra mim era esse pioneiro.

Daí você volta a ouvir esse monte de caras velhos e cheios de melancolia compondo clássicos que marcaram gerações inteiras, passa a aprender no violão que a tristeza é senhora desde que o samba é samba e, ao procurar gente nova da MPB percebe que eles estão todos sorrindo. Sorrindo impecáveis. Impecáveis e forçosos. Provavelmente como forma de estar no mercado da música feliz brasileira, da música descolada e quem sabe tocar naqueles festivais pra brasileiros no exterior.

Afinal o que é triste não vende. Não sei se o Jorge Vercilo inaugurou uma espécie de escola musical, se é a questão de mercado (sempre é) ou se são comprimidos. Comprimidos de felicidade. Ou o produtor conta piadas no camarim e o produtor conta piadas até que os artistas não consigam mais tirar o sorriso do rosto. Sei que nunca mais cantou-se a tristeza como se cantava antes. Tristeza com sorriso ou malícia não é exatamente tristeza.

Aline postou essa música aqui na versão do João Gilberto hoje. E eu lembrei da misantropia, do confinamento, de uma turnê que ele fez no Japão, de sua postura vigorosa quanto a sua privacidade e lembrei de canções ótimas profundas e tristes ou alegres e espirituais. Eu não lembrei de sorriso nenhum. Digo, lembrei de um. O problema não está no riso puro, veja bem, está na interpretação estéril e homogênea, naquele riso flácido que não tem verdade nenhuma, que é feito pra agradar listas de fornecedores, patrocinadores, empresários e essa gente que assiste TV e precisa que as pessoas estejam sorrindo sempre.

Obviamente vocês vão lembrar desse texto como aquele em que eu falo que gostava do sorriso do Jorge Vercilo né? Por favor, não.

Unlucky Days

E então você está desempregado há meses, sem lugar ao sol como diz a descrição do blog, com os problemas de autoestima de sempre, desavenças com a namorada, sem comida na geladeira, sem previsão de pagamento do freela, com um amigo que desistiu de tentar você pro outro trabalho esporádico maçante, com o licenciamento do seu carro prestes a ser atrasado, sem dinheiro pra comprar as pequenas lâmpadas do farol que queimaram ao mesmo tempo, quase fazendo amizade com o pessoal do telemarketing de cobrança do banco, sem saco algum pra escrever no seu diário autobriográfico por todo o peso que ele joga de volta em você quando você abre o caderno, com duas histórias pela metade e sem ensaiar com a banda e pilhas de estoque parado de cds que você deveria ter vendido durante o ano (sério, ninguém mais compra cds), evitando casamentos que não vai poder comparecer pela terrível sensação que existe em não dar presentes, com sua mãe achando que está tudo bem porque você hesita em dizer que realmente está à beira de um colapso mental e os vizinhos devem achar que você se corta com uma faca quando ouvem a respiração forte e abafada da sua crise de pânico.

Daí você emenda dois textos na sequência, encontra cinco reais esquecidos no carro, tira a roupa do varal dois minutos antes de começar a chover e começa a achar que a sorte está realmente mudando de lado.

O guardador de palavras

Existe uma espécie de êxtase no fato de não ter nada a dizer, algo que lhe pega pelos braços e lhe atormenta, como um amigo com um canudo assoprando bolinhas de papel na sua cara até você se irritar demais e não conseguir controlar seus impulsos e gritar com ele ou qualquer coisa do tipo.

O ponto é que você não consegue ter esse impulso de gritar contra tudo que lhe atormenta. Você fica cheio de palavras. Cheio de palavras que ninguém jamais vai ouvir. Nem seu melhor amigo, nem o taxista, nem quem sabe o barman gente boa que puxa assunto falando do Corinthians.

Existem palavras que jamais serão ditas, ideias que jamais serão divulgadas e pensamentos terríveis que ninguém terá o poder de julgar porque, não, eles jamais serão ditos em voz alta. o êxtase consiste em perceber que aquilo jamais vai sair de você de jeito algum. No momento em que você percebe isso as palavras juntam-se ao que quer que você acredite que liga o seu corpo a sua existência: sua alma, seu espírito, seu karma, seu cérebro. As palavras vão ficar armazenadas. É como uma gigante agulha de heroína que suga um pouco do seu sangue e depois mistura um monte de merda à sua corrente sanguínea (ando falando tanto de drogas depois do Breaking Bad).

As pessoas deixam de dizer o que pensam por pena, por serem covardes, por não acreditarem em si mesmas. Esse não é ponto aqui. As coisas que você diz te livram de algo que você prefere compartilhar com os demais, as coisas que você não diz criam em você um disco rígido de memórias ruins.

Com o tempo você vai descobrir que o seu armazenamento tem um limite. E que você vai começar a despejar palavras ou crises de ansiedade, desespero e pânico com mais frequência. Conversar pouco, assim como dizer pouco o que você pensa, lota a sua existência desse monte de arquivos corrompidos e não existe terapeuta suficiente pra tanta besteira nesse mundo.

Portanto é preciso dizer o que se tem a dizer: “pegue toda a sua honra desperdiçada, cada pequena frustração do passado, pegue tudo o que você chama de problema, é melhor colocá-los entre aspas (…) é bom você saber que no final é melhor falar demais do que nunca dizer o que você precisa dizer”, mas esse é apenas o John Mayer falando.

No final, ou a gente leva em consideração o princípio de arquimedes (ou todas as aulas de física que já tive na vida) que é um grande exemplo de lição dada e jamais executada ou a gente fala tudo que tem na cabeça e arca com as consequências, o que é bem mais adulto e difícil de lidar. De qualquer forma, é bem mais fácil pensar ou andar por aí sem carregar um tanque de guerra moral nas costas do que manter esse monte de palavras atormentando seus pensamentos e te fazendo esquecer que o princípio de Arquimedes tem a ver apenas com a intensidade da força de um corpo submerso na água.

A lição é uma escolha: ou você diz tudo o que pensa e abraça o que vier em troca, ou vai dar ao seu terapeuta a oportunidade de trocar de carro todo ano.

(este post corresponde ao ‘Day 11 – Escreva uma crônica’ do 30 days writing challenge do blog Spleen Juice.)

Caminhando, cantando e cozinhando metanfetamina

Outro dia, passando por um dos bares mais “perigosos” do bairro (digo perigoso apenas como unidade de medida, uma vez que ali estão muitas pessoas erradas na vida, mas em seu habitat natural, portanto tranquilas. Sempre apareço por lá quando me sinto mal – ah, sim, falo do Enoch), pensei em como seria chegar batendo na mesa e derrubando garrafas e copos em cima dos traficantes locais, mandar todo mundo a merda que eles mereciam aquilo mesmo, só pela represália de tomar uns tiros ou ser espancado na frente do lugar. Uma bela forma de morrer, não?

E esse sou eu falando de suicídio. Tenho certeza que em algum momento, meu irmão – que nunca mais deu as caras no Capão Redondo – vai ler isso um dia desses e dizer “CHE CHECHE CHE Esse Robinho é Pesado CHEECHECHEEHEHEH” e depois me contar. Saudades, Diguinho.

Mas veja bem, se você está pensando esse tipo de atrocidades no milionésimo de segundo em que está de passagem pelo traficante no auge da carreira (19 anos), o mesmo que você viu crescer roubando salgado na lanchonete de 50 centavos, alguma coisa está mortalmente errada na sua vida.

(Prefiro muito mais escrever “deadly”, mas entrei numa reabilitação de pedantismo fortíssima aqui).

Daí que esse ano tem de tudo pra ser o ano em que deu bosta. Sabe aquela cena de Independence Day em que fica todo mundo olhando a nave mãe abrir as comportas e então começa a sair uma luz azul bonita e, de repente, ela estraçalha o prédio? Essa vibe, basicamente. Tirando o fato de eu não ter um barril com dez milhões de dólares, 2013 está como a quinta temporada de Breaking Bad: tudo dando errado do pior jeito possível.

A propósito, se estiverem precisando de auxiliares de laboratório para cozinhar metanfetamina, sabem meu número.

Parece cocaína, mas é o banheiro de um posto de gasolina

Daí que ontem pegamos uma sessãozinha de filme na casa de M. pra ver o excelente Searching for Sugar Man, documentário lindo, já tinha assistido, mas achei sensacional rever com os amigos e com um pote de batatas assadas e com suco de uva orgânico e ouvindo os beats de C. e deixando Aline irritada enquanto ela me deixava constrangido dizendo como eu cozinho bem.

E depois de deixar Aline em casa, decidi parar no posto, comprar cigarros, abastecer, enfim. Isso tudo lá pelas duas horas da manhã, quando os postos de gasolina estão cheio de pessoas particularmente irritantes com suas camisas polo e correntes de ouro falso, músicas altas demais e cápsulas de cocaína que tumultuam a fila do banheiro.

Eu perco a linha, eu sei.

Existe um determinado espécime nesse universo que a gente só encontra em postos de gasolina depois das duas horas da manhã. Obviamente existe uma galera na boa como estava na hora em que cheguei lá. Havia um pessoal de canto ao lado do banheiro conversando freneticamente (o pessoal da cocaína), um grupo perto da entrada da loja, numa boa e até um pessoal ouvindo funk na outra ponta, mas num volume surpreendentemente praticável.

Acontece que, logo depois de abastecer, ao tentar passar o cartão, a instituição bancária me fez o grande favor de estar fora do ar. Segui esperando. Sentei pra ver a Florence + The Machine na TV da lojinha de conveniência. Fui alertado que não posso consumir bebida alcoólica dentro da loja. Posso comprar litros encher a mente de cocaína e sair dirigindo, mas não posso sentar nas mesinhas. Posso talvez pegar um guardanapo para enrolar mesclado, mas não posso ver a Florence acompanhado da minha latinha de Itaipava. Posso quem sabe fumar ao lado da bomba de gasolina e bater as cinzas dentro do gatilho de abastecimento, mas não posso sentar a porcaria da bunda numa cadeira com uma latinha de cerveja.

Sério, eu perco a linha.

Resumindo algo que poderia ter contado em quatro linhas – e que fiquei dando voltas apenas para reduzir o bounce rate, aumentar a taxa de duração da vista no blog e muitos outros motivos entre eles coletar as informações dos leitores via IP e transformá-las em bancos de dados para empresas que vendem spam, sério, eu não consigo parar de dizer essas coisas, alguém me ajude – ontem eu passei quatro horas da minha madrugada esperando que a Caixa resolvesse voltar a funcionar.

Com a permissão do frentista que, por sorte, não me imaginou um golpista ou qualquer coisa assim, tomei cerveja sozinho observando os tipos que variavam do pedinte, possivelmente morador de rua, parecido com o Das EFX nos anos 90 passando pelo malandro com corrente de ouro, carro tunado e funk num volume que estava disposto a ecoar na zona sul de são paulo inteira; até o casal visivelmente embriagado que num momento conversava com um cara e no outro fazia uma performance erótica (sim, na frente do cara mesmo). Tudo isso acompanhando o espírito de embriaguez do lugar e tentando usar o banheiro competindo com pessoas que iriam usar NO banheiro.

E essa foi a madrugada de sábado. Podia ter ficado no filme e na companhia manera.

Cracking Music Chronicles #1 “Os Condenados da Terra”

Outro dia assisti o Liberal Arts, um filme dirigido pelo Ted (desculpem, mas depois de How I Met Your Mother não tenho como chamar o cara de Josh Radnor) que tem uma história de amor meio avessa, que era pra ser uma espécie de comédia romântica e acaba soando como um drama muito bonito. Recomendo muito, dá pra ver online, legendado e tudo, coisa fina.

Num trecho do filme, o Ted – que não é só o diretor, como também o ator principal – fala algo sobre como a trilha sonora pode afetar o que a gente sente em relação ao mundo. E, com a trilha sonora certa, todas as pessoas que ele via na rua lhe pareciam amantes em potencial, pessoas lindas, atraentes. Se não me engano demais, acho que ele ouvia música clássica, ou algo assim.

Eu já tinha pensado nisso por muitas vezes, mas a experiência que narro nesse primeiro texto me motivou a buscar melhores trilhas sonoras para cada situação em particular. Portanto quando encontrar no título “Cracking Music Chronicles” (que quer dizer algo como crônicas na tentativa de destravar o código do mundo por meio da música),  você deverá saber que vai entrar nessa viagem infinita ao nada absoluto que é a minha cabeça em relação ao mundo portanto, seja feliz e siga adiante (ou vá fazer umas torradas, porque torradas estão em alta – aqui em casa, pelo menos).

*

Dia desses, numa ida ao centro de carro durante a semana, me peguei no trânsito impraticável da avenida Rebouças. Havia passado no trabalho do amigo A. e pego um CD da banda dele, uma dessas que eu não costumo compartilhar porque muito provavelmente ninguém vai entender. Para resumir bem porcamente, O Mito da Caverna toca música lenta, muito pesada, gritada em quase-óperas de meia hora ou mais. O disco “Os Condenados da Terra” tinha uma só música e se extendia por 33 minutos de um êxtase inacreditável.

(Eu avisei que ninguém ia entender)

Portanto fui pela metade do trajeto ouvindo o disco pela primeira vez, maravilhado com minha ideia rasa de músicos que conseguem contar tempo em músicas com mais de meia hora. O primeiro ato dessa epifania suburbana deu-se dentro do túnel que dá acesso a Rebouças, já no final da primeira audição, num trecho em que se ouve uma declamação com voz de locutor, que destoa dos berros guturais da música toda. Eu estava com os vidros semicerrados, escutando aquele assovio sempre distante vindo das saídas de ar, parado em meio a montes de gente atrasada, motoboys buzinando e me perguntei o que eu fazia ali, dentro daquele túnel, naquela tarde de calor, com aquele bando de gente enfileirada em suas máquinas. Eu sabia o que ia fazer no centro, não é bem essa a questão. A pergunta era sobre o que diabos havia pra mim nisso tudo. Como os anos se passaram até que eu chegasse ali naquela escuridão do túnel, naquela claustrofobia comum. Aquele som me fazia flutuar de maneira indecifrável sobre a história do mundo e descobrir que eu não era muito mais do que uma história num poço sem fundo de histórias e que Deus, em sua grande onipotência, apesar de grandioso e imenso, começava a se reduzir ao tamanho dos homens, sendo ele também mais uma porção de história nesse poço. E daí o trecho da música preencheu o restante da lacuna que se abria em mim:

“Então Deus compreendeu que nunca tivera, verdadeiramente, no mundo que julga seu, o lugar de majestade que havia imaginado, que tudo fora, afinal, uma ilusão, que também ele tinha sido vítima de enganos, como aqueles de que se estavam queixando, as mulheres, os homens e as crianças e, humilhado, retirou-se para a eternidade”

No segundo ato, eu já estava próximo ao metrô Anhangabaú, parando de semáforo em semáforo, com os vidros fechados, prestando ainda mais atenção em cada trecho da música e ainda mais espantado com tudo. E ali no cruzamento da Sete de Abril fui tomado por outro devaneio desses que me levam pra muito longe. As pessoas andavam em câmera lenta, embaladas pelo ritmo quase fúnebre, envoltas cada uma em seu descaso predileto, um homem andava coberto por um lençol e comia um pedaço de pão, alheio aos timbres de guitarra que na minha mente o faziam macabro, cheio de raiva e desgosto. Mesmo as mulheres e crianças, bem vestidas e preparadas pro mundo me pareciam perdidas, desorientadas, distantes, frutos inconscientes de uma mente perturbada. Era tudo muito bonito, era tudo tão terrível. Era como se tivessem desligado o botão da realidade por trinta e três minutos e eu estivesse experimentando ali cada ranhura e fórmula riscada no código fonte do universo.

A bondade e a indiferença

Ele nunca me pede dinheiro. Eu paro no mesmo semáforo de sempre, no mesmo horário da noite, quando a padaria já fechou as portas e não sobra ninguém além daquele grupo de moradores de rua tentando se arrumar em frente ao estacionamento coberto da loja de 1,99. Gente simples, com o azar de estar dormindo na rua.

Todos os dias em que paro naquele semáforo vejo um homem negro claramente desconfortável ao pedir esmolas vestindo seus trapos e seu chinelo dedo. Da primeira vez, o vidro do carro estava fechado e eu, o homem negro claramente desconfortável dentro do carro, vestindo meus trapos e meu chinhelo de dedo quis pensar melhor sobre a sorte que tinha.

Da outra vez, ele não me pediu nada. Eu, antes disso, já sinalizava que não tinha moedas para lhe oferecer. Ao mesmo tempo o farol abria e ele me dizia algo como “vai com Deus”, com um olhar mais triste do que incompreensivo. Uma terceira vez, quando tinha alguns trocados sobrando, esperei ele dizer algo. Ele me perguntou como estava minha família, se estava tudo bem em casa. Eu disse que sim e a tudo ele respondia “que bom, graças a Deus”. Ficou olhando meu cigarro e dei-lhe um. Perguntou ainda se eu estava voltando do trabalho, disse que não estava trabalhando, ele lamentava sobre como andava tudo tão difícil no nosso mundo. O farol abriu, eu fui embora me esquecendo de oferecer-lhe as poucas moedas que me restavam.

Passei muitas vezes pelo lugar. Não me parece uma pessoa maldosa, ou aproveitadora. É um cara como eu e você, mas sem uma casa pra morar. Quis dedicar este texto a ele que em nenhum momento me pediu sequer um centavo. Que sempre perguntou sobre a minha família, mesmo sem conhecê-la, sem ao menos saber se sou uma boa pessoa ou não. Eu, que nunca me sinto uma boa pessoa, voltei pra casa pensando no cara se cobrindo pra passar a noite enquanto eu reclamava dos dois edredons e da dor nas costas pela manhã, dos comentários mesquinhos das redes sociais. Não tem como se sentir uma boa pessoa enquanto existe gente dormindo na rua e você está procurando que foto de perfil melhor representa você.

É a ridícula sensação de ser testemunha ocular da miséria alheia, muito provavelmente o nosso spleen, a maldição da nossa geração. O fato de ter gente morando na rua enquanto você se preocupa com trivialidades não faz de você muito melhor do que um bilionário com uma ong para senhoras que produzem bolsas artesanais; Ou que um jogador de futebol com uma cobertura nos Jardins e uma escolinha pra crianças carentes numa comunidade qualquer. O bilionário vai checar se a ONG não está lhe tirando dinheiro, o jogador vai querer mostrar a escolinha na TV pra passar por bom moço e você vai entregar uma nota de dois reais e seguir em frente quando o farol abrir tentando acreditar que realmente tem feito tudo o que podia por alguém.

E a bondade real vai seguir cabisbaixa tolerando a indiferença sem jamais lhe pedir um centavo e, no fundo, querendo apenas trocar umas palavras antes do semáforo abrir.

das padocas

Daí eu tava longe de casa, numa padoca (vale atentar que o termo “padoca” refere-se mais a um estado de espírito e pode ser uma lanchonete ou bar, desde que tenha um balcão e que sirva pão na chapa) com uns módicos seis reais em notas de dois, esperando que o pão na chapa e um café não saísse mais caro que isso. No fim das contas, o café custava bem barato.

Na TV do lugar, Ana Maria Braga falava sobre tipos de café, com um monte de potinhos cheios de grãos sobre a mesa e uma especialista (sommelier de café, tendência) falando sobre cada particularidade, sobre grãos exóticos, essas porcarias que a gente que toma café todo dia não curte nem ouvir falar.

Eu ali comendo meu pãozinho esquentado com um café quente o suficiente pra você não se ligar muito no gosto, embebido pelo espírito imortal da padoca, enquanto o provável dono assistia decidido a TV, ao mesmo tempo em que contava moedas e notas do caixa. E então Ana Maria Braga mostra um café de uma parte inusitada do mundo, um dos mais caros do planeta, ou qualquer coisa parecida. E então, o dono vira pro cara da chapa:

– Ô Amaral, segunda-feira o pingado vai pra 230 real, hein!

Me sobram motivos pra amar uma boa padoca.

Esquete #001 “Não saia daí”

Menina entre 18 e 19 anos, simples, de vestido, entra numa loja de foto digital e caminha até o balcão:

Menina (sorrindo simpaticamente): Oi, eu tenho uma revelação.

(neste momento ela entrega um papel pequeno, que dá a entender ser uma espécie de comprovante de pagamento e retirada)

O atendente neste momento está com a roupa da empresa e pode ser um cara com os trejeitos e semelhanças do João Kleber, ou o próprio.

Atendente arregala os olhos, segura o papel e faz cara de quem não acredita

Atendente: Você… Espera aí, você tem uma revelação, é isso mesmo?

Menina: Sim, taí no papel, tinha que vir hoje e tal.

Atendente (apontando para um lado qualquer do cenário): Olha Brasil, o que essa menina veio fazer aqui hoje não é brincadeira, viu? Não é mesmo. Como é que é o seu nome, meu amor?

Menina faz cara de não entender nada e olha confusa pra parede onde aponta o atendente, estático.

Menina: É Rosana, mas o que que isso tem a…

Atendente interrompe: Menina Rosana, Brasil. A menina Rosana veio até o nosso programa com uma revelação a fazer, veja (olha pro papel)… ai ai ai, não é pouca coisa não hein, pelo jeito ela vai chocar muita gente aí de casa.

Menina: Moço, o que raios você tá dizendo?

Atendente: Eu não to dizendo nada, viu, hoje é você que vai dizer tudo, porque essa revelação aí vai, olha, Brasil… A Rosana tem aqui uma revelação que vai chocar muita gente, se tiver criança na sala é melhor levar pra brincar porque olha, o que tem aqui não é brincadeira não, viu.

Menina: Ai, moço, para você tá me assustando, ficou tão ruim assim?

Atendente pede um instante com o dedo em riste e levantando as sombrancelhas e vai até a faxineira que varre o chão sem notar a presença daquela conversa toda.

Atendente: Oi, como é o seu nome?

Faxineira assusta e para um instante. Olha com desdém pro cara e pra menina.

Faxineira: Marcelia.

Atendente: Marcelia, me diz, o que você acha disso daqui?

(atendente abre o pequeno papel e mostra a faxineira)

Faxineira olha a menina com reprovação

Faxineira: Isso aí é dela?

Atendente: Sim, essa revelação é da Rosana. O que você achou?

Faxineira: Olha, não dá pra saber direito como vai ficar né? tem que entregar.

Atendente: Realmente, Dona Marcelia tem toda razão, não é todo dia, Brasil é por isso que o que a gente tem aqui hoje não é brincadeira, a Rosana tem que entregar tudo aqui hoje, mas vem cá, como é que tá o ibope aí meu diretor?

Atendente para por alguns segundos apertando o ouvido como se tivesse com um ponto eletrônico.

Menina balança a cabeça negativamente em reprovação.

Menina: Moço, o que tá acontecendo?

Atendente: tá, ok, só um momentinho Rosana. Ah ok, temos a confirmação parece que a história da Rosana já colocou a gente em primeiro lugar do ibope

Atendente aperta o play num pequeno rádio que toca uma marchinha de carnaval e joga confetes pro alto, dançando enfaticamente, comemorando.

Menina: moço, deixa, depois eu volto e…

Atendente: Sim, muito bem lembrado Rosana, segura aí a sua revelação que agora a Lucélia tem uma novidade pra gente, são produtos da Jequiti, certo Lucélia?

Atendente aponta e a câmera vai junto até uma moça sentada num canto da loja folheando uma revista da Jequiti.

Lucélia: Ai, claro João, essa revelação pelo jeito vai dar o que falar hein, mas veja bem, com os nossos produtos da Jequiti você vai ter a pele mais bonita e os melhores cosméticos do mundo com um preço IN-COM-PA-RÁ-VEL! Quem compra sabe. Jequiti, a sua melhor escolha! É com você João!

Nesse instante a menina está impaciente e com a cara emburrada encostada no balcão.

Menina: Você vai me entregar essa merda ou não?

Atendente: Claro que vou, eu não gosto de enrolação não, mas infelizmente meu diretor tá dizendo aqui que temos que chamar os comerciais.

Atendente começa a caminha lenta e dramaticamente em direção a parede.

tendente: Então, veja bem, você telespectador: no próximo bloco…

Cena da menina saindo da loja batendo a porta

Corta.
Créditos.

Cena dos créditos: Menina folheando um pacote de fotos reveladas ao lado do Atendente.

Menina (contando rindo, embora constrangida): Olha João, essa aqui sou eu com sete anos depois de dois anos morando na rua, essa aqui sou eu fumada de crack aos 9, ah essa aqui é boa, eu aos 11 depois de uma briga da escola, esse negocinho é um pedaço da Ritinha, foi triste. Olha, que linda essa! Ai, nem sabia que tava aqui, foi depois que mandei matar meus pais, numa viagem com o Tomás, foi tão lindo, João. E tem essa também que…

Atendente levanta cautelosamente e caminha para fora da cena.

(este post corresponde ao ‘Day 23 – Escreva algo engraçado’ do 30 days writing challenge do blog Spleen Juice.)

O velho BUK

Nem sei por onde começar, acho que posso dizer que o fato de nunca ter tido um cachorro me fez uma pessoa meio apática aos animais, de modo geral. E posso dizer o quanto a Aline mudou minha concepção nesse sentido, tendo em vista que o Augusto (gato dela) tem tanto apreço por mim que me fez considerar a hipótese de ter um animal para companhia em casa.

Daí veio esse cachorrinho um tanto velho que mora na rua dela, que é alimentado por vizinhos, vive brincando com todos e não precisava ter muito carinho por mim, uma vez que só o via de passagem, até que, numa passagem, ele entrou no banco do passageiro e sentou, confortável da situação. Não o trouxe pra casa nesse dia, ainda tinha algumas coisas a aprender, pelo visto.

E numa das noites mais frias do ano, Aline o viu dormindo na rua e não aguentei, eu tinha que tirá-lo de lá, mas não sem antes procurar um lugar pra ele ficar em casa, o que me fez correr a um supermercado e comprar um pequeno futón, um pote de comida e alguma ração. Isso na madrugada, sim. Cheguei lá e ele não estava, fiquei na rua uma meia hora esperando que ele aparecesse e fui embora, um tanto desolado.

No dia seguinte, voltei lá e imagino que alguém o tenha colocado pra dentro de casa. Dei algumas voltas no bairro em sua busca, mas depois de virar e revirar o Jd. Mitsutani fui embora, antes de virar a lenda urbana do cara do carro preto que passa as madrugadas a procura de um cachorro que apelidou de BUK, antes mesmo de levá-lo pra casa.

Veja bem, não existe na vida nada que aconteça sem razão e, portanto, acredito que essa seja uma das pequenas tramóias do destino e de Deus que, em sua infinita sabedoria enquanto fustiga a barba branca, quis me dizer para esperar um momento melhor. A esperança é a de que o velho BUK esteja nesse momento em um lugar mais seguro e quente que a rua. E que eu, um dia, aprenda o suficiente para trazê-lo pra casa.
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este post corresponde ao ‘Day 18 – escreva sobre animais’, do 30 days writing challenge do blog Spleen Juice.

Terças-feiras

Daí que saímos de casa pra ver o Black Alien, na Clash. Saímos de casa porque estávamos empolgados com a apresentação do cara que tem uma personalidade esquisitíssima (não digo isso de maneira pejorativa) e excentricidades tão ótimas quanto suas músicas.

Mas não, não fomos lá pra ver as excentricidades dele.

Chegamos por volta das 0h30 da madrugada de terça-feira (mas já é na quarta, dsclp xerifes), numa balada de terça-feira cheia de pessoas que curtem baladas de terça-feira e que, obviamente criticam gente que frequenta baladas aos finais de semana, mas são ao mesmo tempo julgadas pelas pessoas que fazem baladas de segunda-feira, muito melhores, na opinião destas últimas.

Obviamente também, não é preciso frequentar essas porcarias para saber que estar dentro de uma balada numa terça-feira faz você se sentir dentro de uma revista Capricho.

Acontece que, tomados pelo sono, indisposição e por rir da Aline gritando do carro chamando todo mundo de boy (<3), decidimos que o preço a se pagar pelo show era muito alto. E não pelo dinheiro, porque o valor da entrada até me parecia justo (garotas entravam de graça, a propósito).

Foi assim que fomos parar no Prime Dog, o maior Gygabite do centro e esvaziamos a sensação de um monte de gente semirrica se apropriando das nossas pequenas coisas.

Lá chegamos a conclusões díspares sobre como o Maicknuclear é o Carlos Adão de uma geração e eu descobri que a bomba do Mate é feita de açaí com pó de guaraná e o açaí que consumimos aqui tem um monte de beterraba misturada, segundo L.

Às duas horas da manhã estava em casa com Aline, sem fila, sem empurra-empurra, sem olhar torto pros moleques fazendo bosta. E ainda com um tempo pra conversar e nos despedir vitoriosos por transformar um erro de noção (imaginar que seria tranquilo ver o Black Alien numa terça-feira gelada) em muitos acertos (um tempo bom e irrecuperável com a sua garota etc).

Dois frascos

Naquele dia, João chegou atrasado por havia esquecido os comprimidos. Suava muito durante a noite, acordava espantando, como um sobrevivente de uma guerra que atormentava sua mente durante o sono. Tomava remédios pra dormir e pra se manter vivo num lugar praticável. Dois frascos. Limpos, grandes, sempre lotados de pequenas pílulas. Sonhava com o dia em que deixaria tudo aquilo de lado, ou que deixaria de mentir a si mesmo e finalmente encarar que sua vida regrada em pilhas de receitas médicas também era uma forma de fugir da realidade.

Saía cedo e, geralmente, muito atrasado para seu trabalho numa loja de calçados do centro. Contava as horas, era tomado uma inércia absoluta diversas vezes ao longo do dia – era quando alguém o acordava com uma palavra alta, o chamando pelo nome. Ele estava dormindo acordado, estava em outro lugar, ainda que parecesse apenas estar encarando um cesto de lixo, ninguém jamais entederia aquilo. Uma pílula de cada frasco e ele se renovava. Se trancafiava num mundo em que só existiam sorrisos e possibilidades, em que tudo era interessante, novo e bonito.

Naquela tarde, os chefes da loja em que João trabalhava decidiram fechar as portas mais cedo, haveria uma manifestação na grande avenida, algo sobre os hospitais, ou sobre os médicos, sugeria seu colega do trabalho. Era muito maior, era protesto pelo direito de protestar. Fecharam a loja cedo e começaram a se envolver na primeira pequena multidão que encontraram. Muitos adolescentes no centro, pessoas mais velhas nas pontas das aglomerações.

– Deixemos o orgulho de lado! – diz a moça num megafone
– Deixemos o orgulho de lado! – repete a multidão
– Nosso inimigo é o Estado! – segue a moça
– Nosso inimigo é o Estado! – o grito do povo se mistura

Em meio ao alvoroço ele tentava decifrar as frases vindas do microfone humano que nascia na voz de uma moça muito nervosa que gesticulava o suficiente para dar a entender uma possível tradução instantânea para surdos. João obteve pouco sucesso em compreender a integra do discurso que ela tentava ler, mas não podia evitar a sensação que aquelas palavras de ordem lhe causavam, uma estranheza de sentidos, um quase convite à guerra.

Olhava deslumbrado todas aquelas pessoas, seus cartazes, suas bocas se mexendo. E tinha parado de tentar repetir comportamentos. O remédio tinha deixado de fazer efeito e, de repente, viu-se entre o ódio de seu descontentamento social e uma espécia de fim de fogueira, onde colocava suas frustrações por jamais sentir-se merecedor de sua família, de seus amigos, seus amores. Aqueles dois frascos de comprimidos estavam ali por esse motivo. João jamais havia conseguido se sentir presente e atuante em porra nenhuma. Nos dois segundos que se passaram, ele conseguiu reparar bem em duas pessoas gritando no celular, um casal abraçado tentando atravessar a avenida, um garoto de feições extremamente infantis escrevendo uma frase numa cartolina, só não deu tempo de ver a primeira bomba de gás que caiu  próximo ao epicentro de toda aquela gente.

A cortina de fumaça causada pelos outras quatro ou cinco bombas lhe abriu o peito em desespero. Embora tomado de uma sede impulsiva contra o Estado, contra a corporação, ele não podia se mexer e, muitos empurrões e pisadas depois, continuava sentado, sozinho, em meio à grande avenida, com a tropa marchando em sua direção. De pernas cruzadas, parecia meditar de olhos abertos, com a serenidade de um sábio. Com dois frascos de comprimidos nas mãos, contemplava bucólico o avanço dos soldados que atiravam medo. Nem os fotógrafos que estavam próximos o incomodavam, uma vez que o melhor ângulo para uma capa de jornal era por trás do rapaz, capturando uma parede de policiais a sua frente. Seu colega, sabendo da mania de ser maluco do amigo (se você costuma tomar muitos remédios sejam eles quais forem, fica aqui uma dica para a vida, as pessoas te consideram automaticamente um maluco), resolveu correr para o meio da avenida e socorrer o rapaz e. Após poucas palavras trocadas João finalmente recobrava os sentidos e seguia em direção oposta aos tiros.

– Que aconteceu rapaz, você tá ficando maluco?
– Cara, me desculpa, Não queria causar problema – ainda sem entender a preocupação do colega
– Mas o que que houve, bicho, você tá bem?
– Sim, melhor do que nunca. Eu tava me entendendo com o universo.
– Vambora que vai ficar pior que isso, diz o amigo rindo com desprezo.

João passou a acompanhar de perto uma boa quantidade de protestos enormes e pequenos, viu nascer gigantes e não lhe passou pela cabeça desistir quando deixaram de apoiar suas causas. Algumas das fotos que retrataram o momento de paz em meio a via foram destaque em galerias de imagens, parece até que um deles ganhou um prêmio no final daquele ano. Outra foto boa (embora menos histórica pro jornal) foi de uma cena que passou despercebida para a grande maioria que fugia dos conflitos daquela quarta-feira: dois frascos de antidepressivos abandonados com cuidado no meio da grande avenida, a despeito do avanço das tropas.

Nem por um segundo depois daquele dia João voltara a fugir da realidade.
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este post corresponde ao ‘Day 2 – escreva sobre algo histórico’, do 30 days writing challenge do blog Spleen Juice.

ah, mas a vida é assim mesmo

Daí que minha dor de dente deu pra despertar justamente nesse momento em que estou sem convênio, mas ok, só prova que Murphy está trabalhando por nós 24/7. Daí que começo a tomar essas coisas para passar a dor e, uma delas, cujo nome não vou dar aqui, minha mãe indicou como:  o remédio que você não pode tomar se for dirigir.

E então eu, aqui, precisando acordar cedo, tomo um antes de dormir, às 20h, porque né, se eu desmaiar muito, a certeza que tenho é que não vou conseguir ficar mais de doze horas na cama. Tomo um, a dor não vai embora, mas o sono bate, bem, lá vamos nós acordar sem olheiras amanhã, estou com fome, mas logo cedo me faço um café legal e resolvo isso, vai ser lindo, obrigado.

Se eu desse três opções pra vocês chutarem o que aconteceu e a última delas fosse: acordei quatro horas depois morrendo de fome e sem sono nenhum, com a dor de dente agravada, mas mesmo assim a churrasqueira está acesa e estou fazendo comida às 0h38, em que opção você chutaria?

O final é com você, brasil.

Amigo, eu me desesperava

Eu queria certezas. Eu temo por elas, sofro por elas. Tudo o que pedi desde que não tive tempo de decidir que tipo de vida adulta eu levaria, tudo o que peço é alguma certeza. Uma dessas que me incomode, que conviva rechaçando suas dúvidas, porque é fato, não há lugar para o sossego, senão na tristeza.

Daí quando tudo parece ficar bem, vejo a própria Marla Singer me pedindo pra escorregar naquela caverna de gelo, com a fumaça do cigarro lhe encobrindo a cara, me dizendo especialmente pra seguir em frente que é a melhor saída pra tudo, que na verdade é a única saída pro autoconvívio.

Essas palavras não querem dizer nada além de uma fria e angustiante luta contra a noite.

E eu não posso ver um cara desconhecido mais de três vezes seguidas no mesmo dia sem achar que é o próprio Tyler Durden.

Headquarto e cozinha

Ok, é oficial: eu só consigo manter o blog devidamente atualizado quando participo de desafios como o 30 days writing challenge. Esse é o primeiro post da série. Obrigado a todos os envolvidos.

*

A primeira vez que entrei era como se jamais fosse voltar. O lugar parecia apertado demais, escuro demais, errado demais. Eu fechei negócio mais pelo medo de não encontrar um aluguel melhor pelo preço que me ofereceram. me deram uma data pra pagar e eu teria apenas que dividir quintal com uma pessoa que só aparece de vez em quando. Agradeci e comecei a trazer as coisas aos poucos.

Me assustou bem quando na primeira noite eu exagerava cada barulho que ouvia do lado de fora da casa. Até descobrir que a geladeira faz mais barulho do que imaginava. Mesmo a minha com tão pouco tempo de vida. É difícil saltar de um apartamento para uma pequena casa de dois cômodos. Na primeira semana eu só conseguia lembrar de uma frase do Guia do Mochileiro das Galáxias quando Arthur Dent se vê no espaço após a devastação do planeta terra (ou algo assim): “posso não ter ido aonde queria ir, mas creio que estou exatamente onde deveria estar” (descobri que se tornou uma puta frasezinha piegas também).

Ficou bem com os móveis certos e, depois de ter pendurado aquele porta utensílios de cozinha, ficou com cara de minha casa mesmo. Ainda que o microondas não tenha lugar definitivo e a vitrola ainda não tenha feito uma estréia exuberante, pelo menos a churrasqueira já encontrou seu lugar e descobri que basta aspirar de vez em quando que o pó deixa de incomodar.

Mas a geladeira, essa sonoplasta de sons perturbadores, vai continuar fazendo os piores barulhos.

Daí que chamei de caverna porque preciso manter a luz ligada ou as portas abertas mesmo durante o dia. Porque é nos fundos de um portãozinho escondido que dá vazão a meu universo invisível. E não cabe muita gente pra fazer festa, cabe meu monte de ideias pra coisas novas, meu pessimismo babaca e minha vontade contraditória de que tudo acabe dando certo com o tempo.

A casa é excelente, na verdade. Aline adorou o silêncio e a paz do lugar que é distante da rua e, se rola um carro tocando Anita, só incomoda pelo fato de lembrar a gente da porcaria da música, porque o barulho é bem distante.

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este post corresponde ao ‘Day 1 – descreva um lugar’, do 30 days writing challenge do blog Spleen Juice.

A caverna

Estava aqui nessa madrugada sentindo o peso do mundo por não acordar cedo nessa segunda chuvosa. São as manifestações, o Brasil campeão com o Galvão relembrando o grito de “é tetra” (vai fazer 20 anos ano que vem, repare), talvez o nacionalismo tardio dessa gente, ou apenas minha dor de dente e a falta de um sono justo. Lembrava de uma época em que os problemas pareciam mais simples de se resolver. Um lugar livre de choro, livre de autorrepulsa, livre do meu caderno de capa preta cheio de borrões nas linhas.

Outro dia li um texto sobre como resolver seus problemas de uma forma simples. O cara contava como quitou suas contas, emagreceu e tal. Só podia ser coisa do Zen habits esse monte de resoluções simples que nunca se casam com o que vive gente comum como a gente. Saio de lá sempre desesperado. Se uma cultura zen não acabar com meus problemas, o que mais vai?

*

Estive acompanhando os protestos de longe. O mais próximo que estive foi quando Aline esteve lá nos primeiros dias, os dias de horror, antes do fuzuê do largo da batata e uns dias antes do despertador da nação tocar. Ela estava lá e me contou eufórica sobre como foi pesada a linha de frente, como sentiu fragilizar o aparelho do Estado. Tenho um orgulho imenso dela que tanto me incita, que tanto me diverte.

Minha distância dos dias de fúria aconteceu porque estava numa semana de mudanças, pintando o apartamento pra poder devolver a imobiliária com as paredes relativamente limpas. Consegui. E finalmente me mudei para a caverna, a casa nova. “Caverna” porque é distante da rua, distante do mundo, embora dê pra ouvir de longe um carro ou outro tocando a música da Anita.

E aqui é lindo.

A casa tem meu jeito, meu silêncio, meu desapego. É daqui que tenho escrito tanto e publicado em lugares invisíveis. Está tudo correndo bem e a solidão é menor do que eu esperava. Me sinto bem com os móveis e com as paredes e os pequenos cômodos. Tenho tido ideias excelentes e conseguido me livrar da consciência, da autofobia.

Eu falo tanto sobre a saudade da simplicidade de ser uma criança sem compromissos e sem prejuízos mentais, mas a verdade é que ter o controle sobre a sua vida (e lavar a sua própria louça) torna a felicidade menos distante e holográfica do que ela aparenta.

Faustão e a imortalidade

Eu sempre pensei no Faustão como um vampiro. Um imortal a quem relegaram um programa de TV na maior emissora de um país de terceiro mundo, pra não dar muito na cara. E imortal porque, afinal, quem substituiria o DOMINGÃO DO FAUSTÃO se o programa leva justamente o nome dele?

Eu sei que minha teoria quase caiu depois que engordaram o André Marques com a clara intenção de que ele assumisse caso algo de mau acontecesse (por favor me digam se não seria lindo ter na grade um programa chamado DOMINGÃO DO ANDREZÃO). Provavelmente ele tem um cargo de senior formando time com o Bruno de Lucca (pleno), ou seja, quase uma geração de pessoas com o mesmo carisma do Faustão, o que até então invalidava parte dessa corrente de pensamento

Mesmo assim, é preciso destacar outro ponto importante (alguém por favor me faça parar): o fato dele ter sido a celebridade que mais morreu nos últimos anos se você considerar as notícias falsas da internet. Quem está criando essas notícias sabe que ele nunca vai morrer. E fica claro que criar notícias falsas da morte de uma personalidade é a melhor forma de manter viva uma personalidade que nunca vai morrer, ainda que essa frase não faça o menor sentido, veja bem.

Daí que a teoria da imortalidade de Fausto Silva encontrou seu auge depois de domingo, quando nosso querido apresentador veio com um papo de que faz uns 500 anos que ele diz às pessoas que urna não é penico.

Me parece verídico.

A cadeira vermelha

Postando aqui a redação que pediram na primeira entrevista de emprego depois de tudo. A íntegra do texto com aquela pequena dor de ter errado uma concordância nominal (redação no papel, até quando?)

*
 
A cadeira vermelha

Eu vejo à minha frente uma cadeira vermelha. Simples, útil e, porque não, promissora. Um objeto que diz mais do que os objetos comuns geralmente nos dizem, ou seja, tem muito mais vida que o silêncio das coisas inanimadas. Me encara serena, calada, com perguntas demais e poucas respostas. Eu a admiro pelo calor que aprendi a doar pelo que me motiva, pelo fervor dos desafios que ela representa. Uma nova meta, planos mais bem construídos e algo novo pelo qual acordar todas as manhãs. A cadeira vermelha me conta uma belíssima história sobre o que reserva o futuro e ao mesmo tempo diz que sou eu quem deve escrever essa história. Os melhores livros, afinal, são aqueles que vivemos.
 
Aparece um momento de nossas vidas em que tudo começa a fazer sentido. Algumas peças novas passam a se encaixar melhor do que as antigas e você finalmente passa a decidir o que realmente pretende em toda essa jornada.

É preciso todos os dias viver o novo, o desafio, a experiência que não tivemos. E assim acumular livros e histórias pra contar, com o mérito de ser protagonista. Ir atrás de um mundo todo novo em que nada lhe pareça familiar. No começo vai parecer absurdo e impossível, vai parecer que você nunca vai se acostumar. E então você vai descobrir que a melhor forma de manter sua vida ativa e intrigante talvez seja jamais se acostumar com o que quer que seja. É assim que você vai sentir o sangue correndo em suas veias, pulsando quente, forte e vermelho como a cadeira que agora parece lhe sorrir.

Uns dias melhores que outros

Não gosto tanto assim de presentes e festas nos dias certos. Os dias “errados” carregam algo de muito mais humano, uma trivialidade cheia de privilégio. Eles não precisam de campanha de marketing, ou de gente te pressionando sobre como se deve ou não presentear quem você ama. Sou mais a grandeza dos dias simples que a pequenez da obrigação datada.

Hoje somamos o segundo dia dos namorados juntos. Os melhores de todos, sem preocupações maiores ou pressões, porque Aline, assim com eu, pensa que a felicidade acontece mais nos dias comuns do que em datas marcadas. Sem grandes mimos que não podemos pagar, jantares e excessos, talvez nos baste saber o que representamos de verdade um ao outro.

Daí que ela, num desses dias “certos” (12 de junho, hoje) posta uma frase aleatória do Belchior que eu encaro como um presente indireto e, mesmo invalidando parte de tudo isso que escrevi, faz da nossa cumplicidade ainda mais autoexplicativa.

A ela, de volta, outro trecho, outra música:
 

“Mas quando você me amar, me abrace e me beije bem devagar
Que é para eu ter tempo, tempo de me apaixonar
Tempo para ouvir o rádio no carro
Tempo para a turma do outro bairro, ver e saber que eu te amo
Meu bem, o mundo inteiro está naquela estrada ali em frente
Tome um refrigerante, coma um cachorro-quente
Sim, já é outra viagem e o meu coração selvagem
Tem essa pressa de viver”

Um feliz dia comum pra nós.

As definições do inferno

Estou sempre inventando histórias e super fracassando em não escrevê-las, mas elas continuam na minha cabeça e hora ou outra surgem paródias e plágios que eu mesmo construo, o que só interessaria a um advogado especialista em direitos autorais e dupla personalidade disposto a me arrancar muito dinheiro.

Eu que não tenho sido exatamente a pessoa mais religiosa que conheço, vez ou outra crio versões do que as pessoas conhecem por inferno. O panorama geral é sobre um lugar terrível, em que você precisa fazer algo detestável ou sofrer algo deplorável por toda a eternidade. No imaginário popular, com a ajuda de representações artísticas, é o equivalente a sua alma ardendo dentro de uma galeria vulcânica e um humanóide gigante e vermelho de chifres com um chicote que lhe permita chicotear almas. E talvez seja necessário pensar melhor sobre essa logística de chicotear constantemente todos os atuais habitantes de uma galeria vulcânica.

Minhas versões de inferno são espécies de histórias que não tem fim, é como ficar aprisionado no mesmo minuto, mas sem saber disso. Minhas versões preferidas são as seguintes:

Você está subindo lances de escada infinitos com os tornozelos já super pesados e oito sacolas do Roldão nas mãos (uma delas pingando algo que veio do mercado congelado). Eventualmente, você encontra semiconhecidos, numa classificação que transita por “conheci numa festa”, “vizinho de infância” até “vejo todos os dias no trem e não lembro porque comecei a cumprimentar”. E você vai falando com essas pessoas assuntos incansáveis sobre como o tempo tem mudado e se você precisa de ajuda, embora nessa versão do inferno você seja super polido e gente boa e jamais aceite qualquer ajuda. Você continua subindo mais lances de escada sem jamais descobrir que nunca vai chegar a lugar algum e não vai notar isso mesmo quando o tempo tiver lhe deixado os joelhos podres arrastando no chão e o próximo semiconhecido se aproximar dizendo “oi cara, precisa de ajuda?”, você recusar dizendo que tá tudo bem.

A outra versão diz respeito a você ter dormido mal e acordado com uma terrível dor nas costas, mas mesmo assim estar dirigindo na rodovia Castello Branco sentido Sorocaba, sem som no carro e sem bateria no celular, entendiado, com sono. São 15h, você ainda não comeu nada naquele dia, acabou de passar pelo Frango Assado e decidiu que não ia parar. E você continua sempre no mesmo quilômetro da estrada, dirigindo como se estivesse em cima uma esteira de academia, tudo passa sem passar, e aquele dia, aquela fome e a certeza de ter passado pelo Frango Assado alguns quilômetros atrás vão perdurar na sua mente por toda a eternidade, assim como a dor nas costas.

Tenho também algumas séries especiais pensadas especialmente para os problemas dos amigos. Numa delas, o dia é uma eterna quarta-feira muito azeda de ser resolvida (proj. Camila) e em outra você está na internet e pelo resto da eternidade nunca vai encontrar nada para criticar (proj. Amaury, o web xerife).

Meu inferno atual diz respeito às paredes do apartamento que estou pintando antes de devolver para a imobiliária. Olha, é impressionante. É algo como pintar o Maracanã com um pincel de nanquim. Pelo menos, na pior das hipóteses, posso contratar alguém pra cuidar deste inferno em particular.

Wonka ligou pedindo suas ideias de volta

Daí que o Outback lançou essa cadeira que, no dia do seu aniversário, te abraça cada vez que alguém te der um parabéns no seu Facebook:

O bar Salve Jorge lançou esse copo que te obriga a deixar o celular na mesa enquanto estiver no boteco, afim de evitar que as pessoas fiquem vidradas no celular enquanto estão na presença de outras pessoas.

Quando foi que o mundo se tornou essa fantástica fábrica de chocolate?

não está sendo fácil

Dos clichês que sou obrigado a ouvir de tempos em tempos o pior é “se não fosse difícil a vida não teria graça”. Gostaria que alguns destes sábios profetas me dissessem de que forma uma vida repleta de felicidades e sem preocupações seria realmente um problema. É um absurdo que chega a ser mais deprimente que o carinha anunciando chocolates sozinho na frente da doceria (e que eu carinhosamente apelidei de estandarte da solidão).

É como se as pessoas quisessem provar a si mesmas que é uma virtude inacreditável ter uma imensa lista de problemas, traumas e crises pessoais a superar. Você conhece o tipo. O cara que compete para ter um problema sempre maior que o seu. Geralmente encontrado em filas de hospital, ele não te ouve, apenas percebe que você está reclamando, assimila uma palavra central da conversa e comenta sobre um problema próprio relacionado.

Muito provavelmente é por isso que converso pouco: “você lembra quando foi a última vez que você teve uma conversa de verdade?” uma que não envolvesse o noticiário, ou outras pessoas, ou celebridades, ou coisas que você ouviu no rádio, na TV, vídeos da internet. Pois é, nem eu. E o mais legal e contraditório disso tudo é o fato dessa pergunta ser uma citação de filme.

As pessoas estão ficando vazias (clichê, me processe) e ao mesmo tempo cobertas pensamentos muito profundos que não compartilham com ninguém. Seguimos enterrando a verdade sobre nós apenas em nossos travesseiros. A vida é mesmo uma grande festa cheia de gente sozinha.

Mesmo assim, não me entenda errado. Viver é um grande desafio e você tem que seguir em frente mesmo quando tudo desmoronar na sua cabeça (vai acontecer, esteja preparado). O que estou dizendo é que o fato de você ter de batalhar pra superar coisas todos os dias não é exatamente o motivo que faz da vida algo agradável.

Vitae

Robson Assis
29 anos
Brasileiro
robsonc.assis@gmail.com

Resumo

  • Escrevo o que você quiser e da forma que preferir
  • Pego pouco café durante o dia
  • Quase nunca paro o trabalho pra fumar
  • Costumo inventar trocadilhos diariamente mantendo o clima do setor
  • Acho sacanagem trazer biscoitinho da viagem de férias pra Cancun
  • Estalo os dedos apertando-os contra a palma da mão
  • Minha vontade de nunca ter existido diminuiu 3,4% nos últimos anos

Formação

  • Vesti um macacão do Santos quando bebê, mas me tornei São Paulino
  • Aprendi a ler vendo slogans de marcas famosas na rua
  • Meu avô me ensinou a jogar truco, eu devia ter cinco ou seis anos
  • Gostava muito do meu laboratório de química de brinquedo
  • Escrevi diários de viagem a partir dos 12 anos
  • Primeiro contato físico com uma garota aos 17 anos
  • Desaprendi a beber aos 22; Reaprendi aos 28
  • Toquei em, pelo menos, 10 bandas
  • Quis morrer aos 22 anos como um poeta do qual não me lembro mais

Experiência

  • Já falei idiotices na frente de pessoas e soube pedir desculpas
  • Tive os piores médicos que um ser humano é capaz de ter
  • Sei lidar bem com pessoas rindo da minha condição física
  • Fui auxiliar do meu pai quando pequeno (último salário: 10 reais/dia)
  • Já achei um cheque de 100 reais
  • Fui até o final do trem por ter dormido
  • Fiquei trancado pra fora de casa por três vezes

Pretensão salarial

  • Quero pouco dinheiro de modo geral, acho que vocês conseguem pagar, coisa simples, aluguel, dinheiro pras roupas, pra comida e mais uma grana pra ajudar meus pais. O de sempre. Me arrumem uns convênios com postos de gasolina, essas coisas ajudam.

Atividades Extracurriculares

  • Tive um time de basquete sensacional na escola
  • Joguei futebol contra um time chileno que catimbava sem razão
  • Quase fui expulso do shopping tentando encontrar uma entrada por trás do cinema
  • Estraguei a parede do quarto pintando com spray
  • Uma vez joguei um saco de açúcar na cara de um segurança de show

Conhecimentos e Softwares

  • Antecipo falas de How I met Your Mother (qualquer temporada)
  • Sei usar o photoshop a serviço do bem (montagens com fotos de amigos)

Algo único

Queria dizer a ela que essas crises acontecem toda hora na minha cabeça, que eu sei por onde ir, mas às vezes não consigo lidar com o que penso e com o que sou ao mesmo tempo. Que ela está fazendo tudo certo e que eu espero novamente acreditar no que sou. Outro dia li algo num tumblr que dizia “esteja rodeado por tudo o que te faça sorrir” e, cara, ela é o ponto principal de tudo isso de viver com alguém que saiba pelo que seu coração se move.

Eu precisava estar de pé quando outro mês chegasse, quando conseguisse superar toda aquela fase pesada e ela estava lá, com uma pasta cheia de trabalhos debaixo dos braços e eu, com meu embaraço, sem acreditar no que poderia estar acontecendo ali.

Descobri querer que as coisas sejam pra sempre porque preciso de paz, preciso levantar todos os dias de manhã e saber que ela está lá, que está comigo e que não estamos perdendo tempo com escolhas desacertadas. Eu passei um bom tempo pensando que o máximo que a felicidade poderia me proporcionar era estar presente na vida de alguém que fosse feliz e, dessa forma, mesmo se eu estivesse distante da minha própria vida, tudo ficaria bem. Ao lado dela nada tem a necessidade crua de ser feliz, por isso é tudo tão natural e bonito e confuso – 29 anos de insegurança não conseguem ser derrubados da noite para o dia.

Estou cheio de constatações. De terríveis constatações sobre mim. De traumas e lições de vida que não me causaram nada além de dor e afastamento. Queria dizer a ela que o silêncio às vezes é por isso. É como se você estivesse no meio de um sonho e os personagens começassem a te avisar, mas você está vivendo grandes dias e não pode estragar tudo só porque tem um cara criado pelo seu subconsciente dizendo que tudo não passa de imaginação.

Sigo esperando que ela continue a enxergar em mim esse algo único que eu enxergo nela.

É impossível não amar alguém que lhe cause ataques de riso com coisas bobas. A despeito de todo o desamparo em que me encontro emocionalmente, Aline está fazendo o nerd do colégio, da adolescência e da faculdade se sentir o maior brasileiro de todos os tempos™.

Broken

Você realmente sente algo quebrar. Algo que não é de verdade, mas faz doer. Faz você ficar pensando a todo instante se está mesmo tudo bem, se tudo que você tem na vida não vai se transformar em água e escapar pelos seus dedos. Todo mundo tem uma música pra quando as coisas dão errado (ninguém tem). Talvez por isso eu tenha essa lista de execução tão meticulosamente elaborada (duas músicas até agora). É estar na pele daquele personagem que esperava que nada em sua vida fosse dar muito certo e, de repente, quando começa a querer reverter sua situação, tudo desaba à sua frente, como se estivesse esperando um sinal. Todo esse tempo livre me trouxe a sensação de que os afazeres da vida adulta não apenas te limitam, mas te privam de pensar sobre a vida, pra onde tudo está indo e, droga, como essas pessoas do sacolão trabalham tão sorridentes? Mas ainda assim te livram de uma solidão existencial destinada apenas aqueles que estão escrevendo posts depressivos às cinco da manhã e aceitam falhar miseravelmente ao tentar dormir nas horas certas.

A velha sensação de se sentir alheio a tudo muito provavelmente nunca vai passar.

“A noite é como um olhar longo e claro de mulher.
Sinto-me só.
Em todas as coisas que me rodeiam
Há um desconhecimento completo da minha infelicidade.
A noite alta me espia pela janela
E eu, desamparado de tudo, desamparado de mim próprio
Olho as coisas em torno
Com um desconhecimento completo das coisas que me rodeiam.
Vago em mim mesmo, sozinho, perdido
Tudo é deserto, minha alma é vazia
E tem o silêncio grave dos templos abandonados”

–Vinicius de Moraes, 1933

O arrastão psicológico

Parecia apenas outra virada cultural. Dessa vez, diferente dos anos anteriores fui especialmente assistir apenas duas bandas e não atravessar toda a terra média. Não fui ver o Racionais, nem o Blackstar, nem o George Clinton. Embora quisesse, não estava nos planos enfrentar aquilo tudo sem o Gandalf.

O que vou contar se passou após voltarmos de lá. E não tem (quase) nada a ver com assaltos ou arrastões..

Depois de sair do centro, paramos naquela rede de comida árabe famosa por criar aperitivos pequenos como mini hot-dogs, mini bolinhos de bacalhau e mini churros. Bem, acho que ela é mais famosa pela esfirra de carne mesmo. Estávamos lá de madrugada, eu, Aline e K.

Todo e qualquer ambiente que funcione até o último cliente jamais imaginou que existem grandes possibilidades do último cliente ser um babaca em potencial. Não íamos ficar ali muito tempo, mas percebemos uma mesa com algumas mulheres e dois caras que falavam muito alto e chamavam os atendentes de “bicha” e “chupetinha”, em doses alternadas, sempre que pediam algo. Faziam questão de falar também alto no celular “tem mulher? só vamos se tiver mulher!”, bradava o George Clooney do Capão Redondo às três da madrugada de sábado.

Eis que entra um casal, tranquilo, naquela paz de quem acaba de sair do motel pegou um cineminha e parou pra comer algo. Eles ficam numa mesa ao fundo, de canto, quase que escondidos. Falavam baixo e pareciam estar juntos pela primeira vez. Acontece que o pessoal que gritava perjúrios da mesa infelizmente conhecia o moço. E, visivelmente bêbados, começaram a chamá-lo – palpites? – de “bicha” e “chupetinha”, também de maneira alternada.

As cenas que se seguiram foram constrangedoras para todos os presentes, bem, exceto pelos dois bêbados que pareciam não se importar ao dizer coisas como “porra, chupeta, já tá com outra? ontem era a morena, hoje é a loira, assim não dá” e chamar a atenção do casal com um bullyng ainda mais agressivo em frases como “essa daí é aquela que te ajudava com as entregas de pizza?’ e “porra, bicha, você tava com uma hoje lá na rua eu fiquei sabendo hein”.

Paramos a conversa e espiamos o casal que, desconcertado, agora sentava de costas para os agitadores. Claramente perturbados, não pediam nada. Aline tomava seu sorvete e nós três na mesa, que antes vínhamos tratando de assuntos ótimos desde a saída do centro, paramos de conversar e procurávamos nos esconder no celular, ou na taça de sorvete.

Já estávamos consternados, sem ter o que dizer a nós mesmos e esperando apenas o momento de levantar e se retirar de todo aquele clima de recreio de escola. Pouco antes de sairmos os caras superlegais da mesa pediram para entregar um pudim na mesa do chupet… do moço, que recusou, o que gerou ainda mais impropérios e um “ô chupeta, vê mais duas caipirinhas de vodka pra gente aqui?”, dessa vez se referindo ao garçom que, anotando o pedido, sorria como se estivesse entre grandes amigos.

Foi dessa forma que sofremos um arrastão psicológico depois da Virada Cultural.

***

Esta rede de quase comida árabe já me esculachou de todas as formas possíveis faltando apenas que um garçom mandasse minha mãe tomar no cu tratou super bem, sempre atenciosos, lisonjeiros e jamais me pressionaram a pegar uma sobremesa. Ao receber a conta, percebemos que constavam apenas duas batatas fritas e um valor abaixo de dez reais. Nós que somos vidas loka da pior espécie isso mesmo, não estamos nem aí ótimas pessoas resolvemos que era melhor avisar aqueles cavalheiros que nossa conta havia sido hackeada por um acaso e que pagaríamos tudo que fosse nosso dever como cidadãos de bem.

Só que não.

Ainda deu pra zerar a falta de compromisso cívico ao ajudar uma tiazinha que pedia dinheiro no estacionamento.

***

Apenas para constar: passamos duas ou três horas da noite de sábado na virada cultural, no largo do Paissandu, onde estava montado o Palco Test, com bandas de metal, onde veríamos alguns amigos tocar. Presenciamos (e por muito pouco não ficamos no meio de) diversos arrastões pesados, desses de espancamento que estão falando por aí. Vi um cara ser agredido numa crueldade que espantar e as gangues correrem livremente pelas pessoas, escolhendo suas vítimas, procurando carteiras fáceis e isso tudo que estão falando. E tenho lido relatos de amigos e conhecidos que foram violentados, espancados e roubados por essas gangues de moleques e que sofreram também pelo mal atendimento das enfermarias e no atendimento policial.

Se você olhar bem de perto é toda uma estrutura feita pra dar bosta.

Sobreviver

Eu olho pros lados e tem um monte de livros na estante, um monte de páginas que nunca tive a coragem de abrir e desistir no caminho, uma caixa de discos velhos, meus CDs e a certeza de que me daria bem montando um consultório médico pela quantidade inacreditável de revistas. Um monte de coisas com um dono invisível, como naquela tirinha em que o cara do futuro volta numa viagem do tempo e se encontra com oito anos de idade, pega pelo braço e joga o garotinho que era dentro de uma máquina de fazer linguiça porque “não vale a pena de qualquer forma”. Gostaria de voltar do futuro e dizer “mano, pára de ser otário”. Sério, gostaria muito de pelo menos uma vez por semana voltar ao presente e dizer a mim mesmo o que fazer. Porque existem respostas indecifráveis, pensamentos que não quero ter e toda essa confusão que caminha dentro do meu cérebro como um monte de urânio enriquecido dentro de uma coqueteleira que ao ser chacoalhada de verdade promete explodir. Explodir feio. Se é que urânio pode ser mesmo enriquecido dentro de uma coqueteleira. Eu tenho andado com a cabeça fria. Mesmo esses tempos atrás, em que estava na época que chamam de inferno astral, o mês exato que antecede seu aniversário, ou coisa que o valha. Pelo que estou entendendo de astrologia (absolutamente nada, veja), isso consiste em te arrumar problemas imensos e trágicos, mas que de uma forma ou de outra você consegue resolver. E então, como presente de aniversário, te livram de todas essas pequenas misérias solucionáveis para te jogar novamente no mundo real repleto de pequenas misérias não solucionáveis que vão perturbar a sua cabeça como duas crianças mimadas brigando pelo último boneco do Ben10 num drive-thru qualquer. E enquanto isso eu tenho os livros e os discos e a mobília como abrigo quando não tenho com quem conversar. No final de junho preciso deixar esse apartamento, caso nada dê muito certo na vida. Não tem dado. Eu sou um dono invisível de histórias e músicas que não tem pra onde ir. E eu não confio mais tanto assim. O azar existe pra me dizer que as coisas podem não se ajeitar e que você vai ficar na merda por um tempo, mas hora ou outra a coisa toda vai melhorar e você poderá novamente ter dinheiro pra comprar seus cigarros e beber para esquecer a semana que terá sido, por sinal, uma merda. Sobrevivência eu chamo. Sobrevivência, eu acho.

Toda vez que chego em casa o wi-fi da vizinha tá na minha… sala!

Passei o último ano inteiro usando a internet da vizinha amiga que até hoje não soube como colocar uma senha, ou esteja numa solidariedade tamanha conosco que não tivemos a boa vontade de procurar instalar a parada aqui em casa, mas como vocês devem se lembrar (claro que não se lembram, mas é uma ótima frase), ela desliga o roteador em intervalos de tempo que ela determina.

(Observação a tempo: eu não sei de que vizinho é a internet sem fio da qual estou tratando aqui, mas o nome da rede é “pucca” o que fez com que eu estabelecesse que é uma mulher, ou uma garota, ou uma senhora. Claro que pode ser de um cara mais sensível que curte o desenho etc, ou de um senhor pervertido e doente, bem, preferi optar pela hipótese mais racional)

(Outra observação a tempo para um futuro terapeuta que talvez venha a visitar este blog: Por que tento explicar tanto as coisas?)

Pois então uma nova rotina tornou-se necessária por conta dessa internet usada ao acaso. Toda vez que está disponível aqui eu tento (a) acessar tudo o que posso e isso conta como facebook, emails, linkedin (ainda sem trampo, me ajudem) e atualizar isso aqui (b) zerar Google Reader* que mudou pro Old Reader e agora não diz mais o seco e grosseiro “+45000 items” em inglês e sim algo como “faz tempo que você não acessa aqui, deixamos apenas esses 11.000 itens fresquinhos” (c) ler blogs dos amigos e saber assim da sobrinha do Leo e da falta de tempo de todo mundo pra atualizar essas coisas com mais de 140 toques.

Portanto, sim, o wi-fi alheio mudou minha maneira de usar a internet. Inclusive os amigos que frequentam minha casa conhecem a rede por nome e não raro chegam perguntando se a pucca está, antes de perguntarem se estou bem, como vai a casa etc. Seus espertofones estão devidamente configurados para acessar a rede sempre que ela estiver disponível. Meu notebook está configurado da mesma forma, como se a rede fosse, ora, por que não, minha!

Acho que isso explica um pouco toda minha quase ausência nas redes sociais, neste blog e nas coisas da rede no último ano, afinal só uso quando sei que não estou atrapalhando (não vou baixar torrent em horário nobre, por exemplo). Na minha última hipótese, imaginei que a pessoa que deixa esse wi-fi aberto sabe das consequências e, gente boa, opta por deixar assim mesmo.

Portanto esta é uma singela homenagem. De todos os utensílios domésticos que ganhei no open house do ano passado para poder me adaptar bem ao fato de morar sozinho (agora realmente sozinho, falei que meu irmão mudou? enfim, numa próxima ocasião) a internet da vizinha foi definitivamente a melhor de todas as doações. E ela nem apareceu na festa que quase me ocasionou uma multa na primeira semana de condomínio.

Obrigado, ma’am.

*O Google Reader vai acabar dia 1 de julho, mudem seus feeds pro The Old Reader que parece mais compromissado com a causa (ninguém deve usar essa informação, mas vale a pena deixá-la registrada aqui)

Tipo Comédia

Um homem, de pé, se prepara para desferir suas primeiras palavras em cima de um palco. Sério, porém despojado, ele tosse algumas vezes colocando a mão sobre a boca. Olha para os lados e dá o ok a alguém da equipe que não aparece para o público.

– Boa noite a todos, acho que vocês vão ter que prestar atenção em mim, eu sou o comediante aqui.

Silêncio na platéia. Um barulhinho de tosse e sacos de pipoca sendo manejados contemplam o ar.

– Não? Ok. Estou sendo pago e vocês compraram as entradas, vão ter de me aturar e eu vou ser pago de qualquer modo, então…

Mais silêncio. O homem bate no microfone para ter certeza de que está funcionando corretamente.

– Vocês estão me ouvindo aí, certo? Ou eu fiquei mudo e por um lapso de percepção só eu estou ouvindo minha voz neste momento, é isso? HAHAH, é? Só pode ser.

Nada na platéia.

– Bem, vamos lá. Outro dia encontrei um menininho de rua que queria conhecer melhor minha filha, eu disse “ei, cara, olha pra suas roupas, você não prefere conhecer melhor uma loja de departamentos?”

Sentir o silêncio frio de uma platéia doía, não estava na sua noite, claramente. De qualquer forma deixou-se levar e transcorreu seu texto ensaiado.

– Impressionante esse Brasil, não é? Tem uma bolsa pra cada necessidade do pobre. Cara vai preso, bolsa reclusão, cara não tem nada, bolsa família, cara é vagabundo, seguro desemprego. Daqui a pouco a dona Dilma vai começar a distribuir Bolsa filha pro moleque de rua poder conhecer melhor as menininhas de bem por aí.

O homem espera o momento exato em que esperaria caso as pessoas definitivamente começassem a rir. Elas não começam, ele segue em frente.

– Sabe, às vezes eu acho que o Datena tá certo, sabe, bandido tem que morrer. É sim, bandido tem que morrer. Se matassem todos os bandidos do Brasil sobraria eu e alguns de vocês aqui, não seria legal? Ninguém passando necessidade, todo mundo curtindo seu showzinho de comédia, mas aí teríamos que ir pra capital governar o brasil, não ia sobrar ninguém lá, não é mesmo?

A banda que toca nos intervalos – também em silêncio – se volta toda ao baterista quase que implorando silenciosamente pra que ele ajude. Com uma feição de estafa, ele toca nos tons e no prato, pra causar maior efeito à piada do homem no palco, que agora tira o microfone do pedestal afim de se sentir mais a vontade. Dá um gole curto no copo d’água e prossegue.

– Sabem – diz, olhando o copo – fico pensando nesse pessoal violento que arruma briga com gay. Eles não podem nem chamar o cara de viadinho, porque né? E se o cara for meio sado, gostar de apanhar, não dá pra julgar né?

Nada. Então ele apela ao pastelão imitando vozes esbaforidas e afetadas.

– Hellow, vocês estão aqui mesmo? Toc toc. Quem bate? É o segurança do comediante, ele está pedindo encarecidamente que vocês gargalhem. Uma vez só. Numa piada. Custa muito? E se de repente eu…

O homem finge tropeçar nos cabos e cai no chão, causando um susto na platéia mais pelo barulho que ecoou com o peso do corpo batendo sobre o palco de madeira. Um garoto, no meio do público solta um risinho.

– Ei, ei, você riu, quem foi? – apontando pessoas aleatórias – eu ouvi uma risada, quem foi?

Uma mulher atrás do garoto aponta.

– Ah sim, foi você né garoto, tá gostando do show? Como é seu nome?
– Renato.
– Finalmente alguém riu aqui, Renato, estava ficando apavorado, cara. Curtiu ver o comediante cair no chão, né? Fala aí, pô!
– Na verdade foi o SMS de um amigo meu dizendo que seu show era uma bosta.

Platéia gargalha e aplaude efusiva.
O homem reverencia, cínico.
Fecham-se as cortinas.

*

Acho que foi logo que parei de achar graça em “comédias de escárnio”, standup comedy, essas coisas. Tive a  excelente (e humilde) ideia de editar vídeos de shows de comediantes retirando o áudio de todas as risadas da platéia, cenas de pessoas rindo etc. Deixaria apenas um cara, com um microfone, dizendo barbaridades sobre a sociedade. Tenho a hipótese de que sem as risadas da platéia, alguns shows são apenas discursos de ódio.

Mas esse sou apenas eu, às 04h09 da madrugada de quarta iniciando frases com conjunções adversativas.

Fauna

Um dos prazeres de morar sozinho, definitivamente é conhecer muito mais sobre a fauna deste nosso Brasil. E não que eu esteja morando numa cabana na Amazônia, veja bem, estamos falando das peculiaridades que nascem junto a comidas estragadas, panelas esquecidas no fogão e a certeza de que aquele pote de maionese discutindo materialismo histórico com o tupperware de carnes deveria ter saído dali meses atrás, afinal, eles nunca vão chegar a um acordo.

Aqueles animaizinhos estranhos que deixam o arroz esverdeado são horríveis, faz você se sentir em A Colheita Maldita, aquele filme que, curiosamente, me fez ver bichos inexistentes na maçã quando pequeno. Claro que são bem mais comportados e menos aterrorizantes que o bolor que nasce no macarrão quando você deixa a panela sobre o fogão fechada durante cinco dias. Ao abrir aquilo, veja, não vai ser algo bonito, ou apenas uma coisinha verde, mas sim um ecossistema com arvorezinhas, bolhas e pequenos pântanos, isso tudo sobre a crosta do que passou de macarrão a litosfera. É basicamente uma maquete de Pandora, inclusive com pequenos seres azuis.

Passemos às larvas (está ótimo este assunto). O brigadeiro de panela parece atraente, gostoso e perfeito pra ver uns filmes domingo a noite, não? Pois vamos quebrar aqui toda essa beleza. Sim, nascem as larvas mais violentas dentro desse poço de delícias. Uma pena que não cresçam o suficiente para usar de isca numa pescaria, por exemplo.

Já o bicho que nasce no óleo usado realmente é uma forma de vida que a ciência está nos escondendo. Parece um daqueles brincos enrolados em forma de concha ou qualquer coisa assim. Eles boiam e ficam rodeando o pote, não deixei crescer o suficiente, mas só pelo tamanho que ele conquistou, posso dizer que dá uma boa pescaria em alto mar (calcule).

Parece tudo muito nojento, eu sei, mas é a vida. Sim, a vida, nascendo em cada pedaço esquecido do laboratório de criação que você chama de cozinha.

De qualquer forma este post surgiu por ter encontrado hoje mesmo um bicho numa batata, mas era um branco, tão delicado, fofo e cheio de patas que estou pensando em colocar um cercadinho e deixá-lo brincar pelo apartamento por um tempo. Quem sabe chamá-lo de Floco de Neve. Esse tem carisma, merece atenção, um lar e talvez uma ou duas batatas podres pra se alimentar e poder crescer como os outros bichos brancos delicados fofos e cheios de pata merecem.

Tanta coisa

A sociedade da informação desnivelada, da informação nenhuma, do facebook pra saber das notícias, das novas piadas, de qual time está sendo aloprado por qual torcida rival que vai torcer contra outro time qualquer numa outra semana qualquer e estamos aqui, eu a vitrola nova, que não desiste de mim, com todos esses discos de um real e toda essa compaixão por ouvir de novo a Elis Regina cantando as músicas do Belchior. E o que todo mundo lembra é que ele deve algo no Uruguai, que ele se afastou do mundo, das celebridades construídas em cadernos de jornal e fotos de agência de notícia. Belchior entendeu o mundo, um comediante com frases de efeito esquecidas.

“tome um refrigerante, coma uma cachorro quente,
sim, já é outra viagem e esse meu coração selvagem
tem essa pressa de viver”
http://www.youtube.com/watch?v=OKTRc7x-zCM

Esqueci como é contar a vida sem o drama. Sem dizer entre palavras que você tropeçou forte e que as chances de encontrar o caminho por onde seguia ficam cada vez mais distantes. Esqueci também como é contar isso tudo sem soar tão depressivo e doentio, sabe. Porque, no fundo, é mais motivador do que se pensa. Recomeçar, é isso que significa. E eu pareço escolher minuciosamente a forma de transformar um pensamento motivacional como “agora vou recomeçar a vida” a soar como “tropecei e não sei onde estou por enquanto, mas espero voltar ao meu caminho em breve”. É um superpoder, eu acho.

“And I wish it could always be like
This is something I’ve been missing
It’s not too late to change what you’ve become”
http://www.youtube.com/watch?v=DrZ8tpu_VCQ

Tanta coisa.

Just when I thought I was out, they pull me back in

God Bless America é uma paródia sobre a vida (senta que lá vem spoiler, se não assistiu, prossiga por sua conta e risco). O filme conta a história de um cara que foi impulsionado a se declarar agressivamente contra a sociedade matando ícones pop da moda: apresentadores polêmicos, estrelas teen de programas juvenis, em determinado momento ele assassina até o Lucas Celebridade do enredo.

Acontece que era um cidadão comum, com um trabalho comum e uma família despedaçada, embora comum. Ter absorvido a mediocridade materialista de sua filha pequena, o fato de ter sido demitido do emprego por uma denúnica de assédio feita por uma moça a quem ele havia entregado flores; e, por fim, descoberto um tumor no cérebro foi o gatilho principal para que ele se transformasse num assassino em série (e depois encontrado uma menina, essa sim, psicopata por natureza, para lhe acompanhar).

A fábula é tão boa que, embora ele esteja matando pessoas que estão fazendo do mundo uma porcaria, ninguém se dá conta disso. A mídia diz algo sobre o esquadrão de Bin Laden quando ele mata o Reinaldo Azevedo da história. Ninguém está preparado para alguém que quer apenas eliminar do mundo todo esse chorume.

No fundo, é basicamente a mesma ideia de Breaking Bad e do Michael Corleone no Poderoso Chefão III. Um cara tentando fazer a coisa certa e sendo pressionado pra dentro de um outro universo.

God Bless America fala sobre o cara que está tentando se segurar contra toda a avalanche de vizinhos bizarros, empregos sem sentido e conversas sobre nada em absoluto. Ele está tentando fazer a coisa certa, se mantendo firme e achando todo aquele mundo simplesmente muito escroto. Interessante o trecho quando lhe perguntam se ele não assiste o “American Idol” porque se acha bom demais para o programa e ele responde: “sim, me acho bom demais para um karaokê de pessoas sem talento”.

O filme, acima de tudo, traz à tona aquela velha expressão que em linguagem do orkut se diz “bonzinho só se fode” – frase que em 2005 vinha sempre acompanhada de uma belíssima ilustração de um menino com um balão e flores e uma menina ao fundo saindo com um cara num carro conversível, tudo em preto e branco. Não, melhor! Só o balão e as flores com cores vivas, pra dar aquele contraste necessário – e no fundo a frase/moral diz sobre como ser uma boa pessoa é, ao mesmo tempo, dar o aval pra que aproveitadores façam o seu trabalho.

Claro que ser um cara meio troxa pro mundo não lhe dá exatamente o direito de escolher astros pop detestáveis para assassinar ou mesmo produzir e vender metanfetamina no seu bairro, mas taí algo a se pensar.

Dá pra absorver bastante dessa moral toda. Do quanto você se entrega e está disponível a ajudar pessoas que não estão dando a mínima. E, caso você tenha todo esse coração cristão que este que vos escreve herdou da família, você pode até pensar que a maldade alheia é impensada, desproposital. Sim, pode acontecer. De qualquer maneira, o que vai ser pra sempre proposital é o fato de alguém que tenha lhe apunhalado pelas costas em nenhum momento estava pensando em como você ia se sentir.

E ainda vai ligar no seu celular pedindo dinheiro pro cigarro.

*

Era pra ser uma resenha, mas acabou sendo um ótimo post pro Cantinho da Indireta, não acham?

Os moleques são dengosos*

Uma sensação estranha ser o cara velho. Em qualquer coisa, no trabalho, entre seus amigos. Os amigos da minha banda são quatro ou cinco anos mais novos que eu. Talvez eu tenha visto mais coisas do que eles, mas talvez eles tenham vivido muito mais do que eu, isso é relativo. Estranho mesmo é o gosto que as coisas adquirem com o tempo. Por ter visto tanta gente entrar e sair da sua vida, você toma suas relações pessoais cada vez com mais ardor, você preza mais por quem está ao seu lado.

E eles são desses moleques de uma quase geração anterior, que ficam perplexos sobre como você prefere passar a noite em casa vendo uns filmes com sua garota. E eu geralmente me queixava quando eles bebiam demais, ou começavam a extrapolar as coisas, foi assim em algumas festas, foi assim em alguns shows que tocamos juntos. Eu sempre fui contra isso de não ter nada a perder então posso fazer o que quiser. Sim, você acaba tendo muito o que perder com o passar do tempo.

E ontem eu estava nesse show que tocaríamos juntos, não fossem as brigas internas deles, não fosse a falta de uma boa conversa que não envolvesse orgulho próprio ou aquele “Oh you didn’t say that!”**, eu estava lá sem eles dessa vez.

Não tenho uma banda famosa, embora as pessoas que me conheçam saibam e me perguntem sobre. E eu estava lá, um tanto chateado por não tocar no festival que um amigo nosso organizou e esperando que a qualquer momento um Uno subisse a rua com aqueles três moleques dentro que abririam o vidro no meio de um som alto e um monte de fumaça saindo pelas frestas, me dizendo “já é a gente?”.

Eu estaria feliz por estar nervoso com eles.

Mas o tempo é implacável. Ele derruba frases prontas, desmonta ‘galerinhas’, mostra o que é de verdade e o que era claramente passageiro, mostra também os sinais que você não percebeu naquela época. Os sinais que diziam que tudo aquilo tinha prazo de vencimento. Mostra como as coisas mudam entre moleques. E eu, parado na esquina esperando aquele Uno chegar e assistindo uma banda tocar no nosso lugar, com amigos de dez anos atrás, mostrava a mim mesmo o que era de verdade e o que pode se perder com o tempo.

Que o tempo os traga sabedoria e paz, mas que eles nunca deixem de manter a alma inquieta. Eu amo esses moleques e detesto os ver separados ou brigando por motivos que em dois anos vão se perder na memória. Sei que muito provavelmente, por mais que eu queira, as coisas não se resolvam assim facilmente, a vida é muita treta, isso a gente aprende também. Só espero que um dia nos encontremos novamente num estúdio, rindo constrangidos e sem saber o que dizer de toda essa época nebulosa das nossas vidas.

Esse post é dedicado a esses três moleques.

*Desculpem, não encontrei um título melhor.
**Retirei essa frase do filme God Bless America (último que assisti com a Aline que tá com um blog manero e muito mais atualizado que o meu, a propósito), num trecho em que a personagem principal fala algo sobre a geração do “Oh you didn’t say that”, excelente filme sobre psicopatia e aversão social. Um Mickey e Mallory dos escrúpulos, assassinos pela natureza cruel da nossa sociedade. Muito legal de assistir.

Procurar o que não se encontra

Sempre procuro razão onde não vou encontrar. E me descubro vasculhando álbuns alheios, buscando em algum lugar, algo que me explique como a vida que levo hoje possa fazer sentido. Por onde passaram as pessoas que tenho aqui comigo e como elas chegaram aqui, como permaneceram. Eu sempre procuro o que não vou encontrar.

Um inseto pousa ao lado da lâmpada da sala, são quase quatro horas da manhã. E pareceria poético se não fosse tão solitário. O barulho das teclas a essa hora da manhã ainda é mais alto do que o trânsito lá fora e só perde para o caminhão de lixo (sério, o que a escala desses caras faz antes de chegar aqui?).

Tenho receio de que ele despenque sobre o teclado. Está bem acima da minha cabeça, parado, inútil, se aproveitando da minha conta de luz que, mês que vem deve vir dobrada. E ele apareceu justo no momento em que eu procurava algo que não devia achar, ou que jamais deveria procurar.

Não sei o que diabos um inseto busca parado de cabeça pra baixo no teto, próximo a luz. E porque eles não aparecem de manhã, na televisão, por exemplo. O que ele busca parado, sem se alimentar, negro, cheio de asas e antenas, pequeno e inútil a si mesmo. Bem, meu parceiro de madrugada deve ter aprendido comigo como procurar respostas que jamais vai encontrar.

*

A tempo: Por que os insetos somem quando amanhece?

2013

2012 foi um puta ano de recomeçar, de reaprender que a vida só não me basta. E foi assim que me descobri com um milhão de pensamentos e sonhos, que eu tirei do relicário em que os adormecera uns anos atrás quando nada mais fazia sentido e era crescer que eu achava que precisava. Embora no fundo todo mundo precise crescer mesmo, as coisas vão confluindo para que você um dia pare de beber, pare de chegar em casa de madrugada, comece a ser chamado de tio por meninos que nasceram enquanto o Bebeto cruzava pro Romário fazer aquele gol de bate-pronto na Copa de 94. O que eu queria dizer é que nada disso pode ser forçado. Quando você tenta forçar, você está se modelando a ser o que você não é, a não seguir o ritmo natural daquilo que é a sua vida. E no ano que passou eu retomei minha vida nas mãos, soube o quanto era importante pra mim estar relacionado a música, a arte, de modo geral e não o velho hábito escroto de voltar pra casa, comer e dormir. E aprendi que é possível viver em harmonia consigo mesmo, basta ter algum tempo e disposição. Em 2012 eu reconheci na multidão um coração único, um olhar inquietante e um sorriso que me move e que desde então fez com que eu me perdesse alucinadamente e encontrasse um sentimento bom que me trouxesse paz, um só caminho que hoje me faz todo o sentido. E saí da casa dos meus pais, pra morar com meu irmão e fazer daquele lugar nosso lugar por um tempo. Também fiz novos amigos, conheci pessoas com as quais não mantinha muito contato, vi amigos mudarem de estado, vi gente nascer, casar, renascer, trocar de emprego, repaginar toda a sua vida em função daquilo que faz bem. E, cara, não sei, mas não existe outra alternativa senão viver pelo que lhe faz bem. Eu posso ser um eterno adolescente, um tiozinho que não soube crescer e manter aquilo que chamam de estabilidade. Eu só quero que corra em minhas veias tudo que me fez viver em 2012. Porque pelo resto eu mesmo corro.

Feliz ano novo pra todo mundo que acompanha esse blog desatualizado.

Colaborar, não competir

O fulano de tal que costumava redigir os textos deste blog está participando de um livro colaborativo pela DVS Editora e acaba de postar a terceira parte da história (e começou a escrever em terceira pessoa o que só corrobora a tese de que ele está enlouquecendo aos poucos).

[Para contextualizar, o personagem é um brasileiro morando em Portugal e está voltando ao Brasil na tentativa de recuperar uma herança deixada pelo seu tio, cuja cláusula única é casar-se com uma mulher católica. Quem quiser ler as primeiras partes, estão aqui nas veias abertas do facebook]

No caminho para o aeroporto encontro Rafaela, aquele amor perdido que surge numa dessas noites perdidas em que você pouco se reconhece ao olhar no espelho daquela matinê do aniversário do seu primo. Aquele amor que ainda com todos os pontos contra passa dois anos tentando fazer você entender que ternos risca de giz e o foursquare não valem mais a pena. 

Trazia o melhor de si naquele vestido alaranjado e cheio de estampas ridículas, pensei que talvez ela soubesse de minha partida e fosse tentar algo novo, uma ultrarrápida escapada no banheiro público da praça central ou um apelo dramático que venceria qualquer premiação de performance em reatar relacionamentos – caso existisse uma premiação babaca dessas. 

Olhou pra mim e disse ‘oi’, seguindo em frente sem parar. Como se houvesse visto um vizinho distante ou um estagiário temporário de um ex-emprego. E, bem, eu era o estagiário – Ou o ex-emprego, dependendo do seu ponto de vista. 

Um silêncio ensurdecedor se fez presente. Minha cabeça não estava preparada para o descaso, logo agora que preciso de alguém para preencher este vazio que existe em mim, digo, em minha conta bancária etc. “Dois anos juntos e ela nunca usou o maldito vestido laranja”, foi o primeiro pensamento após todo esse hiato mental – coisa de três ou quatro segundos, chutando bastante alto. 

Aquele vestido laranja dizia algo além de marcas voluptuosas no corpo da moça, obviamente. Dizia quem eu era anos atrás quando entrei naquela loja de departamento a procura do primeiro presente de aniversário de namoro e de como foi sentir-se parte distante de si mesmo, de encarar aquela visão de mundo parcial e desconexa, enfrentar a cada dia um novo porém, não só pela garota, mas porque poxa, a vida parecia mais promissora antes dela e você ainda ficava afim de fazer check-in no foursquare e ganhar uma badge constrangedora, entende? E de repente se via abandonar toda sua história ao parcelar no crédito aquele pequeno e atual sonho de outrém. 

No minuto inteiro em que passei olhando pedaços da cidade pela janela do avião ainda parado, percebi que Rafaela era o ícone maior das coisas que eu deixava pra trás, as certezas que foram vencidas pelo tempo. No momento daquele ‘oi’ sem grande atenção, Rafaela deixara de existir, Portugal deixara de existir. Naquele instante eu era apenas o Brasil, a grana do tio, minhas notificações no celular e um senhor obeso no banco ao lado que certamente deveria ter comprado um assento extra.

O maluco do ponto de ônibus

Um cara simples e exímio desconhecedor de moda, usa calças sujas e camisas velhas por padrão. Está todos os dias sentado no mesmo ponto em que costumo tomar meu ônibus a caminho do trabalho, sempre com um skate no colo e um sorriso. Parece frase construída para dizer o que cara é uma boa pessoa, mas não: ele está todos os dias com um notável sorriso no rosto.

Das primeiras vezes que passei pelo sujeito imaginei que estivesse ouvindo rádio, ou uma dessas bandas engraçadas ou áudios de stand-up comedy (ou horário político ~aqueles). Fui longe demais pra só depois perceber que ele não costumava usar fones de ouvido.

Não quero começar com o moralismo do “nós vivemos num mundo em que”, mas o sorriso do cara tem um caráter político e provocador muito significativo. Não existe lugar para nego estar mais de cara fechada quanto num ponto de ônibus em horário de pico. Onde todo mundo está ligando para o seu chefe dizendo que o coletivo atrasou. Um lugar onde as pessoas semi choram por entenderem de certa forma que o tempo de suas vidas não lhes pertence (e elas esquecem assim que chega o ônibus delas).

E lá está nosso herói, caminhando displiscente na plataforma, sozinho com o skate na mão e um sorriso tímido em contraste com a aparência de quase mendigo que, por um deslize do azar, acabou dando certo na vida. Com a leveza de quem possivelmente não precisa trabalhar, mas este é só meu pensamento errado de novo. Não, ele não fica rindo aleatoriamente ou da cara de pessoas que passam. Ele sorri. E isso é mais provocador que muita coisa.

Sorri de cada um nós, do povo correndo pra chegar, apertando dentro do coletivo, do tio que vende balas, da miséria humana, da pequeneza deste minúsculo ponto de luz do universo onde estão nossas vidas, nossos sonhos e tudo aquilo que criamos com a nossa mente. Ou lembrando de alguma pessoa, ou rindo do que pode encontrar durante seu dia, da beleza imensurável de estar ou permanecer vivo.

No fundo ele deve estar bem louco, isso sim. Mas ainda acho que vale embelezar o real.

#soudaepoca

Já tive um email hiphop_rbs@bol, daqueles que você ainda tinha que limitar a quantidade de mensagens na caixa de entrada pra não receber a cobrança vexatória do servidor dizendo que você está atingindo sua cota e que poderia deixar de receber emails novos caso alguma atitude não fosse tomada. Fazendo um paralelo com a vida adulta é praticamente o mesmo trabalho do serviço de proteção ao crédito.
Daí o gmail veio para, acima de tudo nos ensinar que aquelas mensagens simples e sem anexos pesavam muitas vezes menos de 1kb e que, disponibilizando uns GB a mais talvez ninguém mais precisasse deletar qualquer coisa.
O que, obviamente, vai da sua inclinação pessoal.
Da minha, vocês sabem, o passado é um top1 do disk mtv de 98, você até lembra com algum constrangimento ou não, mas sabe hoje em dia não faz o menor sentido.
Ela era pra mim uma conversa boa no msn. Minha ligação com o mundo no qual as pessoas não apenas trabalham e carregam suas vidas na coxa. Que me chamava pro Indie hip hop e me contava como estavam os roles punks dos amigos. Aquela conversa que sem perceber ultrapassa horas e só termina quando alguém precisa sair do trabalho (sempre eu) ou pra estudar/dar aula (sempre ela).
E os chats se amontoaram na inbox do gmail que, como se não bastasse, também armazena as conversas do gtalk. Como da vez que M. vendeu um ingresso sobrando do SWU pra ela ou quando lamentávamos/exaltávamos a vida (às vezes ao mesmo tempo, sério, impressionante). O que minha inbox conta é o que ela representa pra mim. Da amizade de 2009 ao carinho e planos de 2012. Uma história de amor, de aventura e de magia contada em 223 conversas.
Lógico eu que nunca pensei em um dia encontrar alguém que pudesse desvendar pelo que exatamente minha alma se move. Logo eu que sempre adorei os escritores solitários e detestáveis imaginando um dia ser um deles. Logo eu que sempre achei a felicidade limitante me peguei chorando no carro ouvindo uma música do hateen que peguei do computador dela. Logo eu que nunca sinceramente havia sentido a falta de alguém.
Assim o gmail se transmutou neste espelho da consciência.
A melhor parte é que o primeiro comentário dela ao ler esse texto vai ser: Peraí, como assim você chorou ouvindo hateen mano?

Em falta: profissionais de redes

Essa é rápida (porque tá todo mundo dizendo que eu abandonei isso aqui etc)

Daí que tem um vizinho imbecil  alguém super legal lá no prédio com um wi-fi aberto, obviamente utilizado por nós, os vizinhos chatos, que ainda não conseguimos contratar um serviço de internet decente etc.

Muitas vezes funciona, algumas vezes não. Provavelmente com uma rede há muito tempo desprotegida, essa pessoa acostumou-se a desligar o aparelho para ninguém roubar a conexão ENQUANTO ELA NÃO USA, o que faz todo o sentido mesmo, parabéns.

Estou fazendo um estudo comportamental apurado sobre o dono desse roteador baseado em algo que vem acontecendo com frequência:

1. Eu chego às 22h, ligo o notebook, lá está a rede abertinha e conectada (já deixei memorizada para conexão automática como se não bastasse a mordomia de não pagar pela internet).

2. 15 minutos depois, enquanto faço a comida, a rede está desconectada.

3. Após jantar, descansar e desistir, vou pro quarto, desligo as luzes da casa, fecho a janela e tranco a porta.

4. 5 minutos depois, a rede volta a funcionar.

quer dizer

ESSA PESSOA ESTÁ VIVENDO EM FUNÇÃO DE LIGAR/DESLIGAR O ROTEADOR NO MOMENTO EM QUE EU ESTOU EM CASA/ACORDADO.

Nada mais justo.

Viver e crer

“Se dou um passo à frente já estou em outro lugar
Não preciso de suas muletas pois os pés eu vou usar
É ter autonomia pra guiar, 
Olhar pra qualquer lado e ter o direito de me esborrachar”Viver by Deadfish on Grooveshark

Abro a porta do apartamento e ligo as luzes e a televisão pra curar uma solidão quase bonita e ter a sensação de que a casa está completa, mesmo quando estou sozinho. Tomo coragem para arrumar outra das malas da mudança e desisto por ainda não ter exatamente um quarto definitivo, móveis suficientes e aquela arara que a Chiba vai me doar quando fizer a mudança com o Guilherme. Acabam os horários de barulho no condomínio, aqui as pessoas parecem tão mais frias e eficazes no quesito não aparecer ou conversar ou cumprimentar. Aqui as pessoas são a multidão silenciosa, restrita e fria de São Paulo. Cara, o silêncio desse lugar é europeu (não conheço a europa e estou me baseando no que ouvi falar mesmo, chupa jornalismo). A galera não parece feliz com o lugar, com a vida, ou com um monte de festas que esses dois do 112 tão patrocinando nas últimas semanas.

Sim, estou morando com meu irmão há duas semanas, relativamente perto da casa dos pais, mas com uma independência definitivamente necessária para ambas as partes. E demora até você desistir daquele happy hour pra comprar mantimentos, ou o gás, ou trocar sua guitarra por uma geladeira (sério, Amaury, obrigado). Demora pra perceber que, seja lá o que for que você queira fazer, você vai conseguir de uma forma ou de outra. E não, você não leu errado, tomamos essa chamda na xinxa da foto pela administração por conta da festinha aos amigos que temos em comum (não todos os 135, obviamente).

Posso estar bem enganado e, em alguns meses, me ferrar, cair em mais dívidas, não ter pra onde correr ou voltar pra casa dos pais, o que não é bem uma opção sensata. De qualquer forma, mais do que esse tempo em silêncio, essa casa ecoando as teclas em que escrevo esse texto meia boca, esse local de reunir amigos e influenciar pessoas, eu estou aqui pela necessidade que tenho de “olhar pra qualquer lado e ter o  direito de me esborrachar”.

E não há nada que faça a vida valer tanto a pena.

A cada dia

A cada dia mais endividado, a cada dia mais ligações de cobrança, a cada dia mais trampos que não quero terminar e mais horas que não gostaria de perder. A cada dia morre em mim uma esperança e a cada dia nasce em mim um ponto de luz. A cada dia o passado fica mais mitológico e a cada dia o presente corre em minhas veias e me faz viver. A cada dia eu tento descobrir quem sou, a cada dia lembro um pouco do que fui. A cada dia me ajeito mais prolixo e menos detestável. A cada dia descubro como fazer as pessoas conversarem sem sequer precisar de um assunto. A cada dia me escondo em uma taverna do subconsciente e a cada dia que permaneço nela busco algo de novo pra me manter vivo. A cada dia que me perco nos olhos dela acredito mais em algo que seja divino e tenha me trazido tanta felicidade. A cada dia que passa eu olho pra trás balançando a cabeça sem raiva. A cada dia que envelheço escrevo linhas mais tristes e muito mais próximas. A cada dia eu ganho amigos, eu comparo teorias e escolho o que fazer da minha vida. A cada dia tento ser menos pré-vestibulando e mais humano. A cada dia eu choro por um mundo que se dependesse apenas de mim não seria tão medíocre. Ou choro porque seria ainda mais. A cada dia eu me perco pelas coisas da vida e a cada dia eu volto pra casa. É de cada dia meu amor e minha febre. Foi a cada dia que resolvi dizer a mim mesmo ante o espelho: deste dia em diante, te dedico cada um destes dias.

Retrato de um sujeito cansado

Uma corrente de bem estar, enxurradas de sorte do dia, gratuitas palavras de afeto direcionadas a ninguém em especial, enquanto você atrasa seus planos, comete erros bobos em planilhas que mensuram dados que nunca fazem a menor diferença. Você só cansou de ouvir gente resolvendo problemas que não lhe dizem respeito ou para os quais você não dá a mínima. Este é o retrato de um sujeito cansado e com um monte de projetos pendurados no varal da espera, que a gente só corre pra tirar as roupas na hora da chuva.

Gostaria muito que fizesse algum sentido pra mim chorar as mágoas em Paris, ou viver fantasias infantis que sempre acabam em dramas dolorosos. No fundo, não gostaria que fizesse sentido não. Meio que cansei de mentir sentado sobre o muro. As pessoas regurgitam suas ideias sobre as ideias de outras pessoas e fazem do mundo esse saco de vômito cheio de relações pessoais com erros baseados em experiências anteriores, o que não faz o menor sentido se vc reler prestando atenção. Você deveria aprender com a vida e deixar que ela te espanque mais vezes, até que você possa calejar. Quando estiver cansado de tanto apanhar e o sangue seco começar a colorir o asfalto, você vai entender que não importa. Que nada importa. Que a sua vida vai seguir em frente. E como naquela epifania do filme dos Simpsons, os galhos vão começar a te soltar.

E aí sua sorte começa a mudar.

“Com insônia, nada é real”

Daí você precisa comprar copos descartáveis porque todo mundo viajou e você precisa evitar que algum geógrafo apareça na sua porta para dar um nome científico à pilha de louças sujas na pia. E você vai no atacadista perto de casa, porque não existe melhor forma de comprar 50 copos descartáveis.

Você se esquece do dia 5.
Você se esquece que é véspera de feriado.

A quantidade de gente/carrinhos na fila é como um jogo fechado de dominó humano. Ninguém anda. Você começa a notar os ovos de páscoa sumindo e lembra a cena da toupeira roubando flores naquele desenho da Disney. Você sutilmente ignora os sinais que o mundo lhe oferece enquanto disputa as bandejas de frios com uma tiazinha empolgada.

[corte seco na história]

Como foi que eu cheguei em casa com três pastéis do Sacolão e duas caixas de cerveja é uma resposta que você não vai encontrar em nenhum dos 24 volumes de Freud, sério.

O mundo das pessoas normais

Outro dia segui o raciocínio que me leva a crer que sou muito moleque pro mundo. Por ter que, daqui umas semanas, perguntar pro Adolfo o que significa aquela sigla do imposto de renda e se eu preciso mesmo colocar tudo aquilo e PRA QUE MANO, PRA QUE?. Porque um dia, alguém de bom coração vai me ensinar como foi que deu tudo errado pro mundo e como é que tem gente do mesmo bairro que eu comprando tênis de marca custando 600 realidades. E talvez me dando sinais de como é que eu fui parar longe deles. Porque a nossa noção do que é certo e errado só depende de nós mesmos. Pode ser que eu queira amanhã assinar a Veja, acreditar no Pondé e entrar numa via de mão única pra vida a qual hoje eu não preciso. Não hoje, nunca hoje. Sentado no sofá de casa com minhas três músicas no violão, com o John Mayer que a Camila me ensinou a escutar, tomando a Glacial que o From me ensinou a beber, lembrando do Leo sobre não postar qualquer foto no Facebook (é sempre bom evitar um murro na cara, fica a dica pras futuras gerações).

É então que a gente descobre que não existe isso de se sentir moleque. Eu passei um tempão da minha vida com essa frase na cabeça “não há nada aqui pra mim ou pra você”, puta que fase, uns 45 dias de MSN, acredito. Porque eu só conseguia enxergar esse pessimismo como única forma de escapar da tragédia de viver nos limites, numa cerca infantil cheia de brinquedos da Alô Bebê enquanto seus pais assistem televisão. De qualquer forma, viver a sua vida é não precisar provar nada pra ninguém, e o mundo das pessoas normais é o mesmo mundo que o seu. Acredite, você é uma puta pessoa normal, talvez com um cercadinho um pouco mais amplo que os outros (do seu ponto de vista, óbvio). E isso você só consegue descobrir sozinho, por mais abas de comunicador instantâneo que seu windows vista consiga suportar.

“They love to tell you ‘stay inside the lines’
But something’s better on the other side”

Bonde da Bagacera

em um mundo ideal, esse post estaria no Somente Bares Legais

Aconteceu num daqueles dias em que a gente coloca o almoço em modo aleatório. Caí numa reentrância de Santo Amaro em que os comerciantes solitários quase imploravam por um fim de semana de movimento decente. Passava das duas da tarde, eu caminhava até o ponto de ônibus depois de ter tomado a linha errada. Precisava de algo que se parecesse com almoço para segurar a tarde e as únicas opções girando na minha TV de cachorro eram o MC Donalds, uma conveniência e o bar mais improvável do mundo. Não preciso dizer em qual deles eu entrei.

Na entrada não principal de passantes, estava posicionada uma estufa com pequena sorte de salgados, além de uma possível atualização do tumblr de risoles. Eu poderia pedir um comercial com fritas, mas isso não faz a menor diferença. Poderia sentar numa mesa ao invés do balcão e isso também não faz a menor diferença. Poderia ter perguntado se a moça de bigode e boné trucker esquentaria os salgados num micro-ondas, o que também não faria a menor diferença.

O bar se assemelhava bastante a um grande salão de danças típicas, tendo em vista a enorme quantidade de vinis de música brega expostos numa espécie de palco (que durante o horário de almoço é improvisado como uma área vip, talvez, veja foto abaixo). Naquele momento assisti a uma cena mental de tiozinh@s dançando sem parar, risada demais, bebidas fortes e sinceras, essas coisas práticas que fazem da vida algo menos injusto.

Vista lateral do palco/área vip

Sentado no balcão a espera do ketchup, eu notava a idade das garrafas em exposição nas prateleiras, quando comecei a prestar atenção numa conversa paralela entre a moça do balcão e outra garota que talvez trabalhasse nas proximidades e talvez almoçasse ali diariamente. Zé povinho é o cão, tem esses defeitos. Tá certo que não foi como se eu tivesse parado tudo o que estava fazendo para prestar atenção numa conversa, a realidade é que estávamos em tão poucas pessoas que qualquer diálogo seria nosso e não mais particular. Perder privacidade também é uma tendência no mundo das pessoas reais.

A quase tia do balcão demonstrava claros sinais que solidão nas tardes, enveredando assuntos sobre como saía do trabalho à 1h da manhã e tinha que levar seus filhos para a escola às seis. A moça parecia levemente perturbada com o final de seu horário de almoço tentando se esvair da conversa. Ao se despedir e colocar um pé do lado de fora do bar, a quase tia lhe ofereceu um serviço extra, um bico para quando ela quisesse trabalhar de garçonete, coisa simples de atender mesas, lavar louças e servir risoles de queijo. Ela voltou e acionou o humor “agora tá falando a minha língua”. Conversaram por mais alguns minutos, ela aceitou meio sem jeito, mas a tia ainda disse pra ela pensar bem na proposta.

Em que outro lugar do mundo alguém te oferece um emprego de trás do balcão, a sério? (Tia, liga nóis). Foi então que, terminado o risole, eu dei uma boa olhada para o lugar que escolhi para me alimentar. Primeiro para uma senhora, sentada numa mesa, lembrei que ela me olhava do lado de dentro do bar numa posição estratégica da mesa mesmo antes de eu atravessar a rua para entrar. Com certo pânico, afinal, o Datena tá aí pra provar que existem assassinos em potencial em cada ponto de ônibus do Brasil.

Duas mesas atrás, um cara, sentado, tomando um guaraná e comendo solo um prato feito. Ao seu lado, na cadeira, um gato branco que recebia eventuais carinhos entre uma e outra garfada. Parecia bem à vontade, o gato. Presumo que o cara também. Foi aí que riscaram o vinil da realidade. Eu assistindo aquela repetição de garfada/afago, ao mesmo tempo em que mordia a coxinha sem parar e o recheio não chegava nunca. Sério, uma série de mordidas. Provavelmente era o disco da vida voltando ao mesmo lugar, o tempo parando, coisas do tipo. E aí comecei a olhar o palco improvisado repleto de capas e discos colados na parede, uma jukebox surrada pelo tempo e uma TV de tubo. Aquele bar se perdeu em algum lugar no espaço tempo que desencadeou essa espécie de purgatório gente fina nos confins de Santo Amaro. Não teria lugar melhor para essa sucursal.

Outro gato

O balcão era estiloso e rústico, com prateleiras gigantes demais, o que fazia o dono ter de guardar garrafas vazias apenas para fazer volume. Sério, algumas garrafas de Montilla pareciam já ter idade pra dirigir. Foi neste momento que uma lata de Pitu Cola me trouxe de volta à realidade, talvez meu tótem para sair do outro nível de realidade seja uma latinha de Pitu Cola, um dia saberemos. A verdade é que me perdi no rótulo confuso. E paguei meus pecados nos quatro reais mais bem gastos da vida.

Tive de ir até o banheiro, porque a essa altura já estava cogitando marcar meu aniversário naquele lugar, calcule. Perguntei meio que sabendo onde era, precisava criar alguma intimidade com aquela pessoa de gênero feminino e bigode atrás do balcão. Era nos fundos. No corredor com luz, ela me aponta. Eu não entraria num corredor sem luz. Sério. E ainda que ela não tivesse dito, uma seta gigante pintada à mão na parede me faria entender que era por ali.

É invasivo ter de entrar num banheiro já utilizado e possivelmente sem descarga, tendo em vista os corpos boiando numa água já um tanto alta. Dá pra começar a pensar no trabalho sujo que a quase tia de bigode vai ter pra arrumar toda aquela festa de cocô. Dei dois passos pra trás, mas você sabe que não pode recuar. Mesmo de longe você tem que encarar a vida de frente e acertar aqueles pedaços de excrementos alheios que esfarelam ao leve toque da sua urina. Uma cena linda, sempre. E ao sair, basta não tocar em nada. Faz parte do manual de práticas para os piores banheiros do mundo. Já a essa altura, eu não me espantei ao descobrir que a água da torneira não ia pro encanamento, mas caía num balde improvisado.

Ao sair daquela realidade obscura e retornar a São Paulo – sério, estou tratando a parada como uma realidade alternativa agressiva, como aquela cidade de Tron Legacy, que você acessa pelo escritório escondido do seu pai – voltei a respirar um ar diferente, mais simples, menos verdadeiro e novamente cinza. Me senti humano e finito ao tomar o ônibus e voltar para o escritório. Foi assim que descobri que a imortalidade mora dentro do Bonde da Bagacera, onde o tempo, meus amigos, está sempre ao seu favor.

que isso nutricionista que isso?

De acordo com a nutricionista gordinha que eu descolei por sorte, poderei perder um mínimo de 7,5kg até o dia onze de abril de nosso senhor jesus cristo com a falência do meu apetite ninguém aguenta mais beterraba gente uma dieta balanceada à base de frutas, verduras em horários certos e a dor de viver contraindo seu abdômem feito um maníaco exercícios moderados.

É uma prática nesta vida descolar médicos incomuns, né, lembrando que o último foi um tiozinho que disse que não vou ver a última copa do Robinho, em 2018 (anotem isso). E não que eu estivesse demonstrando ser loucamente apaixonado pelo futebol do Robinho, eu só tinha uma gripe, gente.

Aí, a gordinha me diz que seguindo tudo isso aí eu consigo perder 7,5kg. Não sendo ela tão gente fina quanto é (e não sendo eu tão recluso) teria dito algo como MEU, POR QUE VOCÊ NÃO PEGA ESSA DIETA AÍ E RESOLVE SUA VIDA DE UMA VEZ!!!!!!!?

Só que não.

Olhe pro lado

(do pinterest da Mariana)

Não existem mulheres tomando champagne à minha volta, nem um milhão de festas e noites vazias, pra dizer a verdade, nem sequer tanta bebedeira quanto eu imaginava. Tem eu. Eu e o que vier pela frente, eu e quem vier pela frente. Basta tratar seu passado como um livro que você acabou esquecendo na casa de um amigo que mora no interior e que nem sempre vem te visitar.

Estou em mais de um lugar ao mesmo tempo e só hoje consigo pensar bem nisso. Vivo nas ruas, nas histórias da vida que conto pros amigos, no coração de quem eu amo. A onipresença certamente garante mais prefeituras no foursquare.

Só quis viver minha triste simpatia sem o mundo me segurando pela mão pra passear. Ainda não consegui encontrar forma mais certa de viver. Note que a felicidade é apenas uma causalidade fora de contexto e sem toda essa importância, embora essa parte talvez alguém não entenda e relacione minha vida a uma tristeza que eu nem citei. Não sou eu quem faço as regras.

E nessa álgebra emocional pesada eu não sei mais dizer o que perdi, embora saiba mensurar exatamente o quanto eu encontrei (note to self: “mensurar” é uma palavra que perdeu o peso depois da social media). Claro que isso talvez seja apenas eu dizendo pra mim mesmo CALMA CARA tá tudo bem, lembrando desse trecho de Monty Phyton que, narrado pelo Chaves, fica com um sabor todo especial. Talvez seja a constatação pura de que quando você passa um tempo com a sua vida e acaba olhando pro lado, você descobre, acerca do que diz a música, que tem sempre muita gente por lá.

O Capitalista Radical, uma introdução concisa

O capitalista radical é um personagem efêmero, que se mistura ao proletariado das grandes capitais com ares de superioridade e vagueia de terno Armani linha 97-98′ nas veias abertas da Vila Olimpia durante o horário comercial, embora não tenha escritório neste conglomerado executivo da cidade de São Paulo, ele quer passar essa imagem de gente séria e compromissada com uma pasta que contém apenas um bloco de sulfite e um pão com mortadela que ele come no banheiro com receio de expor suas próprias mazelas.

Com dois braços esquerdos – fruto de um implante bem sucedido, embora completamente errado por um acidente enquanto tentava ensinar os sobrinhos de sete anos a usar uma metralhadora – ironicamente ele vê esquerda em tudo, critica as minorias, salienta seu apreço pela família brasileira, pelo homem de bem e janta no Terraço Itália a cada semestre para compartilhar fotos e reviews na rede social do momento.

Nosso intrépido capitalista radical vive de renda – embora ninguém saiba qual a procedência de seu dinheiro -, coleciona escapulários católicos e moedas de diversos países e não se contenta em apenas passar a imagem de politicamente correto, curte assinar a Veja e tem uma foto do Reinaldo Azevedo no seu armário da Runner ao lado de um santinho do Eike Batista fazendo thumbs up.

Entretanto, nosso personagem ainda sabe como se divertir e gosta de pregar peças em mendigos distribuindo a eles alguns itens repetidos da sua coleção de moedas de outros países. Cômico. Imortal. Épico. É o nosso grande coordenador da classe média, nosso ícone de bom gosto, um sommelier do anticarinho ao povo.

(proj. @bigblackbastard, @bravodimas, @danielbranco e @kustela – este último serve de inspiração também)

The clock is ticking

Daí o médico disse um monte de coisas sobre parar de fumar porque eu era um jovem gordo e deveria cessar de uma vez isso, dizia sobre minha baixa imunidade e perguntava se eu estava tomando alguma medida para emagrecer. Começou a dissertar sobre como meus hábitos eram errados (não que eu tenha revelado algum) e, principalmente para que optasse pelo refrigerante light (sem saber também que passo semanas sem dar um só gole em qualquer refrigerante). Mas a principal parte foi quando ele começou a fazer umas contas rápidas depois de ter dito a frase emblemática “se você continuar assim…” seguido de “na próxima copa, digo não na próxima, mas na outra, você não vai estar aqui para assistir”.

Eu podia apenas ter feito a piada que contei no MSN logo em seguida, no celular (ainda não me adaptei) em que dizia “nossa doutor, mas sou apaixonado pela seleção, vou ter que me esforçar mesmo”. Aquele senhor me entenderia errado e faria de tudo para que eu tivesse a moral mais dilacerada ainda antes de sair do consultório. Mas bem, ele me deu um prazo de vida de uns seis anos e, ao listar isso de maneira concisa na minha cabeça eu entrei naquele pânico silencioso, em que a gente tem vontade de gritar, mesmo sabendo que vai ferir ou ultrapassar alguns limites sociais, mas a gente nunca grita. E no final as barreiras sociais não fazem a menor diferença.

Agente* passa toda uma vida planejando pra talvez chegar numa certa idade e parar de pensar no futuro para viver o futuro. Talvez eu estivesse certo quando pensava que só o presente era importante. Ninguém sai ferido, ninguém se magoa tanto, você não dispõe de tantos empecilhos e barreiras naturais para fazer a porcaria que você quiser da sua vida, porque no fim das contas, se é tudo “uma corrida radical rumo ao esquecimento, que ao menos possamos fazer isso com estilo” como lembra Bradley Trevor Greive no prefácio do Guia do Mochileiro.

Eu acabei saindo do hospital com uma receita de anti-inflamatório e meus dias contados. Acho que ainda não disse que entrei lá apenas por estar com uma gripe forte, disse?

*O termo “agente” no lugar de “a gente” é em homenagem ao Piano Black, mártir caga-regra do twitter, segundo #carlos, o grande.

Gloria Kalil do gueto

É um impasse foda quando os únicos bares que você frequenta funcionam no meio do bairro mais assustador que você poderia indicar para os seus amigos (e esse é o seu bairro, a propósito). E a gente não cogitou a hipótese de recusar quando D. sugeriu ‘Vamos pro Maracá, no bar do Negão, ali pra cima, é tranquilo, sou de casa’.

Uma Jukebox tocava uma das últimas músicas novas do Dexter, uns quatro caras na porta que só te estranham nos cinco segundos antes de você passar por eles e lançar um natural “opá, beleza?”, que quebra qualquer gelo e pode ser considerado a maior vacina para não causar problemas em lugares que você não conhece. E esse sou eu dando dicas de etiqueta da malandragem, ok, já percebi.

Acontece que havia esse tiozinho com macacão de mecânico, a quem apelidamos de Walking Dead após uma amizade criada à base de conversas sem sentido como:

-Onde o senhor mora?
-Bebi não, bebo nada
-Não, perguntei onde o senhor mora
-Me deixa cantar uma música pra vocês, posso cantar?

Não sei outra forma de contar que eu empurrei ele com o pé nas costas, enquanto parado na porta do bar, tamanha afinidade que tínhamos após a segunda dose de conhaque com limão servida pelo Negão himself.

Sabendo dizer/fazer tudo nos momentos certos, você não precisa se preocupar em estragar festas ou criar um climão maneiro com qualquer grupo de traficantes/irmãos à paisana. Mas esse é apenas meu lado Glorinha Kalil de etiqueta para a quebrada falando novamente.

Tudo isso era pra dizer que o bar, apesar de infinitamente bom e impregnado de boas e escabrosas histórias, talvez não entrasse para review no nosso mais novo empreendimento:

http://somentebareslegais.com.br

Cês que se virem

Lembrei com saudades de uma época que não vivi em que prestava atenção em cada mínimo detalhe da vida. Desci do metrô a passos lentos para contemplar a Paulista e chegar até meu único lugar no mundo, a rua Augusta. Comprei água de três reais para poder usar o banheiro do restaurante de rico, mas essa parte era desnecessária no texto, desculpem.

Aconteceu muita coisa na noite de sexta. Dei uma moeda a um solitário tocador de sanfona que executava a música triste mais linda que já ouvi na vida. Conversei com um andarilho do Heliópolis a quem reservei outra moeda. Me tornei amigo de um carismático malabarista de rua que falava espanhol. E poderia dedicar todo esse texto a essa galera a quem esgotei meu bolso de moedas e ao BOOMSHAKALAKA de estar entre alguns dos poucos e bons amigos que conheci na vida.

Mas nunca é só isso. Os detalhes da vida começam a se auto arquivar para um outro momento quando a história do post começa a acontecer de verdade.

Descia o escadão da Frei Caneca/Nove de Julho lá pelas cinco horas da manhã (não recomendo etc). Um cara subia meio assustado, mas balançando a cabeça negativamente. O bom senso me faria olhar antes e hesitar. Uma noite de Brahmas na minha cabeça me fizeram seguir em frente, afinal, ‘a responsa de chegar garante o seu retornex’, lembrei de termos concordado com o Criolo em grande parte da noite.

Ao descer o primeiro lance que dá acesso ao restante da escada, percebo dois garotos de calças abaixadas praticando sexo ao ar livre. Exato. Numa normalidade como se estivessem trancados num quarto, longe dos julgamentos preconceituosos da sociedade. Não era um local ermo, não às cinco da manhã quando gente já passava indo trabalhar ou voltando do trabalho, era no canto do lance de escadas.

O garoto que comia o outro olhava pra trás com receio e continuava, como se não visse ninguém, mesmo sabendo que os passantes viam tudo, numa notável habilidade de I don’t give a fuck. Eu passei batido, óbvio. O que você tem a ver? Já vi acontecer com prostitutas, com pessoas comuns e se fosse um homem transando com uma foca adestrada eu passaria incólume da mesma forma.

Ouvi uns gritos de socorro quando cheguei ao final da escada e, graças a Deus, nenhuma notícia triste no jornal de hoje. Foi uma correria, um pega pra capar, uma treta feia provavelmente de cunho moralista dispersa em segundos, quando perdi de vista todos os envolvidos.

O moralista ideal escroto diria que o casal pediu pra apanhar, ou facilitou. Eu só diria que toda essa falta de bom senso numa sociedade cheia de moral e bons costumes como a nossa só garante o arrimo ao preconceito, uma militância ao contrário, um reforço ao pensamento “Tá vendo? Esses viados não respeitam ninguém. Só querem saber de sacanagem”, como lembra o idiota feliz. O que estou tentando dizer é que já deve ser difícil ser homossexual no Brasil por motivos óbvios e transar na rua não ajuda em nada.

Como lidar quando está tudo errado? Existe ponderação ou é um conceito absoluto? Quem está mais errado neste caso, o cara que se intromete, o cara que não tem bom senso, o ovo ou a galinha? Respostas que dariam eficientes teses de doutorado sobre sociologia, acredito.

Se você cavar bem fundo é até meio moralista pensar nisso, porque no fundo eu fecho com todo mundo pelado ganhando desconto. Mas aí vocês se virem pra julgar também.

Imperfeições

Olhava o ecrã do notebook como se procurasse espaços escuros para enxergar meus próprios olhos no reflexo, para ampliar o alcance e ir mais fundo, cavar a alma, organizar com a habilidade de um tetris aquele pequeno canto reservado às dificuldades que imponho à vida, das complicações às quais somos reféns. E na bola do olho tem uma verdade que se esconde e responde todas as coisas, mas não é tão fácil assim reconhecer-se através dos próprios olhos.

Tenho fases difíceis na vida e, como que de maneira autoexplicativa, esta não é uma delas. Um amigo me disse que é maturidade. É possível. Faz muito tempo que não estive tão disposto a ser exatamente o que sou, a dizer o que penso e às pessoas certas. Haja o que houver, a vida segue em frente. A sua vida segue em frente, ninguém vai tirar isso de você (mas evite aproximar um disco do Smiths de uma corda ou artefato afiado, pode ser um ultimato).

Estou relembrando como é dizer coisas sobre si mesmo sem citar fatos ou contar histórias menores para ilustrar. Às vezes eu esqueço desse mundo das ideias. Porque no mundo real, as pessoas conversam, se relacionam e mantém vivas as estruturas sociais e seus pequenos guetos de afinidade, mas no fundo, se você parar um minuto e se perguntar melhor, vai perceber que ninguém se conhece, ninguém sabe praticamente nada sobre o outro, sobre o próximo (pra citar uma palavra bíblica). Você conhece uma representação física, mas não sabe os maiores medos e os verdadeiros anseios de quem pode passar a vida inteira do seu lado.

Em resumo, as pessoas se adaptam a limites, barreiras de convivência e minúcias desnecessárias da vida alheia que fazem a história da civilização esse grande programa do Nelson Rubens aumentando, mas não inventando sobre a vida de grandes homens. Detalhes. No fundo, nós apenas ‘queremos perfeição e nos lambuzamos com as imperfeições dos outros’.

Existe espaço para a verdade no mundo solitário que Jürgen Schmieder criou quando tentou dizer apenas a verdade durante 40 dias e perdeu quase todas as relações pessoais. Exatamente o contexto daquele Renato era Chato. Não temos mais esse direito de violar os limites, de extrapolar as conversas abertas que precisam de um ponto final, se alimentam da neurose, do cochicho, das suposições e pré julgamentos. Ninguém mais tem direito a responder um ‘e aí, beleza?’ com um simples ‘não, briguei com a mulher, dormi no sofá e tô com uma dor de estômago absurda, fui no banheiro três vezes e nada, conhece algum remédio?’. Talvez ninguém jamais tenha tido esse direito.

O que pode significar levar todos os seus segredos para o caixão e viver uma vida de aparências bonita e tediosa. Mas esse sou só eu tentando me convencer de que nunca temos saída pra nada.

Ser lembrado

A cena a seguir é de Wilfred. Contém spoilers. Digo, contém praticamente um capítulo resumido do seriado (S01E10), portanto, se pretende assistir, não leia. Eu curto fazer isso com cenas que representam alguma coisa pra mim, portanto, me julguem.

No bairro tranquilo em que o seriado é ambientado, um ladrão resolve quebrar os vidros dos carros e roubar tudo de dentro dos veículos. Os vizinhos desconfiam de Ryan, cujo carro permanece intocado.  A pedido de Wilfred (o cachorro que fala, sério, assistam), no dia seguinte Ryan comparece na festa do bairro que já vinha sendo organizada, mas é hostilizado e volta antes de terminar. Ao chegar em casa, encontra o mendigo local revirando seu lixo:

MENDIGO: Isso é tão vergonhoso, pensei que ainda estaria na festa.
RYAN: Não era o meu lugar.
MENDIGO: Por que não estou surpreso? Típico comportamento de cara solitário. Comida congelada, vários lenços grudentos. E isso, só duas ligações mês passado. Isso é muito triste, Ryan.
RYAN: Você sabe meu nome?
MENDIGO: Eu sei o número do seu CPF. Você precisa mesmo de um triturador.
RYAN: Quer saber? Vá em frente. Roube minha identidade. Seja feliz sendo eu.
MENDIGO: Você parece comigo quando era mais novo.
RYAN: Que encorajador.
MENDIGO: Vim pra cá em 1977. Não falava a língua aquela época, então… Difícil fazer amigos, aí eu parei de tentar. A solidão me tomou. Depressão. Arruinei a minha vida. Quando eu morrer, será como se eu nunca tivesse existido. Serei esquecido. Peguei pesado, né? hahah
RYAN: Então esse é meu futuro.
MENDIGO: Não precisa ser. Ryan, você precisa se comunicar, criar uma conexão com seus amigos humanos. Você pode começar comigo agora, me deixando bater uma pra você por 20 dólares.
RYAN: Que?
MENDIGO: Preciso de heroína, cara.

Uma reviravolta depois, Ryan é inocentado, primeiro culpam um garotinho do bairro e depois o mendigo em questão, que é encontrado morto e com os itens roubados em seu carrinho.

RYAN: Wilfred, diga que não matou o mendigo.
WILFRED: Claro que não, Ryan. Só deixei 20 dólares pra ele. Mas o quadro de papelão que ele tinha era bem claro. O dinheiro era para comida, não para drogas. Além do mais, ele conseguiu o que queria.
RYAN: Ser lembrado como um morto viciado que roubou as coisas deles?
WILFRED: Exatamente. Ser lembrado.

Uma spin-off versão do diretor

Era uma noite de sábado e passava das onze e meia. Estávamos no quarto assistindo a segunda temporada de um seriado que gostamos. Como eu já tinha visto alguns dos capítulos, saí para comprar cigarros e deixei ela deitada vendo TV.

Quando peguei o carro para ir até a loja de conveniência fazia um friozinho bom, daqueles pra se manter debaixo do edredon com quem quer que seja que você ame. Peguei o maço de cigarros, o frentista disse que eles estavam com um problema para passar o cartão, mas que seria resolvido em 20 minutos no máximo, então fiquei fumando no canto do posto de gasolina.

Ao olhar pros lados sinto uma calmaria intensa, mesmo para uma noite de sábado. Nessa hora aparece um carro bem lá na avenida, cheio de gente, cabeças pra fora e som alto. Descem cinco pessoas. Cinco amigos muito próximos. Bêbados, exaltados, felizes, estavam vindo comprar cigarro e mais algumas coisas para levar na festa que já estava rolando na casa de um deles. Me chamaram mais de três vezes, mais de três vezes eu neguei, com aquele pequeno remorso que sempre existe quando isso acontece.

Eles partiram, eu entrei e paguei o cigarro. Entrei no carro pensando muito sobre o que aconteceria se eu estivesse naquele posto antes do natal de 2008 quando comecei a namorar com a Denise. Perguntei se meu coração estava mesmo naquele edredon, em casa. Pensei se tudo aquilo valia a pena, voltar pra casa, ficar com ela vendo TV até adormecer. E aquele pequeno remorso por não ter ido voltou mais forte quando estacionei o carro e entrei em casa.

Deixei o maço sobre a mesa, tirei o tênis e, ao abrir a porta do quarto, ela estava quietinha, iluminada apenas pela luz da TV e me olhou com os olhos mais vivos do mundo, abrindo um sorriso que iluminou o quarto inteiro e fez toda aquela dúvida desaparecer como que por encanto. Voltei pra sala e deixei as lágrimas escorrendo enquanto ela continuava vendo o seriado e depois voltei pro quarto pra contar o que tinha acontecido. No fim das contas eu e ela fizemos tudo valer a pena e eu pude acertar o lugar em que estava meu coração.

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Pra vocês que estão acompanhando esse middle season, não está tudo bem ainda, estamos reformulando os contratos da terceira temporada, sem previsão para retorno. =/

E o meu erro foi crer que estar ao seu lado bastaria

Prefiro postar aqui, enquanto esse blog é um recanto relativamente escondido. Comecei com tantos lamentos no Facebook que comecei a ter pena de mim, o que é preocupante.

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É difícil aceitar uma vida que atualmente não é a sua. Beira o impossível. Mesmo sabendo que é isso que você um dia vai precisar pra viver e que enquanto você ama, vale a pena, como diz uma amiga. Minha vida de hoje eu não imaginava aos 20, como provavelmente não imagino como será ano que vem etc. Acho que mais triste de tudo isso é querer levar pra frente alguma coisa que faz tão mal pra nós dois.

Nada era tão difícil quando era só a gente.
Só tá me faltando essa coragem de mudar o status no Facebook.

=/

Trabalhando para melhor atendê-lo

Tive um writer’s block justo em dezembro, o mês mais legal para repensar o que quer que seja e fazer uma análise pessoal sem base nenhuma, embora no final tudo faça sentido dentro da sua cabeça. Não existe teoria psicológica mais fácil de ser assimilada do que a própria verdade.

Tudo o que escrevi esse mês veio com uma espécie de carga extra que eu não quis ou não consegui bancar. Qualquer errinho ou pensamento sem lógica, qualquer frase que soasse terrível já era motivo de sumir com os parágrafos e desligar o computador num tédio quase compulsivo.

Ano passado estive mais ciente do que o final do ano pode fazer com a cabeça de quem trabalha com dados, conteúdos, números, listas de excel e letras, ao mesmo tempo. Esse ano achei que tudo pudesse ser mais maleável, mas o tempo veio me estapear, como quando a gente aprende alguma coisa pra valer e não melhora a situação apenas esquecendo o problema.

Amanhã preciso escrever três páginas de produto e, caso embale, tenho outras 15 na lista. Sem contar o parágrafo do freela que não me pagou os 30 reais que faltavam. É um consolo saber que existe alguém pior que você. Talvez das próximas vezes eu adote o caráter simpático do Di Vasca nessas micro contratações (sério, leiam esse blog).

E até sexta, espero que uma amiga esteja certa, ficamos sobrecarregados em dezembro pra recomeçar o ano novo zerados. É meio que aquela história de que na sexta a gente trabalha pelos dois outros dias do final de semana, mas como deu pra perceber, ando meio sem ideias pra levar isso pra frente.

Preciso de um tempo, algumas semanas longe do blog, o que não quer dizer que vou parar de postar, pode ser que surja uma inspiração e um post melhor que esse monte de choramingos também sem fundamento. Quem sabe umas imagens do This isn’t happines com textos de seis linhas, pra não perder o ritmo (qual?). O tempo dirá.

Feliz ano novo a todos os envolvidos.

*A imagem é adaptação dessa daqui, via this isn’t happiness =)

Balanço 2011


Esse ano estive mortalmente indeciso sobre meu trabalho depois de umas respostas negativas aí. E então tive umas reuniões descompromissadas na sede do trampo e depois de quase me mudar pra Jandira acabei voltando a trabalhar na capital. tenho me tornado a cada dia uma pessoa muito mais roubável, mas isso pode ser considerado uma coisa boa. Consegui um freela do qual já não sinto tanta saudade.

Esse meu amigo em recuperação, mesmo passando dias planejando roteiros comigo desistiu de ser meu amigo (entenda isso como quiser), foi coisa de época, conversei com o cara, mas olha, talvez isso tenha me feito desistir um pouco mais de acreditar no mundo. Aí veio um moleque no metrô dizendo que Jesus me ama e que ficaria tudo certo.

Algumas coisas seguiram iguais. Continuo frequentando o peremptório bar do Enoch, por exemplo, minha cota mensal de vagabundagem nas proximidades da casa dos meus pais. Continuo tendo sonhos dentro de sonhos ou sonhos malucos com o William Bonner e o Danilo Gentili (sim, soou estranho mesmo). Ah, e continuo postando tutoriais simples e angariando visistas às custas da indexação manera do Google.

A Denise continua lutando contra minhas imaturidades namorando comigo mesmo depois de tanto tropeço e tanta diferença entre nós. Fomos duas vezes para o litoral norte, que conheci esse ano, calcule o sofrimento da classe média. Continuamos morando distantes demais pra quem já entrou na terceira temporada do relacionamento. A verdade é que a gente já sabe o que quer (aos novatos, essa sentença para as mulheres só quer dizer uma coisa, casamento). Ela já ganhou uma mixtape esse ano, então tá tudo bem encaminhado, eu acho (prioridades, não trabalhamos).

Foram embora deste mundo algumas pessoas notáveis, como minha tia Paula que passou maus bocados num hospital terrível no interior do Maranhão, mas pude me lembrar de tudo o que tenho de bom dela, o que alivia bastante. Outra perda lastimável não só pra mim, mas para uma cena musical de gente de verdade foi a partida do Redson, vocalista do Cólera, parte da mitologia da música independente nacional.

Fiz uma apologia à depressão, mas nada demais, aquela mesma ideia do bullying pedagógico, de que você vai se ferrar, mas no fundo é pro seu bem. Tentei ir no médico e não há mais nada a dizer sobre o assunto. Descolei uns sonhos velhos, empoeirados, meu irmão tá namorando uma garota gente fina. E, bem, vamos fechar isso aqui que já deu de links em 2011, não? Prometo que ano que vem reduzo isso aí.

***

Sério, que 2012 seja bem legal pra todo mundo. Seguindo o raciocínio de Azaghal, num Nerdcast do começo do ano, aproveite 2012 como se fosse o último ano de sua vida (ask maias about it).

Um abraço a cada um dos meus 20 leitores imaginários, aos amigos de sempre e aos de agora que passam por este pequeno relicário de vibes desconexas. Amo vocês, até mais e obrigado pelos peixes (ainda não terminei – FUUUUU, outro link).

3rd season

Dentre as coisas mais difíceis que já conheci está ‘namorar’. Juntar duas vidas completamente distintas em uma só instituição, lidar com prioridades diferentes para um e para outro, conciliar as divergências para evitar problemas e, para que, ao final disso tudo (e com alguma sorte) conseguir um beijo displiscente e desamarrado do mundo.

Porque é nesse momento que as coisas se desprendem, sabe qual é? Aquele momento que você diz pra ela que gostaria de ser eterno, pra parecer fofo e/ou plagiar o Nando Reis sem ela saber. Porque, afinal de contas, é tudo um grande poço de responsabilidade, dívidas, compromissos, especulações e brigas. Aquele momento, aquele único, em que os lábios se encostam é quando tudo se desfaz, quando tudo que é ruim se perde numa ignorância que nos faz felizes e completos.

Sim, amigos, hoje faço três anos de namoro com a Denise. E que venha a terceira temporada.

O natal do desapego

Entendo o clima de natal, as crianças, os shopping centers, entendo até mesmo as luzes da avenida Paulista. Ontem, durante o expediente, ouvi uma galera comentando sobre como as correrias de natal mudaram de uns anos pra cá. Deu vontade de dizer-lhes que tudo mudou porque cresceram, mas preferi não me intrometer no horário de almoço dos outros com essas conversas deprimentes (não tão deprimente quanto o Ronald Rios contando à crianças de 5 anos que o papai noel não existe, essa está entre as coisas mais tristes que vi esse ano).

Eu lembro dos natais que passei junto com a minha família (e por família, entenda-se: pessoas que moram na minha casa). A mesa cheia de Cherry Coke e cachos de uva, um peru que parecia tão gigante, umas garrafas de bebidas as quais eu não entendia muito bem porque só meu pai podia tomar. Depois aquelas festas com os vizinhos, eu devia ter uns 16 anos me achando o máximo por ‘roubar’ uma garrafa de espumante enquanto todos olhavam os fogos.

Vieram então os anos dez. E toda aquela solidão que senti até uns 19 anos foi perdendo o sentido. Meus pais começaram a viajar e posso me lembrar do meu primeiro natal sozinho, em casa. Um monte de frituras, outro monte de bebidas, a TV ligada passando algum especial da Globo e eu numa tranquilidade solitária que, de longe, poderia até parecer desespero. Não era.

Todas as vezes que passei o Natal longe de casa eu me senti errado. Mas o fato não era estar longe da minha família, era simplesmente estar longe de casa, tentando fingir que estava tudo bem para pessoas as quais eu pouco conhecia. E sorrir sem vontade se torna, no fim das contas, o pior dos castigos.

Essa não é outra ode à tristeza, sério. É só a aceitação de que eu prefiro passar o natal sozinho na frente da TV do que em qualquer outro lugar que não me sinta em família. E tem aquilo de agora ter outra família pra comemorar. E de ser aniversário de namoro, justo no dia 25. Só precisava dizer que o natal se transformou em mais uma dessas convenções que me desapeguei, mas essa, pelo menos, sem críticas ao establishment. Gosto muito de ver todo mundo comemorando, desde que eu esteja na minha, com uma caixa de nuggets e duas latas de cerveja na geladeira.

Ok, falando assim até parece desespero mesmo.

***

Só espero que o menino Jesus cumpra seu trabalho no dia de hoje e que tudo acabe bem.
Feliz natal aos desbravadores que conseguiram ler até o final e aos que pularam o texto só pra ler a mensagem. =)

Pádua

Trago comigo pouca coisa dos tempos de escola. Pelo menos disso tudo que está às vistas. Sei do fator de formação que a escola exerce sobre cada um, descobri isso com o tempo, todo mundo acaba descobrindo. Aquelas bases de conhecimento que de tão perdidas no tempo parece que nasceram com você.

O maior ensinamento que tive na escola veio com o professor Pádua, de física, em sua última aula de 2001, a qual ele encerrou cinco minutos antes do horário usual após uma explicação qualquer e começou um discurso simples, destinado аs crianças que éramos, sobre como dali pra frente as coisas iriam mudar entre nós. Sobre o tempo em que você demoraria até encontrar algumas pessoas cuja convivência havia sido rigorosamente diária durante todos aqueles anos. Disse algo sobre a possibilidade de ainda estarmos ligados no ano seguinte, mas e em cinco, em dez? Lembro das meninas chorando e do arrepio na espinha que deu quando ele terminou a aula da maneira sempre eventual, numa frase que agora não me lembro.

A grande lição que um dia temos de aprender é a de que as coisas mudam e você tem de abrir mão. Nem todos os amigos são como aquele meu último boneco Comandos em Ação guardado no meu baú de tesouros, com as pernas descoladas do tronco, preservando ainda um sorriso no rosto intacto, felicidade que o tempo não teve capacidade de alterar
.
Alguns amigos ainda estão por aí, aceitando quem somos e o que nos tornamos depois de toda aquela euforia dos nossos primeiros anos de amizade.

Minha única tristeza no momento é que este texto trata exatamente daqueles que se vão por opiniões diferentes, por posturas opostas, pois não fazem mais parte da nossa vida, para evitar problemas futuros, para desfazer as lembranças que trazem, enfim.

Passei a semana inteira pensando em como escrever sobre esse meu amigo que decidiu essa semana que não éramos mais amigos, por divergências de maturidade. Pra resumir essa parada e não transformar esse blog num diário my sweet sixteen, diria que achei uma decisão injusta, talvez necessária, embora essencialmente injusta.

E lembrar do Pádua, meu eterno professor de física, me trouxe de volta a sensação do LOST, de que vivemos juntos e morremos sozinhos. Embora possamos ainda encontrar uma saída menos frustrante a cada pequeno revés da nossa existência para que talvez essa fração da realidade nos fortaleça um pouco mais.

Vou começar consertando meu Comandos em Ação.

A vida, o universo e tudo mais

Peguei para reler O Guia do Mochileiro das Galáxias depois que a Mariana fez uma associação leve sobre o início da história com essa brand story do Bruno.

É possível que o humor às vezes quase imperceptível de Douglas Adams seja uma das mais evidentes influências que eu tenha na vida depois das cartas que meu pai escrevia à minha mãe quando eu era um bebê (e um dia devem estar neste blog, promessa feita).

Portanto, eis aqui a introdução de seu livro mais famoso (do Douglas Adams, não do meu pai):

Muito além, nos confins inexplorados da região mais brega da Borda Ocidental desta Galáxia, há um pequeno sol amarelo e esquecido.

Girando em torno deste sol, a uma distância de cerca de 148 milhões de quilômetros, há um planetinha verde-azulado absolutamente insignificante, cujas formas de vida, descendentes de primatas, são tão extraordinariamente primitivos que ainda acham que relógios digitais são uma grande idéia.

Este planeta tem – ou melhor, tinha – o seguinte problema: a maioria de seus habitantes estava quase sempre infeliz. Foram sugeridas muitas soluções para esse problema, mas a maior parte delas dizia respeito basicamente à movimentação de pequenos pedaços de papel colorido com números impressos, o que é curioso, já que no geral não eram os tais pedaços de papel colorido que se sentiam infelizes.

E assim o problema continuava sem solução. Muitas pessoas eram más, e a maioria delas era muito infeliz, mesmo as que tinham relógios digitais.

Um número cada vez maior de pessoas acreditava que havia sido um erro terrível da espécie descer das árvores. Algumas diziam que até mesmo subir nas árvores tinha sido uma péssima idéia, e que ninguém jamais deveria ter saído do mar.

E, então, uma quinta-feira, quase dois mil anos depois que um homem foi pregado num pedaço de madeira por ter dito que seria ótimo se as pessoas fossem legais umas com as outras para variar, uma garota, sozinha numa pequena lanchonete em Rickmansworth, de repente compreendeu o que tinha dado errado todo esse tempo e finalmente entendeu como o mundo poderia se tornar um lugar bom e feliz. Desta vez estava tudo certo, ia funcionar, e ninguém teria que ser pregado em coisa nenhuma.

Infelizmente, porém, antes que ela pudesse telefonar para alguém e contar sua descoberta, aconteceu uma catástrofe terrível e idiota, e a idéia perdeu-se para todo o sempre.

Esta não é a história dessa garota.

É a história daquela catástrofe terrível e idiota, e de algumas de suas conseqüências.

É também a história de um livro, chamado O Guia do Mochileiro das Galáxias – um livro que não é da Terra, jamais foi publicado na Terra e, até o dia em que ocorreu a terrível catástrofe, nenhum terráqueo jamais o tinha visto ou sequer ouvido falar dele.

Apesar disso, é um livro realmente extraordinário.

Na verdade, foi provavelmente o mais extraordinário dos livros publicados pelas grandes editoras de Ursa Menor – editoras das quais nenhum terráqueo jamais ouvira falar, também.

O livro é não apenas uma obra extraordinária como também um tremendo best-seller – mais popular que a Enciclopédia Celestial do Lar, mais vendido que Mais Cinqüenta e Três Coisas Para Se Fazer em Gravidade Zero, e mais polêmico que a colossal trilogia filosófica de Oolonn Colluphid, Onde Deus Errou, Mais Alguns Grandes Erros de Deus e Quem é Esse Tal de Deus Afinal?

Em muitas das civilizações mais tranqüilonas da Borda Oriental da Galáxia, O Guia do Mochileiro das Galáxias já substituiu a grande Enciclopédia Galáctica como repositório-padrão de todo conhecimento e sabedoria, pois ainda que contenha muitas omissões e textos apócrifos, ou pelo menos terrivelmente incorretos, ele é superior à obra mais antiga e mais prosaica em dois aspectos importantes.

Em primeiro lugar, é ligeiramente mais barato; em segundo lugar, traz impressa na capa, em letras garrafais e amigáveis, a frase NÃO ENTRE EM PÂNICO.

Mas a história daquela quinta-feira terrível e idiota, a história de suas extraordinárias conseqüências, a história das interligações inextricáveis entre suas conseqüências e este livro extraordinário – tudo isso teve um começo muito simples.

Começou com uma casa.

Telefone portátil

Em novembro, comprei dois celulares (já deu pra notar que não trato de finanças aqui, né?). Um smartphone para aquela necessidade que inventamos de estar sempre online, onde quer que a gente esteja, mesmo com a bipolaridade do sinal 3G da TIM. Veja, eu poderia falar sobre a conta reativada do Foursquare ou qualquer outra bobagem, mas eu vou falar do outro celular.

Sim, porque este, amigos, é um celular. Um aparelho telefônico portátil de volume alto para conversar, de falantes sensíveis para compensar seu tamanho e a falta de um flip que extenda o telefone da sua orelha até a boca. Ele armazena todos os seus contatos, possui um relógio, alarme e tecnologia de ponta: ele narra o horário em voz alta. Sim, você pode pedir para que ele narre a qualquer momento, ou decidir que seu alarme seja: BOM DIA, É HORA DE ACORDAR, SÃO SETE HORAS E VINTE MINUTOS.

A diferença é comprar um gadget com função celular e um aparelho de uso único. Quer dizer, tem calculadora, MP3 e rádio FM, mas nem por isso se torna multimídia. Não suporta fotos, sabe, não tem câmera. Sem contar que sua bateria dura mais de uma semana. Talvez uns 4 dias usando o MP3 player todo dia.

Isso era pra ser um review de produto.

Toma que o mundo é seu

Hoje, o amigo F. me lembrou de um filme que devo ter assistido na Tela Quente ou Temperatura Máxima nos idos dos anos 90. Se chama ‘Encurralados’ e conta a história de um homem perseguido por um motorista enfurecido num caminhão, bem, com esse resumo – e caso tenham quase 30 anos – vocês já devem ter se lembrado também.

Apesar de ficção, foi minha primeira experiência de contato com o fato de que qualquer pessoa no mundo pode fazer o que lhe der na telha (olha as gírias datadas) com o que está a sua volta. O filme não falava de um mundo paralelo, não eram fadas, magia, nem o Leslie Nielsen deixando uma estátua excitada. Era apenas um motorista de caminhão perseguindo um cara que dirigia um carro. Nada tão distante assim da realidade.

De um lado, esse filme me deu a sensação de que qualquer merda poderia acontecer a qualquer momento, porque depois você descobre que as pessoas fora de um parâmetro de sanidade podem quebrar vidros de lojas quando o time de futebol perde o campeonato, ou te agredir com um taco de baseball dentro de uma livraria ou implodir um poste, sempre que quiserem.

Por um outro lado – o que prefiro me lembrar -, ‘Encurralado’ me garantiu aquela sensação de que você pode fazer o que quiser e alterar a realidade da forma que você bem entender, seja qual for a ocasião. E que não é uma placa de ‘não pise na grama’ que vai impedir seu picnic.

***

A parte boa de toda essa lorota é que o filme inteiro dublado está disponível no youtube:

‘O mundo é dos espertos’

Quando começo a tentar rever meu passado e descobrir como é que foi que eu consegui tamanho distanciamento com o mundo das pessoas comuns, eu me lembro dessa frase do título. Ouvir isso da minha mãe quando ela dizia que meu irmão era esperto e eu era errado por ficar quieto ou não responder, ou não agir, teve um peso quase absoluto no meu processo pessoal de misantropia assistida.

É que eu não conseguia entender como, para ela, o fato de alguém se dar bem sobre outra pessoa era importante para a vida. Mas não me entenda errado, não tem relação com as outras pessoas. Não estou dizendo que desde pequeno sou um humanista de sensibilidade ímpar, que dá a cara para bater e ama o próximo a valer (pega essa rima). Eu só não queria nada além das coisas do jeito certo. Mas eu tinha que ser esperto.

Sempre fui esse cara tímido e que, geralmente, as pessoas julgam saber mais, entender mais dos assuntos da vida e não vêem dificuldades de passar na frente ou pegar o lugar na fila. É possível que tudo isso seja verdade e que após todo esse processo de descobrimento psicológico o qual me enveredei umas semanas atrás, eu consiga descobrir alguma ambição pra chamar de minha. Isso se esse processo realmente tiver fim.

A grande verdade, camaradas, é que amadureci nesse ponto (só nesse ponto, Denise, eu sei). Entendi o que é uma pessoa esperta e de que formas ela pode agir para conseguir o que quer. Quando você entende algo por completo, você descobre de bônus que parte daquilo funciona pra você. Isso não significa usar das mesmas práticas de determinadas pessoas espertas na visão de praticidade e ligeireza da minha mãe. Mas conseguir um bom panorama de fora e dar a volta nesse processo de ser esperto, ou mesmo entender quando alguém tenta dar uma de sabichão pra cima de você, já me vale mais que o dobro.

Mártires muito loucos

Nunca entendi esse fenômeno social do rir pra não chorar. Aquele pessoal que está numa situação extrema e ainda assim está rindo. Como se fosse de alguma forma cômico, por exemplo, estar espremido dentro de um vagão de trem ou pendurado pra fora da porta do ônibus*, sabe? Já pensei nisso certa vez como algo que as pessoas faziam quando estavam acompanhadas, ou quando precisavam rir para sociabilizar (minha palavra do momento, desculpem) com os outros na mesma situação. Uma espécie de acordo coletivo no qual rindo, você fica absolutamente despido de qualquer problema momentâneo, que naquele exato instante é você segurando na porta do busão com uma mão, mantendo a mochila à frente da barriga e dando check-in na linha de ônibus (sério, existe) com a outra.

A visão de alguém inclinado ao ufanismo da auto-ajuda seria de que somos brasileiros, rimos da adversidade, fazemos piadas cara a cara com seja lá qual for a besta fera que estiver à nossa frente, aquela ideia de que somos brasileiros e podemos apanhar feito troxas que não desistimos nunca. Algum reaça enrustido cujo melhor amigo é o ar-condicionado da sua SUV, diria que a classe média curte um sofrimento e que a culpa é sempre nossa (deles?). A sorte é que no mundo em que vivo ninguém dá ouvido a reaças, nem cultua tanto assim as bandeiras.

Geralmente isso acontece em coletivos lotados, mas pode acontecer também na fila do mercado, quando o caixa trava na sua vez. Provavelmente minha geração fica mais puta da vida do que risonha às adversidades e começo então a supor que tudo possa ser algo que veio com o tempo, os últimos anos do século XX, com a transformação do brasileiro nesse mártir boa gente das pequenas problemáticas.

*Outra pergunta que sempre me fiz é se essa galera que fica pendurada na porta do ônibus realmente completa o processo de pagar o cobrador, atravessar a catraca e saltar pela porta de trás, porque, convenhamos, se chega o seu ponto e você não tem condição de atravessar todo o coletivo, você simplesmente desce, certo?

Tough Days pro Hard Drive

Era uma vez um HD e uma internet a fibra óptica de 16MB.

Eu tinha baixado 52GB do que comecei a chamar de minha coleção pessoal de filmes western. Guardei e criei uma pasta com todos os filmes que deveria ver, uma planilha separada por atores e diretores, com legendas para identificar o que eu já tinha visto e o que estava para ver. Ainda assim me sobravam os 52 GB de filmes de caubói para assistir. Eu decidi que iria escrever e aprimorar meus conhecimentos nestes filmes, criei um botão no blog pra compartilhar meus posts num lugar só, achei que estava tudo certo.

Nesse meio tempo eu fiz download de algumas séries que estavam atrasadas, outras novas, Boardwalk Empire, cuja primeira temporada é um dos meus assuntos inacabados nesta Terra. A nova temporada de How I Met Your Mother e Wilfred, que estava pra terminar também. Somando tudo acho que foram uns 47GB de séries, excluindo da lista as temporadas que deletava depois de assistir. Meus capítulos da terceira temporada de Man vs. Food também estavam lá. É, estavam.

Do outro da partição tinha minha lista de músicas, perto de 30GB da mais pura e honesta ilegalidade extraída dos servidores do mediafire. Alguma coisa do Torrent, como as discografias do Paralamas e do Roberto Carlos. O último do Wilco também peguei de lá. Meus raps, minhas mixtapes, minhas músicas próprias e riffs de guitarra gravadas no celular. Uns vídeos de New Metal que o Takami me passou e nunca tive oportunidade de assistir, os vídeos do casamento do Alan.

Pra resumir, esta é a nota de falecimento oficial do HD do meu notebook. Ele deixa todos esses órfãos por aí, uma vez que não vou pagar um centavo a mais pra garantia extendida recuperar tudo isso.

Fim.

Sozinho eu sou agora o meu inimigo íntimo

Sabe aquela fase da vida em que é extremamente difícil ser quem você é? Você começa a descobrir que as paradas do seu passado não ficaram bem trancadas naquela gavetinha mirrada e os fantasmas vão sempre estar por aí, como o cadáver do Jackie Boy oferecendo cigarros no Sin City: ‘Nobody ever really quits. A smoker’s a smoker when the chips are down. And your chips are down’. Não importa quantos capítulos da série do Drauzio Varella você consiga assistir de uma vez, um fumante sempre será um fumante quando as coisas piorarem.

Como de costume, não é esse o ponto.

Você precisa lidar com o fato de que ninguém vai entender você. Mesmo que terapeutas lhe ajudem a descobrir mais sobre quem você é. Não existe melhor amigo que um papel e uma caneta (um notepad também funciona). É ali que se consegue dizer qualquer coisa sem rodeios, explorar frases e assim conseguir dizer exatamente o que se passa na minha cabeça. Mesmo que você perca o ponto e passe a confundir se o texto é para o leitor ou para você mesmo.

Mas, pois é, pra piorar tudo, ninguém que te ouve consegue entender exatamente o que você quer. Porque é pra você que as coisas precisam acontecer, não pras pessoas que te ouvem. Ninguém tá afim de saber se sua vida é incrível e cheia de aventuras – acabo de reduzir a pó qualquer conceito de rede social. Minto. As pessoas curtem saber o que você está fazendo, para que exista uma base de comparação com as vidas delas. Só assim elas poderiam julgar se sua vida está melhor ou pior na concepção que elas fazerm do que é melhor e pior. É assim que o mundo caminha sem andar pra frente. Com esse monte de agências de publicidade (uma) me contratando pra freela e atrasando um pagamento de cem reais. Que, aliás, não paga nem nosso jantar no El Kabong dia desses, vocês viram meu check-in no Foursquare?

Só incoerências bonitas.

No fundo, eu vou desvirtuando até onde posso, para evitar amadurecer. Vou lendo meus livros fajutos (já aprendi) e acumulando conhecimento que provavelmente não vai me servir pra nada no futuro, talvez só pra inventar umas historietas pros netos (se não rolar um heart attack prematuro antes dos trinta). E a Denise vai enlouquecendo com essas minhas crises babacas que não chegam a lugar algum e só servem pra mostrar o quanto eu ainda evito envelhecer. O ponto é superar a síndrome de Peter Pan, mesmo sem confiar em terapeuta nenhum. Outra incoerência, se tenho problemas de sociabilidade e de me expor com as pessoas que já conheço, como é que vou revelar coisas e falar sobre minha vida a um completo desconhecido?

Logo eu que sempre achei legal ser tão errado descobri o caminho para a luz voltando pela marginal pinheiros no domingo, com um discernimento digno de se considerar divino. Sério, nunca chegaria sozinho às conclusões que cheguei no último final de semana. Ainda que não consiga explicar todas, basicamente se trata de como eu encaro essa beleza que é viver, porque não encaro como toda essa beleza deveria ser encarada e porque eu deixei chegar naquele ponto mágico do relacionamento em que a namorada sugere que você procure um terapeuta. Não é só falta de vontade que me abate é falta de alguém que consiga tirar tudo isso da minha cabeça sem precisar de uma lobotomia ou um livro de frases feitas que me coloquem pra cima.

veja o resto do quadrinho absolutamente relacionado ao assunto no 9gag

Yo Dawg I heard you like dreaming

Uma vez tive um sonho de um sonho de um sonho. Pois é, aconteceu de novo e reporto aqui as minúcias.

Foi o seguinte.

(terceiro nível)

Eu tinha que entrar escondido na casa de alguns parentes meus e salvar todo mundo das garras de um opressor qualquer que os mantinha como escravos. Pensando por um lado, só esse sonho já renderia uma bela história. As cenas eram eu caminhando pelo esgoto, enquanto pintava o rosto com clorofila, subia escadas e atirava em bandidos. Uma espécie de Rambo mambembe. Rambembe. Sabia que alguém ia pensar no trocadilho.

E depois de toda uma tensão, eu salvo todo mundo, final feliz, vou pra casa descansar.

(segundo nível)

Acordo, como de um coma. Está tudo diferente. Pergunto o que são todas aquelas coisas, pessoas, de quem é aquela casa? Vejo que estamos dois dias a frente, mas na verdade estávamos dois anos e dois dias a frente, algo assim.

Vou até a casa dos parentes que salvei e os encontro em estado deplorável, com crianças subnutridas e membros atrofiados, lepra, gente apodrecendo, essas coisas, como estavam antes de salvá-los.

Na volta pra casa, encontro dois amigos, um deles de muito tempo atrás, o George, que era um gênio da escola. Conversamos sobre como anda a vida, ele tenta explicar, diz que TINHA ACABADO DE VENDER UM PRÉDIO ALI PERTO, mas aí desabafa:

– Olha, tá ivnerossímil, né, eu sei. Eu trabalho com implantes de lembranças na cabeça das pessoas, você só acha que aconteceu o que aconteceu, mas na verdade…
– Como assim, velho? Eu salvei aquela galera, agora eles estão ferrados.
– Sei, você subiu pelo esgoto, matou os bandidos, né?
– É, e… não é possível que foi você.
– Sim, fui eu.

(primeiro nível)

Estava com meu irmão e outro amigo:

– Manos, vocês não sabem o sonho que tive!

E então eu contava tudo que contei pra vocês até aqui.

(e, de manhã, no limbo da realidade)

Acordo repetindo o sonho exaustivamente para não esquecer e poder passar pra frente. Rodo o totem, corro em direção às crianças, fecha a cena, música de redenção…

Lembre-se do quinto dia de novembro

O melhor filme que já vi no cinema foi V de Vingança. Não quero aqui entrar em méritos menores me perguntando se a história é igual a do quadrinho (não é) ou o fato de não ser um filme cult o bastante para alguns de meus amigos hipsters xiitas que perdi com o fim do compartilhamento moleque do Google Reader.

‘Remember, remember, the 5th november’. Passei uns anos ficando nervoso quando lembrava dessa frase no dia sete de novembro, perdendo o timing de trocar meu avatar pela máscara do Guy Fawkes e me juntar a multidão (essa é uma espécie de W.O que os amigos normais tiveram sobre mim que, claramente, não amadureci um segundo desde o colegial).

Foi nessa época que li umas paradas de Luther Blisset, o eterno heterônimo coletivo e outros textos da Wu Ming Foundation – ainda deve ter algum disponível no site.

Hoje, 5 de novembro, cinco anos depois do lançamento do filme e quase trinta anos do lançamento da revista em quadrinhos, venho aqui prestar essa “homenagem”, neste momento de ocupações mundiais, passeatas, quebra-quebra em que o Mini Manual do Guerrilheiro Urbano possa ter se transformado livro de cabeceira de uma geração. Eu sei, seria suficiente dizer que aplaudi e fiquei maluco na cadeira da sala de cinema. Mas V de Vingança se tornou um padrão para o que definir por filme bom: a oportunidade de sair do lugar tremendo e como se o mundo houevsse mudado completamente lá fora; atordoado pela quantidade de pescotapas morais e, principalmente, mais vivo do que nunca.

Schoppenhabibs

Arthur Schoppenhauer é um filósofo alemão do século retrasado que previu a possibilidade de sua obra ser traduzida para um monte de países e picada em livrinhos pocket que você encontra em gôndolas de supermercado com a frase “escreva seus próprios livros dignos de serem traduzidos e deixe outras obras como elas são”. O tradutor brinca com isso na edição que estou lendo de A arte de escrever, da L&PM.

Sinceramente, acho que é a primeira vez que leio essas introduções do tradutor, que são geralmente desnecessárias, embora neste caso tenha servido para me preparar para toda a metalinguística do malandro.

Daí que, no feriado fui no Habibs, enquanto a Denise me esperava em casa. Levei o pocket pra ler enquanto esperava meu pedido e, antes de me sentir completamente retardado por estar lendo Schoppenhauer no meio da algazarra de crianças curtindo um mini barco viking no Habibs do Capão Redondo, o autor me deu a deixa:

“Diante da imponente erudição de tais sabichões, às vezes digo para mim mesmo: Ah, essa pessoa deve ter pensado muito pouco para ter lido tanto (…) sinto a necessidade de me perguntar se o homem tinha tanta falta de pensamentos próprios que era preciso um afluxo contínuo de pensamentos alheios, como é preciso dar a quem sofre de tuberculose um caldo para manter sua vida”

Guardei no bolso e ainda não tive a moral de voltar a ler.
E desculpem , tô sem cabeça pra achar um título melhor para esse post.

I’m not there

A única diferença entre eu e Peter Parker é que eu nunca vou me transformar num homem com poderes especiais capaz de escalar prédios, salvar velhinhas e matar psicopatas em armarduras metálicas de última geração. Eu diria, é essa a diferença primordial entre nós. Aquela que faz minha história não ser escrita num gibi, nem virar uma franquia de Hollywood.

Sabe aquelas introduções de filme em que o cara é sempre um derrotado voltando do trabalho, ouvindo broncas do mundo todo e indo dormir com todo esse peso constante? Minha vida é uma espécie disso aí, mas sem o tal do plot na sequência, em que eu sou mordido por uma aranha ou conheço uma seita com a Angelina Jolie me dizendo que eu tenho habilidades adormecidas e 750 mil dólares na conta (aliás, já assistiu esse?).

Está tudo aqui, meu passado nerd, minha solidão, meu retiro desproposital, a mocinha que tenho de salvar, os amigos dos quais tenho que esconder meu disfarce, a sociedade com a qual terei de lidar, até o garotinho boquiaberto para eu passar a mão na cabeça e milimetricamente desajeitar seu cabelo. Todo o enredo da obra sobreposto por uma rotina desgastante e cercada de gente que não me olha no olho. Tudo envolto num clima de depressão bonito, como se a morte estivesse chegado, mas você tivesse que esperar ela conversar com a diretora antes de te levar pra casa.

Apesar de todo esse dramalhão, tive um final de semana fodidamente lindo ao lado da D., sério, voltei ontem pra casa bem o suficiente pra chorar de alegria enquanto ouvia qualquer coisa no carro, com os vidros entreabertos por causa da chuva. E aí ter uma segunda feira terrível de cinza no trabalho parece mais que um sinal me dizendo qual é o meu lugar, é como um motivo, um empurrão, um pescotapa moral de alguém que zela por mim seja lá onde estiver.

Eu não preciso ser um super herói da Marvel, caso você tenha entendido tudo errado até agora, mas preciso saber até quando vai essa minha vibe de vestibulando o-que-você-quer-ser-quando-você-crescer-empresário-ou-astronauta? Por enquanto, estou aqui, ainda que sem estar.

Minha realização pessoal não passa por uma banheira

(tenho quase certeza que achei essa no Book Lover)

Sempre que me perguntam sobre meu futuro, eu imagino que estejam se referindo a que tipo de instituição eu quero trabalhar para sobreviver ou que tipo de negócio gostaria de ter impresso no meu CNPJ. Se vou virar taxista, abrir um bazar ou vender sorvete na praia.

Existe uma micro lenda urbana do lugar onde moro sobre um brechó. Uma pequena casa, cheia de roupas, sapatos e acessórios usados, bem pouco frequentada. Para ilustrar melhor, fica na mesma rua da tiazinha do sorvete, que é sempre vazia e dá a oportunidade de sentar na rua (Ah, 1997).

Mas a lenda por trás desse brechó consiste no fato de que o dono deixava as portas do estabelecimento abertas e descia até a padaria da avenida para tomar seu clássico rabo de galo (Cynar + Contini). A lenda acaba aqui, porque foi assim que meu amigo B. o conheceu, tomando rabo de galo na padaria, para então descobrir que o cara era dono do brechó que ficava abandonado pelo menos três vezes durante o decorrer do dia.

Uma das coisas que tenho comigo é que meu futuro passa por uma revista ou fanzine e por uma livraria. Tenho essa imagem pouco formada ainda e espero um dia ver a foto desse sonho completa, num quadro, em casa. Não vejo dinheiro, não vejo uma casa luxuosa, ou uma banheira. Minha realização pessoal não passa por uma banheira.

Pra dizer a verdade, comecei esse post bem errado. A frase correta seria: sempre que me perguntam sobre meu futuro, me vem à cabeça eu abrindo uma livraria às 9h30 da manhã, numa manhã tranquila de primavera, acenando para um tiozinho amigo entrando na padaria e, quem sabe, não deixando ela aberta e sem ninguém tomando conta enquanto tomo um café com ele (rabo de galo essa hora da manhã não, óbvio).

22 de outubro, o final de semana num dia só

Post do projeto 3meia5, que acabou. =( ok, com um dia de atraso porque, como você saberá lendo as próximas linhas, eu estava no litoral norte.

Meu sábado começou durante a madrugada, na rodovia dos Tamoios, sentido Caraguá, o nome mais hype de Caraguatatuba. Parei para comprar água num posto de gasolina que tinha um restaurante parecido com um daqueles do Man vs. Food, chapas lotadas, lanches gigantes, essas coisas. Eu morria de sono, tal qual minha namorada, sogra e a amiga dela, que me esperavam no carro. Então, nada comi.

Impressionante notar como a galera que pega essa estrada de madrugada sente que está dentro de um condomínio fechado, ultrapassa pelo acostamento ou numa curva sem visão, dá farol alto, buzina, xinga, como se fosse um clubinho, ou uma estrada de poucas curvas e não uma das serras mais perigosas do Estado.

Chegamos na casa emprestada, estacionei o carro, enquanto elas procuravam onde ligar a luz. Não descobrimos no mesmo dia, então fomos todos direto pra cama tão exaustos que não lembro de ouvir qualquer conversa antes de dormir. Eu não durmo bem em casas que não conheço, mas óbvio, essa teoria só funciona se estou descansado e sem sono.

No sábado, em si, acordei depois de cinco horas de sono, como se tivesse dormido doze horas completas. Fomos farofar na praia da Mococa, vazia. Ventania monstro, não deu pra entrar na água, voltamos pra casa um tanto frustrados. Ao voltar, minha caixa de Budweiser estava gelada, então deu pra salvar o que parecia sem solução.

Dormi de tarde, num quarto não principal, com uma lata pela metade, de pé, em cima da cama. Cena linda de se ver. Acordei de ressaca, sim, tudo no mesmo dia. O sábado valeu por um final de semana inteiro. Fiquei sem sono. E então cumpri a teoria da dificuldade para dormir assistindo Altas Horas enquanto todo mundo roncava.

Opa, mas aí já era domingo.

***

Robson Assis, o @bigblackbastard é jornalista, pelego redator da Nova Pontocom e nunca soube como cobrar freelance sem parecer uma prostituta ‘é 50 reais a hora, moço, press release sem frescura’. Escreve para o Staying Alive was no jive, pro Robazz e colabora às vezes no Per Raps e no Sindicato dos Escritores Baratos.

O Guina não tinha dó

Estava eu na tentativa árdua de terminar um dos livros prateleira de promoções que tenho em casa. Difícil, sobre o pós 11 de setembro, carregado pra ler no trem, mas bem, faltavam 20 páginas.

– Opa, tudo bom? Desculpa eu atrapalhar o começo da sua leitura aí
– Não, que isso, diz aí.
– [tímido, olhando pros lados, procurando palavras] Cara, não sei se, sei lá, você pode me achar um louco, cara, mas eu tenho uma coisa pra te falar.

EU.TENHO.UMA.COISA.PRA.TE.FALAR, sério, foi a primeira boa olhada que dei na direção do sujeito, porque se você quer me dizer algo, você não diz que tem que dizer, você só diz (fica difícil até de explicar, percebe?). E aí pensei que poderia estar sonhando, e o cara se transformaria num Balrog de asas que devoraria minha cabeça, ou diria que foi um grande fã da minha extinta banda, o que é sempre provável de alguém dizer (quando estou sonhando).

– Não sei se, sei lá, às vezes é possível, alguém já pode ter falado com você, cara, mas sei lá, preciso te falar, JESUS TE AMA.
– Da hora, cara.

Foi a única frase que consegui pronunciar durante a viagem. É, para adiantar, fomos juntos até a estação Vila Olimpia, onde desço diariamente. E não consegui terminar de ler o livro.

Aliás, ‘da hora, cara’ não foi a única frase que disse. Eu tenho uma teoria sobre manter conversas apenas fingindo que você está participando. Quando é uma pessoa normal, as frases variam entre ‘é foda’, ‘caraca, pois é’ e ‘putz, mas meu’. Quando a pessoa tem algum problema com palavrões (é o que se espera de um cristão embestado), as frases tendem a ser menos gritantes ficando entre ‘da hora, cara’, ‘nossa, que coisa, né’ e ‘pode crer, é verdade’. Você precisa variar essas frases sempre para não mostrar sinais de indiferença. Funciona em grande parte dos casos, usem.

– Você pode não acreditar, sei lá a sua história, mas Jesus tá te chamando de volta, cara, se Ele te mostrou pra mim e eu tô aqui falando com você, pode acreditar nisso.
– Pode crer, é verdade, cara.

A ‘conversa’ era ele falando sobre as graças de Jesus nos seus 18 anos de vida (vou deixar de fora desta análise a idade dele, sério). E já que estávamos ali e eu teria de manter uma conversa com o moleque, descobri que ele é estagiário de um banco legal, não imagina que vai crescer e tem umas ideias bem fracas sobre o mundo em que ele vive. Tirando a parte de trabalhar num banco legal, tudo isso poderia ter sido usado pra me definir aos 18 anos também, fato este que criou um vínculo entre nós. Quem sabe em nove anos ele não estaria ali pegando o metrô com a mesma birra social/misantropia que eu tenho hoje e teria de ouvir outro jovem falando na cabeça dele.

E tem isso de eu não conseguir deixar essa galera falando sozinha. Fiquei tentando descobrir onde foi que esse moleque ouviu que parar alguém na rua é saudável e vai trazer a pessoa de volta ao caminho de Jesus e como foi que entraram na mente dele. Sempre que desviávamos muito ele mudava de assunto dizendo pra aparecer na igreja se eu pudesse (o que foi devidamente descartado com uma historieta simples). Ele conseguiu um dos meus e-mails spam-friendly nesse convite.

Depois de descer na estação e considerar que o moleque estava de boa fé, era relativamente gente fina de se conversar, mesmo sendo o tipo de gente que volta qualquer conversa para Jesus (nunca Deus, reflita) eu lembrei o nome da igreja que ele tinha comentado e percebi que ela fica em frente ao meu condomínio e recebe semanalmente o testemunho do Guina (é, aquele Guina), recuperado das drogas, do crime e das mãos do diabo, segundo os cartazes.

A única coisa que tenho contra igrejas é o fato deles te prenderem numa bolha mais do que a sociedade pode fazer. Por exemplo, ler de manhã pra mim é tão importante quanto evangelizar é importante pra ele. Digo isso, porque se eu fosse lá na igreja dele tentar mostrar como O Guia do Mochileiro das Galáxias é legal de ler, ele não ia gostar.

Pareço um moleque de 18 anos escrevendo desse jeito.

Não tenho absolutamente nada contra igrejas, mas tenho algo contra a ideia de gente tentando colocar na minha cabeça o que é certo e o que é errado. Se possivelmente existe um Deus e Ele quis que um moleque de coração bom me notasse na rua e me dissesse umas palavras legais de manhã, legal, fico feliz, fico até mais esperançoso pelo futuro e tudo mais.

No fim das contas gostei do moleque, mesmo acreditando que ele é um Jimmy Bolha evangélico e tal. Não vou aparecer na igreja dele, não vou responder e-mails dele, embora talvez leia um ou outro ‘pps’, na amizade. Quem sabe ele não me convence e ‘aí o Guina dê mó ponto’.

O que move seu coração?

Descobri essa noite que minha relação com a felicidade se baseia em alguns fatores inconclusivos, talvez por isso tudo seja tão difícil. Entretanto, defini um deles como absolutamente imprescindível para manter meu bem estar mental nessa vida: que as pessoas ao meu redor saibam exatamente o que move o meu coração.

Precisava compartilhar isso aí, sério.

Provações

Daí me contratam pra escrever o press release da carreira solo de um artista novo aí, de família influente, the whole package. Digo ‘me contratam’ para ocultar o fato de que aceitei fazer o trampo em troca de horas de gravação no estúdio do empresário dele. E o artista quer que eu escreva o release sem ouvir suas músicas. Imploro uma. O autista anexa um MP3, uma música dessas de praia, que é reggae sem ser, é pop sem ser, fala de onda, vento, mar, praia, mas opa! Um momento, ele não quer que você mencione a palavra ‘praia’ em lugar nenhum do seu texto, se vira nos 3000 (caracteres) e esquece review do NME, sua almejada carreira musical não tá das melhores, amigo, supere.

E volto pro trabalho no pós feriado, passo a madrugada vendo Breaking Bad, perco a hora e chego tarde, desmaio no metrô, fico com síndrome de perseguição no trem me perguntando se minha cara estaria tão ruim assim. E estava. Chego no trabalho, termino de subir exatamente 20.609 (vinte mil seiscentos e nove, isso) arquivos no FTP, tentando entender de que forma isso vai me ajudar minha carreira um dia. E então chamam toda a fileira para responder uma pesquisa de satisfação sobre a empresa, coisa simples, 60 questões de múltipla escolha sobre as condições de trabalho, sobre o que está certo e o que está errado, até a derradeira pergunta de mil reais: “Você se sente realizado com o seu cargo?”

Quase levantei dizendo “gente, chama o big shot lá, precisamos ter uma longa conversa”.

Crowdfunding secreto da CPTM

É possível que algum leitor eventual deste blog se lembre ainda da Ponte Orca, um serviço de van em SP que levava o usuário do trem da estação Cidade Universitária até a estação Vila Madalena do metrô (e vice-versa), garantindo a integração gratuita que em seus tempos áureos até que funcionava bem.

Funcionava assim:

1. Você pegava um bilhete antes de sair da estação
2. Antes de entrar na van, o fiscal marcava seu bilhete com um furo
3. Quando chegava na outra estação, você apresentava o bilhete na catraca e liberava sua integração.

Aí entra a observação: Se você não fosse usar o seu bilhete – caso você fosse tomar um ônibus, ou fosse ali o seu destino final, por exemplo – aquele bilhetinho furado ficava sem utilidade nenhuma depois que você descia da van. Foi aí que alguns gênios do comunismo freestyle pensaram: por que não esperar quando a van chegar e pedir o bilhete de quem não for usar?

Então os bilhetes nunca paravam, gerando um fluxo infinito de gente viajando de graça. Eu inclusive pensei na época sobre a possibilidade desse grupo de pessoas criar uma comunidade que jamais pagasse pelo uso do transporte público, fazendo dessa quase maçonaria a maior plataforma de gambiarra colaborativa da história da humanidade.

Alguns anos depois criaram a linha amarela do metrô, inviabilizaram a Ponte Orca (hoje funciona só depois das 21h) e a pergunta que fica é: o que aconteceu com a vida dessas pessoas?

Essa noite, no Globo Repórter.

***

Sobre
Ponte Orca é ágil, mas microônibus atrasam

Neosorolândia

Gripe é tudo isso que faz a gente pensar que viver debaixo de um cobertor é sempre uma opção possível. Posso listar aqui as medidas que tomei a partir do momento em que me peguei tomando chuva e vento forte no último sábado: (a) me mantive na chuva e no vento forte do sábado com uma blusa leve (b) não tomei remédios durante a semana (c) fumei e bebi como um condenado à cadeira elétrica resisti na minha fidelidade ao suco de laranja.

Luciana, minha amiga que escreve umas paradas sobre noivas nesse site (publicidade do bem), me contou que era viciada nessas soluções nasais que abrem nosso nariz para respirar melhor sem ter que dormir sentado, essas coisas.

Virou assunto da roda no mesmo momento. Não imaginei que nada disso pudesse viciar alguém. A imagem automática na minha cabeça era uma praça da Sé tomada de desabrigados lutando pela última gota de Rinosoro, enquanto um pós adolescente passa na Mercedes do seu pai usando uma versão spray sorrindo e buzinando para uma menor de idade amendrontada na porta da farmácia (eu sei, vou longe nisso).

Nenhum desses remédios tinha funcionado bem comigo, até eu descobrir o Neosoro, o néctar definitivo do nariz desentupido. Passei dois dias inteiros ao lado de um e comecei a ter uns ataques neuróticos quando, numa consulta no meio da tarde, percebi que havia esquecido ele no escritório.

Portanto, guardem meu edredon, meu maço de Eight e meu carrinho de supermercado, porque a cracolândia dos narizes entupidos ganhou mais um adepto.

Redson, um aperto de mão

Redson, Cólera (1962 - 2011)

Eu estava encostado numa porta que dava acesso ao “palco” de shows, no Black Jack, um extinto bar da zona sul de São Paulo. Eu tinha uma banda de hardcore, mas não podia me considerar um fanático pela cena independente, pelo faça você mesmo. A gente ensaiava, conhecia pessoas e bebia, basicamente nessa ordem.

A banda da noite era o Cólera, que quando comecei a ouvir esse tipo de música, meu irmão tentava me convencer que era boa, mesmo usando apenas a distorção footswitch do amplificador para todas as músicas (é, esqueci de dizer, eu era um idiota nessa época). Eu conhecia, tinha ouvido umas fitas gravadas, sabia da mitologia punk envolvida no processo, fui no show de 20 anos no Hangar, tinha ainda o Redson, uma lenda q…

– E aí, cara, tudo bom? – Aperto de mão
– Beleza, mano, e aí?
– Po, lotadão hoje, vai ficar louco isso aqui.
– Ah, vai sim.
– Deixa eu arrumar as paradas ali, até mais, cara.

Foi um aperto de mão do Redson, esse frontman do Cólera, que não me conhecia. É, o vocalista da banda que encerraria a noite. Um cara que eu vi algumas vezes em cima do palco e que, por uma iluminação qualquer do destino, decidiu me cumprimentar e trocar umas palavras. Até hoje eu sinto esse momento como um dos mais importantes que já tive na vida. Não pela tietagem pura, mas pelo que viria seguir.

Claro, por um lado foi só um aperto de mão. Entretanto, pelo lado que até hoje me faz lembrar desse dia, foi algo que, caso não tivesse acontecido eu não teria prestado tanta atenção em como aquele cara era sério com a sua banda, como dizia umas paradas interessantes. Jamais teria coragem de levar minha banda à frente, de ter organizado shows e saído com uma mochila cheia de cola artesanal para apregoar cartazes no centro da cidade. Jamais teria dado o valor exato à música e a capacidade que ela tem de mudar a sua cabeça, de fazer você raciocinar. Nunca teria feito tantos amigos diferentes, nem teria feito parte da multidão que lotava festivais, que comprava discos e distribuia flyers. Talvez nunca tivesse colado um patch na jaqueta, nem sequer decorado o nome de bandas finlandesas. Dedico tudo isso que vivi na cena punk independente (e que talvez ainda possa viver) a esse dia no Black Jack, a esse pequeno enlace de acontecimentos casuais com alguém que foi e sempre será um ponto de referência para o cenário punk no Brasil.

Mas, principalmente, caso nada disso tivesse acontecido, eu nunca teria parado aqui para reverenciar e demonstrar meu eterno respeito e admiração pelo cara que conseguiu me impulsionar tanta experiência de vida com um simples aperto de mão.

***

Sobre
Morre Redson Pozzi, líder da banda Cólera

Bonner e Gentili, uma bonita amizade

Eu assistia o Jornal Nacional, quando, no último bloco, William Bonner começa a divagar sobre seu mais novo amigo, o Danilo Gentili, que lhe fez uma homenagem. Bonner discutia a real importância de usar roupas sociais e sobre o caráter formal do jornalismo, uma vez que Danilo era um verdadeiro mestre em unir o humor ao noticiário de maneira brilhante, brilhante!

– Denise, você percebeu que ele tá com uma camisa de seda verde limão?
– hauhauhauhhahah, ninguém merece.

Bonner, que agora manifestava-se na TV como um amigo próximo, um quase irmão de seu telespectador, abaixa a câmera para mostrar que está descalço e com um shorts de futebol. Rindo alto, manda um abraço para seu amigão Danilo, coloca os pés nus na bancada do JN e cruza os braços, como se o seu trabalho estivesse cumprido.

***
Esse aí não dá nem pra procurar no dicionário de sonhos.

Vamos falar de coisa boa

As pessoas que já trabalharam ou conviveram um tempo comigo sabem que costumo tomar mais água do que qualquer pessoa normal. Não que eu tome três ou quatro copos durante o dia. Talvez se você chutasse três ou quatro litros poderia chegar mais perto.

E, para tanto, eu tinha em casa uma jarra azul, sim amigos, o mais cobiçado e desnecessário artefato no merchandising do Mulheres da TV Gazeta, devidamente adquirido pela minha mãe nos idos de 2003. Uma garrafa cujo propósito era oferecer água magnetizada para a cura de diversos males e que, oito anos depois, claramente já havia perdido todos os seus super poderes.

Mas não é só isso.

A garrafa de três litros (!) havia se tornado uma companheira inseparável a qualquer lugar que eu fosse, como uma grande e gorda long neck itinerante. Algumas pessoas gostam de dormir ao lado de panos mal cheirosos, outras de seus aplicativos de iPhone, há ainda quem curta cabeças de reis destronados, outras dão exemplos demais e perdem o ponto. A jarra azul era meu tótem. Se ela estivesse ao lado da cama quando eu acordasse, ficaria tudo bem.

Essa semana, a garrafa se mandou, após um conselho deliberativo entre Denise e minha mãe, corroborando para a extinção do meu tótem. Admito, ele podia ser um tanto sujo, acumular restos de comida nas beiradas e feder um pouco depois de algumas semanas sem ser uma lavagem brutal com água sanitária. Ainda assim, vou sentir sua falta, até que alguma marca de água resolva lançar uma garrafa descartável assaz simpática e com uma boa alça para gente bruta como eu.

Pensando seriamente em comprar uma nova com o Alexandre Pimentel,
quase um homem Teleshop. Mas copo é para os fracos.

O Aprendiz: Bicos

Me alistei num desses trabalhos de fim de semana. Desses que a gente tem vergonha de dizer por fazer parte de uma classe média que não consegue admitir que um marceneiro ganhe mais dinheiro que um analista de mídias sociais (nota mental: escrever sobre isso qualquer dia). Não, não é marcenaria. Agora, em alguns finais de semana, sou digitador de contratos nesses stands de venda de condomínios.

Não é um trabalho de todo mal, eles entendem que estão te roubando seus dias de descanso e até pagam relativamente bem. Não foi tempo perdido, somos tão jovens. Pra resumir a função: um casal feliz passa em frente ao stand de vendas e decide comprar um apartamento. Levam os documentos, preenchem formulários e aguardam enquanto eu encaixo todas as informações num modelo de contrato em duas vias com uma formatação horrível, cheio de redundâncias e subtítulos.

Posso dizer que dei um valor muito maior ao meu emprego atual depois do meu segundo dia de trabalho nesse famigerado bico. É necessário pra comprar uns presentes e pagar as contas. Quando eu tinha uns 19 anos descobri do pior jeito que vender não era meu forte e agora descobri que não tenho muito apreço por gente que vende, gente que precisa vender pra garantir comissão. Portanto se minha vida dependesse disso, eu pensaria duas vezes antes de aceitar. Nesse nível.

Eles têm coragem de me chamar de freelancer. O que não deixa de ser verdade e confere até um certo profissionalismo. MINTO. Confere o único profissionalismo do lugar. É uma espécie de remake de Loucademia de Polícia, mas neste caso o Eddie Murphy é uma gordinha simpática com síndrome de gatinha cantando Pôneis Malditos de.hora.em.hora. Aquela velha sensação de que todos os softwares são ilegais, a rede sem fio é roubada do vizinho e o dinheiro que te pagam é proveniente de uma vaquinha dos funcionários. Eu devia ter desconfiado quando eles exigiram que eu tivesse um veículo próprio, mas mudaram de assunto quando perguntei se eles pagavam combustível (o que, convenhamos, devia ser uma pergunta desnecessária).

Estou naquele impasse de deixar pra lá, afinal, todo mundo entende que você está sem grana pra comprar aquele presente de aniversário; ou então continuar, afinal, acontece apenas uma ou duas vezes por mês, a grana vale a pena e, com a trilha sonora certa, a ida e a volta podem ajudar muito. Vamos ver como me comporto quando vier uma nova escala, porque uma gordinha saliente (diria minha mãe) cantando uma música chata não é exatamente o tipo de coisa que me incentivaria a continuar com isso.

Se pá

Se pá eu não consiga encontrar um bom texto que comece com ‘se pá’. Se pá, nada do que eu realmente quis pra minha vida aconteceu, mas se pá o que veio em consequência disso tenha dado uma volta em torno do eixo e se mostrado tão bom ou até melhor. Se pá eu só não consiga enxergar isso de um jeito que me faça completo. Se pá cheguei naquele ponto crucial em que cada escolha que eu fizer vai parecer absolutamente desacertada. Se pá, acabei de descobrir que esse termo é flexível com os verbos. Se pá me sentir parte de uma multidão caminhando na baldeação da estação Santo Amaro um dia possa fazer um sentido maior pra mim. Se pá a gente nunca encontre sentido em nada e esse puzzle que a gente chama de vida seja baseado em ficar buscando sentido em tudo. Se pá eu só esteja escrevendo esse texto com base em uma gíria porque precisava de um gancho mais perto da vida real e mais distante daquele mundo de frases de efeito publicitário que ninguém lê com muita atenção. E se pá eu acredite que um texto de um parágrafo só seja o maior perjúrio que um redator pleno possa conceder à sua classe. Se pá eu posso não me importar muito com isso, se pá.

Um arquivo .exe do bem

Se eu tivesse um site de compras coletivas, ou qualquer um desses que tenha clientes, faria uma promoção em que a cada 10 mil acessos, para o exato 10.000º apareceria um banner gigante escrito PARABÉNS, VOCÊ É NOSSO 10.000º CLIENTE E ACABA DE GANHAR UM IPAD, CLIQUE AQUI”.

E então o malandro ia clicar e abrir automaticamente um arquivo ‘.exe’, mas não se engane. Esse arquivo iria instalar apenas um programa simples de cadastro no computador do cliente, sem malwares ou barras de navegação pro IE. Assim que ele completasse o cadastro (considerando que ele conseguisse resistir a todo esse terror psicológico até aqui), receberia uma mensagem em seu e-mail pessoal confirmando a entrega do prêmio em três dias úteis.

Internet é para os desbravadores.

Como encontrar/baixar músicas na internet

Sério, gente, meu irmão é um desses caras que sabe como usar um Facebook e conhece outras duas ou três redes sociais, mas ainda me pergunta “EM QUE BLOGS VOCÊ BAIXA CDS, ROBSON?”. Pois então, para ele (e para outro bando de gente que chegar por aqui procurando tutoriais de como encontrar música na internet) segue este modesto porém audaz “tutorial” que vai me fazer ficar rico e famoso com tantas pageviews, observe:

É preciso descobrir que não adianta você conhecer o blog que mais tenha discos postados ou o feed com mais blogs e discos. É preciso saber que os links dos servidores de download sempre acabam perdendo a validade, hora ou outra. Tudo o que você precisa é acessar a página inicial do Google e usar o campo de busca com parcimônia e destreza, seguindo esses três passos:



(1) nas primeiras aspas você deve escrever o nome do artista, da banda, do grupo, do rapper, do instrumentista, do dono do disco. Pode tirar as aspas caso o artista tenha um nome simples, como WILCO, PARAMORE ou RASHID. Para nomes compostos SEMPRE use as aspas. SEMPRE.

(2) Aqui você escreve o nome do disco. Sem segredos. Se tiver apóstrofos, tire. Troque sempre “&” (o tal do ‘e’ comercial) por ‘and’ se estiver em inglês.

(3) no último, você escreve o nome do seu servidor de downloads preferido, como o rapidshare, mediafire, 4shared, easyshare. Esses sites onde os homens de bem internet afora postam discos ripados em 320kbps cultivando assim o amor ao próximo.

Clique em buscar e roube seu artista preferido.

***

mais um tutorial desnecessário para a coleção de sem vergonhices de SEO deste blog. Forte abraço a todos os envolvidos.

Quem é que joga fumaça pro alto?

Existe esse grupo de maconheiros no Facebook. Sério, gente que posta fotos fumando ou compartilha notícias sobre o assunto. OK, essa última parte quase inexiste no grupo, embora seja algo bem idealizado pelo dono da comunidade (não vou dizer o nome), com duas dúzias de regras pra ninguém sair por aí entregando traficantes e lojinhas, até uma lista de leis que protegem o usuário. Bonito, é como o grupo de Entusiastas de Mídias Sociais, mas o Twitter deles é uma ~boca de fumo~.

E a Kakau, essa minha amiga que não conheço pessoalmente (a maior amiga virtual, nos conhecemeos no chat do UOL por volta de 2002, isso é sério) resolveu me adicionar ao grupo. Eu não teria problemas em dizer que fumo maconha, isso, óbvio, caso eu fumasse. Ela não deve ter pensando muito quando me adicionou.

O ponto é que vou descobrindo meus amigos espalhados pelo grupo. Deve existir algum botão ‘ver seus amigos neste grupo’, mas isso é irrelevante e extingue toda a graça de descobrir seus amigos maconheiros ao sabor dos ventos. Sempre que um amigo seu posta no grupo, você recebe um alerta do Facebook, um sinal ‘1’ na frente do nome do grupo e um email que diz: ‘seu amigo que paga de moral e bons costumes acaba de postar uma foto com um baseado do tamanho da Jamaica no grupo. Clique para visualizar’.

Estamos de olho.

Polêmico/Constrangedor


Queria que todos os meus amigos vissem isso e pudessem desconsiderar automaticamente qualquer coisa que eu disser depois de ter começado a diversificar as bebidas. Se eu estiver confortável e absolutamente disposto, vou lançar um tema polêmico/desnecessário e antes que você perceba vamos estar todos em um silêncio constrangedor que não há como voltar atrás.

Talvez eu diga que não estou feliz e que gostaria de marcar um churrasco no outro dia para compartilhar melhor todos esses problemas. No dia seguinte vou lembrar de ter levantado todas essas bolas sem resposta/motivo, mas nunca de ter cogitado um churrasco. É tão sem sentido como ligar uma daquelas máquinas que atiram bolas de tênis apenas por um prazer inconsciente de espalhar as bolas pela quadra.

Ontem, em particular, meu estado dizia mais sobre essas coisas que a gente passa a vida toda achando errado e não há nada que nos faça mudar de idéia, mesmo tendo de conviver ao lado disso tudo. É, no fundo talvez não dê pra entender. É preciso dizer a si mesmo que vai ficar tudo bem, uma hora ou outra, mesmo que seja pra nos enganar. Ninguém sabe o que veio fazer neste mundo, então nada pode dar errado. É bom jogar com umas teorias desse estilo também, só pra não perder o foco, ou a fé, dependendo da sua orientação.

Outro dia, comentei no blog da Karina que, às vezes, tenho essa visão otimista da vida em que tudo sempre dá certo. E que até as coisas mais complicadas se rearranjam, mesmo com nossos erros e nossas más escolhas. Pode demorar mais pra recalcular o trajeto, dependendo da porcaria em que você se enfiou, mas uma hora tudo vai começar a mostrar motivos para ter acontecido.

Enquanto isso vou colocando lenha molhada na fogueira, só por esporte.

Todo o esplendor dos formandos de 2001

Nunca fui bom em dar desculpas. Por isso eu gostaria de começar dizendo algo sobre esse mês em que passei sem postar. Não vou, uma vez que na verdade, pouco interessa e todos vocês devem imaginar (porque se eu colocar outra frase ‘ando trabalhando demais’ por aqui não sei onde isso vai parar). Sempre fui bom em incentivar pequenas discórdias, mas só porque a humanidade merece.

Daí criaram um grupo de formandos 2001, na escola em que estudei. Gente postando fotos bonitinhas, lembrando nossos passados incríveis como garotos prodígio do único colégio dirigido por freiras ou coisa que o valha do Capão Redondo. Fotos de um monte de gente rindo na sala, nas olimpíadas escolares, excursões para Aparecida do Norte (sério), ou na primeira comunhão. Todo mundo sorridente, com dentes de leite recém caídos, essa coisa bonita de se lembrar e… OH WAIT.

E aí comecei a perceber que os célebres amigos estavam querendo me dizer que tenho que lembrar com alguma nostalgia boa aquela época que passei ganhando apelidos e sendo excluídos de festinhas na piscina, sendo alvo de profundos debates sobre que estilo de boné eu deveria usar ou não. Me juntei aos rebeldes e comecei uma inssureição que até agora não enxerga limites. Aquele tipo de gente da escola com a qual você tinha que passar por uns testes morais antes de poder sentar com eles pra falar de outras pessoas no intervalo (aqui eu finjo pra vocês que não uso mais a palavra recreio).

Não são más pessoas, pelo contrário só não são as minhas pessoas. Sem enganação, ainda tenho amigos que vejo desde aquele tempo e considero meus melhores amigos, porque, como eu disse citando Mamelo Sound System lá no grupo, ‘quem é de verdade sabe quem é de mentira’. Eu entendo a boa intenção. Só não tente reunir o que sempre foi… o que sempre… bem, eu queria uma boa analogia, mas ‘água e óleo’ já tá bem batida.

Estou voltando, relevem a falta de inspiração.

A namorada do meu irmão

De noite meu irmão apareceu em casa com a namorada. E eu refleti sobre como as coisas vão comigo. Só por exercício de reflexão mesmo. Eu e a Denise sabemos o quanto as coisas materiais caminham difíceis, não o sentimento. Nunca o sentimento. é como se tivéssemos um seguro sobre nosso relacionamento. Tudo pode ruir sobre nossas cabeças, o sentimento permanecerá intocado e rendendo.

E de manhã a namorada do meu irmão foi embora. Ele acordou e conversamos amenidades até um amigo comum aparecer em casa pra que ele pudesse decidir que era hora de comentar o assunto. E conversamos outras coisas, músicas, coisa de irmão. Ele pediu pra deixar uma música rolando. Eu passei pelas pastas e não encontrei nada que nos aproximasse. Achei nas minhas músicas uma banda chamada Jets to Brazil, mas não escolhi, ele não devia gostar.

De noite, nosso amigo comum ainda estava em casa compartilhando bebidas, conversas e séries. Ele reapareceu com a namorada. Uma boa garota. Ela perguntou se eu tinha alguma coisa do Pearl Jam. É realmente uma pena que as bandas de sucesso da minha época nunca tenham sido sucesso pra mim.

Fui levar nosso amigo comum para casa. Meu irmão e a namorada foram deitar. Quando cheguei, vi que eles deixaram meu laptop ligado, com o disco mais bonito do Jets to Brazil rolando. E eu estou sozinho, refletindo que talvez eu e meu irmão tenhamos mais coisas em comum do que consigo imaginar.


Jets to Brazil, Further North

Day 30 – your favorite song at this time last year

Último post do 30 days challenge (todos no mesmo dia, é, me julga aí). Sério, achei que não acabaria mais. Foi bom e cansativo e recompensador listar a trilha sonora da sua vida, lembrar de gente escondida no subconsciente, essas coisas. Uma indicação relacionada ao meme veio esses dias pelo amigo Eduardo Ribas (a gente chega a criar universos paralelos conversando no gtalk): um vídeo do TED cujo tema é ‘tente algo novo por 30 dias’. Por favor, assistam, sério. É uma parada dessas simples que fazem você repensar tudo, sabe? Menos de quatro minutos da mais pura elucidação prática da vida.

 Em seguida voltamos à programação habitual.

E salve o last.fm por me ajudar a encontrar o que mais ouvia nessa época no ano passado. Fechando o meme com classe, John Ray Cash e Robert Allen Zimmerman:


Bob Dylan e Johnny Cash, ‘Girl from North Country’

Day 29 – a song from your childhood

Não dá pra lembrar de muita coisa, a não ser de uma fita. Meus pais costumavam gravar mixtapes com tudo que os anos 80 tinham direito, aquele saxofonista das trilhas de novela, Rita lee, Legião Urbana, Originais do Samba. E eu gostava da música do Toquinho (e acabei de constatar que até hoje é tudo o que conheço dele).

A música do Toquinho ficava entre todas as outras. Digamos que tinha umas 25, 30 fitas gravadas em casa. Todas elas devidamente sem indicação do que diabos havia ali. A não ser aquela com o hino nacional que minha mãe ganhava na escola e uma outra sobre o Bumba meu boi. O que vem ao caso aqui é que ouvindo as fitas, eu acabava achando essa música. Era meio que um sinal em que, se eu achasse, o dia seria bom. E ouvia, rebobinava e ouvia três vezes. E então deixava rolar até ouvir a próxima fita. E a fita voltava a se perder entre as outras…


Toquinho, ‘Aquarela’

Day 28 – a song that makes you feel guilty

Essa música é de uma época em que eu mantinha uma postura ‘OK, fine’ pra tudo. Uma fase quando você não está crescendo, nem é tão adolescente assim e que você parece estar sendo puxado de um lado para o outro, num cabo de guerra que define quem você vai ser nos próximos dez anos. Acho que me saí relativamente bem dessa, afinal não me tornei um drogado foda, ou um hippie com três filhos morando na marginal Pinheiros. No fundo até que faz algum sentido.


Kaleidoscópio, ‘Tem que valer’

Day 27 – a song that you wish you could play

Queria poder me gabar menos, mas desde que tenha acordes, ou em casos extremos, uma bela cifra, eu consigo aprender qualquer música. Então não existe isso de música que eu gostaria de saber tocar. Existem umas crises pontuais como aprender a tocar e cantar junto ‘All my life’ do Foo Fighters, ou ‘Come as you are’, do Nirvana, ou Villa Lobos, ou essa parada inacreditável do Black Label Society. Acho que nunca me esforcei muito pra tocar Cartola. Talvez seja apenas sagrado demais aprender ‘Corra e olhe o céu’, por exemplo.


Cartola, ‘Corra e olhe o céu’

Day 26 – a song that you can play on an instrument

Aqui vai uma aula de rap acústico (aonde vamos chegar com essa autoestima, Brasil). Pegue seu violão. Coloque o capotraste (ou pestaneira, aquela pestana artificial, que a gente coloca pra facilitar) na primeira casa. E então toque Em, D9, C#m7/5-, C (recortei os desenhos dos acordes no Cifraclub antes de procurar se já haviam postado a cifra). É ela que eu venho tocando ultimamente quando pego o violão, mesmo que ninguém peça, é bom pra terminar o dia, depois de chegar em casa:


Criolo, ‘Não existe amor em SP’

Day 25 – a song that makes you laugh

Gente, sério, não existe isso. Pensei e repensei e pensei de novo. Não existe uma música que me faça rir. Então vou colocar uma do disco do Projota cujo início me fez rir da primeira vez que ouvi. Porque, como diz uma antiga professora de história ‘da primeira vez passa, da segunda embaça e da terceira perde a graça’, mas é uma boa música, tal qual o disco todo.

 
Projota, ‘A cama’

Day 24 – a song that you want to play at your funeral

Eu certamente escolheria Time has told me, ou então aquela do Music for imaginary movies, do Berry Weight (não confunda com Barry White) que sempre me dá um bom tapa na cara voltando do trabalho. Mas, digamos que eu estarei morto e não poderei escolher. O Wolvs disse que tocaria Iris só com o violão e faria todo mundo chorar (segundo meus amigos é a música que eu melhor sei tocar no violão), portanto, acho que é ela, embora eu não acredite que o Wolvs queira/consiga tocar uma música inteira. E embora eu não acredite em trilhas sonoras de velório, a propósito.


Goo Goo Dolls, Iris

Day 23 – a song that you want to play at your wedding

Fui num casamento certa vez em que cada casal de padrinhos tinha sua própria música de entrada, o que é muito legal pra eles e extremamente boring para os convidados. Claro que a Denise não deixaria eu entrar com a Cavalgada das Valquírias ou Jungle Boogie, então eu teria que encontrar um banda que tocasse alguma coisa do Philip Glass, o cara que fez a trilha de ‘As Horas’.


Philip Glass, Choosing Life

Um amor pra recordar

Sabe quando alguém deixa de viver e você, mesmo sem conhecer direito a pessoa, fica abalado a ponto de querer dizer um milhão de coisas que talvez não venham à cabeça por conta de sua infantilidade premente? Ou talvez porque não devam ser ditas, ou não seja o momento. Bem, esse é o dia. A gente trabalha demais, se afasta demais, planeja demais, quando na verdade tudo que importa é aquele milésimo de segundo antes do sorriso brotar, que enruga os músculos da boca e faz a gente esquecer todo o sofrimento, toda a dor. Nos segundos ou minutos seguintes, nada pode dar errado.

Acho que essa menina que se foi não deve ter conseguido mensurar tudo o que pôde atingir apenas lutando contra uma doença miserável e não merecida. No fundo, tudo o que eu queria ter dito a ele que ficou aqui pra viver, é que o tempo, além de rei, é o grande methiolate da alma.

Wrong Way

Eu sempre procuro aquela curva errada que fiz na estrada. Aquele ponto em que eu virei e as coisas começaram a descarrilhar junto do meu raciocínio. A fração de segundo em que eu escolhi essa realidade e não uma outra em que estou voltando pra minha casa com um sorriso no rosto e esperança renovada para o dia seguinte, aquela luz, aquela respiração mais leve.

Aconteceu um acidente próximo ao escritório da Aldeia da Serra e eu passava uma semana lá ajudando um pessoal a entender um processo novo do trabalho, pra resumir. E então subi a serra pra almoçar. No meio do caminho havia um acidente meio frio, pra rimar com a sexta-feira de nove graus. Quando voltei, haviam bloqueado a pista e tive que fazer um caminho tortuoso, de terra, até chegar à rodovia. Descer uma serra pela montanha, sem asfalto, nem sinalização. Lindo de se ver.

E eu desci atrás de um carro que, aparentemente, sabia o caminho. não, eu não conhecia o ser humano que dirigia o carro, apenas seguia. E quando ele desviou da estrada principal, algo me disse para continuar por onde os carros vinham, de onde era o lugar que eu deveria ir, mas eu entrei e continuei seguindo o outro carro, meio devagar, pensando direito se era mesmo por ali.

Nos próximos 200 metros que segui em frente, imaginei que ele houvesse sumido e acelerado demais, corri, não alcancei nada. Nos 300 metros seguintes, fui olhando pelo retrovisor pra ver se alguém aparecia, nos últimos 100 metros eu procurava um lugar que me deixasse fazer o retorno.

Quando voltei, percebi que o carro que eu estava seguindo havia parado numa oficina, ali, pouco depois de eu tê-lo perdido de vista. Voltei pra estrada de terra principal, passei por um cachorro e tenho certeza de tê-lo visto balançar a cabeça com desdém.

Se eu pudesse descrever essa fase da minha vida, eu diria que estou naqueles 600 metros que me separavam do caminho certo, das atitudes que deveria tomar e do raciocínio mais certo pra mim. Estou perdido e ainda assim imagino que existe alguém lá na frente que poderia me ajudar, então preciso correr pra alcançar, mas talvez, como nessa história, nada disso resolva.

A vida não dá certezas e isso dificulta tudo. Não é como se houvesse alguém dizendo o tempo todo quando você erra ou quando você acerta. No Top Gear, um antigo jogo de corrida, quando você rodopiava pela tela e seguia pelo caminho contrário, aparecia algo como ‘WRONG WAY’, piscando sem parar na tela. E quando você acertava o carro na direção que ele devia seguir, o jogo apenas continuava. Meu palpite é o de que a gente passa a vida toda esperando a mensagem de ‘WRONG WAY’ do Top Gear.


Warren Haynes, Indian Sunset (Elton John)

No more Hawaii Five-0

O amigo André Maleronka me parece um grande fã de The Wire. Eu, com a primeira temporada quase enferrujando em casa, estava sem vontade de assistir e quase deletava antes de levantar a bola uma Twitter se alguém havia visto, perguntando, basicamente, se a tal série não se passava de outro CSI, porque essa bolha de séries policiais parece não enxergar limites.

Então ele me disse pra ver que era sensacional, mas só me convenceu mesmo depois de mandar essa entrevista da revista Vice com David Simon, o criador da série.

E abaixo, a parte mais sensacional, embora desse pra quotar a entrevista toda:

Me parece que as pessoas querem ser especiais, únicas, e o lance shakespeariano discursa isso.
Isso! Vamos celebrar a mim e a maravilha que sou. Não é sobre a sociedade. Os gregos, especialmente os atenienses, eram consumidos por questões sobre o homem e o estado. Eles deram cicuta para Sócrates porque as sua ideias eram antiéticas em relação às noções deles de estado. Olha, isso, de qualquer maneira, é totalitarismo mas para ele, ele era cínico em relação à democracia e um iconoclasta em relação aos princípios democráticos. Isso atingiu o âmago do pensamento grego. Foi algo do tipo, “Não mexa com isso”. Agora, o que foi exaltado e o que consome o entretenimento norte-americano é o indivíduo sendo maior do que a instituição. Quantas vezes iremos assistir a uma história onde alguém…

Se rebela contrariando as expectativas?
“Você não pode fazer aquilo.” “Sim, eu posso.” “Não, você não pode.” “Eu vou te mostrar.” E no final ele é reconhecido só como um rebelde de bom coração com a justiça ao seu lado, e eventualmente a cidade percebe que dançar não é tão ruim. Eu posso inventar milhões deles. Essa é a história que queremos que seja contada sem parar, e sabe por quê? Porque em nossos corações o que nós sabemos sobre o século XXI é que a cada dia vamos valer cada vez menos, não mais e mais.

Valer menos enquanto povo, você quer dizer?
Enquanto seres humanos. Alguns de nós vai ganhar mais dinheiro e valerá mais. Existem pessoas destinadas à celebridade, riqueza ou poder, mas o norte-americano comum, a pessoa comum no mundo, no planeta Terra, vale cada vez menos. Esse é o triunfo do capital, e aí que está o problema. Você olha para isso e pensa a que ponto chegamos, e é para lá que estamos indo, e é tipo, “Pode me contar outra história de ninar sobre como as pessoas são especiais e como cada um de nós é importante? Você pode me contar uma merda dessas?”

Day 22 – a song that you listen to when you’re sad

É, eu tinha esquecido o meme, depois de tantas reviravoltas por aqui. A sequência é essa, a música triste. Eu jurei que não ia repetir, mas fiquei com a preguiça extrema de ver todos os dias. Então é isso, “que diferença o dia é igual pra mim”, esse 4 do Los Hermanos poderia se perder no espaço e ser o maior compêndio de sentimentos humanos que já exisitu.


Os Pássaros, Los Hermanos

Day 21 – a song that you listen to when you’re happy

Eu lembro do clipe, sempre, e de umas tardes na rua, todo mundo de skate errando os flips, aquela inocência, o Caio tentando fingir que acertava a bateria da introdução, minha primeira banda, tanta coisa. Mas não é tudo sobre nossas memórias. Sempre que estou feliz eu quero ouvir o Blink pra lembrar que a vida é engraçada, dramática e nostálgica, nas suas devidas proporções.


Blink 182, First Date

Análise de mídias sociais, 2007

Lembro que, numa entrevista desencanada numa dessas empresas que você vai conhecer imaginando o que passa na cabeça das pessoas quando te vêem entrar de calça larga e camisa básica, eu entrava numa sala pequena, parecida com aquelas redações antigas de filmes, cheias de calhamaços de papel, mesas decoradas com fotos de crianças e provavelmente alguma pistola ilegal escondida numa gaveta trancada entre antidepressivos e cartas do Serasa amassadas.

O lugar era legal, mas eu pensava ‘conhvenhamos, amigo, olha pro cara que veio de terno riscado e pasta na mão duelar uma vaga com você nessa assessoria, não viaja’, outro daqueles pensamentos desnecessários em que a gente se põe pra baixo e exalta qualquer fulano sem atentar pra besteira em vários níveis que é ir de terno numa entrevista (Alô, amigo Xuxa, se um dia ler isso, essa é pra você!).

E aí que a moça com marcas de expressão que só 20 anos de carreira em relações públicas podem oferecer decidiu nos colocar lado a lado e discursava algo sobre sermos recentes formandos de universidades pagas quando começou a perguntar onde tínhamos estudado, o que estávamos lendo (na época eu sempre respondia ‘O gato preto e outras histórias’, com um desinteresse padrão para entrevistas, sim, podem me julgar). A pergunta principal era sobre quais sites a gente passava mais tempo na internet. Imaginei que fosse uma dessas pegadinhas. Uma dessas que você não precisa responder. Coisa invasiva. Tive de responder Twitter, Orkut e uns blogs e pensei ‘ohh, come on, GTFO!’ tentando acreditar que o carinha do terno realmente acessava o eBay com frequência.

Em seguida, uma prova. Cinco questões sobre assessoria de imprensa, cinco sobre CONHECIMENTOS EM INTERNET (Ahh, 2007, essa semana de 22 das mídias sociais). Daí que, respondi três perguntas de assessoria do mesmo jeito que enrolei a professora de psicologia por um ano inteiro. Você escreve o suficiente pra ela achar que você sabe o resto da resposta sem precisar ler, taí, revelado o segredo. E só fiz o que realmente sabia, a parte sobre internet respondendo perguntas genéricas sobre o futuro das redes sociais. ¬¬

Terminamos juntos, praticamente, eu e o Mr. Pink, o Godfella barato. Ela pediu que eu descesse para o hall que depois me chamaria. De volta à confortável poltrona, já ciente que não teria chances, só percebi que havia algo errado quando pensei em pegar a IstoÉ Dinheiro pra dar uma folheada. Não, eu não devia estar ali, nunca gostei do trabalho de assessoria de imprensa, embora saiba respeitar quem tem culhão suficiente pra puxar o saco de clientes 24/7. E então levantei, dei três passos, saí do tapete, quando ela desceu se despedindo do cara do terno.

E eu, com aquela feição de ‘OK, vamos terminar logo com isso’ não mudei de expressão quando ela pediu pra conversar no sofá da recepção (a rima aqui não foi intencional). Por onde iríamos começar? Talvez dizendo que eu não era o perfil da empresa? Quem sabe mostrando os pontos positivos do cara do terno e as respostas erradas que dei na prova. Tudo desnecessário, ok, vou prestar atenção em você:

– hm.. vamos lá, você nunca trabalhou com assessoria mesmo, né? – Pois é, não… – tentei emendar mas… – Sua prova, é, eu percebi.
– É, eu nunca me interessei muito, acho que por causa de ter que tratar com clientes e eu prefiro… – ao que ela me interrompe (essa Norma é a versão real da personagem da novela, sério)
– Mas sua prova de internet, cara! – ela batia na folha com a intensidade que um nóia bateria um saquinho cheio de cápsulas de cocaína
– er.. sério?
– Sim, não precisávamos de um guru de assessoria, mas sim de um cara que entenda esses nichos, essas redes, como usar as ferramentas, um cara dessa galera.
– er… bom, eu poderia até dizer que… – a pompa começava a dar sinais
– 350 (isso, trezentos e cinquenta) reais por mês.
– OK, segunda-feira estou aí.

Faz parte do meu show

Houve uma época em que eu queria ser sozinho. Ter meu apartamento alugado, perto do centro, provavelmente com uma boa vista pra nove de julho, usar araras ao invés de armários, ter o Playstation instalado permanente no rack da sala, aquele tapete de banheiro do Wu-Tang clan, o o espelho da revista Time. Afinal, quem mais gostaria de ficar em casa lendo, ou no escuro à luz de um abajur ouvindo Paralamas do Sucesso? Quem gostaria de debater as notícias mais rasas e frias do jornal com a profundidade de várias ciências sociais que eu debatia sozinho? Não havia nada desse mundo que me movesse da minha visão de futuro que era eu falando sozinho sentado numa escrivaninha à meia luz batendo o cigarro num cinzeiro do Malvados.

E aí, houve a Denise, o plot twist da história da minha vida.

Eu poderia dizer que as coisas mudaram e que agora eu sei o que é certo e o que é errado na vida, essa coisa de namorado adestrado. Mas não funciona assim. Na verdade eu tenho sorte de ter encontrado aquela pessoa que aceite essa maluquice de curte debater comigo todos esses pontos profundos em notícias cruas, enquanto ouvimos Lanterna dos Afogados na luz baixa da sala. E não consigo ver mais sentido na arara porque os vestidos dela talvez empoeirassem e a integridade física dos vestidos dela talvez façam tanta diferença quanto meus livros ou meu DVD do Clube da Luta. Acho que naquela época eu precisava entender que ela não estragaria nada dos meus planos, ela entraria neles junto comigo. Talvez acrescentasse alguma coisa e tentasse me dizer que aquilo do cigarro deixaria de fazer sentido em alguns anos. Naquela época que eu projetava o futuro do meu apartamento com vista pra Nove de Julho eu achei que outra pessoa atrapalharia todos os meus planos, hoje eu digo que não consigo pensar mais os planos sem colocar ela no meio.

É como um desses romances bonitinhos, inocentes e simples das músicas do Cazuza que a gente acha bobo e dedicado e afetado demais, e que na verdade é tudo isso mesmo.

Day 20 – a song that you listen to when you’re angry

Prefiro beber com raiva do que triste. Quando você bebe triste existe uma intenção boba de se autodestruir, como se resolvesse alguma coisa. O máximo que você consegue no fim da noite é ver que sua edição de As flores do mal está irreversivelmente manchada de vinho barato e que essa inconsciência toda quebrou uma taça e deixou o chão fedendo. Já beber com raiva faz aquilo dá uma sensação de liberdade. Mas veja bem, apenas a sensação. Te abre caminhos, faz você conhecer novas pessoas, ouvir conversas as quais não daria a mínima se estivesse consciente. Tudo para esquecer a raiva de uma semana pesada no trabalho, ou para alimentá-la e vagar nômade em trezentos lugares inapropriados durante a madrugada de sábado.


Matanza, O Chamado do bar

Day 19 – a song from your favorite album

Lembro do dia que pedi aos meus pais a permissão para comprar um disco de rap que tinha palavrão nas letras. E de ganhar os 20 reais do meu pai, ir até a loja perto de casa, comprar o ‘Sobrevivendo no Inferno’, dos Racionais MCs por R$ 17,99. Voltar quase tremendo de ansiedade, colocar no aparelho de som. Ouvir o disco inteiro, parte com minha mãe e meu irmão do lado (talvez meu irmão mal entendesse o que queriam dizer alguns dos palavrões).

E tinha essa música 11, que eu considero épica. É como o tema principal da minha ligação com o meu bairro. Talvez não só a minha, mas a de um monte de gente. Eu lembro de um disco que tinha uma vinheta de um cara falando algo do tipo ‘quando o Racionais lançou Pânico na zona sul foi como se eles tivessem me mandado uma carta me chamando pra guerra’. Posso dizer que essa música e todo o disco me fizeram enxergar de outra maneira o mundo que eu vivia, tudo o que exisita ao meu redor, de uma hora para outra começava a ter mais significado do que antes. Era como se me tirassem de frente de um televisor CRT de 14″ e me levassem pro IMAX.


Racionais, Fórmula Mágica da Paz

Writer’s block? Chama o síndico

Fim do Fantástico, todo mundo havia ido dormir. Na clara tranquilidade do domingo à noite, no prólogo da madrugada, eu ouço os carros bem longe, penso num post pro blog e a idéia não vem de jeito nenhum. É quase meia noite e eu vergonhosamente fechando os editores de texto (porque sinto informar, mas amassar papéis e jogar num cesto de lixo superlotado é uma imagem ultrapassada e inverossímil de um escritor, forte abs).

Daí o Caio chega aqui no copndomínio e faz um barulho infernal ouvindo um pagode qualquer no carro. Geral dá aquela acordada de leve e volta a dormir se perguntando quem é esse maluco, xingando baixo até embalar novamente no sono mais curto da semana.

Passam.3.minutos. Eu fazia uma listinha de músicas no notebook, um desses memes do Facebook que a gente faz mas não tem coragem de postar. Com o som da TV no mute, ouvia minha lista quando o síndico começa uma gritaria (só se ouve a voz dele) no hall principal do prédio: ‘Quem vocês pensam que são?’, ‘pessoal vai trabalhar amanhã’, ‘todo mundo dormindo’, ‘é multa, vou multar’, ‘tira a mão de mim que eu não sou moleque’, frases corriqueiras nesse tipo de situação.

Quando acontece uma parada dessas, cada apartamento se transforma numa área VIP do nosso Teatro homemade, cuja peça em cartaz é sempre uma preciosidade. Dessa vez era o síndico, o Caio e sua família, alguns amigos, uma voz que dizia ‘sai daí Caio’ vinda de qualquer lugar do céu (Deus? Quem sabe não desse um bom roteiro) e o cara que cantarolava numa janela escura ‘umnovezeeero, to ligando, uuuu-uuu, uuuumnooovezeeero’, quase uma vuvuzela em forma de gente.

Ele fazia parte de uma platéia admirável. Sério, admirável. Porque nego não consegue somente assistir da janela, a interatividade está em alta, tão aí as redes sociais que não me deixam mentir (oiq?). Os atentos espectadores começaram a surgir em vultos nas janelas sob os gritos de ‘multa mesmo!’ e ‘parabéns ao nosso síndico’ seguidos de palmas lancinantes para o convívio social.

Eu só aguardava sair um tiro, ou qualquer coisa assim, os gritos eram histéricos e estavam numa crescente. Mas isso durou até ouvir a voz do Caio e do Nando, quando percebi que era só o síndico levando suas frustrações madrugada adentro para a casa de todo esse público lindo. A briga acabou do mesmo jeito que começou, sem sentido. De um segundo para o outro as vozes cessaram, é como se o dono do teatro tivesse desligado os microfones alegando que a locação do espaço era só até 00h30.

Mas pelo menos eu consegui meu post. Um abraço a todos os envolvidos.

Day 18 – a song that you wish you heard on the radio

O Hardneja Sertacore eu conheci num programa de TV (eu ainda não consigo expor publicamente o fato de ter assistido Altas Horas algumas vezes). É uma banda que faz covers de música sertaneja, as mais conhecidas, numa versão hardcore. Sim, mais ou menos o que o Ramones fez com Do you wanna dance, do The Mammas & the Pappas. Bem, eles me ganharam e eu que não fiz três gols (mais uma referência a um programa da Globo e eu deleto esse blog, sério) gostaria muito que vocês tocassem essa.


Hardneja Sertacore, Pare!

Call me Suzy

Não sei nem por onde começar. Talvez se eu tivesse respondido que sou só um redator que sabe o básico de linguagem HTML e tableless, só teria piorado as coisas, criado uns hard feelings na conversa ‘e aí, você está capacitado para fazer isso ou é difícil demais pra você?’. Mas eu também coloco dois ‘só’ na mesma sentença sem pensar em variáveis, sério, qual o meu problema?

Sabe aquela vergonha pública que você mais teme por estar num lugar em que todas as pessoas parecem saber mais do que você sobre seu próprio trabalho? Não chega a ser um pesadelo, mas o clima mantém aquela tensão de quando será que eles vão te humilhar publicamente. Não considero o jeito certo me perguntar no meio de todas as pessoas do trabalho se eu estou apto a fazer um trabalho pelo qual não fui contratado, o que é de menos, comparado ao fato de que eu não faço idéia de por onde começar. No caminho de volta à minha mesa pensei numa infinita sorte de respostas que poderia ter dito, mas que só agravariam a situação, como o exemplo que dei no acima.

Como disse, voltei para a mesa, restaurei a aba do programa, segurei a respiração por dois segundos e soltei meneando a cabeça, como quem se perguntasse o que diabos estaria fazendo ali tentando restaurar o Dreamweaver e editando textos simples e bobos, enchendo de tags, fazendo tudo que de melhor você pode como um redator, como alguém cuja função principal é escrever (não que a gente só trabalhe exatamente com aquilo pelo qual somos contratados, eu também sei disso). E foi então que comecei a cogitar o sintoma da perseguição quando vi os outros computadores e percebi gente no Facebook, mostrando os virais do dia, trocando fotos não seguras pra ver no trabalho pelo MSN.

Eu devia ter notado antes. E deveria dar exemplos mais claros aqui, mas bem, o que interessa é o desabafo. Eu tinha a melhor chefe que eu poderia ter tido (que ainda é minha chefe, o que torna tudo isso ainda mais difícil de explicar), que me avisou sobre o ninho de cobras ao qual eu poderia me enfiar antes que qualquer coisa acontecesse, que me avisou sobre tudo o que estava acontecendo com a sabedoria de quem gosta de você de verdade, de quem te quer longe de enrascadas, esse tipo de coisas.

Talvez o bando de fulanos, como eu mesmo fiz neste texto, esteja se perguntando o que eu estou fazendo ali. Eu aprendo algo novo todos os dias, eu começo a entender como peças são produzidas desde o início, desde a idéia inicial, como eles ‘startam’, diria o Jofa. Que eu não sou suficientemente bom para esse trabalho já tentaram demonstrar a todos, não num mural de metas, mas em cada pequeno ‘ah, se você não sabe então tudo bem, senta lá’. Vamos assim até descobrirem que podem contratar quatro caras pra cuidar dos links patrocinados e deixar de lado isso aí que você faz nas páginas de produto’.

Enquanto isso eu trabalho com os números, com as metas e com a qualidade e sei que já não vale a pena raciocinar aqui se eu devo ou não me posicionar quanto a isso como fiz nos happy hours com a Chiba e o Guto naquele boteco do Jaguaré. Para a melhor chefe que já tive quero somente dar a certeza de orgulho, de crescimento pessoal, como eu daria a minha família. Quero fazer o certo e ir pelos caminhos certos, porque você pode ser menino o quanto for, mas você faz 27 anos sabendo ao menos as pessoas que realmente querem seu bem. Mas para eles, que meu trabalho represente apenas uma coleção de conhecimento que eu possa adquirir e que de quebra pague minhas contas no final do mês até quando puder ser assim. E que eu consiga fazer o melhor que eu puder, demosntrar amor, como as putas. Porque a gente consegue restaurar tudo, mas a dignidade tende a ficar bloqueada na barra de tarefas.

***

Desculpem a vibe da amargura. Sabe quando seu computador fica no caminho de todas as pessoas e elas vêem você usando a internet, comentam entre si e te jogam um trabalho do qual você não faz a menor idéia de como fazer, mas no pensamento deles você pode tentar, já que não está fazendo nada? Bem, foi relativamente isso que aconteceu.

Day 17 – a song that you hear often on the radio

A coisa mais impossível da minha vida atual é ouvir rádio. A não ser algumas transmissões de futebol com o Nilson César ou algumas poucas vezes com a Denise, indo pra praia, quando eu esqueço de selecionar bem os discos do pendrive.

Aí, toda aquela patacoada de sempre, remix de remixes, mashup de mashupes (Chupa, Equador!) e uma infinidade de locutores com vozes felizes, bem, vocês sabem. E procuro entender como a Denise tem tanto tempo para conhecer as letras de todas as músicas que tocam no dial.

E tem essa música do David Guetta e da Rihanna (isso eu só descobri agora, sério) que toca às vezes e para a qual eu reinventei o refrão para “desta vida bem vivida, desta vida quem não gosta… Who’s that chick, who’s that chick?”, Cognatas style. Não perguntem.


David Guetta & Rihanna, Who’s that chick?

Day 16 – a song that you used to love but now hate

Passei dias pensando nessa. E então cheguei a conclusão do quanto é difícil odiar uma música que alguma vez você já amou. É como trazer de volta uma época e, por mais que você não sinta o mesmo que te fez ficar olhando pro teto feito besta anos atrás, mesmo aquela lembrança pueril carrega em si alguma ternura.

Então deixo aqui uma música da qual já comecei a ouvir bem adolescente e que só não ouço mais todo dia. De uma época em que eu mataria qualquer viajante do tempo dizendo que anos mais tarde o Chorão escreveria que “azul é a cor da parede da casa de Deus”.


Charlie Brown Jr, Essa é por quem ficou pra trás
(clique no botão do youtube no player pra ouvir)

Pra provar todo esse mimimi da ternura daquilo que você ouvia 10 anos atrás, procurando alguma do Charlie Brown Jr. pra “dar o exemplo”, acabei criando uma lista de reprodução chamada ‘Charlie Brown Jr, Essencial’, me processem.

Day 15 – a song that describes you

Eu relutei muito antes de conhecer Los Hermanos. É uma parada dessas que tem data certa pra acontecer. Se eu tivesse ouvido seis anos atrás, a banda não teria o mesmo impacto, o mesmo sentido, sabe? Conheço há bem pouco tempo e desde então somos amigos de infância. Lembro de ter ouvido ‘De onde vem a calma’ repetidas vezes até me convencer de que realmente era outra pessoa que havia escrito aquilo e não uma versão minha num dia triste.

‘É o mundo que anda hostil, o mundo todo é hostil’


De onde vem a calma, Los Hermanos

Pensando no superlativo

A primeira vez que fui trabalhar numa empresa, estava com frio na barriga sobre o que deveria dizer, ou me portar, os sorrisos certos, conhecer pessoas, manter alguns laços iniciais de amizade para serem lembrados depois com alguma ternura. E fui trabalhar. Lembro que tive de ler um manual de vendas de sei lá, 350 páginas, cheio de ilustrações e com textos corridos muito bobos. Terminei antes do almoço e tive que reler. Terminei às três horas e depois repassei todos os pontos até o horário de ir embora.

Cheguei em casa bem feliz, meus pais me receberam com alegria, eu contei meu dia, falei sobre as pessoas, sobre como a gerente parecia rica, mas também parecia uma pessoa muito simples. Jantei e fui dormir. O primeiro pensamento do dia seguinte foi: “caramba, não tinha pensado que seria todo dia”.

***

Marquei mentalmente São Bernardo do Campo como a cidade do Subway. Não sei se foi alguma sorte do meu caminho, mas em meia hora dentro da cidade eu vi dois Subways de rua e uma placa gigante sobre outro.

Peguei um freela itinerante de final de semana que se resume em digitar contratos imobiliários com atenção naqueles stands de venda com apartamentos decorados. Essa é a parte que eles avisaram durante o treinamento. Não disseram sobre uma pequena sala cheia de gente rindo alto, sobre trabalhar em meia baia com sinal de rede oscilante, numa cadeira de plástico dessas de boteco, mas principalmente, não falaram sobre o gordinho espaçoso que sentaria ao meu lado com um arsenal de piadas batidas sobre o Rogério Ceni que ele repetia em voz alta para cada um que entrava. Calcule.

Dá pra levar, é de vez em quando e rola um pagamento honesto. Era isso ou montar uma lojinha online aqui no blog (nota mental 1: a idéia não foi de todo descartada) pra vender meus CDs, DVDs e artigos inutilizados do armário (nota mental 2: não os livros, nunca os livros).

Eu queria poder dizer que foi legal estar trabalhando no sábado, afinal, eu procurava uma parada exatamente como essa pra recobrar a ordem financeira da minha conta bancária. Mas a gente sempre acaba achando um jeito de pensar na vida de um jeito superlativo que acaba ferrando tudo. Quero dizer que, estamos ali trabalhando amarradões, quando entre um contrato e outro eu penso que não me via aos 27 anos de idade tendo que fazer um bico desse pra que as coisas pudessem voltar ao normal. As coisas já eram normais, fui eu que deixei elas se esculhambarem ladeira abaixo. Mesmo assim eu descobri que não consigo lidar muito bem com o fato de ter outra obrigação da qual dependo dessa forma.

Claro que é exagerar um pouco as coisas, mas é como pensei outro dia, enquanto esperava a marmita esquentar e vi alguns amigos voltando do restaurante. De todos os futuros que previ, em nenhum deles estava ainda estar morando com meus pais e tendo que me esforçar tanto pra terminar de pagar um carro; nem que eu estaria feliz com a possibilidade de escrever textos de 7000 caracteres por R$ 30,00 (é, eu já desisti da idéia), nem que fosse esperar a marmita esquentar enquanto lia alguma coisa na cozinha.

Um trabalho pode ser algo que você adore fazer, mas nem sempre vai ser assim. E digo que se amanhã você não está muito afim, isso quer dizer que você não adora seu trabalho tanto assim, certo? Você pode não reclamar das suas tarefas e correr pra que tudo dê certo no final do dia, mas nada disso caracteriza adoração. E talvez por isso nunca estaremos satisfeitos com nada do que vier. Mesmo um alto salário, uma dose exagerada de independência ou uma cartela de bons benefícios podem te fazer olhar à sua volta e pensar sua vida no superlativo.

Day 13 – a song that is a guilty pleasure

Todo mundo curtu a oração da Banda mais bonita da cidade, vamos ser sinceros, vai. Mesmo os roqueiros pedregosos que conheço, mesmo os punks estrategicamente sujos e mal vestidos. Eu estava de férias e o notebook estava ligado no HDMI da TV, eu vi esse vídeo umas 20 vezes, peguei no violão e vi mais algumas vezes tocando junto. Só se tornou realmente um guilty pleasure quando acessei o Facebook e percebi que a maior parte dos meus amigos era hater dessa parada:

A banda mais bonita da cidade, Oração

Day 12 – a song from a band you hate

Não adianta, por mais que eu tente gostar de uma música ou outra pra não dizer à namorada que sou carrancudo demais, lembro que o Jota Quest tem essas pedras gigantes difíceis demais de suportar. Eu detesto o Luan Santana, por exemplo, mas eu não suportaria ser amigo desses caras tendo que comparecer aos show da banda.


Jota Quest, Amor Maior

Ocultar postagens na página inicial do Blogger

Pode-se considerar este mais um tutorial destes pra ganhar estatísticas.

Você quer criar uma categoria no seu blogger em que os posts não apareçam na página inicial, certo? Pra não misturar assuntos, ou enfim, por um motivo qualquer que você encontre pra isso. Lembrando sempre que eu não sou um expert nessa merda e só descobri essa forma fuçando blogs, comentários e fóruns do Google. É um hack, uma gambiarra que funcionou pra mim e, caso funcione pra você, espero que seja bem feliz.

Segue os passos:

1º Siga os passos deste tutorial do iceBreaker, trocando apenas a parte do código gigante por este abaixo (inclusive trocando onde se diz ‘MARCADOR’):

<b:if cond=’data:blog.url == data:blog.homepageUrl’>
<b:if cond=’data:post.labels’>
<b:loop values=’data:post.labels’ var=’label’>
<b:if cond=’data:label.name == “MARCADOR”‘>
<b:if cond=’data:post.dateHeader’>
<h2 class=’date-header’><data:post.dateHeader/></h2>
</b:if>
<b:include data=’post’ name=’post’/>
<b:if cond=’data:blog.pageType == “item”‘>
<b:include data=’post’ name=’comments’/>
</b:if>
</b:if>
</b:loop>
</b:if>
<b:else/>
<b:if cond=’data:post.dateHeader’>
<h2 class=’date-header’><data:post.dateHeader/></h2>
</b:if>
<b:include data=’post’ name=’post’/>
<b:if cond=’data:blog.pageType == “item”‘>
<b:include data=’post’ name=’comments’/>
</b:if>
</b:if>

Feito?

2º Essa é a parte da gambiarra. Concluído o passo acima, todos os seus posts vão desaparecer do blog. Então você precisa de um novo marcador para todos os posts que vão aparecer na página inicial. É fácil:

2.1 Vá em editar comentários, insira o marcador (que vc criou) em um dos posts
2.2 Selecione todos os posts, lembrando sempre de selecionar TODOS (!) os posts (você entendeu)

2.3 Em “Ações de marcador” selecione a nova tag que criou.

Pronto, seu blog voltou ao normal.

Agora, pra criar o menu suspenso, bonitinho, é só seguir as instruções desse tutorial do André Felipe. Você pode ainda estilizar seu menu usando esse post da Bloggersphera.

A partir de então, todos os posts que você quer que apareçam na home, você vai ter que utilizar o novo marcador. E para os outros menus, os marcadores que criar. É isso.

Passar bem.

Day 09 – a song that you can dance to

Essa música podia ser colocada em vários dias. Segue-se aqui uma nostalgia que começou com a Karina lembrando a época do Madame, a qual, embora não tenhamos vivido no mesmo período, temos a mesma boa lembrança.

Viva La Revolución, do Adicts eu conheci na época do Hangar 110, quando trabalhava na livraria do shopping Santa Cruz e ia direto pro metrô Armênia, ver bandas que não conhecia, conhecer gente esquisita, alguns de meus melhores amigos hoje e ouvir músicas antes dos shows, de onde tirava uma frase, descobria a banda no Google, buscava no Soulseek e baixava uns discos. Antes de entrar, passava nos dois bares, escolhendo algo nada decente para beber e depois você poderia me encontrar pogueando (ou dançando desajeitado) sozinho, ao som de músicas como essa.


The Adicts, Viva la Revolution

Day 08 – a song that you know all the words to

Eu passei o dia tentando lembrar uma música boa que eu soubesse a letra inteira. Fiquei sem jeito quando descobri que são tão poucas. E aí tentei esmiuçar meu last.fm e nada, nenhuma banda descolada, nenhuma música nostálgica, nada. E então, nove e meia da noite, a lua veio me dizer.

Todo mundo deve saber até os ‘dererere-ê’s.


Katinguelê, Recado à minha amada (só quem é sabe o nome dessa música, hhahahah)

Day 07 – a song that reminds you of a certain event

O filho do Regino tinha acabado de nascer. Eu tinha me desentendido com a Denise, por um motivo bobo qualquer. Estacionei num hotel na parte bonita da Augusta e caminhei até a Paulista, onde encontrei meus amigos naquele bar central com uma porção cadeiras na calçada, gente rindo descontrolada, a gente no caixa tentando fazer o cara entender que eram quatro cervejas e não três. Pensamos trezentas vezes para que lado da Paulista seguir, se para os ricos e aconchegantes pubs da Consolação ou para os lamurientos bares esquecidos nas travessas e ruas paralelas. Fomos até um bar caro, paramos em frente, vimos aquela galera descolada. Não precisou muito para voltarmos sem dizer uma palavra. A gente sabia que não era ali. Acabamos dando a volta. Entramos no carro de um dos amigos do novo pai. Era um japonês chicano, pelo que minhas anotações mentais me permitem lembrar. O apelido era Japa ou algo assim, mas ele parecia ter acabado de sair do filme Marcados pelo sangue, aquele dos Vatos Locos ou ser primo distante de um integrante do Cypress Hill. O carro era desses importados velhos, mas com um som potente, uma gritaria infernal e guitarras na afinação mais baixa do universo. Ele dirigia feito um maluco. Fui na frente, ele ultrapassava os carros como se fugisse de algo, quase bateu em todas as curvas, passou por esses buracos do trânsito que a gente não tem culhões pra entrar. Era um cara experiente, mas eu sempre fico com o pé atrás de quem dirige fumando um baseado conversando e olhando pras pessoas enquanto fala.

Descemos a rua Augusta até sua parte mais feia e superlotada com os piores bares do mundo e as caras mais conhecidas também. Encontramos um antigo conhecido em comum, paramos na frente daquela sinuca velha com um banheiro terrível “não importa onde esteja, é sempre onde tem mais barulho, maior cheiro de bagulho, disso eu me orgulho”, bem podia ser essa a música. Cumprimentei um cara na fila, pedi quatro cervejas. Conversamos na frente do boteco. O Regino agora era pai, seu filho tinha nascido pré-maturo, acelerado como meu amigo. Neste dia aconteceu uma briga perto de nós, um sem fim de bêbados grandiloquentes esbarrando nas pessoas e querendo entrar na confusão. Fiquei com o Cabelo vaiando de longe ‘os pipoca’, como chamamos a trupe dos malandros de ocasião.

O Regino foi embora cedo para o Pro Maitre, encontrar sua garota, já maluca por saber onde ele estava. Eu não a conhecia, a gente nem podia ir visitá-la ou coisa assim. Fiquei pela Augusta com o Cabelo, na esperança de outros amigos que chegariam mais tarde. Já era uma da madrugada, cantávamos o refrão de Grajauex, que tinha acabado de ser lançada e conversávamos sobre rap, sobre livros, sobre a vida. Conheci um cara que se dizia primo do Glauco, disse que estava hospedado na casa do cara até uma semana antes da tragédia toda. Eu acreditava em tudo. Eu tinha acabado de ler Cartas do Yage (diz-se iagé) e fiquei interessadissimo na conversa sobre payote e os rituais todos. Tudo graças ao lubrificante social, a cerveja inocente que tomávamos.

Chegou outro pessoal. O Biu ‘be god’ (Bigode) me passou algumas músicas por bluetooth, uma delas tão absurda que não consigo me lembrar. Conversamos até bater um sono intranquilo. Decidi ir pra casa, me despedi, eles também iriam. Nos cumprimentamos, eles desceram a Augusta, eu ia subir até a Paulista, encontrar meu carro. Logo que comecei a andar lembrei de ter pedido mais duas cervejas e esquecido de pegar. Não vou perder nove reais assim, à toa. Parei na frente do bar e terminei uma, ainda vendo meus amigos descerem a rua. Subi com a outra garrafa na mão, a despeito do dono do bar. Encontrei um mendigo na subida, que me pediu um cigarro. Lhe ofereci a garrafa. Ele agradeceu. Perguntei onde morava, ele acenou, sem saber direito o que responder. Refleti sobre a imbecilidade de se perguntar a um mendigo onde ele mora. Finalmente disse que tinha perdido a família e não quis se estender no assunto. Me cumprimentou com as mãos sujas e eu que já não me importava dei aquele meio abraço, que reservamos aos amigos.

Encontrei meu carro no estacionamento de um hotel na Paulista, cansado de tanto subir a rua. Esperei e gostaria de ter dinheiro suficiente pra dormir ali. Acendi um cigarro e voltei pra casa na ilegalidade. E eu já não me importava.


Criolo, Grajauex – no dia que o Romeo nasceu

day 06 – a song that reminds you of somewhere

Me lembra de Peruíbe, na casa do avô e avó do Wolvs, um amigo de infância, nas férias de 2002. Era a música que tocava no rádio. Nós não tínhamos CDs pra ouvir a não ser uma coleção de fitas de rap do primo dele e uma outra fita com essa música. Nós ouvimos umas 645 vezes, chutando baixo. Me faz lembrar um chão de paralelepípedos, com alguns matos crescendo nas frestas e um passeio de bike até uma espécie de interiorzinho da cidade. Voltamos pro mercado e compramos o último pacote de um biscoito dos Simpsons que nunca mais encontramos de novo. E aprendemos a tocar o riff dessa música exaustivamente durante o processo.


Linkin Park, In the End

day 05 – a song that reminds you of someone

É aqui que eu quebro o protocolo e lanço quatro músicas.

Minha música com a Denise, não tem nem como não lembrar.

Paralamas do Sucesso, Me liga

Acho que não preciso falar essa, heh

Beach Boys, Good Vibrations

Essa eu lembro do meu irmão, o Rodrigo, ou Bigode, como ele quer ser chamado agora. E da vez que ele me fez uma raiva absurda e eu peguei um disco do NOFX e arranhei na parede.

Nofx, Dinosaurs will die

Lembro da Priscila, uma amiga que sofreu um acidente foda em 2007, desses de começar a desacreditar em Deus. Toda vez que ouço esse som é como se ela estivesse do meu lado.

Lucidez, Jorge Aragão

What’s up, doc?

Eu tenho isso com consultas médicas.

Acontece sempre que você está do lado de fora aguardando chamarem seu nome naquelas cadeiras infantis confortáveis esperando que o(a) médico(a) seja ultra paciente com seu problema atual, entenda seu lado, passe a mão na sua cabeça, diga algo parecido com “pois é, eu sei como você se sente”, lhe entregue um pacote de doces no final e diga, “seja um bom menino e tome os remédios, ok?”.

É então que, de dentro da sala, uma voz furiosa ecoa pelos quatro cantos da clínica dizendo seu nome. Ela precisa ser furiosa para ecoar, pois o médico está sozinho lá dentro e o último paciente possivelmente com algum problema de ordem mental deixou a porta quase encostada. E no segundo antes de levantar você pensa porque diabos esses consultórios nunca avaliam a necessidade de sistemas de som e microfones nas salas de consulta. Você não culpa o médico por não ter feito o esforço básico de levantar e ir até a porta. Você não pode culpar alguém com uma voz tão assustadora.

Você também não quer mais entrar no consultório, mas acaba levantando apenas pelo frio na espinha que aquela voz alta, dirigida e ríspida lhe provoca. E no fundo você sabe que não existe uma forma dessa voz alta, ríspida e dirigida lhe acariciar a cabeça dizendo que entende seu problema. Não há outra forma, você vai ter que abrir a porta com um sorriso de esperança e enfiar na cabeça que é tudo o que você tem. Lá dentro, em segundos, vão estar juntos você, seus problemas atuais e a dona de uma intimidadora voz cansada de ouvir problemas menores e indicar xaropes e que certamente não vai lhe dar um pacote de doces quando terminar de escrever a receita.

Nós na fita

Vibe essa do dia dos namorados hein? Dei uns presentes bobos, uma foto, esse tipo de coisa pequena, mas bem significativa, como os presentes de verdade. Tivemos dois dias incríveis no final de semana, sem ‘mas’, sem neuras, só sorrisos, como espero que tenha sido o de todos.

Gravei uma mixtape também. Dessas que a gente pega as músicas marcantes e diz coisas bobas nos intervalos. Nunca tinha gravado uma. Nick Hornby disse algo bonito a respeito de gravar uma mixtape para alguém que você goste, embora eu eu nunca me lembre da citação (e acabei de descobrir que toda a demora para escrever esse post foi baseada na busca dessas aspas):

“I spent hours putting that cassette together. To me, making a tape is like writing a letter, there’s a lot of erasing and rethinking and starting again, and I wanted it to be a good one, because … to be honest, because I hadn’t met anyone as promising as Laura (…)  A good compilation tape, like breaking up, is hard to do. You’ve got to kick off with a corker, to hold the attention (I started with “Got to Get You off My Mind,” but then realized that she might not get any further than track one, side one if I delivered what she wanted straightaway, so I buried it in the middle of side two), and then you’ve got to up it a notch, or cool it a notch, and you can’t have white music and black music together, unless the white music sounds like black music, and you can’t have two tracks by the same artist side by side, unless you’ve done the whole thing in pairs, and… oh, there are loads of rules”
Nick Hornby, Alta Fidelidade, 1995

Só caguei para a regra sobre “música negra” e “música branca”, colocando Criolo e Paralamas do Sucesso no mesmo lado. De resto, as decisões são bem difíceis mesmo. É como ambientar cenas de filmes, da comédia romântica em que a Jenniffer Aniston e o Ashton Kutcher são vocês dois. Daí você tem que lembrar aquelas músicas que vocês ouviam quando tudo começou, as músicas sobre brigas e umas paródias engraçadinhas e as que emocionam em qualquer ocasião. Fechando com meu embaraço ouvindo ao lado dela todas as coisas que gravei no microfone por cima da trilha. Uma timidez quase bonita de se ver.

Os emendadores de piadas

Existem pessoas que se esforçam para fazer parte de grupos, para estar na cópia dos emails da galera, ser convidado em festas de aniversário no Facebook, esse tipo de forçação. E existe essa gente que tenta emendar as piadas. É normal estar com uns amigos no bar e espremer uma piada até que ela deixe de fazer sentido. É quando não há mais de onde tirar criatividade que eu e meus amigos dizemos “ou não” e fica claro que não dá mais pra emendar nada ali. E isso é normal, acabamos dando risada disso depois de tudo. How I met your mother tem algumas esquetes assim.

O humor, né, gente, virou commodity. Você precisa ser engraçado pra ser aceito, pra que as pessoas te vejam como uma pessoa legal. Denúncia: Ninguém que seja absolutamente sério e centrado é visto como uma pessoa legal, atente. Você precisa ser uma espécie de comediante a todo instante para que a vida seja mais fácil, para conhecer pessoas, para conseguir empréstimos no banco ou um chorinho de suco de laranja na padaria. Impressionante dizer, mas os “sérios e centrados” estão no mesmo patamar dos derrotados sociais. Ninguém liga se você é uma boa pessoa se você mantém sua cara fechada. Da mesma forma, ninguém liga se você aparecer como cara de derrotado na padaria, “eu hein? Pra esse aí não tem chorinho não” (“chorinho” e “derrotado” não foi proposital, juro).

Tem esse comercial da Toddy, com um garoto querendo saber uma verdade. Arrisco dizer que é o comercial mais triste dos últimos tempos, embora os personagens vestidos de vaca gargalhem como se fosse realmente engraçado o que estão falando. Depois da pergunta, as vaquinhas dizem que aquela garota que ele gosta pode estar invisível no MSN e ainda mais: pode tê-lo bloqueado. Eu queria que alguém me explicasse em que nível de demência isso pode ser considerado uma piada.

E tem o Rafinha Bastos e aquela piada infeliz sobre órfãos e uma outra sobre mulheres feias estupradas. De um lado os puristas, reclamando que ele não tem direito de dizer, não pode, deve ser preso, acorrentado, enforcado em praça pública. De outro, os admiradores de Nelson Rodrigues, argumentando o óbvio: se fosse vivo nos nossos dias, o anjo pornográfico se mataria. O que não posso entender em todo esse debate é, se você sabe em que ponto de idiotice o tal do Rafinha pode chegar numa piada porque você faz tanta questão de tratá-lo como absurdo apenas quando ele pisa nos seus calos?

Tenho uma posição bastante inofensiva a respeito disso: é preciso deixar o cara falar o que ele bem entender. Mesmo se ele achar o ato de amamentação nojento, ou que pessoas feias precisam ser estupradas ou lembrar os órfãos sobre como é terrível o dia das mães. Se existe um público para isso, Rafinha Bastos é apenas um fruto podre alimentado pelo tempo em que vivemos, é vítima de um auto estupro moral, com lembra o Dimenstein.

Claro, acabei de descobrir, perdi o tino completo desde post. Falava sobre essa gente que emenda piadas. Outro dia assistia um jogo qualquer, quando um dos comentaristas diz algo sobre como o futebol é cheio de surpresas: “bom o cara que fez esse filme futebol, não é?”, ao que Cléber Machado, do alto de sua magnitude complementa “digo mais, deve estar rico hoje!”, rindo naquela vibe de quem conta piadas para si mesmo. É preciso dizer que não há o que complementar se, logo de cara, você não entendeu o espírito. Era sobre isso que falava, acredito.

Day 02 – your least favorite song

Bom, certamente a banda que menos gosto no mundo é o Jota Quest. Coisa de não ir com a cara mesmo. O Lobão fala da falta de paudurescência do Restart e do Fiuk, mas e esses malandros? Podem ter umas músicas bonitinhas, até gosto dos timbres limpos de guitarra, mas esse xoxismo não me entra na cabeça. Essa música que coloquei pra ilustrar é só um exemplo que, além de pau moles, suas letras pecam em contradições menores. O cara diz “não adianta falar de amor ao telefone, isso é ilusão” e no final fala que “a obrigação da sua voz é estar aqui”. A voz já está aí, jovem, via telefone. Talvez fosse melhor trocar a letra por “a obrigação da sua laringe e das suas cordas vocais é estar aqui”. Eu daria um ponto.


Telefone, Jota Quest

Day 01, your favorite song

Este meme é o 30 day song challenge que nasceu no Facebook e achei mais conveniente passar pra cá. Quem estiver numas de entrar nessa, por favor, sinta-se convidado.

Day 01, your favorite song


Foo Fighters, Best of you

Eu lembro do dia que eu aprendi a tocar essa música. De todas as lembranças boas que ela me traz, lembro de colocar no repeat e ouvir até cansar, no carro, voltando do antigo trabalho. E quando assisti aquele DVD ao vivo em Dublin, uma versão cansada, mas que me emociona só de lembrar.

Segue a lista completa pra quem quiser participar deste “desafio” (acredite, alguns dias são bem difíceis):

day 01 – your favorite song
day 02 – your least favorite song
day 03 – a song that makes you happy
day 04 – a song that makes you sad
day 05 – a song that reminds you of someone
day 06 – a song that reminds you of somewhere
day 07 – a song that reminds you of a certain event
day 08 – a song that you know all the words to
day 09 – a song that you can dance to
day 10 – a song that makes you fall asleep
day 11 – a song from your favorite band
day 12 – a song from a band you hate
day 13 – a song that is a guilty pleasure
day 14 – a song that no one would expect you to love
day 15 – a song that describes you
day 16 – a song that you used to love but now hate
day 17 – a song that you hear often on the radio
day 18 – a song that you wish you heard on the radio
day 19 – a song from your favorite album
day 20 – a song that you listen to when you’re angry
day 21 – a song that you listen to when you’re happy
day 22 – a song that you listen to when you’re sad
day 23 – a song that you want to play at your wedding
day 24 – a song that you want to play at your funeral
day 25 – a song that makes you laugh
day 26 – a song that you can play on an instrument
day 27 – a song that you wish you could play
day 28 – a song that makes you feel guilty
day 29 – a song from your childhood
day 30 – your favorite song at this time last year

Starts e atitudes

Eu assistia a Discovery e veio um desses comerciais de programas que são exibidos sábado de noite e ninguém assiste porque, bem, é sábado de noite. Era sobre um cara que frequentava lugares inóspitos da humanidade como tribos indígenas, ou vilarejos isolados na floresta, esse tipo de alucinação.

E o apresentador falava sobre o programa, quando lançou: “é importante conhecer esse mundo que daqui há alguns anos não vai mais existir.”

Comecei a pensar nos meus possíveis filhos. E não sei como, cheguei ao pensamento quase febril de que um dia eles teriam de conviver com esses personagens babacas dos desenhos animados de hoje.

Foi então que tomei essa louvável decisão e acabei baixando 195 episódios de Pica-Pau de 1940 a 1972 e as cinco temporadas dubladas da Liga da Justiça.

Porque, né, nego entra na minha mente com uma frase e espera que eu salve a humanidade?

Vida de Sitcom S01E01, “As neo senhoras”

[claquete, cena 1, neo senhoras no metrô]

Voltava do trabalho no metrô, sentado bem verão (e apostando que ‘bem verão’, essa gíria do meu amigo Nebi, um dia vai pegar) ao lado de duas neo senhoras que conversavam sobre seus maridos e me forçaram a abandonar a leitura como se eu tivesse que prestar atenção no que diziam.

Falavam dos seus respeitáveis cavalheiros. Juro que tentei dormir durante o processo e não ouvir a conversa, mas não era possível, dado o nível de ruído que as duas produziam. Reclamavam de como eles eram rudes, de como se portavam, de suas roupas:

– Outro dia ele veio caquelas bermudas jeans, ele tem um monte, mas menina, são aquelas que vão até as canela (olha a apostila fazendo sentido aí, amigos)
– Jura? Ah, o meu também!
– É, mas vai até lá embaixo, eu digo pra ele que quem usa essas coisas são aqueles manos com aquelas calças largas…

[primeiro olhar de canto de olho para mim]

Nesse momento, a neo senhora que falava percebeu que eu era uma dessas pessoas que usam calças largas e, em segundos, tranquilamente tentou reverter a situação:

-…e que usam aquelas botas grandes, sabe!?

[segundo olhar de canto de olho pra mim]

Preciso dizer que eu também estava de botas ou fica implícito?

[risadas aqui]
[corta]

Goodfellas, gifs dos wiseguys

Sem perceber, acabei assistindo na sequência Campo dos Sonhos (1989) e Os Bons Companheiros (1990), ambos com Ray Liotta e ambos clássicos (pelo menos pra mim).

Uma parada que não se entende de Goodfellas é como o Ray Liotta moleque conhece o Robert de Niro já velho e depois que cresce o ultrapassa na velhice.

Mas o filme é sensacional.


‘never rat on your friends and always keep your mouth shut.’

Olá, Vanguarda

“E essa parte eu já vi outra vez eu não me comportei, tudo bem, vou partir, sou um lixo eu sei. Será que foi você que mudou ou eu que nunca mudei?”

 Olá, vanguarda by chuvanegra

Sabe aqueles dias que qualquer coisa que você lê, assiste ou ouve parece estar falando diretamente do seu problema? É uma espécie de mutação da Síndrome de trilha Sonora, uma teoria, agora, multimídia.

*o player do soundcloud demora pra aparecer.

O homeoffice moleque e os amores brutos

Então tive de tomar algumas medidas para a ordem e para trabalhar de verdade não ficar naquelas ‘vou ver o Chaves e depois termino esse texto’: mantive o crachá no peito até a hora de ‘ir embora’ e o notebook ligado em horário integral(mesmo com o MSN invisível).

Ah, a possibilidade de trabalhar debaixo do cobertor!

Trabalhei bem, fiz o possível e o impossível, cacei códigos fonte, me virei com as imagens pequenas e meu photoshop ilegal. Terminei relativamente cedo, às 21h. Dava tempo de escrever meu aritgo já quase atrasado pro Per Raps. E então, 11 horas da noite, a Denise diz que vai sair tarde e que eu preciso buscá-la no trabalho.

Eu fico puto, grito petulância aos ventos, falo aos montes, pretendo criticar a empresa dela e dizer que está começando a me afetar e quero morrer quando ela diz que é a última vez que acontece. Daí quando a encontro não consigo manter nem metade do mau humor, dou risada e esqueço de tudo como se nada de ruim estivesse realmente acontecendo.

Isso, amigos, é amor bagarai.

(imagem via Wears heart on sleeve)

Cidades para Pessoas

Ontem, como um patrocínio da greve da CPTM, trabalhei em home office (obrigado, internet, abs), tudo depois de uma ingênua e mal sucedida tentativa de me locomover até a empresa de ônibus. Numa conversa no MSN sobre o medo da quarta temporada de Breaking Bad ser a última, o amigo Fábio sugeriu que eu tivesse vindo de bike, mas pelo jeito até a ciclovia estava de greve (e eu consegui imaginar os seguranças me barrando, ‘não, não vai entrar, tá fechado, não dá, não pode’, ‘mas amigo, não é pra pegar trem, amigo, olha a bicileta aqui’, ‘não dá, não dá!’). Tudo isso, claro, num mundo ideal em que eu tivesse uma bicicleta.
E aí, trabalhando com o SPTV ligado, passa uma matéria sobre o prefeito de Copenhague que saiu por aí bem verão com a reportagem da Globo tentando usar a faixa reservada para bicicletas, ficou com medo e tal, reação bem normal pra quem vive numa cidade que tem 350km de faixas reservadas aos ciclistas. E o Kassab, inovador como sempre (NOT), está reservando uma faixa de trânsito exclusiva para quem tem duas pessoas ou mais no carro.

Deu pra notar uma atenção maior ao trânsito, agora que estamos quase entrando num colapso com tantos carros na cidade. É um debate muito grande, envolve economia, cultura local, não mexer com os pequenos culhões da classe média, essas coisas grandes e confusas. Mas que está perturbando a vida na cidade, isso já deu pra sacar.

Embora os ciclistas sejam tão chatos quanto vegetarianos e essa galera que usa mac segundo o e001, inovar é muito mais que começar a pensar em abrir as faixas reservadas a bicicletas durante a semana. Se o trânsito de São Paulo tem solução, não sei, mas tem gente bem interessada em descobrir.

Em defesa do Bullying Pedagógico

Não sou muito afeito a comentar assuntos mais polêmicos, principalmente os que estão na moda, nas revistas, no Fantástico etc. Gosto de deixar cansar na TV e então talvez procurar alguma coisa no Observatório da Imprensa. Nunca comentar, nunca.

Aí, o Bullying.

Gente falando que era menosprezado na escola porque tinha orelhas grandes, era gordo, usava óculos, era nerd, era negro, usava roupas baratas e de doação. Aquele hit do menino jogando o outro no chão foi um estopim que criou para cada um de nós uma carapuça e um convite para participar dessa rede de derrotados que deram a volta por cima e oh, olha só, vivem felizes, todos esses anos depois.

O que ninguém consegue ver nessa parada toda é que esse tipo de bullying é mais pedagógico do que traumatizante. Quando se chama o gordo de Bola, o orelhudo de Dumbo, a menina de sardenta, o tempo acaba criando uma capa natural de resistência, como o calejar de um osso que deixa de doer depois que você passa suas tardes dando chutes no coqueiro (isso é de um filme do Van Damme, alguém lembra?).

É assim que a gente cresce. É assim que o gordo começa a se aceitar como ser humano como todos os outros porque, diabos, dar ouvidos a esse monte de moleques é estupidez.

Estava eu outro dia, no aniversário do Fernam, aqui pelo bairro. Alguns moleques de 12, 13 anos, provocando os mais velhos, naquele velho estilo de falar merda e sair correndo. Até o mais velho se irritar, ir atrás, rasgar a cueca do moleque, colocar ele no porta mala do carro e cogitar a hipótese de amarrá-lo pelado no poste durante uma madrugada fria de maio (eu sei, um pouco demais, essa última não rolou).

Esse moleque vai crescer e vai aprender que existem algumas linhas que ele não pode ultrapassar, algumas regras que ele precisa seguir e que se xingar o pai do dono da festa e sair correndo ele pode voltar para casa sem cuecas. E vai passar o “ensinamento” pra frente, essa coisa bonita que vai fazer ele correr atrás de moleques mais jovens e tão folgados quando tiver 24 ou 25 anos.

Não trato aqui da coisa mais séria, porque bullying existe, sim, gente com problemas sérios de aceitação social que pode se estender pro futuro. Elas podem superar através desse caráter pedagógico, embora seja mais difícil se aceitar como quando o problema é mais do que uma orelha de abano, uma barriga grande ou as roupas que você ganhou na igreja. E, acredite, existem problemas bem piores, como você pode imaginar.

Todos precisamos de um chute na bunda. Afinal, a vida não é fácil. Acredito ainda que se houvesse um indivíduo no mundo completamente perfeito para nossos padrões sociais e não tivesse ouvido ou sofrido brincadeiras de mal gosto, seu desenvolvimento teria algumas lacunas que nada além da euforia diabólica de crianças cruéis poderia substituir.

It’s a trap!

Indicado no blog do Daniel Piza, do Estadão (e que, a propósito, ingressou no Twitter hoje mesmo), este artigo The Twitter Trap, de Bill Keller, editor executivo no NY Times, é cheio de boas aspas sobre as mesas redondas de nossa época, as mídias sociais:

“Last week my wife and I told our 13-year-old daughter she could join Facebook. Within a few hours she had accumulated 171 friends, and I felt a little as if I had passed my child a pipe of crystal meth”

***

“But before we succumb to digital idolatry, we should consider that innovation often comes at a price. And sometimes I wonder if the price is a piece of ourselves”

***

“Basically, we are outsourcing our brains to the cloud. The upside is that this frees a lot of gray matter for important pursuits like FarmVille and “Real Housewives.” But my inner worrywart wonders whether the new technologies overtaking us may be eroding characteristics that are essentially human: our ability to reflect, our pursuit of meaning, genuine empathy, a sense of community connected by something deeper than snark or political affinity.”

***

“Twitter is not just an ambient presence. It demands attention and response. It is the enemy of contemplation. Every time my TweetDeck shoots a new tweet to my desktop, I experience a little dopamine spritz that takes me away from . . . from . . . wait, what was I saying?”

***

“Whether or not Twitter makes you stupid, it certainly makes some smart people sound stupid.”

Tags for life

É hora de admitir.

Quando trabalhei na Berrini, lá se vão seis anos, conheci uma menina. Digamos que seu nome seja Sofia Amundsen, só porque ontem lembrei do livro. Para toda conversa ela tinha uma boa referência, bons livros, boas aspas, boas indicações de bibliotecas em Denver, literatura de cordel de épocas específicas e restaurantes japoneses no Tremembé. Gostava de U2 embora admitisse o blasé revolucionário, era uma pessoa boa de conversar, um suprassumo de correntes pop e disks entrega de pizza no Brooklyn para depois do expediente.

Todas as vezes que encontro alguém com seu estilo lembro de Sofia e classifico a pessoa, literalmente, em um grupo mental em que estão todos os semelhantes.

Isso é uma atitude bem errada em vários pontos se você prestar atenção porque (a) é dizer às pessoas quem elas são por meio de uma tag, sem dar a elas o direito de ser uma tag; (b) É dizer à Sofia que de tão clichê, seu way of life foi transformado num marcador de blog, ao menos pra mim; mas acima de tudo (c) isso de levar mecanismos de blog para a vida real já deve me garantir mais anos daquela terapia que nunca comecei.

Deus e um rosário

Há pelo menos 10 anos, eu costumava andar com um rosário enrolado no punho direito. Sim, um rosário, esse pokemon evoluído do terço. Eu fui colaborador da igreja católica depois de um encontro de jovens, aos 17 anos. Então, digamos, quando você estava indo pra faculdade ouvindo AC/DC no CD Player, eu era o cara do seu lado quieto, de cabeça baixa e trocando as contas de bolinhas a cada oração. Eu tocava guitarra na missa, violão no grupo de jovens, pedia comida nas comunidades, me reunia para organizar as paradas e fazer um monte de gente maluca pensar algo além das festas juninas do bairro.

Era isso que representava pra mim, fazer alguém poder pensar, mais do que isso, era poder me ocupar em algo além de tocar violão e beber vinho no mercado. Ainda que você me diga que pensar em religião é um pensar menor, oblíquo e quase alienável, é um pensar. E isso, para muita gente vale mais do que qualquer faculdade. Sabe aquele pequeno trecho de um livro que mudou sua vida, aquela palavra que te deixou desconfortável na cadeira, aquela banda, aquele filme, aquele grupo, aquela época que foram essenciais e sem as quais você não teria livrado seu pensamento do Domingo Legal, Parangolé e Band FM? Algumas pessoas nunca tiveram seu ponto de mudança para um pensamento mais livre e desapegado do imaginário popular. E a religião pode funcionar como esse ponto.

Mas isso é bobagem. O negócio é que eu andava com as porcarias das bolinhas enroladas no punho. E as tiazinhas do ônibus adoravam puxar conversa enquanto eu trocava bolinhas, mesmo sabendo que eu teria de parar de me voltar ao CRIADOR DO UNIVERSO, para dar atenção a uma FREE TALKER COM SENSO DE OPORTUNIDADE. Eu era bem mais amargo que hoje, a propósito.

Hoje lia em frente à lareira saboreando um cabernet Sauvignon no trem, rodeado de gente feia, “Espere a Primavera, Bandini”, primeiro livro de John Fante. Um dos capítulos começa falando de Arturo, um dos meninos da história, que tinha certeza de que não ia para o inferno:

“A maneira de ir para o inferno era cometer um pecado mortal. Ele havia cometido muitos, acreditava, mas o confessionário o salvara. A confissão sempre chegava a tempo… isso é, antes de morrer. E batia na madeira sempre que pensava naquilo – sempre chegaria a tempo… antes de morrer. Por isso Arturo estava bastante seguro de que não ia para o inferno quando morresse. Por duas razões. O confessionário e a de que era um corredor veloz.”

Sou desses malandros que acreditam em Deus, mas ficam sem jeito de dizer que não são religiosos, como a definição pede. Existe um quase martírio ao admitir sua crença, mas também uma culpa mortal de negá-la e ser esquecido. Permanecer sozinho na imortalidade, como dizia a introdução de outro livro do qual já não me lembro.

Poderia omitir isso tudo, mas meu maior medo é o de que não exista nada. E estarmos levando toda essa vida desgraçada para inexistirmos, para termos existido um dia. E começo a me torturar pensando em quantas pessoas vão se lembrar de mim na virada do outro século (tá, tio, se o mundo não acabar em outubro). Olho para as pessoas ao meu redor no trem, apressadas e desgostosas, não parecem estar se importando tanto com isso. Mesmo com a falta de brilho no olhar, eles continuam tementes, inertes, caladas e distantes.

E então cheguei em casa e olhei para o rosário, pendurado na parede do quarto. E dei um nó cego em todo esse pensamento, pedindo a Deus que me garanta um pouco mais dessa ingenuidade bonita e menos dolorosa das pessoas do trem e de Arturo Bandini.

Onde vivem os monstros


Worried Shoes, Karen O & the Kids

A vida é esse grande supermercado de lembranças. A gente caminha pelas ruas e encontra num dos corredores aquele amigo com quem batia figurinhas na escola, aquela menina que te ensinou significados novos para a palavra “platônico”, embora não faça a menor puta idéia disso. Gente que fez diferença para que você construísse isso que você é.

Infelizmente, “isso que você é” não é algo que seja feito apenas de grandes gênios, bons corações e existências iluminadas. Acabamos invariavelmente encontrando também aquele setor abandonado de frutos do mar, uma bancada que cheira azedo e só pode oferecer pedaços de escamas perdidos entre o gelo, alguém de quem tentava se esquecer, alguém que traz seus pesadelos mais escondidos à tona, alguém que talvez não se importe muito com tudo isso e talvez nem saiba de que forma sua presença pode causar terror.

A gente sempre sabe. E passa batido, em frente, a mente tentando abominar a imagem, como a de um fantasma, um monstro que escapulira do armário de onde nunca deveria ter saído. Mas a lembrança continua com você, pra sempre. É ela que você carrega no carrinho, embaixo de todo aquele amontoado de potes de geléia e sacos de arroz de cinco quilos.

Não adianta esconder seus monstros, nunca adianta, eles sempre voltam. A única receita a tudo isso pode ser a mais fácil que é saber conviver com eles, que retornam em momentos inoportunos, como um nariz que sangra, para você lembrar quem foi um dia. Vão te dar aquele olhar de que sabem mais sobre você do que você mesmo. E voltam para aquela ilha escondida em um lugar qualquer que nossa alma cria.

Todo um pacote de ironias da vida

E hoje que voltei ao trabalho, mudei para uma mesa nova de uma outra pessoa e, nesse ínterim, discuto com a Denise nossas visões diferenciadas sobre casamento, nada demais, é normal acontecer uma vez que ela é a célula promissora do casal e eu o jerk que enxerga as coisas com bases na realidade etc.

Não vou expor toda minha opinião sobre casamentos aqui, mas com base no teor deste blog você deve ter uma mínima noção. Opinião essa que não é de todo enxaqueca, diga-se de passagem. Só mantém os pés no chão e coloca razão na idéia geral, mas a razão pode atrapalhar o que é sonho.

Daí que depois de magoados, toda aquela coisa bonita, eu olho para a mesa a qual meu computador foi alocado e…

Pra provar que meus títulos nunca são à toa.

PS.: perceba que, neste caso, ao contrário dos outros, é a mocinha que está triste e com uma arma na cabeça. =/

Ensaios de Férias

Daí você chega no trabalho e mudaram tudo. E você fica lembrando seus insights incríveis no chuveiro, com aquela euforia de que todo mundo vai ouvir suas idéias numa reunião cheia de risinhos de reconhecimento e cabeças confirmando tudo, olhares cínicos invejando seu júbilo, sinfonias tocando Wagner nos seus ouvidos ao sair da sala e um ‘belo trabalho, Robson’, sinal de gratidão, cereja do bolo.

Apesar de tudo, não foi nada tão assustador assim e basicamente vai continuar tudo a mesma coisa, por enquanto. Eu é que estava com planos demais na cabeça.

“É próprio das pequenas almas soterradas sob o peso dos negócios não saber se desprender totalmente deles, não saber largá-los e retomá-los”
–Montaigne, Sobre a experiência.

***

Finalmente terminei os Ensaios, de Montaigne. Assustadora e vergonhosamente, o primeiro livro do ano. Quase 600 páginas de puro êxtase filosófico sobre tudo o que a gente teme ou evita pensar. Aspas de Sêneca, Ovídio e vários outros clássicos que deveria ter lido há mais tempo, grandes citações, um volume da Companhia das Letras que me orgulho de guardar todo marcado com post-its e páginas amassadas, trademark dos vagões cheios na linha 9 da CPTM.

“Os Essais são um auto-retrato. O auto-retrato de um homem, mais do que o auto-retrato do filósofo”. Marquei isso na Wikipédia enquanto tentava definir minha sensação ao terminar o livro. E foi isso, exatamente. Fica nítida também a evolução ou amadurecimento do pensamento de um homem que troca seus primeiros escritos ferozes e cheios de vida da mocidade (olha, “mocidade” é uma palavra bonita em extinção) por reflexões sobre cólicas renais e males da medicina ao envelhecer.

Como a vida, sempre.

‘So sorry, that’s over’

Último dia de férias é o domingo mais longo do ano. É aquele climão do final do Fantástico elevado a potências de valor infinito. Sou eu assistindo Filhos do Pai Eterno na Rede Vida com meus pais às cinco da tarde, abençoando água e tentando zerar o Google Reader sem usar o ‘Mark All as Read’.

Em um balanço geral, as férias cumpriram bem o propósito e tal. Mesmo não conseguindo dar ok em metade daquelas metas que tinha previsto, descobri que esse período que te pagam para cochilar de tarde e ligar na portaria porque a molecada está brincando demais do lado do seu carro, é também uma época para lembrar como era aquele tempo em que você voltava da escola, não tinha quase nada pra fazer e podia passar suas tardes comendo Trakinas com leite e vendo Um Maluco no Pedaço, Chaves, Chapolin e Malhação (isso explica muita coisa).

Outra descoberta dessas férias é a de que não existe mais saída para o trânsito da cidade de São Paulo. Esse pessoal que diz “daqui a pouco, até domingo de tarde vai ter trânsito” já está bem atrasado. Duas vezes eu tentei sair de carro, uma para Pinheiros, outra para o Centro. Ambas, às duas da tarde e sem qualquer sucesso.

Bem, acabou. Foram dias em que deu pra ver como funciona meu bairro enquanto eu não estou aqui. As tiazinhas mancomunam o editorial de fofocas que irá pautar as reuniões no banco da rua de noite, que só vejo quando passo ao voltar do trabalho. Deu pra notar também que essa galera sempre feliz caminhando no mercado terça-feira às duas da tarde são apenas desempregados formadores de alguma triste estatística.

E, por aqui, estamos de volta com a programação “normal”.

Ainda em férias

Uma semana para voltar de férias. Se isso aqui anda abandonado, tem lá seus motivos: quando não estou por aí pegando trânsitos mortais às 15h (sério), estou em frente à TV colocando filmes e séries em dia (na pior das hipóteses), ou compondo -e quem diria que um dia eu voltaria a falar assim.

Volto semana que vem e já desisti das metas. Como bem disse o Lipe depois da final do Paulistão, ontem, ‘a gente programa as férias todas e no final fica frente a televisão coçando e achando foda’. Faz todo o sentido, mesmo com uma programação do tipo Um maluco no pedaço, Todo mundo odeia o Chris, Vale a pena ver de novo etc.

Mas tem o MTB, que estou pensando seriamente em tirar, mesmo com os itens ‘acordar cedo’ e ‘pegar fila’ fora da lista do que fazer nas férias. E tem essa mostra de cinema suiço no CineSesc e CCBB (só a Denise mesmo), que parece ter alguma ou outra coisa legal, vamos ver. Não é o In-Edit, que perdi feio pras inconstâncias e leis de tempo-espaço, mas dá pra passar.

***

Semana passada conheci o amigo Toninho Moura. Marcamos de ‘tomar uns bons drink’ [] no Ton Ton, em Moema, que estava fechado e, avaliando o contexto mais tarde, não era tão receptivo e acolhedor quanto o barzinho de esquina no qual passamos uma noite fria bebendo cerveja e trocando idéias sobre a vida, o universo e tudo o mais.

Conexões importantes essas, não? A gente vive achando que não vai conhecer as pessoas e de repente lá estão elas na sua frente com seus dogmas, seus conhecimentos literários e parecendo com o Danny de Vitto na medida em que você fica mais e mais embriagado. O cara é incrível, sabe de cada personagem de seus contos mais do que você conhece seus próprios colegas de trabalho, para dar um exemplo mais simples. Gente fina, desse tipo mais difícil de encontrar por aí.

Uma satisfação, mesmo.

***

Lendo o texto do Leo sobre conhecer o pai da Sandra lembrei que volto a trabalhar na semana que vem. E segue aqui o raciocínio de como cheguei a essa lembrança.

Minha mudança de local de trabalho foi até agora meio conturbada e sem diretriz, saca? Primeiro mês no novo lugar conheci algumas pessoas, passei batido para várias outras por toda uma dificuldade de me adaptar a gente nova sem me exaltar, fazer piadas demais, passar por fanático religioso ou alcoólatra, essas coisas.

E agora vem as férias, quebrando todo um ciclo (não é uma reclamação, eu realmente precisava esfriar a mente que vinha num funcionamento corporativo contínuo desde 2009).

Espero, ao voltar, poder fazer as piadas certas, admitir meu cristianismo envolvendo ‘Deus, um delírio’ e dizer que bebo vodka com schweppes, que é um negócio socialmente mais aceitável que Caninha da Roça com Pepsi.

Que Deus me ajude. Ou não.

Status das metas descumpridas

Postei uma lista das metas das férias e já comecei mal ao perder a sessão dupla do in Edit na sexta talvez com os dois únicos filmes que eu gostaria de ver na mostra, um sobre o Lost Poets e outro sobre a cultura folk nos anos 60? Talvez.

Poderia descontar o problema dizendo que prefiro ficar em casa passando o tempo com qualquer outra coisa inútil, mas o fato é que eu tentei duas vezes e desisti depois de falhar miseravelmente.

Na primeira tentativa, eu iria até Pinheiros ver os preços de um pedal para guitarra, um teclado controlador e consultar a reforma da guitarra. Bem, digamos que eram duas horas da tarde e eu só consegui chegar no Largo da Batata às 16hpouco, desistindo antes de chegar na Henrique Schaumann, se é que alguém conseguiu chegar aquele dia.

Esse tópico musical eu consegui, uma vez que acabei comprando o controlador no sábado e vendo o preço da troca de captadores para a guitarra no mesmo dia, embora não tenha sido exatamente como eu esperava.

E então, na sexta, iria ao MIS, num workshop sobre produção de vídeo, aguçado pela quantidade de clipes que vejo e parecem não ter fio condutor, ou serem variáveis de uma câmera na mão e uma idéia na cabeça. Claro, o cara tem uma idéia deslumbrante, executa em duas cenas
e depois tenta enrolar os outros 4 minutos de vídeo com qualquer bobagem.

Quando percebi que não iria chegar a tempo do workshop, decidi ir até a Matilha Cultural onde ia rolar a sessão dupla e onde, num misto de mal entendidos com o dono do estacionamento, os horários da Denise e da sessão, acabou não rolando. Nem pelo torrent, o que é bem mais triste.

Pois os dois primeiros tópicos falharam, not a big deal, eu diria. Ainda sobram meu MTB, os westerns, o livro, o Insanity. Bem, talvez o próximo post eu fale sobre como desisti deles também.

Tudo bem postar com pressa?

Olá amigos, estou aqui na Rego Freitas, esperando o horário na Matilha Cultural pra ver aquele doc que tinha dito no in-Edit. Faltam 17 minutos pra acabar meu horário da lan house, e nove minutos pra acabar meu horário do zona azul. So, lembrei desse post do tumblr que pode servir pra muita gente, como eu e aí está.

Vou tomar uma multa ali e nos falamos em breve. beijos.

Tudo das últimas semanas

Primeira noite sem preocupação de trabalho no dia seguinte. Férias, finalmente. Adiaram, não pagaram, mas cá estou eu em casa com minha “galera”, que se resume em uma pizza, uma garrafa de vinho, o HDMI, e uns 14 Lucky Strikes.

Não sei marcar exatamente o ponto em que as coisas pareceram mudar de lugar. Mas de repente tudo mudou, como naqueles clichês de pagode do Chrigor. Tem a ver com vir trabalhar mais perto de casa, eu sei, me reacostumar ao trem e sentir pena de quem precisa ir para o trabalho de carro, sem julgar, mas poder pegar o trem com sono e lendo aquele Montaigne foi meu grande acontecimento desse ano.

A semana conturbada do meu aniversário também ajudou. Entrou tanta coisa na minha cabeça que agora estou conseguindo filtrar o que deve ser útil manter por aqui. Só não tenho mais certezas. De nada. E nunca me senti tão bem a respeito de tudo.

Deixei de postar com frequência, mas preciso arrumar um jeito. Talvez quando terminar Friends (Estou na oitava temporada, o Joey está apaixonado e, olha, acho que vou ver tudo entre hoje e amanhã do jeito que isso anda).

E entrei no antigo blog da minha banda de seis anos atrás, lembrei de uma época que me achava o mais legal da banca por ser um poeta de versos sem sentido. Constrangedor lembrar dessas coisas. E não, nunca gostei de Legião direito.

Então, vá lá, as pequenas metas das pequenas férias:

  1. Ver três filmes no in-Edit (o Duardo me recomendou chamado The Last Poets, Made in Amerikka, um filme sobre o clubinho de poesia do Gil Scott Heron. Daí pra frente me empolguei e vou listar três pra assistir)
  2. Fazer um orçamento da manutenção da guitarra em algum Luthier da Teodoro
  3. Tirar meu MTB (ainda tenho traumas da faculdade, mas já faz cinco anos e eu entrei numas de que preciso superar)
  4. Fazer uma semana de Insanity, aquele programa de exercícios monstruosos que os moleques assistiam na Cultura pra ver as mulé alongando.
  5. Começar o livro novo, revisar o velho (se eu achar o arquivo) e ver quanto custa uma impressão estilo pocket book.
  6. Assistir sete westerns (ainda a escolher)

Já que fico por SP, vou marcar algumas coisas que não faço faz tempo, tipo ver os instrumentos na Santa Ifigênia e testar amplificadores valvulados que nunca vou comprar. Comprar um boné sem marca, se ainda existir aquela loja de bordados na galeria do Rock. Comer a mortadela do mercadão, talvez com meu pai, olha, que idéia. Talvez seja a hora certa de tirar proveito do Google Calendar.

IR 2011 e Scatman John’s Orchestra

Até 2010 eu vivi pagando alguém para fazer minha declaração do imposto de renda. Mas minha mãe algo me dizia que esse ano eu ia fazer sozinho. Em janeiro já estava pensando no assunto: “po, primeira vez, não sei como funciona, vou fazer bem antes do prazo pra não ter erro”.

Baixei o programa no mesmo dia. E comecei: “Vamos lá, nome, CPF, endereço, po, é bem fácil, é pra isso que esses merdas ficam cobrando 70 mangos de gente inocente como eu? Então tá, vamos lá… putz, mas título de eleitor, mano?”.

Abandonei até duas semanas atrás com minha mãe cobrando a parada como se minha vida dependesse completamente disso. Foi aí que, finalmente, achei o título de eleitor: “Aí sim, agora os valores. Mas e cadê os extratos de rendimento?”.

Novamente abandonei. Até ontem, quando o amigo Adolfo me deu uma aula prática passo a passo por uma módica caixa de cervejas cintra e me fez descobrir porque a gente paga esses seres de luz para declarar nossos impostos.

***

Claro, tendo uma aula de IR depois da meia noite, tive de dormir uma da manhã. De novo. OK, nos outros dias era só pra ver Friends.

E digamos que tentar dormir com uma obra funcionando ao lado da sua casa é a mesma sensação de ter um milhão de Scatman Johns cantando a introdução de “I’m a Scatman” do seu lado da sua cama:

Ainda bem que as férias começam amanhã. =)

Uma cópia de uma cópia de uma cópia

Competindo arduamente com Beleza Americana e Franklyn (que preciso rever em caráter de máxima urgência), o Clube da Luta está no top 5 da minha vida. Não é só um filme de gente que briga, espero que vocês saibam disso. Se não souberem, por favor, aluguem, baixem, comprem. É desses filmes com personagens conturbados e problemáticos, com a história mais maluca e sensacional que conheci.

Definitivamente esse é o primeiro filme de minha lista.

Não é o primeiro da lista só pela história, mas sim por todas as cutucadas sobre a vida servil do homem moderno, sobre tudo que vai continuar fazendo sentido durante toda nossa vida. O Clube da Luta funcionou pra mim como aquele amigo punk que te leva para uma reunião do Comitê Anarquista de São Paulo na Av. Paulista (não sei se existe).

Foi o primeiro filme a me mostrar que existem coisas erradas demais no mundo que vivemos e como elas são mascaradas e fingidas para serem tratadas como normais e corretas.

E segue abaixo uma coleção de gifs do Clube da Luta. Não são todas as melhores cenas, embora todas sejam bem marcantes na história. Fica aí minha contribuição e uma boa oportunidade para rever o filme e lembrar do Helpful Tyler Durden:

Fiz isso com Requiem para um Sonho na era jurássica deste blog, just for the record.

Happy Birthday, Mr. President

São 27 anos nessa imensidão de vida. Quase três décadas pode-se dizer também. ’27 anos não são 27 dias’, imortaliza minha mãe. Não são. E cá estou. Finalmente num dia bacana, numa empresa bacana, escrevendo um post na hora do almoço. Lembrando da namorada. Dos amigos, dos velhos e bons, dos novos e sinceros.

Começo a rever o ano passado e vejo como estava perdido. O Koelho profetizou de manhã que 27 é a idade-chave. Não sabemos exatamente em que sentido, mas até agora neste pequeno balanço anual, tudo parece um grande recomeço.

Falo da banda nova, das músicas que tenho pensado em fazer, de ter que levar meus pais no aeroporto amanhã, de faltar uma semana pras férias, de estar incrivelmente bem mesmo com tantos artifícios temperamentais me impedindo. Por querer comprar o Primeiramão e procurar apartamentos para alugar no meio do caminho, por ter todo um plano envolvido nesse negócio de roomate quase marido. Por ter passado os dois últimos finais de semana recusando cerveja e querendo só uma paz estranha, solitária e sem vinculos quaisquer.

Hoje eu não ganhei carona, não saí pra almoçar com a galera, não acordei com uma dúzia de presentes, não recebi sequer uma ligação. Passei muitos anos fingindo ter um monstro apriosionado querendo morrer nesta data, mesmo com um monte de gente me ligando, vários presentes e comemorações. Hoje consigo dizer que meu reveillón particular (como alguém disse outro dia), é sempre uma grande data pessoal, mesmo sem festa, confete e presentes.

Feliz aniversário pra mim.

Quer dizer…

Sou adepto a dar os parabéns a aniversários no Facebook. Acho de bom gosto, principalmente para as pessoas lembrarem do seu manter a atividade do perfil.

Daí que outro dia era aniversário de uma antiga conhecida, sobrevivente da faculdade. E comecei a lembrar que, na faculdade, tal qual em meu antigo emprego, um grupo de garotas costumava se chamar de Re, Fa, Si, Sa, então eu me graduei sem saber ao certo o nome de algumas pessoas.

E foi então que entrei no perfil da Regina desejando feliz aniversário para a Renata.

Sobre Fatores Extras

Algumas vezes vejo um homossexual extremamente feio por um conjunto de fatores que vão além de sua opção sexual e penso ‘porra, mas quem diabos poderia querer transar com esse malandro?’. Aí penso em postar a parada no Twitter e ser recriminado mortalmente, tomar uns 6 unfollows e seguir a vida, essas coisas.

Analise bem, entendo que meu hall de preconceitos só me permite relacionar homossexualidade à sexualidade e não ao amor ou ao sentimento, por exemplo. Mas não é um simples caso de homofobia, eu só acho que quando um cara é realmente muito estranho por esse conjunto de fatores que delimitam minha opinião pessoal, ele opta por uma parcela menos explorada dos relacionamentos íntimos.

Considerando que a relação homem x mulher é a relação usual do ser humano, ele escolhe participar do “grupo de escolhidos”, sejam gays, bissexuais, zoofilos (?) etc. Gente que vai aprová-lo por uma condição extra que vai além de ser ridiculamente horrível, que é o fato de optar pela homossexualidade, pela bissexualidade ou por fazer amor com seu cachorro. E eles o acolhem, o abraçam e formam esse novo nicho de assinantes da revista NOVA (ou da Cães & Cia, em casos mais extremos).

As usual, nunca chego a lugar nenhum com isso tudo e termino o raciocínio imaginando uma pesquisa encomendada pela Globo apontando o quanto decaiu o nível de beleza entre os homossexuais recém adeptos. E então procuro algo melhor pra desperdiçar meu pensamento.

Tablets e toda essa choradeira

Melhor atual definição sobre tablets veio num making of promocional do Xoom, o novo gadget da Motorola que teve pré-lançamento numa página lindona no site da firma. O vídeo é gringo e estava um pouco em cima da hora demais para legendar, mas esse trecho chamou muita atenção:

“Você pode fazer um tablet, mas dependendo da maneira que funciona o software, a experiência não é otimizada para um tablet. Então você sente que comprou um smartphone e que ele só não cabe mais no seu bolso.”

—Jim Wicks, Vice Presidente da Motorola

Certo que o Android Honeycomb (o novo sistema operacional dedicado a tablets) promete melhorar tudo, mas a verdade tá aí. Ou não. Realmente não faz sentido algum andar com um “smartphone de 10 polegadas” por aí. Também não faz sentido dizer: “vale a pena se a conexão for rápida” porque o fator tamanho não tem relação nenhuma com o fator usabilidade. E esse sou eu levando isso muito a sério.

Ter um tablet que rode o mesmo Android do seu celular não agrega. A não ser que você seja um aficcionado por exibir seus pertences por aí, como esses carinhas que ouvem sets de funk e sertanejo no metrô. Ou que você tenha quatro metros de altura e bolsos gigantes.

É justamente por não querer toda essa conectividade, interação, joguinhos, mídias sociais e câmeras de alta definição que eu ainda prefiro os tablets dedicados a leitura como o o Kindle ou o Positivo Alpha.

Good times are back again

Um filme que definitivamente preciso ver é esse Simple Man, ou Simples Desejo na versão em português. Porque um diálogo desses merece todo nosso respeito:

Ned Riffle: I want adventure. I want romance.
Bill McCabe: Ned, there is no such thing as adventure. There’s no such thing as romance. There’s only trouble and desire.
Ned Riffle: Trouble and desire.
Bill McCabe: That’s right. And the funny thing is, when you desire something you immediately get into trouble. And when you’re in trouble you don’t desire anything at all.
Ned Riffle: I see.
Bill McCabe: It’s impossible.
Ned Riffle: It’s ironic.
Bill McCabe: It’s a fucking tragedy is what it is, Ned.

Lembrei desse trecho numa vinheta do Reffer (que voltou a tocar!), na abertura de Interference, de 2001:

E só lembrei do Reffer essa semana porque os bons tempos estão de volta. Deixemos assim. =)

Proselitismo Troll

É que quando algo é muito novo pra mim eu tenho aquela tendência a ser esquisito. É um comportamento que varia de acordo com a demanda psicológica que a situação exige. Fica tudo mais fácil quando apenas alguns simples small talks resolvem: ‘porra, é foda’ vem junto daquele raciocínio meu e do Wolvs que palavrões geralmente resolvem qualquer conflito social, além de serem claros demonstradores de interesse. A teoria é grande, um dia eu explico melhor.

O fato é: nesta fase eu não consigo puxar assuntos, manter conversas saudáveis e começo a cogitar trazer minha caveira para fazer de porta trecos. É como se eu tentasse convencer todo mundo que sou um maníaco inveterado até a crise passar e eu voltar a ser só um malandro risonho e educado, que não sabe se vestir bem.

Inferno Astral, a brand new season

Nunca me disseram que eu podia sonhar. Acho que isso foi fundamental para que eu crescesse sem grandes obsessões. Descobri isso de uma maneira um pouco pesada demais que, afinal, é o melhor jeito de aprender. Não vou contar toda a história, mas posso dizer que envolve a Denise, condomínios de luxo dos Jardins e uma carta.

Ultimamente, o que tem me atormentado a mente são as respostas que não consigo dar para auto questionamentos até simples demais. É a perfeita ironia concretizada daquelas perguntas que me faziam nas entrevistas “onde você se enxerga daqui há cinco anos?”, ou “me fala que é o Robson Assis?”, ou “quais são seus planos pra vida, afinal?”. Max Gehringer manda lembranças com um sorrisinho sacana no canto da boca.

Daí que o inferno astral desta temporada está me trolando de forma que ninguém mais possa perceber. Por enquanto, vamos lidando relativamente bem. Aguardem os próximos episódios.

Tempo de partir

Limpar a mesa é um negócio zoadíssimo na hora de ir embora, tanta gente pra lembrar, tanto abraço pra receber, pensar na herança dos meus post-its, do meu adesivo cheio de ódio colado na CPU. Foi difícil tentar escrever qualquer coisa aos amigos e talvez seja melhor ficar apenas com seus pequenos adeus na memória.

Uma música pra hoje: Explosions in the Sky, Our last day as children, bem no climão de despedida do escritório. Instrumental e inadequado como o meu ‘até logo’.

E um gif, pra simbolizar minha reação de hoje enquanto não paravam de me dizer: ‘po, é amanhã, hein’!

Não consigo emocionar todo mundo como aquele post de despedida do Leo. mas fica para uma próxima, prometo estudar mais.

Notas da Mudança

Últimos dias no QG de produção web da Aldeia da Serra. Na sexta-feira estarei embarcando para um futuro inóspito do qual confesso estar num cagaço foda manter certo receio. A parte disso tudo, vou limpando os 13GB de música do computador daqui ao mesmo tempo que salvo toda minha vida corporativa num pendrive de 4GB que irá comigo para o headquarter da Vila Olímpia, de onde vou continuar os trabalhos (“os trabalhos”, Dona Ederlazil?).

Daí que tive que sair no almoço sozinho para ver pela última vez os lagos da Aldeia da Serra, os patos que atravessam juntos uma avenida que nunca soube o nome e as casas pouco modestas do lugar. Eu sei que “pela última vez” é só um drama corriqueiro e um refrão no NX Zero, mas ter a natureza aqui próxima todos os dias acostuma, sei que, uma hora ou outra, vai fazer falta.

Só para explicar o porque de estar no trabalho às 21h54 de quarta-feira, estou com dois cargos e tendo de zerar as pendências de um para poder pensar no outro, quer dizer…

E agora a gente fica aí esperando a sexta-feira e a cara de bosta que costumamos fazer nos primeiros dias em lugares quase totalmente desconhecidos.

Ser roubável

Eu criei uns tempos atrás uma medida social que define o quanto estou apresentável para o mundo, que se chama com “o fator roubável”. Quanto mais roubável eu estiver, mais bem apessoado estou para os olhos fortuitos da sociedade.

Não raro estou no shopping com a Denise e ela diz algo sobre como seria legal que eu me vestisse como aquele manequim da M. Officer quando eu respondo: “se eu me vestisse assim, até eu me roubaria”. De acordo com esse meu estudo (pff!) ser “roubável” é estar inserido no contexto, ao passo que ser “não roubável” é ser invisível, só outro pequeno ponto na multidão.

Há muito tempo trago comigo esse street knowledge, que me permite entender qual o nível em que fulano pode se considerar uma vítima de ladrões de relógio, de ocasião, sequestradores, golpistas etc. Em 2008 escrevi esse pequeno conto baseado numa história que o Wolvs me contou (sempre o Wolvs) e que, acredito, serviu de base para esse raciocínio provavelmente tão neurótico quanto o do casal mais sinistro que você já viu na sua vida.

A equação antes variava apenas de acordo com as roupas que você veste, mas outros fatores foram sendo incluídos com o tempo. Usar acessórios como iPod, ou o simples fato de ter um fone apregoado em seu ouvido já aumenta o coeficiente. Estar com o aparelho nas mãos, dependendo dos casos, dobra/triplica o número.

(nota: ouvir música em ambientes coletivos sem fone de ouvido acarreta sua imediata inclusão no grupo de infratores a quem esse post não se destina).

Ainda nas variáveis estão o carro que você dirige, os gadgets que você usa (OK, Macbooks são permitidos), as marcas que você veste, até as músicas que você ouve. Quanto mais holofotes em cima de você, mais riscos. Vale a lembrança de ‘mo money, mo problems’, do Notorious B.I.G. Por outro lado, quanto maior simplicidade, mais chances de ser apenas coadjuvante e passar batido, como diria Mano Brown em ‘Eu sou 157’ (how convenient?): ‘quem não é visto, não é lembrado’.

Para concluir, o fator roubável é só uma matemática mental boba que trabalha com todas essas contradições simples e citações de rappers. Você quer estar bonitão ou quer ser invisível? Como sempre, no final, você decide.

Living on the little edges

Enoch é um senhor de nome bílbico que tem um bar nas redondezas da casa dos meus pais, onde, merda, detesto dizer isso, ainda moro. O bar do Enoch tem uma mesa de sinuca, quatro freezeres e uma sala devidamente escondida para máquinas de caça-níquel. Possui uma clientela que gira em torno de tiozinhos desesperançosos pagando doses de Fogo Paulista com o dinheiro do INSS, traficantes à paisana (se você puder considerar “à paisana” um moleque de 19 anos de bermuda, sem camisa, usando corrente e relógio de ouro) e vez ou outra um pessoal descolado da vila que fica ouvindo aquele clássico do Pharoahe Monch no som do carro e relembrando bons tempos que viveram.

Aquém desse universo, Enoch e seus funcionários costumam ter táticas matreiras de expulsar seus clientes com civilidade, fingindo ao mesmo tempo que isso tudo é apenas parte do trabalho. Primeiro, eles param de vender fichas de bilhar à meia noite em ponto. Depois, cadeiras vazias dessas de metal começam a ser entrepostas sobre a mesa, de forma que uma batida de olho gera o raciocínio imediato de que o bar está encerrando suas atividades. Coidigênio, uma aula de semiótica, bem ali, no coração do comércio local.

Então, eles deixam de vender bebida. Se você quiser alguma especialidade como o notório Dreher com limão, eles vão te servir em copos plásticos e você deverá esperar um bocado, pois os três funcionários já estarão executando a terceira parte desse processo de exorcismo ao varrer a calçada, seu pé e o de quem mais estiver na equipe de resistência. Alguns muitos rebeldes teimam em permanecer no local e então segue-se um plano alternativo em que, após varrer a calçada, eles lavam tudo com água e sabão e o bar fica com apenas uma das portas entreabertas.

Se ainda assim sobrar alguém, apela-se para o lado afetivo. Neste momento, os três funcionários saem com cara de sofrimento e dizendo, po, “amanhã eu tenho prova da faculdade”, ou “minha mulher e minha filha, cara, minha mulher e minha filha” ou ainda clássico “eu também tenho uma vida fora daqui, cara”.

É uma maneira do Enoch dizer, adoro vocês, caros clientes, mas agora chega, vão procurar uma conveniência ou mercado 24 horas. Não é nada pessoal, mas eu preciso da minha liberdade pra poder estar aqui amanhã às 7h preparando o primeiro garrafão de café do dia, mas agora não dá mais, vão embora, eu imploro.

Um belo compêndio introdutório para dizer que (excetuando a relação dono x cliente) a sensação de viver com meus pais às vésperas dos 27 anos é exatamente a mesma de estar no bar do Enoch às 00h15. No final, as táticas para expulsar clientes indesejáveis e filhos beirando os trinta são as mesmas.

——

ps1.: Inspirado na terça-feira em que ninguém estava numas de conversar comigo em casa. Provavelmente com o pensamento de que eu estou me aproveitando da situação e qualquer outro gasto que esteja fora do programa Minha Casa, Minha Vida será o estopim que vai me manter morando lá durante a próxima década.


ps2: Não vou nem comentar o quanto a frase principal de Simon Says (a música do link) tem relação com este texto.

Droga, ‘N’

Era uma noite fria de outono, me encaminhava à casa de Leo Pollisson para encontrar amigos, tomar cerveja razoavelmente gelada e comer pizza de forno (e ouvir forró (?) Bem isso foi uma consequência que não vem ao caso aqui). Era noite. E era fria.

Vagava pelas ruas um tanto desertas de sábado à noite numa Brasilândia que começava a lembrar o velho oeste. Denise estava no carro comigo e conversávamos algo que não me lembro bem:

-…mas fulano é um músico fajuNto — eu disse.
-Fajunto? hahah, é FAJUTO — ela me corrigiu.
-Que fajuto, enlouqueceu? FaJUNTO! (a entonação era muito importante)
-Vamos tirar a dúvida quando chegar lá.

E aí, óbvio, todos me alopraram insistentemente endossados por meus 26 anos e meu diploma de jornalismo. desde então a palavra perdeu a graça, era “fajuto”, uma palavra toda nova, mas sem paixão, não era mais aquele fajunto moleque que eu aprendi errado na escola.

Essa é a história de uma garota nova que sem nada na cabeça quanto mais nessa cachola, anda dizendo por aí: “eu sou a tal” de como perdi a simpatia por uma palavra por causa de uma letra ‘N’.

Desktop



de Robson Assis
para Denise Bonfanti
22 de março de 2011, 19:30

“Ter sua foto na minha mesa é como ter você do meu lado o dia todo. não é pra lembrar de você. É pra saber que eu nunca vou te esquecer”

***

É um crescimento pessoal e tanto ter uma foto da namorada na sua mesa do trabalho. Diz muito sobre quem você é. Diz mais que essa frase piegas que você mandou por email. Diz muito sobre como você pensa sobre ela e a importância de toda essa história que vocês vão escrevendo. Não é o romance sereno e simples dos livros. E é bem melhor que seja assim.

Explica também uns sumiços no hall de amigos, explica porque você vai dormir cedo no sábado e começa a planejar com antecedência os feriados prolongados. E porque você prefere um jantar em casa e um clássico do cinema do que luzes coloridas frenéticas e gente bêbada te esbarrando.

Mas principalmente, explica que você rearranjou uns pauzinhos e destravou o firewall das suas ideologias insensatas pra colher um sorriso bonito que estará sempre lá quando você precisar.

she's the one

Foi ele quem começou

Briguinha do século é essa entre Casey Heines e Richard Gale. Mais comentada que os três minutos de Silva e Belfort, tomou proporções épicas após a entrevista de um e o direito de resposta do outro.

Quando dois moleques brigam e as mães ficam sabendo (“As mães”, neste contexto, a Internet) ninguém quer ter começado a briga. Pega mal, é anti-jogo, dá castigo. Mas os fatos estão aí, um magrelo partindo pra cima de um gordinho, incentivado por alunos que filmam a cena.

Enquanto decidimos quem está certo e quem está errado, o gordinho continua humilhado na escola e revidando às vezes. Você não pode fingir que não sabia que isso acontecia. Ninguém pode. É assim que seguimos garantindo mais discussões sem conclusão para cada disfunção social entre seres humanos que encontramos no Youtube.

Os homens mais perigosos da América

Daniel Ellsberg é o nome por trás do caso Pentagon Papers, que revelou ao mundo as mentiras desferidas durante a guerra do Vietnã. O documentário The Most Dangerous Man in America, de 2005, descreve com detalhes seus feitos para a história da democracia, às vezes em citações, às vezes em declarações humanas como essa:

“Em 4 de julho de 1946, viajávamos para Denver passando pelos milharais de Iowa. Um dia muito quente, ao meio dia, meu pai adormeceu ao volante e o carro saiu da estrada rumo a um canal, uma parede no lado da pista e arrancou o lado do carro onde estavam sentadas minha mãe e minha irmã e as matou. Eu estava do outro lado, atrás do motorista, tive uma concussão e quebrei um joelho, fiquei em coma por 36 horas e no hospital por cerca de três meses e meio.
Creio que isso provavelmente me deixou a impressão de que alguém que amava, como meu pai, ou que eu respeitava como autoridade podia dormir no volante. E tinha de ser observado, não porque fosse mau, mas porque estava desatento, talvez, quanto aos riscos.
11 meses antes quando eu tinha 14 anos, Hiroshima e Nagasaki tinham sido destruídas. Fiquei muito preocupado com essa sequência de fatos humanos. Pensei que era muito sinistra. O que eu via como um ato moral extremamente questionável do nosso presidente que eu admirava, Harry Truman, confundiu-se em minha cabeça com a falha do meu pai em ficar alerta e permitir que o carro matasse minha mãe e minha irmã”

Narrado por ele próprio, a história é contada através de fragmentos, como de costume, e remontada por meio de locuções épicas, declarações presidenciais, entrevistas, capas de jornais. Apresenta o personagem por completo, não apenas um revolucionário tentando quebrar as regras do mundo, mas sim um homem simples e sensato, em busca do que acha verdadeiro.

Um documentário sensacional, por apenas 700MB no Torrent mais perto de você.

A palavra é superfaturamento

Daí que a Maria Bethânia ganhou incentivo de 1,3 milhão pra abrir um blog de poesia. E então o debate na internet gira em torno de gente da minha geração considerando isso um puta desrespeito e gente da geração anterior para quem somos todos um bando de garotos restart, dizendo que ela merece tudo isso por conta dos serviços prestados (sic) ao país.

Os blogs dessa gente são ameaçadores e ofensivos como o Jorge Furtado ou até fazem uma boa tentativa de reflexão, como a reprodução no blog do Nassif, mas eles chegam ao mesmo denominador comum: o pensamento de que criar um blog, fazer cinema e criar uma revista podem ser colocados na mesma colcha de retalhos da lei Rouanet.

Bem, analisemos superficialmente, como nos é de praxe.

Se eu fosse um cineasta, poderia justificar meus gastos com equipamento, cenário, atores, staff, figurino, iluminação, edição, montagem, sem contar a pós produção. Para uma revista, contratar jornalistas, diagramadores, editores, revisores, até gente atabalhoada para distribuir no farol, se necessário.

Um bom dinheiro. Mesmo se você quiser fazer um documentário sobre a vida e obra da sua mãe, é algo complicado que demanda conhecimento de técnica, aprendizado e esforço. Talvez por isso a sétima arte ainda seja um campo um tanto distante da orkutização (uso a palavra como significado de popularização para o contexto dessa epifania).

Com um blog como o da Bethânia e como toda a estirpe dos nossos, você não precisa gastar nada além de sua própria cabeça e uma conta no Google. Uma filmadora simples com Full HD, vai, pra não deixar tudo meia boca, talvez um microfone e uma hospedagem mediana, pro caso de muitos acessos. Dá pra comprar óculos novos também, pra fazer umas de que está se importando com o visual e que já deixou os anos 80 pra trás.

E.MAIS.NADA.

Agora nego vem colocar tudo no mesmo balaio como se todos precisássemos de 1,3 mi acusando blogs de não se importarem em ganhar dinheiro com o MinC (logo os blogs) e vêm comparar uma musa da MPB (sério, não sei de onde tiro esses clichês, eles simplesmente aparecem) com um bando de gente querendo escrever literatura que se perderá com os anos e os acessos negados das contas inativas? Não, ninguém quer ser a Maria Bethânia e não tem a ver com moral ou bons costumes, basta fazer as contas e descobrir que tem gente fazendo isso há tanto tempo e com excelência como o Sindicato dos Escritores Baratos (o nome nunca pôde fazer tanto sentido) e os agora provocadores 365 poemas por 1 real. Coloque na lista também O Bule, literatura na contramão. E, como disse, refaça as contas.

Ninguém está dizendo que a Maria Bethânia quer ganhar dinheiro fácil, estamos apenas discordando desse pensamento que o Blog da Bethânia merece ser criado e gastar todo esse dinheiro destinado a projetos culturais por um bem maior da internet. Será criado por um retrocesso, como os túneis que Maluf construiu em São Paulo, me ajudem com a palavra, é quando se usa muito mais dinheiro do que o processo demanda… Esquece. Minha geração está realmente perdida.

Zeitgeist, março de 2011

As pequenas coisas, sabe. Quando li aquele Rousseau, ele falava sobre a sociedade que existia antes de existir o conceito de sociedade. E fiquei pensando no que poderia ter sido diferente. Pensando se havia alguma uma forma do mundo ser um lugar para todos, agora sem aquelas idéias velhas e igualitárias.

Claro que havia. Hoje, tudo o que resta são conceitos dizendo que você tem que lutar por seus direitos e sonhos, correr atrás do pote de ouro, ser feliz, ter sucesso. E no fim de tudo a gente se perde. Quando lembro daquele dia, penso em velhinhos morrendo em hospitais, o que deve passar na cabeça deles que viveram muito mais décadas que nós? Será que, no final de tudo, correr atrás do pote de ouro ou de uma vida sensacional e eufórica nos faz plenamente satisfeitos? Ou será que ter coisas pendentes a executar em vida é a maldição do ser humano?

Não sei exatamente quem foi o escritor que disse que a gente passa tanto tempo no esquema padrão de trabalho, diversão e compromissos sociais que a gente se esquece de tentar descobrir o que diabos a gente está fazendo aqui. A gente esquece de pensar. E lembro agora do que a Marília Coutinho falava na matéria da Trip sobre gente que vai para a academia e pendura o cérebro no vestiário antes de começar o treino. Isso vai muito mais além. Acredito que exista quem pendure o cérebro em casa e nunca o leve para passear. Gente que o exercita aos finais de semana e feriados. Gente que guarde no porão.

É inevitável perceber a contradição da evolução humana. Ao mesmo tempo que criamos carros, aviões, máquinas que nos ajudem a executar trabalhos com maior facilidade, criamos um sistema social em que as pessoas podem ter empregos e vidas inteiras destinadas a não exercitar o cérebro. Tudo foi transformado em máquina, numa negação de sentimentos e questionamentos, numa negação à vida.

Talvez a galera dos feudos não estivesse numas de ambição. Talvez estivesse tudo bem, o mundo era essa rede de colaboração e parceria, todo mundo com o sorriso do Netinho de Paula na cara. E então eles amadureceram a idéia depois que o primeiro canalha decidiu trocar sementes de feijão por trabalho camponês. E daí pra frente a descensão, a história, o horror.

Se isso não tivesse acontecido talvez fôssemos apenas seres vivos, mais parecidos com os animais, vivendo em vilarejos no meio da natureza. E não haveria toda essa catástrofe, nem todo esse desespero, nem todas essas contas do Bradesco em que você possa depositar dinheiro aos desabrigados. Não haveria desabrigados. E então poderíamos chamar o planeta de nosso lar e ter todo o tempo do mundo para manter nosso cérebro no lugar e funcionando, que é onde ele merece estar.

Ou talvez esse seja só mais um texto que toca diversas feridas expostas da nossa época, embora não chegue a conclusão alguma. =)

Quando crescer quero ser a Amazon

Recebi uma lista dessas com comentários de clientes da loja. O cara que mandou teve o inacreditável trabalho de separar os 3095 pareceres em níveis de sensibilidade que incluíam “atraso de entrega”, “mau atendimento”, “preço do frete” & shit. Aí, claro, os filtros que me chamaram atenção imediata eram “nunintendi” (hype doTeletube?) e “bobagens, desconsiderar”.

O filtro “nunintendi” trazia um texto sobre mensagens subliminares com o número da besta numa piscina infantil de 666 litros. Fair enough. Alguma falta de coerência e neurose religiosa pode acabar com a dignidade que resta às pessoas.

Mas era no filtro “bobagens” que estava o plot twist deste texto. O cliente falava sobre um conversor digital. Começou explicando que a imagem é realmente boa, apesar disso não caracterizar nenhum mérito, já que a ÚNICA função do aparelho era essa. E então ele diz que o conversor tem poucas facilidades, liga e desliga sozinho, esquenta muito, o teste de paciência que é usar o controle remoto etc. Críticas simples, inclusive bem escritas em detalhes. Se eu fosse comprar um conversor digital no site, gostaria de saber que tudo isso acontece com o aparelho. Mas, óbvio (nas empresas de e-commerce), emails como esse que denigrem a imagem do produto acabam sempre no limbo das memórias coletivas e back-ups de e-mail.

Uma das premissas de QUALQUER loja de e-commerce que abra suas portas é se parecer um pouco com a Amazon. Seja na qualidade dos textos ou apenas no botão de comprar com um clique só. O que ainda não foi descoberto é que a Amazon só é a primeira do mundo porque trata seus clientes como usuários de uma plataforma colaborativa de idéias e experiências em que se contribui criando reviews de produto por texto ou vídeo. Óbvio que tudo vai ser avaliado antes de ir pro site, mas se você der uma olhada na página do Kindle, por exemplo, vai ver que as pessoas falam abertamente sobre o produto, comparam, contradizem os textos publicitários, fazem do cu sanfona para contar sua história e fazem melhor para que ela apareça no site.

Esse é um problema cultural que envolve vários lados. Na Amazon, acima de tudo, o review de um cliente é avaliado pelos outros clientes, por isso chamei de “plataforma colaborativa”. É esse o mote que pode fazer o cara escrever algo sensato e deixar de lado frases soltas pejorativas que não acrescentem em nada. Isso permite que o cliente se esforce em escrever sua história da melhor maneira possível mesmo que denuncie a porcaria que é o tal aparelho.

Ainda assim, as grandes lojas de e-commerce nacionais possuem uma uma cultura de mercado que trata o consumidor como um núcleo aberto de onde se pode extrair dinheiro e não como a parte mais importante do processo de venda. Se o cliente achar o produto terrível e fake, ele é que não deveria ter comprado em primeiro lugar. Sabe, ignóbil assim? É jogar nas costas do público toda a deficiência dos aparelhos e fazer o cara se cansar em tentativas telefônicas para o atendimento.

Isso não é algo tão novo de se pensar ou tão complicado assim, o grande problema é que essas críticas, por mais construtivas que sejam só aparecem no site quando são positivas para a marca ou para a loja. Na cabeça desses mestres do varejo virtual, o cliente precisa acessar e ver apenas o que é bom no produto, se limitando a vasculhar o Reclame Aqui ou alguns fóruns confusos (no caso de aparelhos eletrônicos). As críticas ele guarda pra enfiar no rabo para as redes sociais, blogs e divulgação negativa boca a boca. Que é exatamente nosso limbo natural onde se perde todo esse conteúdo colaborativo que a Amazon tanto valoriza.

<-update em tempo-> Claro que depois de algumas trocas de e-mails, incentivadas pela chefe, o post rendeu mais do que eu mesmo poderia esperar. Rendeu debate, idéias e novas descobertas. Soube que o cara que mandou esse email está mais empenhado do que eu imaginava e que as idéias por aqui andam batendo muito. =)

É pouca zuera?

Eu não assisto Big Brother. Algumas decisões a gente toma partido por ideologia, outras por decência, outras por pânico. Essa é por indiferença. Eu nunca vou entender o motivo de boa parte da população se interessar tanto por relações pessoais de estranhos (e, a propósito, que tiozinho estranho aquele afeminado tentando provar que é o ser vivo mais feliz do universo a cada trinta segundos. Não sei o nome, supere).

Toda essa introdução desnecessária pra dizer que ontem eu assisti um trecho do programa e resetei minha senha do Gifsoup só pra deixar registrado esse momento mágico do entretenimento brasileiro (acima).

Eu não acredito mais no mundo

imagem via André Dahmer

Podem me chamar de superficial ou de rebelde sem causa, ou de jovem Che Guevara, mas o que venho aqui dizer considero extremamente sério, principalmente por não ter solução: O capitalismo fodeu com o planeta. E não encontro no vernáculo forma mais clara de dizer isso.

Ora, não fossem as buscas e competições por empregos decentes, os filmes, a expectativa inalcançável de sucesso, a corrida dos ratos e a busca por essa vida média e fácil não teríamos tanta gente com empregos desnecessários por aí e, por conseguinte, não teríamos um mundo tão amplamente deteriorado.

É preciso que você tenha um emprego que as pessoas comentem, porque as pessoas querem saber o seu cargo antes de qualquer outra coisa. Não interessa se você está estudando a cura do câncer ou formas de eliminar o lixo do Rio Pinheiros. É uma cultura e pressão social que leva milhares de pessoas se tornarem jornalistas, publicitários, designers e marketeiros com o sonho de que suas vidas se transformem em documentários no Vimeo (ps.: estou criticando aqui, basicamente, toda a minha lista de amigos e conhecidos).

Quando eu era pequeno gostava de desmontar e montar despertadores, relógios, televisores, seja lá o que desse para abrir com algumas chaves, eu gostava de saber como era por dentro. Não fossem meus pais seres humanos médios ou de pouco tato, talvez hoje eu estivesse em algum simpósio falando sobre os avanços da rede neural robótica. Mas não, sou um jornalista, porque era o lugar mais fácil que poderia ter me encaixado. Uma faculdade média, quatro anos entediantes, sucessivos empregos entediantes enquanto o mundo e a evolução se fodem.

Essa é a primeira parte.

Em segundo plano vem a oferta e a procura. O negócio que fez as duas versões do iPad. As quatro versões do iPhone. Eles não podem ajudar. Empresas precisam crescer, tecnologias precisam avançar então “vamos lançar o primeiro sem webcam mesmo sabendo que podemos lançar com vídeo conferência e muito mais utilidades só pra ver o resultado”. A terceira versão vem com slot pra cartão de memória, quem sabe.

Mas este é apenas um exemplo ridículo sobre algo maior e extremamente mais ridículo. A constatação de que é o dinheiro que move o planeta. O trabalho não é mais uma causa, o trabalho precisa existir para mover qualquer instituição sem utilidade. Para ilustrar melhor e parar por aqui, digamos que as pessoas querem empregos mais fáceis ainda que não se sintam úteis para o contexto geral de suas vidas. Isso quer dizer que, se elas puderem viver uma vida decente, com três banhos por dia, um cachorro e uma TV a cabo, elas vão fazer isso mesmo que sejam contratadas para produzir conteúdo na internet servir cafés. É mais fácil não se envolver com a construção de um planeta melhor.

E então, a última parte.

Ser uma pessoa incrível e fazer uma descoberta incrível não tem mais tanta utilidade no mundo em que vivemos (ps.: me considero jornalista mesmo escrevendo jargões como “no mundo em que vivemos”). Se um cara descobre “a segunda roda”, por exemplo, ou uma forma dos carros voarem, ele vai fazer daquilo o big shot da sua vida. Não tem porque compartilhar seus feitos e ajudar a melhorar a vida na Terra se você pode guardar e montar toda uma estratégia empresarial para se tornar milionário e vizinho do P. Diddy.

Nada mais se usa em prol da humanidade. É tudo mercado. As pessoas vendem suas idéias, seu tempo, sua vida, só pra conseguirem um canto onde morar, um carro para buscar os filhos na escola e uma boa aposentadoria aos 65. Fico imaginando como seria caso no modelo de mundo que temos hoje, ainda não houvéssemos descoberto a roda (é, eu sei). Nego trabalhando pra conseguir comprar um carro com roda, nego maluco pra mostrar pros amigos seu novo carro com roda.

O ser humano deixou de se importar com o mundo para se importar com sua própria vida e, como temos visto nos noticiários, o planeta não anda muito contente.

Como disse no começo do texto, o Capitalismo não vai sair de moda e esse é o mundo que vamos ver acabar, as utopias de que um dia tudo vai mudar estão se reduzindo a pensamentos solitários em mesas de boteco. Então supere, it’s not gonna happen, kids.

[antes que me xinguem de moralista, eu sei que faço parte de toda essa cadeia de gente que escolhe o mais fácil e não participa da construção do mundo. Por isso o título distópico do post]

As parcelas da Montanha Mágica

Alô Unidos dos maiores de 25 anos que ainda moram com os pais, canta, caaaaanta!

Uma das piores escolhas que poderia ter tomado aos 24 anos foi ter comprado um carro*. Sem moralismo ecológico pedante porque, como todos devem saber, os ciclistas são os novos vegetarianos. Afinal, o carro me facilita a vida de ter que trabalhar em outro município fora de São Paulo. Numa planilha de prós e contras, viver sua vida (namorada e trabalho, respectivamente) distante em 30 km do seu epicentro natural vence qualquer crossover envolvendo sustentabilidade ou sedentarismo.

E por que a pior decisão foi essa? Porque, bem, digamos que nunca fui um consumista inveterado nem um economista regrado, portanto passava meses sem economizar um tostão da minha voz do meu dinheiro. Coisa de chegar no final do mês e torrar o superavit salarial só pra não ver ele virar o mês. Parecido com o que a gente faz ligando para qualquer pessoa da agenda só porque os créditos vão expirar no final do dia. Talvez isso seja fruto de um sério transtorno psicológico. Palpite.

Então, logo, comprar um carro exigia um carnê com mais páginas que A Montanha Mágica. E exigia fidelidade Sam Gamgi style. Exigia, acima de tudo, um desprendimento incrível para acreditar na idéia dos meus pais de que os 60 meses do carnê passam sem a gente perceber. So, I tell you what, eles não passam. Passam rápido como os dois dias que você tem que trabalhar depois do carnaval. Como disse, não passam.

A conta que eu não fiz aos 24 anos é que em 60 meses eu estaria mais perto dos 30 e com uma dívida que não me permitiria respirar direito antes de dormir. Esse despreparo fez com que nomes como IPVA, seguro obrigatório e apólice não fossem mais só palavras escritas nas correspondências que eu pegava debaixo da porta junto com a Showbizz (lembram da revista?).

Passados três anos, cá estou eu tendo que diariamente voltar para a casa dos meus pais. Um lugar que já não tem mais a minha cara, já não tem mais a minha contribuição. Não por falta de amor, ou por dificuldades de convívio, afinal, a única coisa que me esforço atualmente é fazer com que eles não me sintam por ali. É tudo o que posso fazer até terminar o livro de Tommas Mann (carnê) sem um cérebro afetado por distúrbios e dramas financeiros muito traumáticos.

*Nunca falei isso pra ele, as consequências seriam catastróficas. A propósito, sim, eu converso com meu carro diariamente.

Carnaval on demand

Tiramos o carnaval para fazer o que não temos tempo durante dias normais, como ficar juntos, por exemplo. Nem que seja apenas por pizzas de forno, um monte de filmes western e episódios de How I met Your Mother que desajustam tudo o que vínhamos pensando sobre nossa juventude. Só queríamos uma cama pra deitar e ver o tempo passar.

Pela primeira vez na vida não assisti absolutamente nada sobre o carnaval e neste clima de assistir o que se quer por demanda, acabamos exigindo não ver nada na Globo (apesar dos quatro minutos vendo um filme do Didi que devo apagar da memória).

Não previmos que as tias dela voltassem antes do ‘combinado’ e acabamos surpreendidos com sofás nos lugares errados, mesinhas dentro do quarto, dois colchões bem no meio da sala e minha TV em cima da mesa de jantar. Momento awkward em vários níveis, eu sei.

E hoje, terça-feira de carnaval, chove lá fora o que extermina nossos planos de ir pro parque passar a tarde lendo e recriando nosso mundo todo a parte da necessidade de diversão extrema.

Esse foi, sem dúvida, meu carnaval mais tranquilo em anos. Todo esse silêncio e distanciamento fomos nós que escolhemos também. É como um final de temporada (e aqui você insere o comentário mental sobre o fato de eu estar vendo séries demais), estar longe de uns amigos que vivem experiências parecidas em outros lugares olhando a mesma lua que você e acreditar no que vem pela frente enquanto a câmera se afasta e eu recoloco o cabelo dela atrás da orelha.

Roll Credits.


Sufjan Stevens, To be alone with you

Roteiros sem finalidade

Eu e meu amigo Wolvs passamos dias pensando em histórias que dariam bons filmes, HQs ou vídeos de Youtube. Roteiros simples, sem pretensão “mas vai que um dia cola”, sempre acabamos com frases como essa. Como ele sempre faz paródias ou histórias absurdas como Zumbis mexicanos que trabalham com vampiros assassinos do Texas, quase nunca escrevo. Nem as minhas, que geralmente tratam da gente matando um monte de criuaturas exóticas. Mas não dessa vez. Essa história abaixo daria um bom comercial sobre o meio ambiente, para onde vai nosso lixo ou whatever. Não que faça todo o sentido do universo, mas vale a pena guardar, sabe como é.

***

Cena 1, um desenho numa mesa / Afasta a tela – Um hipster em sua mesa, desenhando o que deve parecer com um projeto de balão infantil. Cheio de intervenções, linhas coloridas, arte moderna, abstrata. Ele vai até a cozinha e pega café, senta no sofá e liga Projected Twin, Post Secret. Acende um cigarro, começa a lembrar da infância. lembra de como gostava de balões felizes, com carinhas ou palhacinhos. Lembra de seu sorriso ao pegar o balão e olhar frente a frente.

Volta pra mesa, deixa de lado a folha com o desenho abstrato e desenha uma carinha feliz, bonita, sorridente. E sorri.

***

Na fábrica que distribui os balões, ele chega atrasado, com muitas pastas, se desculpando como se o emprego dependesse disso. Chega a tempo de ouvir uma piada constragedora do chefe, que sequer lembra que ele está atrasado. Começa a mostrar os protótipos dos balões, que variam entre desenhos abstratos com nuvens, paisagens ou pessoas, “bonito para hipsters, sem graça para crianças”, diz alguém que incentiva outras reclamações. Com a reunião quase descartada, ele pega os desenhos felizes da noite passada. Todo mundo gosta. O chefe escolhe quatro, manda pra fábrica.

Cena final deste bloco, Chefe pega o balão com a cara feliz, que o personagem desenhou primeiro e olha com ar de reconhecimento.

***

Cena da fábrica, operários silenciosos e barulho de máquinas, música lenta ao fundo, alguma gritaria para contrastar, a imagem fixa nas esteiras onde vão passando os balões montados e na linha de produção masiva. Termina o bloco com os pacotes de carinhas felizes do balão entrando em um caminhão de entrega.

***

Uma menina caminha na rua com a mãe, felizes, passam em frente a uma banquinha de balões, na rua. O vendedor está enchendo os balões que acabara de receber. A menina fica encantada com a carinha, sorri, puxa a mãe para olhar, insiste, persiste e a mãe compra o balão. Passa o dia com ele, amarra ele na cama e dorme, acorda no outro dia e amarra ele no braço. Sua mãe diz que tem que mandar embora, senão ele murcha, prometendo comprar outro em breve. A menina aceita. As duas saem de casa, a menina olha pra mãe e, sorrindo, solta o balão.

Cena do ponto de vista do balão subindo, se afastando da mãe e da filha, de mãos dadas, felizes.

***

Cena do balão continuando a subir e chegando às nuvens. Parece o fim do vídeo.

O balão começa a murchar e cair, vai em outra direção, volta, passa e acaba caindo sobre um prédio, já esvaziado. Chove forte. a água derruba o balão que vai se espreitando no prédio até o chão e então até a guia e então para o esgoto. O balão segue o fluxo em meio ao lixo e acaba num rio parado e completamente sujo, onde fica grudado junto à uma latinha amassada.

Um catador com um carrinho de mão e uma lança, passa, fura a lata e a joga dentro do carrinho, junto com o balão. Leva para casa o carrinho, deixa no pequeno ‘quintal em frente ao seu barraco. O balão descansa. Cenas da família rezando antes de jantar os restos de comida que estão sobre a mesa.

***

Madrugada, barulho de grilos, cachorros latindo e passos. Um nóia entra no barraco, rouba o carrinho com as latas. Joga furioso o balão no chão, que já amassado e quase sem cor, desce até a rua, passando por cantos, becos, ruazinhas, fica enroscado em portas, postes, até chegar à Avenida. Já é de manhã, o balão agora parado sem a ajuda do vento, parece descansar. Um menino passa e chuta, quase o rasga. Ele volta a voar pela rua. As pessoas passando. O desenhista passa por ele e sorri um tanto transtornado pela cena. O balão continua…

Cena final, balão carregado pelo vento, passando atrás da banquinha de balões onde outra menina compra o mesmo balão.

Um amigo me disse no sábado

Conversávamos sobre como ele usava drogas e bebia sem critério e agora que ele decidiu mudar de vida, ele precisa focar no presente pra transformar o futuro, mas além disso tudo, ele precisa mandar o passado para o quinto dos infernos:

“Não importa o que eu fiz no passado, mesmo que eu tenha baseado minha vida inteira nisso. Eu só vejo gente por aí reclamando do passado, ou lembrando do passado como a melhor época de suas vidas. Mas essas pessoas não vivem o presente e não focam o futuro. Eu decidi parar, sabe, decidi mudar minha vida toda. Eu escolhi isso. Então esse sou eu e o que passou, acabou, morreu. Já não me interessa como eu cheguei nesse ponto. O negócio é daqui pra frente. As coisas que eu terei de fazer pra mudar minha vida vão ser feitas daqui pra frente, entende? O passado não vai me ajudar em nada, só vai dificultar as coisas, então eu não preciso de testes, eu só preciso de foco”

Eu editei umas gírias na citação para um melhor entendimento. Parece até um clichê motivacional óbvio, mas quando você vê a parada acontecer é bem mais emocionante do que aparenta.

Fair play do universo

Daí que, durante uma rotina comum, recebo uma dessas correntes que dizia uma oração bonita e afável sobre como às vezes pedimos nada daquilo que precisamos, sobre como tudo deve ter sua hora certa de acontecer. Aquilo começava a me inserir novamente na fé, recostava minha cabeça de lado nos ombros largos de Deus e dizia ‘tá tudo bem agora’. Mas, como sempre, ao final de toda essa limpeza espiritual, a multa:

AGORA ENVIE ISSO PARA 12 PESSOAS E VOCÊ TERÁ UMA SURPRESA MARAVILHOSA.

Em primeiro lugar, escolher 12 pessoas já é difícil para alguém que tem poucos amigos e relativos em contato próximo. E mesmo aqueles com algum contato, soa meio estranho mandar uma corrente, afinal, você sabe qual é a fama dessas pessoas que repassam correntes, certo? Eu jamais confiaria novamente em mim. Embora isso eu não tenha tanto que julgar, haja vista o terror psicológico que a última frase dessas correntes nos impõem.

Depois tem tudo isso de não querer mandar para os amigos ateus, agnósticos, ou que estão pouco se importando para a existência de Deus. São boas pessoas, acredite, mas simplesmente não se importam em pedir, agradecer etc. Você pode imaginar como seria copiar eles todos no e-mail, o fórum de discussão que aquilo ia se tornar? Bem, pelo menos todos eles reencaminhariam a mensagem entre si por meio das respostas anteriores, ainda que de uma maneira inconsciente.

Eu gostaria muito de ser benevolente e encaminhar os emails que me pedem. Acredito que isso me traria estabilidade mental, além de esfriar a cabeça, sério, não estou muito me importando para aquela surpresa maravilhosa que vai me acontecer em cinco minutos ou sete dias. Só o fato de tirar isso da minha cabeça já seria o suficiente. Pra você ver: Eu comecei a ler o e-mail tão empolgado e acolhido e terminei querendo que ele nunca tivesse existido.

O problema é que consigo lembrar de cabeça três ou quatro pessoas que receberiam isso sem pestanejar, sem me questionar se eu voltei a tocar na missa, essas coisas. Não consigo simplesmente mentir para os bancos de dados de Deus e encaminhar a mensagem reconfortante para meus quatro ou cinco emails pessoais, por exemplo, só pra fazer volume nas contas. Não é por mal, imagine, só quero acreditar que o universo trabalha em fair play comigo da mesma forma que eu trabalho com ele, entende?

Radiohead, The King of Limbs, 2011

Esse novo disco do Radiohead saiu sem frescura, rápido, sem mística, capa num dia, track list no outro, teaser no outro e due no sábado. ‘Sem frescura’ porque não deve ter sobrado nada depois da gravação do disco. Não consigo me lembrar com exatidão quando foi que o Radiohead perdeu a mão pra situar você nesse meu pensamento, portanto, abaixo segue o meu faixa a faixa:

The King of Limbs abre com ‘Bloom’, uma espécie de samba-jazz que para não dizer inrotulável e criar um termo novo, vou apenas deixar assim. ‘Bloom’ tem uma vibe das músicas do Otto que todo mundo idolatra e você não se enxerga suportando mais que um minuto completo. Acho que se eu começar a usar a palavra experimentalismos não vou mais parar até o final do texto, portanto, digamos que todas as músicas soam experimentais.

Apesar disso, de minha parte nem tudo são críticas. A voz de Thom Yorke continua remetendo a uma época em que o Radiohead ainda era uma banda e não essa tribo indígena tentando acertar sempre. Difícil mesmo foi ouvir ‘Morning Mr. Magpie’ sem querer desligar o player. Repetitiva e ultrapassada. Eu quis parar por aí, evitando todo o quarto de hora que viria seguir.

A impressão que me deu ao ouvir ‘Little by little’, a terceira, foi algo recorrente em quase todas as músicas do disco. Parece que tem uma outra banda com um DJ de drum n’bass terrível tocando por cima de uma gravação original. Talvez seja uma ótima forma de reduzir os custos. Talvez seja só experimentalismo, OH CRAP, de novo. Sério, ‘Little by little’ é uma excelente música infelizmente abduzida por batidas esquisitas e sons medonhos.

Então vem ‘Feral’ e novamente o Otto e aquela patifaria de gravação sobre gravação, quando um artista perde a mão e acaba colocando em sua obra muito mais do que ela precisa. A seguir, ‘Lotus Flower’, aquela da dancinha, uma das melhores do disco. Sem muita putaria, se é que dá pra me entender. Foi o teaser e eles estragaram tudo revelando a parte boa, usando assim a mesma técnica dos trailers de filme. Depois disso ‘Codex’, a quinta do disco, que traz seu piano intenso e menos confuso, a única música que poderia parar numa trilha sonora de filme, por exemplo. ‘Codex’ dá a consistência e a tranquilidade que o disco deixa estava deixando a desejar a té então.

Aqui podemos dizer que se eu pensava ter apenas não-músicas (como bem disse Chico Barney ao Popload) babacas, o disco volta a se tornar interessante com as duas anteriores e ‘Give up the Ghost’, no violão, aparentemente o segundo instrumento musical usado em The King of Limbs até aqui. Pra finalizar, ‘Separator’ e a música menos entediante de todo o disco, sem dúvida.

Top 5 Filhos da Puta no trânsito

Um top 5 que me veio à mente hoje de manhã, pelo tanto de calhordas que encontro nas ruas a caminho do trabalho. Em boa parte são homens burros e não mulheres inexperientes, diga-se de passagem. Acorda, Brasil, os rótulos já devem ser trocados.

#5 O filho da puta que usa faróis de milha e Xenon – como se o mundo fosse uma filial de Sin City cujas luzes mal conseguem iluminar a cara do Bruce Willis. E aí ele brinca de deixar as lâmpadas pro alto, afim de protagonizar um espetáculo de luz e magia no meio da marginal pinheiros, numa confusa tentativa de ofuscar as noites do Jóquei e esquentando as costas do motorista à sua frente. Geralmente o cara tem um carro importado e quer te ultrapassar mesmo quando você está na velocidade máxima permitida na faixa da direita, ele acende o farol alto numa provável tentativa de enganar o seu relógio biológico que não entende mais se é dia ou noite. Tudo isso pra mostrar que você não é ninguém para atravessar a pista que ele trata como um tapete vermelho.

#4 O filho da puta ‘DEAL WITH IT’ Daí que aquele V.U.C de entrega pára no final da rua pra descarregar e interdita o local. Você tem que se acostumar com isso, pois ele não pode fazer nada, é o trabalho dele. Ou aqueles caras que estacionam em duas vagas no shoppings e estacionamentos em geral. Ou aqueles outros que querem conversar com as meninas do pedágio, sabe? Esse tipo de gente não liga de parar o carro na sua frente e ir comprar amendoim torrado, conheço um caso em que o malandro saiu do carro para urinar no meio do trânsito da Marginal Pinheiros. Óbvio, Murphy deu uma força. Ele esperou tanto pra fazer isso que, imediatamente ao sair do carro e começar a descarregar, o trânsito voltou a andar e ficou completamente constrangido no meio da multidão. Esses filhos da puta geralmente pagam.

#3 O filho da puta que só sai da sua frente antes do radar – Esse não é grave, mas irrita pensar que o malandro realmente acha que alguém ainda cai nessa. Vamos a reconstituição: Você está andando na faixa da esquerda, com alguma velocidade e tem um tiozinho na sua frente a 60km/h que segura toda uma horda de gente apressada, incluindo você. Pouco antes de chegar no radar (e aqui eu presumo que todas as pessoas que passam pelos mesmos lugares diariamente sabem onde ficam os radares da cidade) o tiozinho faz de tudo pra sair da sua frente, na intenção de que você, um apressado que deve estar puto, acelere com raiva e sem prestar atenção ao radar, garantindo uma multa. É comum também que o tiozinho dê alguma risada maquiavélica olhando pra você e comentando com outra pessoa, bem como é comum um cara de meia idade achar que está sacaneando o universo, rir e fingir uma pose like a boss qualquer. Eles sempre riem e se fazem de superiores porque quando você passa eles, automaticamente, eles pensam que você ultrapassou os limites de velocidade quando na verdade você pode apenas ter acelerado mais 5Km/h e saído da situação com uma raiva desconcertante.

#2 O filho da puta que não dá seta – Esse não precisa explicar, acredito. Você precisa avisar quando vai atravessar de faixa, certo, praticamente todas as pessoas do mundo, mesmo as que não dirigem, sabem disso. Agora nego troca de faixa como se estivesse numa partidinha de Cruisin’ USA no shopping, manja? Além disso, existem diversas categorias dessa filhadaputice, cujas três principais são a) o fulano que vira o volante antes de dar a seta ou de olhar para o lado, sendo esta a mais comum e digna de perdão se o safado assume a culpa, b) o fulano que faz os três movimentos num só: dá a seta, olha pro lado e vira o volante ao mesmo tempo, geralmente achando que está com a razão absoluta e c) o cara que joga o carro na sua frente e acha OK porque você deveria estar prestando mais atenção etc. Todos filhos de uma mesma puta.

#1 O filho da puta que buzina em congestionamento – Cara, sério. Essa é uma característica que, se um dia eu tiver uma filha e ela levar o namorado em casa, eu terei de questionar se o malandro buzina quando o trânsito pára. Porque olha, não dá pra confiar nesse tipo de gente. Caro futuro candidato a genro, se o trânsito não está andando, eu tenho certeza que o cara da minha frente ou mesmo todos os 3.670 carros na minha frente também não necessariamente optaram por estar ali. Sempre imagino que essas pessoas buzinem tanto com a mesma prerrogativa da torcida que tenta ganhar o juiz no grito. Uma pessoa que buzina dessa forma indiscriminada quer tratamento especial, como todos os outros, mas quer também convencer todos os motoristas ao seu redor de que aquilo ali dá pra melhorar, é só cada um fazer sua parte e buzinar como se não houvesse amanhã. Quase um manifestante Geisy Arruda style. Deve ser por isso que sempre tem alguns influenciáveis que entram no embalo.

Como consigo saber quem ‘Curtiu’ um post do meu blog?

Para não trabalhar no sensacionalismo barato exacerbado e nos maus costumes, deixando a parte principal no final do texto, a resposta ao título do post é: você não consegue.

Hoje, após trocas de e-mails, DMs e comentários com o amigo Leo Pollisson, descobri porque não conseguimos ver nomes e fotos de todas as pessoas que curtiram um post no nosso blog. Encontrei no Quora uma boa explicação feita por Sarah Dopp e que você pode acompanhar abaixo através dessa tradução singela:

Claro, essa explicação só vale depois de você ter instalado o botão de curtir em cada post do seu blog.

Tenho certeza que não rola. É possível ver quais dos seus amigos curtiram o post, mas isso não permite saber quais pessoas fora de sua lista curtiram o post, provavelmente por razões de privacidade.

De um post explicativo no Facebook:

“os plugins foram desenvolvidos para que os sites que você está visitando não recebam nenhuma de suas informações”
(em outras palavras, os dados sobre os ‘curtir’ do site não são seus dados, são do Facebook)

A parte confusa:

Pessoas além de meus amigos vão ver o que eu curto ou recomendo?
Sim, você deve considerar os ‘curtir’ e ‘recomendações’ que você escolher como informação pública, como quando você comenta ou escreve reviews em sites comuns, ou se conecta com páginas do Facebook. Baseado no feedback que recebemos, nós modificamos os plugins do Curtir, Activity Feed e Recomendações para mostrar apenas nomes e avatares dos seus amigos e mostrar os likes e recomendações de pessoas fora da sua lista através do formato (“10 outras pessoas curtiram isso”).

Parece que o Facebook queria que essas informações fossem públicas, mas alterou as configurações pela quantidade de gente reclamando.

Isso deve impedir que nego fique criando mala direta baseado nas pessoas que curtiram um post aleatório do blog e que talvez não curtam mais nada além daquele post. É até que plausível desse ponto de vista, mas ainda deve irritar um ou outro problogger neurótico.

Problem solved.

Explica, Discovery

Acho que a grande diferença entre a minha geração e a de meus pais se baseia em metalinguagem, análise crítica e auto questionamento. Acredito que as pessoas como eu que eram jovens nos anos 70 não se importavam tanto em pensar em determinados aspectos de suas experiências, ou não se importavam tanto sobre como era feita a produção de livros, filmes e dispositivos culturais em geral (ok, ‘dispositivos culturais’ eu aprendi num edital do governo).

Estava assistindo um programa da Discovery que se chama Casal Selvagem. Nele, um homem e uma mulher se jogam em lugares perdidos do mundo como uma savana africana, florestas da América do Sul ou ilhotas no meio do oceano índico e mostram como sobreviver para não ser picado por mosquitos que transmitam malária ou comido por jacarés.

Gosto muito deste tipo de programação, embora não acredite no que isso poderá me ajudar um dia, visto que, numa hecatombe apocalíptica, eu, o gordo que fuma e corre menos que o resto da humanidade, tenho chances reduzidas de me salvar.

Estes programas são compostos pelo seguinte casting: o casal, protagonista, que vai caçar, montar o abrigo com folhas de bananeira e correr dos leões; uma equipe de câmeras-man que acompanham, provavelmente dois, no máximo três, tendo em vista o jogo de câmeras, mesmo à noite, por exemplo; e um helicóptero que faz vídeos aéreos. Preste atenção no helicóptero, ele será bem útil ao final deste texto.

Se todo o programa é seguido por câmeras-man, eles é que deviam receber os louros. E devemos refletir também: se o casal está no meio de uma tenda de folhas acovardados pelos perigos de um lugar misterioso, o que dirá dos câmeras, que durante todo o processo de montagem desse abrigo estavam apenas registrando tudo?

O casal passa três dias no lugar e, quando começam a se ambientar, vão embora. Funciona mais ou menos como meus finais de semana no litoral. No terceiro dia, um helicóptero vasculha a região em sua busca. OK, agora vem a dúvida: como o programa pode apresentar imagens aéreas no seu decorrer e depois alegar que um helicóptero vai vasculhar o local em busca da equipe, supostamente desaparecida?

A não ser que a produção do programa tenha contratado águias selvagens formadas em audiovisual para fazer as imagens aéreas, algo não encaixa direito em toda essa história.

O Doom da Vida

Acabei de voltar do banheiro com isso na cabeça, tive o insight quando coloquei a chave no trinco. Nossa vida é uma versão dramática e boring daquele jogo que era febre no final dos anos 90, o Doom. Portanto, não, eu não errei o título deste post, é só um outro distúrbio que tenho de criar trocadilhos para títulos, como diz a bio na barra lateral.

O que é a vida, senão um Doom sem armas? A sentença não vale para traficantes cariocas, deixemos isso claro. Na verdade, a vida é uma versão de The Sims inspirada na visão em primeira pessoa de Doom. Porque viver é ter uma ficha pra jogar, certo?

E eu lembro do João, que hoje não tem mais blog, infelizmente, me mostrando um artigo na Superinteressante que dizia existir 43% de chances da nossa realidade ser virtual. E lembro de How I met your mother dizendo que todas as estatísticas que terminam com ‘3’ (tipo 43%) são falsas para impressionar mulheres. E eu lembro daquele What is Reality da BBC que eu ainda não tive coragem de assistir inteiro. É claro que é tudo parte da mesma conspiração, não poderia ser mais óbvio.

Um clássico pensamento inútil de quem não tem mais o que fazer a não ser dar contribuições para o layout novo do blog do Leo, que ainda não estreou com post novo, mas já está pronto.

Não é preciso dizer que esse texto não faz o menor sentido e vou terminar por aqui antes que eu tome a sábia decisão de deletar tudo.

Filmes e mais filmes #cinemaday

Eu tentei ver ‘Alice no País das Maravilhas’, sozinho em casa, sem sucesso. Impossível ver filmes dublados quando você lembra a voz do ator. Depois tentei ‘Os delírios de Consumo de Becky Bloom’ com a Denise, por afeto, como podem imaginar. Quando eu achei que não conseguiria ver mais nenhum filme no final de semana, emendo esses três:

Tropa de Elite 2
Quase uma década de atraso sobre o filme porque não trabalhamos com hypes e prazos, OK? Filmes sobre os problemas de segurança pública do Rio de Janeiro além de se tornarem rotina para documentaristas sem muito o que fazer sempre enchem nosso vocabulário informal de termos e novas gírias como “o cara acha que é o pica das galáxias” e “quer me foder, me beija”, sem contar a inclusão inconsciente de ‘parceiro’ ao final de cada simples sentença. Como todos disseram, o segundo filme é menos sangue e mais raciocínio, menos neguinho correndo e mais político almoçando. De certa forma, essa receita conseguiu sair do lugar comum dos filmes sobre o RJ, na tentativa de explicar o labirinto que é o sistema, porque como diz a frase principal de Nascimento no filme, ‘o policial não puxa esse gatilho sozinho’. O filme quer apontar que o cerne da questão é tão profundo que quase chega a ser mítico. Filmaço, o primeiro (e talvez único) bom filme de ação nacional que conheci. Também pudera, ‘o sistema é foda, parceiro’.

Predador, Predator
Assisti ao lado da Denise que infelizmente lembra das cenas de quase 20 anos atrás como se tivesse visto o filme no cinema na semana passada. Que memória, amigos. Uma pena só ter servido pra contar antes e estragar parte das emoções com o Schwarzenegger e o Apollo (Rocky), carinhosamente apelidado por mim de SchwarzeNIGGER tendo em vista os bíceps dos malandros são duas versões da mesma parada. Também pensava que ver esses filmes novamente depois de tanto tempo feria uma regra importante da vida, a de que você deve eternizá-los no passado. Nada disso. É bom lembrar dessa época que os filmes não tinham relação direta com política e que o cara podia invadir pequenos vilarejos e matar todas as pessoas sem ser incomodado por questões de direitos humanos. Na época que os filmes de ficção não tentavam contar a história da humanidade através de parabólas, sabe? O Predador marca essa era.

Cisne Negro, Black Swan
Belíssimo filme, daqueles que misturam um mundo de uma mente perturbada com o mundo real (é exatamente isso que faz de ‘Clube da Luta’ e ‘Uma mente brilhante’ meus filmes preferidos). Natalie Portman é uma dançarina de ballet dedicada e insegura que, depois de ser escolhida para o papel principal em ‘O Lago dos Cisnes’ acaba carregando mais problemas do que pode suportar e termina com sérios danos psicológicos. O filme é sobre a busca do lado negro por uma menina boazinha e quase estúpida. Uma descoberta difícil e quase inalcançável, tendo em vista a rejeição da garota a novas experiências. Vale ressaltar, é possível ver o filme sem saber que diabos é ‘O Lago dos Cisnes’ e sem ter nenhuma referência sobre ballet. Achei menos piegas do que bradaram os críticos, mas quem confia neles? A inconstância e a fragilidade da protagonista fazem de Cisne Negro um excelente filme, sem dúvida, mais que uma simples história de superação, uma história sobre até onde os limites ultrapassados podem levar uma pessoa.

Exercício de Depressão

Imagine que você vá morrer amanhã. Sem tragédia, um acontecimento qualquer, fique tranks. E então acredite que, por uma intervenção mística, você fica sabendo da fatalidade com um dia de antecedência. O dia de hoje.

Comece a pensar nas cartas que escreveria para cada pessoa que conhece e se importa. Não pegue caneta e papel, apenas imagine o que iria escrever para cada pessoa. Considere também que ninguém mais vai ler a carta, além do destinatário. Tudo o que estiver escrito ali será contado para aquela única pessoa.

Não é preciso escrever a carta num papel de verdade, pois isso torna tudo mais verdadeiro e perde o foco através da subjetividade que você imprime em cada assunto tratado, em cada sujeito. Digamos que, para minha namorada eu ia querer ‘decorar’ a carta com palavras bonitas para que criasse algo que ela jamais esquecesse, mesmo que isso não representasse exatamente o que eu gostaria de dizer. E não é esse o intuito. Você quer apenas dizer o que está em seu coração. Sem bons adjetivos, sem piadinhas riscadas sem floreios. Dessa vez é só você e as palavras que começam a sair quase que involuntariamente.

Para tudo isso é preciso adentrar a sua existência, mergulhar em reclusão, apego e individualidade, coisa de trinta minutos resolve. Você precisa apenas pensar no que deixaria de lembrança aos seus. É simples, mas pode ser também assustador. Você pode se pegar escrevendo cartas para pessoas que não imaginaria e tocando em monstros adormecidos que nunca deu maior atenção.

Não se esqueça dos lenços de papel. Sério.

Essa é uma forma que encontrei de descobrir meus erros, assuntos inacabados, o amor que não sou capaz de distribuir, as dívidas emocionais eternas, as desculpas que esqueci de dar, os segredos que deixei de contar. Apesar de um exercício triste e depressivo como sugere o título, me foi muito útil para descobrir onde realmente estava meu coração, or shit like that.

Fiz isso no início de um pequeno surto depressivo, dias atrás. O processo é meio doloroso, talvez até um pouco angustiante quando você começa a pensar porque diabos você simplesmente não fala isso para essas pessoas e acaba logo com essa porcaria. Mas quando terminar, você estará mais relaxado do que prometem as seções de yoga compradas no Peixe Urbano.

Pode não funcionar pra todo mundo, mas pra mim foi excelente. Não vou fazer com frequência porque preciso de paz, uma casa vazia e fazer isso toda semana pode se tornar um costume entediante, quando não, repetitivo. Mas hora ou outra, naqueles dias que estiver com um tiquinho de afasia e depressão, volto a ‘escrever’ minhas cartas.

Weirdos e Thom Yorkes do mundo, uni-vos!

***

Por alguma razão lembrei do Living Funeral que aparece no filme The Weather Man, uma obra-prima para a depressão com o Nicolas Cage.

SAC da droga e perca o medo de dirigir

Dois causos, porque a vida, amigos, sempre volta ao normal.

***

Dois amigos meus estão afastados das drogas há uns bons seis meses, pelo menos. E isso é muito sério, não vou fazer a piada padrão do CQC e dizer que eles deixaram de ouvir Calypso. Eram drogas, mesmo, substâncias ilícitas que podem levar à prisão ou a uma forte dependência química.

Daí que um terceiro conhecido liga em casa ontem, 23h30 me perguntando se sabia outro telefone de um deles, porque havia ligado e nada. Respondi que só sabia aquele número mesmo e faz tempo que não o vejo etc. Dou o telefone do outro amigo. Ele retorna e diz que ele não está em casa.

E é quando eu descubro.

– Po, zuado, mas ele nem tem mais celular – digo naquela vibe, ‘porra, mano, não posso mais te ajudar, se vira!’
– Sério? Ele transformou o celular em pedra?
– heheh, pode crer. ¬¬
– Então, velho, é que eu queria um esquema pra pegar um papel
– Ah, é foda, mas então…

E essa é a história de como meu telefone de casa se tornou uma central de relacionamento para viciados. Isso sem contar minha inabilidade para perceber que o cara queria pedir drogas para dois amigos que estão se esforçando no level hard para manter a sobriedade.

***

Vindo para o trabalho hoje, na avenida perto de casa, a mulher do carro da frente pisa no freio como se estivesse à beira de um precipício e quase me faz voar pelo vidro na tentativa de não encostar no carro dela.

Se eu pelo menos a conhecesse, ela teria acesso à minha aula psicológica para novos motoristas que consiste na única frase: “dirigir é a mesma coisa que andar na rua, você só não pode esbarrar em ninguém”.

Ando vendo muita gente dirigindo devagar e só pode ser uma das duas alternativas: ou (a) estou sempre muito atrasado e querendo todo mundo fora do meu caminho ou (b) meu bairro se transformou numa vila para auto escolas clandestinas “perca o medo de dirigir” style.

Mens sana in corpore sano

“Quando você vai cuidar do corpo você pendura o cérebro no vestiário. Esse problema se tornou ainda mais sério nas academias quando as máquinas de movimento guiado explodiram. E movimento guiado não precisa ser pensado. Isso é algo muito sério.”

[…]

“Minha história é a de alguém que foi obrigada a não acreditar em limite para sobreviver. Os limites que contaram para mim que existiam.”

Marília Coutinho, irmã do cartunista Laerte, bióloga ph.D e uma das maiores halterofilistas do Brasil, conta em entrevista à revista Trip como, através da dedicação ao esporte, se livrou de um distúrbio mental destrutivo que a acompanhou por quase toda sua vida.

Late adopter

Essa semana chegou o Samsung Galaxy Tab da Gi Gomes e eu estava tão ansioso quanto ela, que levou no trabalho pra que eu pudesse ver em funcionamento. Ele é pequeno, tem sete polegadas, mas é um tamanho ideal para ler, usar a internet, atualizar redes sociais, assistir vídeos e levar no ônibus. É do tamanho de uns 3 celulares Blackberry, achei suficiente.

O problema é que ele também custa como uns 3 celulares Blackberry. 2 mil reais fora a conta do chip 3G, que se torna uma mensalidade além do aparelho, mas dessa não se tem como fugir, a não ser que você tenha um amigo que compartilhe a rede wi-fi e esteja disposto a tomar uma multa da Anatel.

Daí que o malandro que entrou essa semana trouxe seu iPad logo no segundo dia. A parada é linda, bem acabada, os jogos são sensacionais, a usabilidade, a velocidade na leitura dos ebooks e pdfs, mas, tudo tem um mas, acabei achando as quase 10 polegadas um trambolhão desnecessário se comparado ao Galaxy.

A vantagem é que o cara pediu para um amigo trazer de fora e acabou pagando sem impostos uns módicos 750 reais além do trabalho atrás de tutoriais para desbloquear o aparelho.

Minha resolução final sobre esses gadgets é que eles são ideais para mobilidade, para quem anda de trem, para quem precisa escrever dentro do taxi ou do ônibus, pra quem precisa uma forma boa para apresentar um portfolio (no caso da Gi), ou apenas abandonar seu PSP (no caso do cara novo), mas ainda consigo viver alguns anos sem eles.

Como nunca tive um MP3 player, só comprei meu primeiro celular com internet no ano passado e tive meu primeiro pendrive só esse ano, claro que não sou parâmetro.

Até breve, Tia Paula

Minha tia Paula daquele post do mês passado partiu ontem, na parte da tarde. Deixou apenas um quase-marido aproveitador, dezenas de afilhados e uma família em polvorosa na noite do velório, que no Axixá-MA, cidade natal dela e de minha mãe, ainda acontece em casa. Como ela tinha uma brutal mania de limpeza, para distrair do climão funebre numa visão mais otimista e atabalhoada dos fatos imaginei que, seja lá onde estiver, ela deve estar atacada de raiva com aquele monte de moleques jogando catota de nariz no chão e entrando com o pé sujo de lama nos quartos.

Lamentações a parte, são nesses momentos que você repensa toda a sua relação com a família. É só quando eles morrem (tentei evitar, mas taí a palavra) que você começa a se culpar por todas as vezes que decidiu não fazer aquela visita nas férias ou aquela ligação de aniversário. E isso acaba se tornando autoflagelação quando você descobre que nunca mais terá essa chance.

É triste, eu mesmo me peguei com lágrimas nos olhos duas vezes na frente do PC ontem, depois de saber. As coisas que ela ensinou como comer carne seca passada do ponto, ler Castro Alves e não me sentir estranho por querer estar em casa sozinho, essas só serão enterradas junto comigo.

Sempre nos dizem frases como essa da imagem que abre o post, embora tudo ganhe um sentido mais bonito e abrangente quando você considera que o ato de fazer algo notável não implica se tornar mundialmente conhecido por ter inventado a roda, mas sim tornar-se imortal através de lembranças pequenas que você marca em cada pessoa que conhece.

Dentro do meu relicário da vida, minha tia Paula jamais deixará de existir.

——
A imagem é do I can read, que sempre tem um quote bonito para seja lá o que você estiver pensando em escrever.

Seu Valetim

E, de um minuto pro outro, meu pai fica destroçado por estar longe de minha mãe enquanto ela acompanha minha tia no Maranhão, meu irmão enche o saco dele até não poder mais, e eu não posso ver a Denise, pois tenho que voltar pra casa cedo e remediar essa situação escrota, o que tem causado um desconforto extra no relacionamento nas últimas semanas. Eu pago o tempo perdido, prometo, só não sei quando vai ser.

Tudo isso, no Valentine’s Day, em que eu adoraria estar perto dela. =(

{mesmo sem fazer a menor idéia do que se trata essa data}

Ilha Bela em família

foto de celular, a única que consegui salvar.

Minha primeira visita ao litoral norte de São Paulo estava atrasada quase 27 anos e me lembrou muito o fato de eu só ter conhecido Los Hermanos depois que eles estouraram com Anna Julia, largaram a gravadora major, foram cultuados pelos hipsters e se tornaram off topic nas conversas de bar. Todos já conheciam o enredo da história, portanto, na segunda-feira, nada que eu contasse soaria incrível e tudo o que preciso evitar é gente cagando regra a respeito de algo que eu tenha gostado tanto.

Assunto é litoral norte, né? Voltemos, antes que isso aqui descarrilhe.

Chegamos por volta de 9 e meia da manhã na fila da balsa* sentido Ilha Bela. Depois de quase não aguentar mais esperar, passamos para a bela ilha e paramos num quiosque que ficava… uma praia após a praia do Julião**.

Lugar incrível, calmo, crianças reservadas (mesmo os mais pentelhos como o Pedrinho, meu sobrinho), cardápio inebriante, cerveja gelada, um cruzeiro da MSC passando no fundo, 1979 DO SMASHING PUMPKINS NO SOM AMBIENTE! Cara, o lugar me ganhou nos primeiros 10 minutos.

Acho que o universo girou para esperar que eu fosse até lá com a família da Denise, para que além de tudo isso, eu pudesse começar a me sentir parte integrante da obra, saca?

Ainda tem alguns lances confusos nisso de misturar as famílias, mas algo aconteceu quando eu me percebi naquela mesa de quiosque com meu cunhado sem diálogos recatados, ouvindo as histórias do meu sogro — tão legais quanto as do meu pai — limpando os pés sujos de areia do Pedrinho. Para deixar mais claro, foi esse ‘algo’ que me fez escrever ‘meu sobrinho’ quando falei do Pedrinho pela primeira vez nesse texto.

——

*O termo Fila da Balsa virou uma piada imediata por parecer um xingamento ‘foi esse filha da balsa desse garçom aí’ etc. Não temos classe, amigo, supere.

**Deixei o nome da praia aqui no segundo asterisco pois não gostaria de estragar toda essa linda história de belezas tropicais revelando que o lugar se chamava PRAIA GRANDE. Sim, uma praia chamada Praia Grande no meio das belezas inestimáveis do litoral norte. Mas, como dá pra notar, não deu nem pra lembrar da muvuca, falta de água, gente feia e Sidra Cereser que só a versão sul litorânea desta praia pode oferecer.

Meteoro da Paixão

Toledo fica noivo de Vivian após sete longos anos de namoro. Após poucas semanas, Toledo termina com Vivian, pois estava apaixonado por Shirley, sua amante, que tem um filho. Toledo e Shirley começam uma história juntos, mas namoram escondido, pois os pais de Toledo não aceitam Shirley. Toledo pensa seriamente em desistir da família e ir morar com Shirley e o filho.

Ainda neste namoro escondido com Shirley, Toledo volta a sair com Vivian, sua ex-noiva, em uma relação de mais que amigos, deixemos assim. Shirley, sem saber de suas escapadas, pede um tempo para Toledo, pois quer que ele vá morar com ela, embora Toledo ainda tenha receio por causa da família.

Uma semana depois do ‘tempo’, Toledo liga para Shirley perguntando se ela quer voltar. Shirley termina com Toledo, dizendo que já está em outra. Toledo volta a ligar. O porteiro do prédio atende e grita, quase como forma de marcar território, que Shirley agora é sua nova namorada.

Toledo liga para Vivian.

***

Ou seja: Traiu a noiva com a amante para, na sequência, trair a ex-amante, atual atual, com a ex-noiva, enquanto ela o traía com o porteiro. Sinceramente, acho que eles só fizeram isso para que ninguém conseguisse contar essa história direto. Televisa ligou pedindo copyright pela obra.

[True story via MSN. Com os nomes alterados, aquela patifaria de sempre]

Insights de banheiro e o Facepoop



Ou ‘Você não consegue um milhão de amigos sem escrever umas frases enquanto caga’.

Comecei a prestar atenção ao que essa galeré descolada escreve na parede dos banheiros.

Além das ofensas clássicas e dos excertos de auto ajuda (alguns eu desconfio que são escritos numa espécie de freestyle com trechos bíblicos e frases soltas do Gasparetto), o público deste tipo de serviço adotou também rabiscos com desenhos de mulheres nuas e órgãos genitais masculinos em seus posts. Clara eficiência de conteúdo despojado e indiscriminado.

Apelidei de Facepoop porque não vejo outra maneira de levar essa piada tão longe.

É a maior e mais barata rede social do universo, cujo único gadget para ter acesso é uma caneta bic ou uma hidrográfica (para contas premium). No Facepoop você pode deixar mensagens, textos, desenhos ou até zines (a Juliana Cunha tinha um).

Fontes diretas de confiança confirmam que o Google está interessado em patrocinar as portas com ad sense. Através deste programa, aquele pessoal do “Adoro homens, entre em contato 9999-9999” e “Moreno gato 23cm procura casal 9999-9998” já começou a fazer previsões sobre os preços da tarifa a ser cobrada neste tipo de publicidade até então gratuita.

Certamente mais um case a ser estudado pelos analistas de Social Media.

Deleted Quotes: ‘O senhor é meu pastor e nada me faltará’ é a máxima da falta de papel higiênico.

Who Watch the Weight Watchers?

Eventualmente penso sobre obesidade. Ressalto o ‘eventualmente’ no começo do texto porque (a) sou obeso e deveria pensar nisso com maior frequência, (b) porque estou perto de chegar na era dos heart diseases e (c) estou adiando a fase ‘tomar medidas desesperadas’ desde os 19 anos.

E aí, navegando nesse infinito oceano de leituras diárias, caio em algum blog de moda falando sobre modelos plus size, que reúne no pacote post + comentários basicamente as mesmas três vertentes:

1. Você não pode ser feliz, ainda que se aceite como gordo, como bem diz o guest post de ontem da Yohana, no Escreva Lola Escreva.


2. Pessoas obesas e modelos Plus Size são culpadas por afetar sua saúde, estão completamente erradas em se exaltar como gordos e não podem ter direito a tratamento especial, principalmente, repito, PRINCIPALMENTE no campo da moda.


3. Preconceito contra gordos, pff, isso é coisa criada pela baixa auto-estima que eles mesmos se impõem.

E então leio o comentário de um sujeito da minha altura e com metade do meu peso (outro tema importante: em qualquer post sobre obesidade, as pessoas dizem suas medidas como se pedissem uma análise pessoal ao autor). Se as pessoas se consideram gordas com metade do meu peso, em que setor eu poderia me considerar? Das anomalias? Dos monstros gigantes vilões do bem estar?

Óbvio que eu sei, amigo, extrapolei todas as estimativas que minha mãe e meu antigo endocrinologista faziam quando tinha 14 anos, mas ora, não entendo como um sujeito desse possa se considerar gordo.

Se todos são heróis, ninguém mais é herói. Aplica-se também neste mundico. Não existia essa febre até que as lojas de departamento começaram a colocar roupas para adolescente nas seções de adulto. Foi assim que todo um mundo de pessoas com alguma pequena porcentagem de gordura corporal sobrando ganhou a síndrome de pequeno gordo. Com todo mundo se achando gordo, os realmente gordos ficam relegados a esse status de escrotos da humanidade.

Não serei aqui moralista pra dizer que sofro preconceito, porque isso sim é bullshit das grandes. Nada do que um gordo sofre define preconceito. Nego não me olha na rua e faz associações ridículas do tipo ‘esse gordo deve ser muito burro’, para dar um exemplo banal (embora na praça de alimentação sempre role aquele climão ‘olha lá o gordo na fila, depois não sabe porque’).

Get over it. O mundo está apenas não adaptado às pessoas que estão fora da média. E nós sabemos disso, pois frequentamos lojas de roupas especiais e preferimos comer no Drive Thru para não ter de encarar olhares e risinhos de sempre (sempre, isso é sério). Portanto, se você acha que é gordo, faça três perguntas a si mesmo: (a) Consigo eu dividir um banco de ônibus tranquilamente com esse indivíduo do meu lado? (b) consigo eu entrar no banco de trás de qualquer carro de duas portas sem problemas? e (c) consigo eu sair da C&A com alguma peça de roupa que me caiba? Em caso afirmativo a pelo menos duas dessas perguntas, reveja seus conceitos e nos deixe em paz.

Muito incentivador?

Sem novidades sobre a mudança ainda, mas o que posso dizer é que as gavetas estão limpas, o porta trecos está esvaziado estilo geladeira (quando você come um pouco de tudo pra ninguém reparar) e a gaveta também, com exceção dos carregadores de celular, pasta/escova de dentes e o indispensável fone de ouvido in-ear da Sony que comprei numa promoção de minuto, de 68 por 20 mangos, falei sobre isso? Bem, agora falei.

Para o próximo malandro a ocupar esta sagrada mesa de webwritting pensei também em deixar como herança auxiliar um capítulo de O Suicídio, de Émile Durkheim, que mantenho guardado e leio de vez em nunca no horário de almoço.

Minha intução diz que talvez seja melhor levar pra casa.

Final de blockbuster



Uma mesa de dinner, um casal, conversando sobre tudo o que passaram para chegar até ali, todas as agruras da saga, algumas piadas que só fazem graça muito tempo depois. A câmera se afasta, a conversa diminui, a tela começa a escurecer, casting…

Você levanta da cadeira com o saco de pipoca já amassado em direção ao cesto de lixo superlotado na saída do cinema e, ao rememorar o filme, lembra daquele amigo mais pessimista que tem uma idéia mal formada sobre sucesso e felicidade (que ele aprendeu em ‘Pessimismo for Dummies’, livro padrão para a raça). Ele diz que prefere juntar 50 reais por mês pois, quando estiver com uns 65 anos, vai poder dar uma boa entrada naquela moto importada lindona, sonho da sua vida.

Note, ‘aos 65 anos’.

Daí você começa a pensar em como nego não quer ter uma história com final feliz todo dia, ainda que seja apenas um final cheio de esperança, sorriso, abraço, ou uma noite com seus amigos e um XBox, que leve a um entendimento maior do esquema tático do Barcelona no Fifa 11. Porque qualquer outro entendimento sobre a condição humana deve passar antes pelo crivo do esquema tático do Barça no supracitado jogo.

Não que realmente exista um final de 500 Days of Summer todo dia. Alguns dias podem jogar com aquela vibe Flores Partidas do Bill Murray, o filme mais angustiante de toda minha vida, outros podem ter finais cult, ou até finais B, matando uma barata, ou espremendo um cravo em frente ao espelho. Claro, estou, as usual, saindo do assunto.

Meu amigo pessimista não quer finais menores. Mesmo que isso custe sentar na sua mesa de dinner daqui há 30, 35 anos. Enquanto isso, vive misérias, desconta frustrações, cria intrigas e faz parte da estatística de filhos da puta responsáveis pela Manoelcarlização da vida.

A brand new start

*

E ouço meu coração discordar da mente pela primeira vez em muito tempo e dizer que vai dar tudo certo, pela simples descoberta de que ontem eu era só um garoto frustrado com o trabalho longe de casa e que hoje sou só um garoto com um trabalho melhor, digamos assim, há oito estações de metrô da minha casa. Sim, amigos, na mesma empresa, nessa mesma casa que me acolhe. Em 15 ou 20 dias, dependendo da doente daquela mina agilidade do RH, vou mudar de ‘filial’ para uma mais próxima de casa.

Isso invalida tudo o que vinha dizendo sobre procurar casas em Jandira —invalida também o fato de eu ter procurado camas box e estantes para livros como se minha vida dependesse disso— e agora só almejo uma melhor adaptação à velha cidade grande. O que significa (a) pegar metrô/trem e abandonar o carro durante a semana (b) me adaptar aos vale refeições mais baratos que o preço dos restaurantes, embora isso seja infinitamente melhor do que suportar aquela comida excêntrica** do refeitório daqui e (c) comprar uma mochila —que também já comecei a procurar como se minha vida dependesse disso etc.

E o rapaz do canto da platéia agora pergunta: ‘Mas, Robson, vem cá, então chega de murmúrios sobre o trampo neste estimado blog temperamental que tanto amamos?’ Quem sabe, amigo. O que posso dizer é que finalmente vou mudar para algo que me faça perder a cabeça, me dedicar, aprender, tudo de verdade, sabe, tudo mais real… ‘This is facts not fiction, for the first time in years’ [__].

A melhor parte de tudo isso é ter sido indicado por ter blogs há tanto tempo, por manter perfis em tudo quanto é rede, mesmo as que não uso (Plurk, I’m sorry, it’s not you, it’s me), por entender de um jeito menos superficial o que a internet quer dizer, por ser o cara que vai dar a idéia dos botões de compartilhamento no site e por todas aquelas estratégias de disponibilizar informação de maneira atrativa que ainda não sei exatamente como fazer, mas que vou acabar aprendendo por bem ou por mal.

Ainda não bati a sagrada meta de estourar no mundão com meu amigo Leo, mas esse, digamos assim, é um belo começo.

*A imagem eu achei no Objetos de Desejo
**O Leo é o gênio por trás do live broadcasting no refeitório.

Sam Gamgi wrote a recommendation for you

Devia eu acreditar que perdi aquele trabalho dos sonhos somente por não ser uma pessoa jurídica que emite notas fiscais? Não sei, mas é bom pensar nesse trecho da sua história como um capítulo de transição, como dizia aquela pequena conversa entre Frodo e Sam perto do final de As Duas Torres:

— Não gosto de nada por aqui — disse Frodo —, pedra ou poço, água ou osso. Terra, ar e água, tudo parece amaldiçoado. Mas nessa direção vai nossa trilha.
— É, é isso mesmo — disse Sam. — E de modo algum estaríamos aqui se estivéssemos mais bem informados antes de partir. Mas suponho que seja sempre assim. Os feitos corajosos das velhas canções e histórias, Sr. Frodo: aventuras, como eu as costumava chamar. Costumava pensar que eram coisas à procura das quais as pessoas maravilhosas das histórias saiam, porque as queriam, porque eram excitantes e a vida era um pouco enfadonha, um tipo de esporte, como se poderia dizer. Mas não foi assim com as histórias que realmente importaram, ou aquelas que ficam na memória. As pessoas parecem ter sido simplesmente embarcadas nelas, geralmente — seus caminhos apontavam naquela direção, como se diz. Mas acho que eles tiveram um monte de oportunidades, como nós, de dar as costas, apenas não o fizeram. E, se tivessem feito, não saberíamos, porque eles seriam esquecidos. Ouvimos sobre aqueles que simplesmente continuaram — nem todos para chegar a um final feliz, veja bem; pelo menos não para chegar àquilo que as pessoas dentro de uma história, e não fora dela, chamam de final feliz. O senhor sabe, voltar para casa, descobrir que as coisas estão muito bem, embora não sejam exatamente iguais ao que eram — como aconteceu com o velho Sr. Bilbo. Mas essas não são sempre as melhores histórias de se escutar, embora possam ser as melhores histórias para se embarcar nelas! Em que tipo de história teremos caído?
— Também fico pensando — disse Frodo. — Mas não sei. E é assim que acontece com uma história de verdade. Pegue qualquer uma de que você goste. Você pode saber, ou supor, que tipo de história é, com final triste ou final feliz, mas as pessoas que fazem parte dela não sabem. E você não quer que elas saibam.

J.R.R Tolkien, Senhor dos Anéis, As Duas Torres, cap. VIII, As Escadarias de Cirith Ungol

É certo que a vaga me faria extremamente mais feliz e menos noiado com relação a minha carreira. É certo que traria maior conforto financeiro. É certo que traria mais satisfação do que recategorizar produtos e pintar planilhas. É certo também que seria mais perto de casa, o que que não caracteriza grande coisa, tendo em vista meu deslocamento diário até o trabalho. Se houvesse uma vaga de agente de viagens na Terra Média eu possivelmente gastaria menos combustível.

Após a conversa, Sam e Frodo são traídos pelo Gollum (sim, esse sou eu dando spoilers) e levados direto a uma emboscada na teia de Laracna, a aranha gigante assassina e whatever. O ponto é: eles chegam ao final de sua história com sucesso e uma coleção de boas e terríveis lembranças. Acho que esse é o tipo de história que caímos, nós nunca devemos saber o final, mas devemos ter a certeza de lembrar toda a saga com alguma ternura.

O e-mail com meu currículo e a resposta negativa foi para a pasta Cold Case do Gmail, onde estão alocadas todas as mensagens parecidas com ‘olha, gostei de você, sério, vou guardar seu e-mail aqui para uma próxima oportunidade’. E assim continuamos a expedição.

Dreher Chronicles #001

Chovia muito. Na sala, à meia luz, eles falavam sobre como eu era inteligente, sobre como conseguia articular tudo isso sem me tornar chato, insensível ou arrogante e como conseguia explicações simples para qualquer complicação que fosse. Comentavam também meu comportamento tímido, meu humor negro, cada um contando sua experiência individual de adaptação ao meu convívio. Diziam que eu lia muitos livros, muitas notícias, raramente não sabia do que estavam falando. Verdade, também comentavam que eu sempre sabia do que estava falando e, caso não soubesse, procurava entender.

Algum trecho do meu cérebro ainda conseguia ouvir essa conversa, bem longe, enquanto me escondia numa bebedeira que só teria fim quando eu não conseguisse mais chegar na geladeira para alcançar outra lata. Lembrei de uma ex-namorada que lia o dicionário pra poder lidar comigo. Ela não lidou e sumiu. Eu lidei, deixei de ouvir a conversa da sala e fui até o bar, tomar um conhaque com limão e tentar provar de uma vez por todas que nada daquilo que falavam era sobre mim.

[causo da festa da firma, 2010]

São Paulo para todos nós

A frase do dia aqui na redação: Hoje é feriado no meu coração!less than a minute ago via EchofonRobson Assis
bigblackbastard

Falta um minuto para acabar o prazo oficial de comemorações do aniversário de São Paulo. Neste curto espaço de tempo, conto como foram as minhas.

Saí de casa para trabalhar com certo receio de não poder ver minha cidade no dia de seu aniversário. Atravessei a Régis Bittencourt e o Rodoanel com esse pensamento na cabeça. Ao chegar na Castello Branco, já tinha em mente as listas que preciso atualizar no trabalho e esqueci um pouco toda essa minha ingratidão.

Se você trabalha na Grande São Paulo, deve entender melhor o que estou falando. Osasco, Barueri, Jundiaí, Itapevi etc. Esses municiípios não são obrigados a tirar o dia de folga para o World Bike Tour ou para os shows do Anhangabaú, o que torna o dia 25, um tanto mais deprimente que o usual.

Com tudo isso em mente, estava preparado para terminar meu expediente e comemorar minha noite na Marginal Pinheiros, sentido casa.

E então, por qualquer infortúnio que prefiro não explicar em detalhes, me deparei com um carioca da empresa que trabalho. A primeira coisa que pensei foi nele dizendo que minha cidade não valia tanto assim, por ser do rio. Quando a gente tem uma auto defesa armada, é difícil redimir esses mini preconceitos sociológicos.

Ele disse que mora há quatro anos em São Paulo e, por trabalhar com entregas de caminhão, conhece mais a quarta maior cidade do mundo do que muito paulistano. Depois dessa discurso pedante, me aliviou dizendo que ama a cidade. Ama porque foi aqui que ele conseguiu estudar, conseguiu empregos que valessem a pena e uma real perspectiva de vida. Disse que a cidade fez ele mudar de vida de uma maneira significativa, de uma forma que ele mesmo não poderia prever que pudesse acontecer em sua história. Era o paulistano dream, na minha frente, patrocinando meu orgulho pela cidade natal.

Voltei pela marginal, como planejado, já com pensamentos melhores que os da manhã. Porque no dia 26 de janeiro, quando eu acordar para refazer todo o caminho até a Grande São Paulo, sei que a cidade ainda vai estar lá, de braços abertos, esperando de coração cheio os meus eufemismos mais simplórios.

O Reality da realidade

Ou ‘Minha sincera compaixão pelo Big Brother da vida real’

Como alguns de meus trinta leitores casuais devem saber, trabalho em uma redação para e-commerce, que fica situada dentro do centro de distribuição da empresa. O CD, como é chamado, consiste 90% no estoque, um galpão de não sei quantos mil metros quadrados e pelo menos 900 funcionários separados por turnos. Os 10% restantes são os outros setores, que devem ter cerca de 30/40 pessoas.

A galera que trabalha na parte de dentro do estoque é, digamos, excepcional. É de lá que vem as piadas e comportamentos mais dignos de virar hit do Youtube, além do som alto do rádio ligado pela manhã, provavelmente com a frequência emperrada na Band FM. Outra característica comum aos colaboradores desse setor é deveras insuportável: observar.

Sabe aquele tipo de gente que assiste a vida como se fosse uma novela das oito, ou como o Big Brother? Cada um de nós, as 40 pessoas dos outros setores que não são o estoque, nos tornamos personagens neste console de entretenimento que estes 900 criaram. E a TV deles, por assim dizer, vamos tratar aqui como banquinhos.

Cada vez que o horário de almoço consegue reunir um grupo de três ou quatro pessoas do estoque no ócio da tarde, pode ter certeza que eles vão analisar cada passo seu, assim que você passar por eles. Não são pessoas que passam por você encarando, ou coisa que o valha. Mas quando elas sentam nos bancos, é como se realmente pegassem o controle remoto para assistir um programa de TV, para debater com seus colegas o quanto aquela moça engordou ou que absurdo aquele cara casado do Fiscal ainda estar dando em cima da estagiária do RH.

Fico triste ao imaginar que, para este público sem acesso a interné como nós dos outros setores, isso deve ser o máximo de entretenimento que eles podem ter durante o dia.

Do verbo evitar

Hoje eu estou evitando.

Evitando comprar brigas aleatórias, responder e-mails sem necessidade, postar no Twitter qualquer porcaria que em três meses eu não entenderia o motivo.

Como disse outro dia, vou perder uns horários de almoço do começo de fevereiro procurando um lugar pra chamar de lar por uns tempos, aqui na região do trabalho. Só quero uma cama, uma TV com HDMI, um media player e uma estante pros livros. Um sistema de som bacana também não seria nada mal. Só quero um espaço pra me largar na tranquilidade que não tenho mais com tanta frequência na casa dos meus pais. E também são 26 anos de roupa passada, né, amigo, já expirou a licença do fabricante.

Nada demais, não briguei feio, nem coisa que o valha, na verdade não me vejo no direito de fazer isso (aliás, com ninguém). Só quero deixar eles e meu irmão por lá, vir trabalhar em 10 minutos, poder ligar em casa com saudade antes de dormir, trocar o chuveiro sozinho, esse tipo de sensação que faz a gente crescer de verdade.

Por enquanto, deixo aqui a melhor música (ou a que mais faz sentido em toda essa intempérie de pensamentos) do disco Oh Gravity! do Switchfoot, banda nova que conheci por um artifício do destino, ou da página de Loads do meu reader, que nunca falha.


Switchfoot, ‘Awakening’

A Mochila de Pedras

Algumas coisas me fazem mal, como ouvir uma mentira que você sabe a versão real, ou ter que se envolver nessa mentira, ou cigarros etc. Apesar disso, nada me faz tanto mal quanto ter que dizer: “olha, hoje não dá, eu não tenho dinheiro”.

Porque, convenhamos, todo o tempo estão te chamando pra frequentar churrascos, festas, baladas, jantares, confraternizações com a qual você não dá a mínima, mas iria de bom grado se você não tivesse pago aquela fatura do cartão de crédito, pra felicidade da atendente da Visa que já tinha até decorado os horários que você estaria em casa.

E dizer essa frase é como ter de admitir outro fracasso, afinal, você não está bem (pelo menos financeiramente). Pra mim, chega próximo mais ou menos de dizer, ‘olha, não posso ir nesse churras amanhã porque não fui bom o suficiente para me permitir estar com vocês’. OK, nem tão dramático, mas esse é o viés da história.

Eu tento evitar, mas acontece de às vezes, como agora, ter de carregar ainda mais minha mochila psicológica de pedras, como a Chiba sugeriu. ‘Todas as vezes que você não fala ou não expõe o que você pensa, ela disse ‘você tem que carregar mais peso na sua mochila’. Acontece com alguma regularidade. E ao dizer essa frase, coloco pelo menos outras dez das grandes e sigo em frente, até o ponto em que ela fica insuportável, estoura e recomeça a encher.

Claro que nada disso tem a ver com o posto que estou atrasado para comparecer depois desse post, na verdade vai ajudar muito a relaxar e esquecer um pouco disso tudo.

Um dia na cidade grande

Daí que tive três reuniões na sede do trampo hoje. Uma sobre vídeos (cabelo ao vento, gente jovem reunida), outra sobre design das páginas (com o carioca malandro da criação) e outra sobre navegação do site (e meu primeiro contato gentil com o comercial). Foi um desses dias que tem tudo pra dar errado, mas acabam sendo perfeitos no final.

O prédio acolhe o suficiente, o elevador constrange o suficiente, as pessoas usam gravatas azuis com detalhes suficientes e fumam Marlboro light tão frenéticos como num mundo pós apocalíptico em que os cigarros não são mais suficientes para suprir todo o planeta. O chão tem carpetes, as salas de reunião tem TVs de 50 polegadas e a medida de importância dos funcionários varia de acordo com o celular que eles possuem. Diretoria e Presidência estão na categoria iPads, gerentes e supervisores são mais iPhone 4. A horda de compradores e galeré de marketing só usam Blackberry e demais Smartphones com pacotes de dado baratos.

Ah, sim, sabe quando seu pai só bebe Antartica e sua mãe só compra tênis Adidas, porque eles sempre foram bons e nunca vão desapontar? Acontece isso com a máquina de snacks e de café espresso, que estão mais enraizadas cultura na empresa do que qualquer outra coisa.

Saindo de lá, fui encontrar uma amiga e ver umas propostas de freela (dou mais detalhes no futuro, quando algumas coisas estiverem mais fechadas. De cara, posso dizer que fiquei bem feliz com essa última reunião).

Estava ciente de que não teria tempo pra almoçar, pois tive que andar até o Itaú da Faria Lima. Uma sensação que não experimentava há uns bons cinco anos: caminhar em meio à multidão entre meio-dia e duas da tarde, no coração comercial (ou nervoso, como diz meu pai) de São Paulo. O horário de almoço na região da Vila Olímpia, Berrini e adjacências se compara à operação descida da Imigrantes no reveillón. Gente com a estafa corporativa estampada na cara, suada, tomando sorvete nas banquinhas e ciente de que andar rápido não adianta muito, afinal você vai acabar passando a virada (ou acabando seu horário de almoço, neste caso) perdido naquele mar de gente tentando atravessar os túneis (ou a rua, pra finalizar a analogia).

Ao chegar perto do estacionamento, encontrei uma padaria com a melhor esfiha de carne do universo. Recheio tratado afim de não ficar parecendo pastel de feira, além de uma massa envelhecida ao ponto que só os mestres sabem deixar estragar. Pra fechar com chave de ouro minha estada na padaria, um garçom chega e pede pro cara de dentro do balcão: ‘ô Gardenal, passa esse pano seco aí pra mim, valeus!’. Lugar.dos.sonhos.

No final das três primeiras reuniões, fumava com minha chefe do lado de fora do prédio e ela disse o quanto era estranho vir pra São Paulo nas primeiras reuniões que teve na sede, depois de tantos anos pegando estradas e pagando pedágios, sem se preocupar tanto com semáforos ou pedestres. Apesar de tudo, soa realmente estranho ver 50 pessoas esperando o farol fechar pra atravessar a rua, ou os elevadores esturricados e apitando por excesso de peso na hora do almoço. Isso quando o máximo de gente que você pode ver no caminho do trabalho está dentro da padaria, ou no ponto de ônibus.

Foi só outro dia simples na grande metrópole para alguém que, apesar de morar lá, pouco frequenta a cidade natal. Lembro de uma palestra, em que o Ferréz, escritor, citava um conselho de sua mãe: ‘você pode sair, fazer o que eles pedem, rir das piadas deles, comer da comida deles, oferecer o que tem pra oferecer, mas é na sua casa, com os seus, que você volta a colocar os pés no chão pra pensar direito na vida’.

Testemunhos no LinkedIn

Descobri hoje uma nova habilidade que certamente vai me angariar alguns amigos antigos, tenho certeza: sei escrever boas recomendações no LinkedIn apenas omitindo fatos reais. Funciona assim: Eu lembro daquela vez que fulano arregou pra briga no meio da redação e então lanço uma frase parecida com ‘ele sabe onde impor suas opiniões sem afetar o equilíbrio do ambiente’.

Só hoje entendi o propósito das recomendações, e percebi que era exatamente como imaginava, é uma versão corporativa do depoimento do orkut, mas, atente, não é algo espontâneo: as pessoas te pedem através de mensagens pessoais pelo próprio site. Daí você tem que escrever que fulano ‘goza de boa simpatia desde o faxineiros até a presidência’ só pra omitir que ele transou com a empregada e com a Dona Luzia, do comercial, mulher do presidente (e o ‘goza’ morre com você, como uma piada interna sem graça).

É daí pra pior, sério, mas o interessante é que você realmente quer dizer aquilo, só omite por exemplo a rasgação daquela reunião que nego reclamou de salário e da comida do refeitório, gritando que o chefe ganhava o triplo e por isso não tava nem aí! Porque afinal, tudo o que um possível empregador precisa saber é que fulano ‘tem a opinião incisiva e decidida, além de incentivar a reflexão do grupo, ainda que isso implique em longos e fortuitos debates’.

Por favor, algúem me pare!

Nobre Miseré

E essa piada de hoje, via MSN, às 17h19 do segundo tempo?

Cara, não sei, esse negócio de trabalhar longe não tá rolando.

Mais do que cansaço, está me deixando sem paciência para relações sociais em geral em que qualquer pequeno problema se torna uma gloriosa tempestade de maus pensamentos.

Outro dia, voltei pra casa só por ter avistado o trânsito na estrada. Só consegui ir trabalhar após terminar a segunda temporada de How I met Your Mother (que dá uma tranquilizada, mas ainda soa como uma conversa franca com meus melhores amigos, assistam!). Daí que to pensando seriamente em morar em caráter provisório pros lados do trabalho, na grande São Paulo, mesmo com o aviso da Denise sobre as casas de forró agressivas de Jandira, Itapevi e região.

Sério, ao final da semana eu terei a certeza de que alguma coisa vai mudar nesse meu nobre miseré (nota: nobre miseré é um bom nome para uma banda de flautistas hippies filiados ao PSTU).

Minha Tia Paula

Algumas pessoas são responsáveis diretas pelo meu bom entendimento com as letras e a literatura, meu pai por escrever cartas à minha mãe, minha mãe por ser professora, meu tio Nel que me deu um livro de teatro infantil feminino – que só hoje entendi, ele deve ter comprado de última hora, como eu faço sempre com presentes de natal quando preciso – e, entre elas, minha tia Paula, irmã de minha mãe.
Foi na casa dela, lá, no estado mais pobre do país, que descobri a riqueza de Castro Alves, a magia do sertão, a beleza das Iracemas. Foi também lá o primeiro lugar em que estranharam o fato de eu não querer sair e optar por ficar lendo “trancafiado” em casa (coloquei os parênteses porque, ora, não me considero realmente trancafiado quando estou com um livro qualquer sentado numa rede, olhando um rio encher com a chuva amena e uma brisa tranqüila).
Ela tem uma coleção de literatura brasileira bem antiga, dessas cheias de pó, com a capa dura e uns detalhes dourados, vários volumes intocados por anos na prateleira da sala. Se bem me lembro, era dela também a primeira máquina de escrever que tive à disposição para escrever (embora ainda me lembre disso como um sonho antigo de quando era pequeno e que não sei diferenciar da realidade).
Foi também ela que me incentivou a escrever um diário de viagem, um dos meus primeiros contatos com a caneta e o papel em branco. Nada especial, era apenas um garoto descrevendo como era divertida aquela cidade com pessoas iguais às de onde eu tinha vindo, mas que falavam diferente e, sem dúvida, eram mais felizes do que as que ele conhecia.
Além disso, ela me ensinou a comer carne seca de um jeito que só nossa família sabe cozinhar, me chamou de besta por não gostar de peixe e camarão, mas dela eu só conseguia ouvir isso como um filho ouve a mãe, com um ‘você não sabe o que tá perdendo’ implícito. Faz um bom tempo que não vejo seus óculos fundos e não troco palavras por telefone com sua fala mansa e forte, faz tempo que ela não pergunta se já arrumei uma namorada só pra me causar algum constrangimento, talvez ela sequer saiba que isso não me causa mais esse efeito.
Tudo isso é só pra dizer que desde a semana passada minha tia Paula está internada na UTI de um hospital meia boca na capital do estado e que, aqui em casa, estamos completamente aflitos com a possibilidade trágica de perdê-la. Tentei escrever um texto que exemplificasse a dor de minha mãe por estar longe da irmã, mas percebi que nada disso vem ao caso. A semana foi, inclusive, excelente para lembrar cada bom momento como esses que citei. Porque se algo der errado, é nisso que temos de nos apoiar.
Então, por enquanto, eu só me atenho a essas boas lembranças.

Bendita inclusão digital

Nesta semana, por um acaso um tanto trágico que depois explico aqui, passei uma boa parte da noite mostrando algumas maravilhas da modernidade para meus pais no computador. Eles são velhos sim, nunca se interessaram muito por computadores, internet e até hoje não entendem direito cada emprego novo que eu arranjo: ‘ah, tá, redator web, mas o que você faz lá?’, essas coisas.

Então liguei o notebook pelo HDMI na TV.

Daí que entrei no Street View e fomos até Mongaguá, ver a casa da praia, depois voltamos para o condomínio e todos os lugares do Capão que moramos quando eu não tinha idade pra me lembrar. Até na casa da minha avó, a primeira casa que meu pai morou, no Socorro, a escola que virou uma loja de peças, o condomínio que eu ficava na janela vendo meu pai jogar futebol na quadra, o bar do meu tio. Ficaram maravilhados. E então fui pro orkut das minhas primas do Maranhão procurar algumas fotos sem muito sucesso (apesar de ter encontrado umas bem pesadas).

Pra fechar a noite, vimos pelo Youtube umas danças típicas do Maranhão, o bumba meu Boi, minha mãe fica bem emocionada vendo essas paradas, enquanto eu e meu pai não aguentamos por mais de um minuto inteiro porque (a) você não consegue entender bulhufas do que o cara está cantando e (b) a música é infernal demais para eu conseguir explicar.

Ao meu pai falta descobrir a quantidade de filmes que ele pode ter em casa com essa banda larga que assinou (só hoje baixei Guidable do Ratos de Porão, Saw 1 a 4 e três westerns). Se ele aprendesse essa parada ficaria completamente obssessivo. E descobrir isso aqui, esse negócio de escrever um texto num blog pessoal para que, com sorte, algumas pessoas possam saber o que se passa na sua cabeça, deixaria ele maluco também.

Quanto à minha mãe, acho que só de entender como funciona uma webcam, já ficaria de cabelo em pé e não deixaria de entrar no MSN para conversar com seus parentes no outro extremo do país. Só que isso demanda que a parte da família que mora longe também entenda e o processo é extremamente mais complicado.

Muita coisa mudou desde então, eles querem resolver os problemas do computador para que possam pelo menos tentar acessar essas-coisas-que-o-robson-acessa-na-tv. Sempre fico me imaginando nessa idade e se as coisas vão mudar tão rápido que eu não possa acompanhar e meu filho vaio tentar me explicar como ele montou essa empresa pelo celular, essas coisas, mas não é novo pensar que as mudanças causadas pela internet nos últimos 20 anos relegaram gente como meus pais a um triste novo tipo de analfabetismo. E parece um trabalho meu tirá-los disso, estou certo?

*no final das contas, não perdi o post. Mas as críticas ao notepad e ao botão insert seguem firme.

Notepad

Ok, amigos, acabei de perder um texto legal só porque teimo em usar o bloco de notas do computador, que só tem um Ctrl+Z, por uma imbecilidade sem tamanho do pilantra que criou isso. Deve ter sido o mesmo cara que deu a idéia do botão Insert pro teclado, para o qual até hoje tento descobrir alguma utilidade.

Imperfeitos

  1. Denise Bonfanti
    DeBonfanti http://migre.me/3Cc60 // Quero lembrar de um tempo, q uma rua vazia, chuva e nós dois num

    carro, era o mundo perfeito pra mim. 13 Jan 2011 from web

this quote was brought to you* by quoteurl

É quase completamente enlouquecedor namorar à distância. E não estou dizendo de pessoas que moram em outros estados ou países, pois, destes, as diretrizes do universo se ocupam, tendo em vista os prévios entendimentos implícitos na decisão de manter o relacionamento. Trato aqui dos namoros convencionais, de quando você mora na zona sul e sua namorada está na zona oeste** — por instinto, veio na cabeça agora um coro de vozes do programa do Rodrigo Faro que ladram ‘vai de busã-ão, vai de busã-ão’, mas bem, voltemos ao ponto.

Vocês dois trabalham, vocês dois se amam, vocês dois adorariam viver a vida de renomados paleontologistas e diretoras de moda da Calvin Klein, embora tudo o que possam fazer é se encontrar nos finais de semana para uns filmes, uma caminhada no parque, ou um cinema, jantar e encontros duplos, mas a saga da semana até o beijo final é exaustiva, complicada e, por vezes, dolorosa.

Digamos que você já tem problemas demais no trabalho e que o lugar não é o museu de dinossauros que você gostaria de trabalhar. E digamos que sua namorada está ocupada demais para criar um tempo e fazer aquele curso de moda no Senac. No final de semana, todo o tempo que têm sobrado para vocês dois, vocês vão gastar juntos (é o que se espera) reclamando de tudo isso ou, numa melhor perspectiva, fugindo da segunda-feira que já chegou. Porque quando a semana recomeça, tudo o que vocês têm são telefonemas, e-mails trocados e risadas sobre qualquer bobagem para esquecer essa miserável e traumática relação virtual.

Portanto — e neste trecho este texto se assemelha a alguém tentando defender algo apenas com críticas. Já começo a ouvir de longe os rumores de ‘você não tá ajudando com isso’ — é necessário ter em mente um plano para uma vida melhor. Um plano com prazos e estratégias, ainda que distantes. E isso não significa planejar a vida toda em tópicos e viver cada linha como única e imutável, pois, sinto informar, nesse meio tempo algumas coisas podem dar errado. E esse caráter imprevisível é que impulsiona nossa vontade de viver.

E quem sabe em alguns anos você não vai estar ligando no escritório da Calvin Klein dizendo para sua esposa o encontrar naquele restaurante árabe em 20 minutos, porque acabou de terminar o estudo de análise do femur daquele pterodáctilo. Who knows?


*ilustrei o post com esse tweet que deu a idéia desse texto
**sim, essa é minha vida, amigos.

Ted Mosby e amigos



How I Met Your Mother é uma espécie de Friends para quem era adolescente demais quando Friends estourava. Já estou completamente inserido e, graças a rede nova de 16MB, com quase todas as temporadas disponíveis, quem quiser, só deixar um comentário. Sim, eu considero a pirataria entre amigos absolutamente OK.

Desafio assistir aos erros de gravação (valeu, Bloopers & Outtakes) da segunda temporada e não dar uma mínima risada:

O poder da distração

Hoje—graças ao amigo Thiago Zati—conheci esses aplicativos que prometem focalizar sua atenção apenas para o que estiver escrevendo, distraction-free, como bem apontou o Life Hacker. Se realmente funcionam, eu estou testando com o tempo.

Este tipo de programa trabalha com a prerrogativa que se você não tiver nenhuma possibilidade de interagir com outros assuntos que lhe interessem, você não tem como se distrair. Embora eu ainda acredite que a distração a gente é quem faz—se não tiver ali meus add-ons do Firefox vai ter a TV na minha frente, a música que você vai insistir em trocar, o café pra fazer etc. Os distraction-free são apenas uma tela em branco, esperando para ser escrita, tomando toda a tela de ponta a ponta, com tudo o que você precisa: um contador de toques/palavras e uma busca através de comandos no teclado.

As funcionalidades desse aplicativo para meu trabalho, por exemplo, não funcionariam muito bem, uma vez que preciso escrever diversos textos por dia e postá-los na página de administração do site, o que requer o acesso a um navegador qualquer, com plugins e aquele maldito botão do Stumble Upon que faz você perder horas.

Para o que você está se perguntando, a resposta é sim: bastaria usar o Chrome sem nenhum plugin e com direito a apenas uma aba, né gente, mas sabe como é isso, bem… do que falávamos mesmo?

Você já viu esse vídeo?

De tempos em tempos, alguém muito empolgado me mostra um vídeo qualquer, geralmente me chamando com frases “caraca, você viu esse aqui do granizo, noossa, se liga, vem ver” ou “porra, bonita essa propaganda, chega aí, emocionante, velho” falando do dia que um sorriso parou São Paulo, ou qualquer desses vídeos que todo mundo com o mínimo de interação social já viu (se não viram nenhum dos dois vejam agora, são só exemplos, não se culpem).

Claro que depende muito da empolgação em questão e do coeficiente de flagelo indireto que você vai provocar, aquilo que vai fazer o cara se sentir um bosta quando você disser ‘mano, você tá vendo ali no canto quando esse vídeo foi postado, isso, 2005, eu vi no terceiro ano de faculdade’. Quando você diz que já-viu-essa-parada, você quer dizer que o cara não é único no mundo. Acontece que, às vezes, é preciso dar às pessoas o sabor de se sentirem especiais. É quase como um auxílio humanitário, mas em proporções obviamente menores.

Então começo a fingir espanto e admiração quase estourando a medida, afetado por um overacting foda (Jim Carrey em ‘O Máscara’, saca?) e tudo acaba bem comigo dizendo ‘po, me passa aí que eu vou encaminhar também’.

Isso também denota meu total e desnecessário apego em manter as coisas bem como estão, por essa deficiência em me intrometer no curso dos acontecimentos ao meu redor. E cada vez que eu finjo, o universo marca um risco na parede.

Apoiado por mais de 365 manos

3meia5—esse banner lindão aí na barra lateral—é um projeto em que participam 365 blogueiros, cada um com um texto postado em data marcada pré-estabelecida e tudo mais. Basta enviar um e-mail para projeto3meia5@gmail.com e verificar a disponibilidade de datas. Acho que não tem mais vagas, mas dá pra entrar numa fila reserva boa. Meu texto é para 22 de outubro, o que terá acontecido até lá?

Uma coisa notável

Esse é meu amigo Leo Pollisson, me fazendo perder as estribeiras emocionais ao ler seu maravilhoso texto sobre sonhos e realizações (‘maravilhoso’? Significa).

Nunca acreditei demais nisso de sonhos e começo a perceber que só consegui assistir as quatro temporadas de The O.C por conta de uma frase dita ainda no piloto: ‘Deixa eu te contar uma coisa, certo? De onde eu venho, ter sonhos não te faz mais esperto. Saber que eles não vão se realizar… isso faz’. Essa era minha relação com a vida até alcançar a necessidade de sonhar, de acreditar que algumas coisas deveriam acontecer e que seria um desperdício estragar a vida sem seus sonhos, sem aquilo que te desprega da cadeira e que você defende com todas as suas forças.

Acho que o maior deles (e mais distante de tudo) é levar uma vida tranquila, onde quer que eu esteja. O que não quer, estritamente, dizer que pretendo levar uma vida boêmia, sem trabalho, um vagabundo perambulando pelas cidades atrás de bares e poetas malditos com quem conversar, meus sonhos beats já se mandaram durante os anos 10. Confesso ainda que trabalharia o dia inteiro, se necessário, caso o fruto desse trabalho desaguasse em minhas prórpias realizações pessoais. Mas talvez esse seja apenas um sonho genérico, afinal, todas as pessoas que conheço querem também suas doses moderadas de paz.

E hoje tenho sim alguns sonhos, influenciado também por essa ‘vida adulta’ que não tarda a me acontecer. Os sinais estão claros: este é o segundo ano que pago meu imposto de renda, terceiro a pagar o IPVA e o primeiro a fazer tarefas domésticas de verdade —o que me acendeu uma lâmpada sobre a cabeça para lembrar que eu moro na casa de meus pais e que aquilo não é a merda de um flat.

Claro que não é só isso, tem os sonhos que são só meus, os materiais & shit. Eu gostaria de ter uma livraria pequena, dessas com banquetas na calçada e um toldo envelhecido. Lembra de ‘Um lugar chamado Nothing Hill?’. Isso, aquela bookstore do Hugh Grant.

Lembro então de um senhor que conheci nos idos de 2003, próximo à Praça da Árvore. Ele tinha transformado uma banca de revista num sebo, na própria avenida Domingos de Moraes. Na época achava sensacional a idéia de estar ali, de arrumar as pilhas à minha frente e só fechar ao anoitecer. Comprei alguns livros, o senhor sabia muito sobre filosofia e me ensinou algo —durante alguns horários de almoço que perdi na caminhada até sua banca— sempre profundo à seus modos grosseiros ‘você tinha dito que acredita no cristianismo, não? leva esse Kant aqui, pode te ajudar’. Acho que esse é o meu sonho palpável. Se um dia eu encontrar o tiozinho, vou perguntar como deu certo pra ele.

Existe também essa lista. Preciso montar bandas, confeccionar zines, criar um projeto de revista, novos blogs desnecessários, falar com o Leo sobre um site de casas de samba em São Paulo que queria montar (e-mails?), fazer uma viagem pro México (agora que não precisa mais de visto dos EUA), outra pra Nova York e a última para Machu Picchu, descendo até o final do Chile e voltando pelo sul do Brasil.

Sonhos tem isso também, eles não precisam de reconhecimento. Basta que você alcance seu objetivo. Pode o mundo inteiro te olhar estranho porque você é dono de uma boa revista e adora distribuir fanzines em shows independentes. A única relação de comprometimento dos seus sonhos é com o que você deseja.

Todos esses sonhos são algo que tentamos fazer parar marcar nossa passagem de certa forma. Não precisamos ser ícones mundiais em tudo aquilo que fizermos, é como diz aquele comercial da Johnnie Walker. Para que em 50 anos depois de partir, alguém ainda lembre de você com um suspiro, um sorriso perdido no horizonte e um menear de cabeça, como se o mundo girasse torto sem você por ali.

 Termino por aqui como o Leo terminou por lá: ‘Mas e ai? Qual o seu sonho?’

Google Reader, vasto Google Reader

Dessas redes, ferramentas e mídias sociais, sem dúvida a que utilizo com maior frequência é o Google Reader, este leitor de feeds RSS vinculado a uma lista de seus contatos que compartilham absurdos do R7, gif animados porn e memes notícias, links e imagens diversas. Você pode separar os feeds que assina em pastas por assunto ou interesse, como bem entender. Bem, como isso não é um tutorial, você pode ver como funciona através deste vídeo.

O fato é que eu acabei criando algumas regras particulares sobre os feeds que assino. Claro, tudo com um pouco de manias patológicas criatividade e algum bom senso:

  1. Se o site libera pelo feed apenas um resumo da notícia, eu não assino, com raras exceções (te amo Folha¹, amo vocês cartuns da New Yorker²).
  2. Se eu não costumo ler e apenas passo o olho pelos títulos, deixo de assinar o feed. É uma perda de tempo sem tamanho.
  3. Ao se tratar de sites especializados com o qual não tenho a menor relação, mas me interesso esporadicamente por seus subtemas genéricos, como astronomia, física ou política (shame on me), costumo seguir usuários que compartilhem só notícias interessantes relacionadas, o que me livra de ter que ler 14 artigos inteiros desinteressantes e encontrar apenas um parágrafo que valha a pena.
  4. Não acompanho feed de quase nenhum dos blogs que sigo através do Google Conect (o quadro de seguidores que está logo abaixo na barra lateral), com exceção dos amigos e de outros mais interessantes. Neste caso, o Connect serve apenas para incentivar o blog do fulano a se tornar algo utilizável um dia.
  5. Como estratégia para otimizar leitura, leio primeiro os itens compartilhados das pessoas que sigo, para só então partir para meus feeds. O que pode causar algum transtorno menor ao compartilhar duas vezes o mesmo artigo, mas é também uma forma de usar o cool hunting a seu favor.
  6. Em hipótese alguma uso a aba ‘Explore’, que indica feeds que você deve seguir e funciona como o Who to follow do Twitter (que indica o Tico Santa Cruz pra todo mundo e não precisa de mais explicações, certo?). Alguns feeds, ao assinar, deixam uma mensagem do tipo ‘você deveria seguir estes também’. Não caia nessa. Você vai querer tirar aqueles feeds da lista na semana seguinte.
  7. Só compartilho itens que realmente dou risada até chorar ou notícias com maior critério de apuração, sobre qualquer coisa que me interesse e que possa interessar a outro alguém.

São essas minhas manias estranhíssimas dicas.

So doente?

¹NOT
²Tem quem não ame esses cartuns?

Notas do ano novo em Mongaguá

Foram quatro horas até concluir a descida da serra, ver meu pai andando de bicicleta pela orla como um local e chegar em casa pra tomar algumas e dormir a tarde. Fui ler On the Road na areia da praia, enquanto a patuléia ia tomar banho e se preparar para os fogos. Pra enfeitar o clima, acabaram os suprimentos no hipermercado da cidade, assim como a energia, no primeiro dia do ano.

Meu pai comprou um vinho barato do Rio Grande do Sul e a única Sidra (nunca sei se é com ‘S’ ou com ‘C’, me corrijam) que sobrou no mercado, que tinha gosto de Bromil e foi, no mínimo, uma parada vintage pra lembrar da infância.

No último dia do ano, minha mãe assistia a novela na sala e eu, sempre antenado, solto ‘mãe, e essa novela aí não acaba nunca?’, ao que ela, com a sabedoria que só as senhoras podem ter, me responde:

—Olha, acho que sim, tá todo mundo casando!

Que orgulho esse final de ano com meus pais.

2011, um brinde

Reveillón sempre traz de volta aquela sensação da sua tia do interior que você gosta tanto, embora ela cozinhe porcamente. Então ela te oferece o clássico bolo de laranja grudento e doce demais, você diz que está uma delícia, mas não quer outro pedaço.

Todos nós temos sonhos, desejos, fazemos promessas, queremos uma vida perfeita. Listas de desejo para o ano seguinte tendem a fracassar, embora todos as façamos. Emagrecer, estudar mais, parar de fumar. Queremos todos nossos próprios shows de Truman, nossas dramédias particulares, que o mundo gire em função de nossa vida, não o contrário. Don’t get me wrong, o errado nisso não está em querer ou desejar alto demais, mas em não enxergar no espelho exatamente quem somos e o que precisamos para que nossa vida melhore significativamente.

O afastamento da infância me criou sérios problemas de ordem psicológica e comportamental. Substituí a vergonha de conversar com as pessoas por dificuldades de convívio, sublimadas pelo post rock e trilhas sonoras instrumentais de filmes; troquei também alegrias de jogos lúdicos pela rotina de escritório. E também tem isso de perguntarem o que queremos ser quando crescer.

Não viver o que queríamos ser quando crescêssemos é de uma intrincada melancolia. É isso que gera pessoas vazias, enfeitadas e escondidas em seus avatares. Ter o conhecimento de causa, saber que não fui o astronauta, nem o cientista com um laboratório maluco me fez perder a confiança em muita coisa, me fez pensar que o mundo não foi feito pra gente como eu. Mas para tudo, diria Einstein, existe um meio termo (ele diria que tudo é relativo, mas vamos lá).

Uma música um tanto desconhecida diz, ‘Sim, a vida é maior que nós‘. Podemos contar com inúmeros momentos felizes, sempre, por mais passageiros que eles sejam. Costumam dizem que é isso o que ‘dá jogo’ à vida. Estar com seus amigos, lembrar de seus pais, olhar o futuro com esperança e incerteza, é o que nos faz seres humanos. E a felicidade está nesse limbo, nesse meio termo, na linha tênue que separa nossas insatisfações do caminho correto, da vida que esperamos.

A virada do dia 31 para o dia 1º significa então o momento da conclusão do caminho, ou da continuação do caminho, não importa, desde que seja um inevitável rumo à mudança.

Sua tia vai sempre tentar melhorar seu bolo, tal qual o tempo vai sempre tentar melhorar o ano seguinte. E décadas se passam assim. Vão embora deixando algumas saudades e lembranças de outros sabores ruins que gostaríamos de esquecer. No final de tudo sigo dizendo que gostei, embora não aceite mais outro pedaço.

Balanço 2010

Neste ano eu assinei um pacote de internet móvel e desisti dele, por causa de uns absurdos da VIVO, fui chamado de gordo do caralho, mesmo que hoje isso me garanta estranhamente um certo orgulho, comecei a desenhar no sketchbook que a Denise me deu de presente, tive um bom ano – apesar de bastante confuso – com ela, minha namorada, até nos desencontramos um dia desses (como?).

O Guto deixou a empresa em que ainda trabalho, fazendo uma falta inacreditável no dia a dia e eu finalmente li aquele Rousseau mais empoeirado do que todos os outros livros. Terminei de ver Lost numa frenética temporada diária que teve fim no dia em que foi exibido o útlimo capítulo e vi também a fantástica (me processa) primeira temporada de Walking Dead.

Meu pai foi internado e eu fiquei em desespero quando fui visitá-lo na enfermaria do hospita do servidor público. Roubaram o carro do Rodrigo, mas deixaram os óculos intactos, no banco de trás, a pedido da vítima. O Regino agora é pai, essa é uma dessas paradas que a gente não acredita quando acontecem.

Pra finalizar, comprei o ingresso mais caro, mas consegui ir ao SWU ver o rage Against the Machine, perdi minha padaria preferida para uma confusa nova direção, sonhei com o Adolfo e o Daniel brigando, não, não, melhor ainda… sonhei dentro de meus próprios sonhos, é tem um filme assim – E ainda não sei se o que estou vivendo é real ou imaginário. Como esquecer que o Brasil perdeu a Copa e eu postei uma poesia antiga desastrada.

Para 2011, eu só espero estar andando num caminho mais certo, em tudo.

***

Obrigado por estarem sempre por aí, meus chegados, amigos virtuais e leitores anônimos.

Alguns blockbusters #cinemaday

Só pra não perder, escrevo aqui sobre os filmes que assisti neste último final de semana pós natal e que renderam por todos os outros meses em que não assisti nada.

Meu malvado favorito, Despicable Me
Não gosto de animações, embora tenha de assistir quando a Denise aluga. Esta é uma daquelas em que o bem vence o mal, um filme que tomou muito cuidado para manter-se infantil, simples e agradável a todos os públicos. Meninas bonitinhas, um unicórnio de pelúcia e uma história pano de fundo completamente insana, mas bem legal se você é uma criança ou se você adora crianças, ou se você acha que roubar a lua e reduzir seu tamanho é algo aceitável para uma história de ficção. Um desenho bonito e bem humorado, para ver com os filhos, fica a dica para não soar muito rancoroso.

A Estrada, The Road
Outra dessas histórias apocalípticas, em que o mundo inteiro perece e sobram apenas boas pessoas (tomadas por protagonistas) e gangues de saqueadores canibais headbangers em super caminhonetes e armas pesadas (tomados por vilões). Numa das cenas, o personagem principal, que corre para o sul junto de seu filho e fugindo do encontros indesejados, mata um membro de uma gangue e consegue fugir. Quando estão a salvo, seu filho lhe pergunta: ‘ainda somos os homens bons?’. Acho que grande parte da mensagem que o filme quer passar se trata desta pergunta.

A Ressaca, Hot tub Time Machine
Não vale aqui discutir porque o filme The Hangover teve seu título traduzido como Se beber não case e Hot Tub Time Machine se chamou de A Ressaca. As histórias também são parecidas, ambas envolvem uma noitada e substâncias ilegais. Apesar disso, A Ressaca ganhou por ser uma comédia por demais absurda – se passa numa viagem do tempo para os anos 80 – como nos velhos tempos, com piadas sem graça que fazem você rolar no chão de rir (e chorar de rir ao rever o filme). Além disso tem um final empolgante, apesar de manter os personagens um pouco abandonados e sem força individual. Impróprio para nerds com teorias pré-fixadas sobre viagens no tempo.

Irmãos de Sangue, Leaves of Grass
Edward Norton é um renomado professor de filosofia numa faculdade, enquanto seu irmão gêmeo é um traficante que vive em sua cidade natal. Um excelente drama cujo único ponto negativo foi perder quase uma hora de enredo em uma tentativa de comédia que não acrescentou nada para o filme. Mesmo assim, inclui alguns diálogos sensacionais e um final que faz você se perguntar sobre a necessidade da cena em que uma aluna tranca a porta do professor e começa a arrancar a roupa. Deveria começar aos 58 minutos. 70% desnecessário, 30% épico, mas pra mim funcionou.

Pensou Mudança, Pensou Granero

Daí que aquela velha conspiração aqui do trabalho de que o escritório talvez fosse mudar para uma cidade mais para o interior (local que não pronunciamos o nome por ser uma maldição certeira) ganhou ontem uma nova pista relativamente discutível – mas não de todo descartável – com um email que perguntava quem aceitaria transporte fretado.

Já deixei avisado que desconto 500 reais por mês do meu fuckin ordenado com gastos de gasolina e pedágio, além de dirigir os fuckin 90km diários e tento tirar tuddo isso dos meus pesadelos à maneira que posso, para não enlouquecer.

Agora, dirigir mais, acordar mais cedo e ainda assim trabalhar como um condenado não é algo que estava nos meus planos quando assinei os contratos. E agora a gente fica aqui nessa vibe de tensão, esperando o caminhão da Granero despontar no horizonte.

Vem, 2011, acaba logo com essa insatisfação.

Top Hits de 2010 #001

Esta não é uma lista, mas uma seleção não-definitiva destes programas que marcaram meu ano de 2010. Quando lembrar, posto outros.

::Rádio Sulamérica Trânsito
Meu oráculo de delfos para chegar no trabalho com menos atraso, escapando de caminhos tortuosos, acidentes e faixas bloqueadas. É, de longe, o serviço de utilidade pública que mais utilizei este ano. Sem contar que acompanhar o trânsito diariamente se torna um vício, acredite. Várias vezes me peguei ouvindo a rádio voltando de noite, sem necessidade, naquele momento em que só preciso estar mais próximo de alguém que conheço. Essa é a rádio sulamérica trânsito ajudando você a superar o trânsito de São Paulo seus problemas afetivos.

::Programa Elas & Lucros
Quem acompanhou o começo deste blog sabe que eu estava financeiramente destruído no final de 2009 e que foi uma batalha sem limites conseguir reorganizar minha vida no Itaú. E, bem, este programa, da Brasil 2000 (107,3 FM), passa exatamente no horário em que estou a caminho do trabalho, o que facilitou todo nosso relacionamento. Com avaliações de casos, notícias e entrevistas com profissionais, eu consegui colocar tudo no papel e passar uma borracha nesse caos todo. Ah, sim, o programa é dedicado a mulheres, mesmo tendo diversos homens sendo entrevistados, ou tendo seus casos avaliados ou nos comerciais. Óbvio, mas não posso deixar de dizer, os comerciais são destinados ao público feminino (único ponto negativo) e se tornam insuportáveis num nível Sex & the City para os ouvintes masculinos.

::Man vs. Food
Just a regular guy, with a serious apetite. Não sei contar pra quantas pessoas eu falei desse programa este ano. Só pra Núbia foram umas três, pelo menos. É aquele do cara que roda os Estados Unidos atrás de desafios gastronômicos e comidas interessantes. Foi lá que descobri o cachorro-quente mexicano, com salsicha enrolada em uma tira de bacon, no pão com feijão, vinagrete e queijo (um dia ainda faço essa parada). Programa da Travel Channel, mas passa na TV a cabo brasileira pelo Fox Life. É o único programa de TV que consigo assistir sem marasmo ou desprezo intelectual. É um programa que assisto exatamente como os Reaction Guys, sério.

::Quadrinhos dos anos 10
Era um dia comum aqui no escritório, quando pegam o livro do André Dahmer para produzir no site. Perguntaram se eu conhecia e eu parei tudo o que estava fazendo na tentativa absurda de explicar a genialidade em questão. Impossível, óbvio. Mesmo assim, ainda consegui converter uma compra do livro, que rodou pela casa de todo mundo aqui na mesma semana. Os Quadrinhos dos Anos 10 não necessitam de explicação, basta um acesso ao site do Malvados, e você vai se pegar clicando em ‘tirinha de ontem’ de maneira compulsiva até o final do dia útil (ou até o final do ano, uma vez que faltam dois dias e tal).

Vibe boa

E hoje, em edição especial, já que não consegui ligar nessa caralha de celular o vídeo abaixo é para o amigo/bróder/irmão Leo Pollisson, que faz aniversário hoje (e essa é a parte em que eu omito que pensava que a data era ontem, por um negócio de relógio biológico desregulado por dormir tarde demais no natal), com o Beach Boys tocando uma das músicas-tema de sua vida, em meandros (que palavra) de 1979:

Daí que eu lembro do último show do Beach Boys no Credicard Hall, que vimos de perto, uma vez que o lugar estava relativamente vazio. E lembro da Golden Era da empresa que ele ainda trabalha, quando saíamos pra fumar e pensar como seria quando ganhássemos na mega-sena da virada e pudéssemos comprar a empresa, criando cargos como supervisor de Guitar Hero, que teria uma entrevista supervisionada pelos sócios e TERIA de zerar o jogo pelo menos no hard. Coisas do tipo. E lembro tanta história pra dar risada, tanta depre que passou, tanta piada interna que só a gente riu.

O ano virou, mas as boas vibrações nunca param.

Jingle Bells Rock

Daí que passei o natal mais uma vez sozinho em casa. Não acho ruim, sério, acho até confortante ouvir a galera estourar morteiros no vão livre do condomínio, onde ficam as janelas dos banheiros. Por mim, ótimo.

Desliguei a TV, continuei lendo o livro, reclamando que a Denise bem podia ter virado o natal na casa dela, ao invés de ir para um aniversário, evitando todo esse desconforto. Depois me envergonhei por ainda ter passado no Extra, às 23h30, imaginando que estaria aberto e que o destino me receberia de braços abertos para comprar uma garrafa de conhaque.

Acabei em casa, escrevendo um texto medíocre, que outro dia posto, se houver necessidade. E depois, pra não perder completamente a madrugada, fui encontrar meus amigos sem imaginar como essa poderi