Kenan Knows

Hoje encontrei Kenan (sim, o mesmo Kenan que me fez vegetariano). Me disse sobre um amigo gay que estava com medo de se assumir e de como era o preconceito nos anos 90 em comparação aos dias de hoje. Disse também que está se alimentando bem e se exercitando muito, “porque a noite cobra demais da gente, cara”. Falou algo sobre o Love Story e no mesmo momento traduziu o nome da balada (motivo: jamais saberemos).

E então começou a me falar sobre como é preciso ocupar a mente com coisas melhores que o amor, “porque o amor nos desgasta demais, cara”, disse que todos nós temos um tempo de sofrer, é natural e necessário. Disse que é preciso tomar cuidado para saber exatamente o quanto dura esse tempo e não se maltratar mais do que o ideal, pois é a gente que escolhe sofrer quando todo o sentimento ruim já deveria ter ido embora.

Ele me deu essa semipalestra motivacional sem eu ter dito nada a ele.

Jingle Bells Rock

Daí que passei o natal mais uma vez sozinho em casa. Não acho ruim, sério, acho até confortante ouvir a galera estourar morteiros no vão livre do condomínio, onde ficam as janelas dos banheiros. Por mim, ótimo.

Desliguei a TV, continuei lendo o livro, reclamando que a Denise bem podia ter virado o natal na casa dela, ao invés de ir para um aniversário, evitando todo esse desconforto. Depois me envergonhei por ainda ter passado no Extra, às 23h30, imaginando que estaria aberto e que o destino me receberia de braços abertos para comprar uma garrafa de conhaque.

Acabei em casa, escrevendo um texto medíocre, que outro dia posto, se houver necessidade. E depois, pra não perder completamente a madrugada, fui encontrar meus amigos sem imaginar como essa poderia se tornar a decisão mais desacertada que poderia ter tomado no aniversário do menino Jesus.

O primeiro deles, foi o tal do Kenan (Lembrem-se: não repitam o nome dele três vezes que ele aparece, onde quer que você esteja. Isso é muito sério). Ele falou de todos os tópicos de sua vida atual que achava interessante, incluindo um monólogo sobre homofobia e neo nazistas, traduções de Sartre e todo um tratado sobre como o meu espumante não tinha álcool algum. Cagou pra noite de natal e pro salvador de cá (a piada que ninguém entendeu é gratuita).

Consegui despistar o fulano lá pelas duas da manhã, quando encontrei novos amigos e alguns viciados, quase subindo pelas paredes em busca de uma lojinha para comprar entorpecentes. Entre os amigos, estava o Wolvs, recentemente incluído na minha lista de ex-addicts e que estava longe daquela vibe Trainspotting no feriado mais cristão do ano.

Foi então que fomos encontrar outros amigos no bairro vizinho. Outros amigos roqueiros com mais de 30 anos, apaixonados por tempos musicais, escalas diatonicas e Jetro Tull. Mas digamos que foi meio embaraçoso estar de canto, fumando um cigarro, enquanto seis marmanjos cantavam Highway Star do Purple como se suas vidas dependessem disso.

Consegui voltar pra casa ainda sem tomar uma cerveja devidamente gelada às 4h30, quando encontrei outros amigos mais próximos e pude, enfim, terminar o dia com o sol amanhecendo, na companhia de uma caixa de Brahmas, um biscoito doce e um amigo desacordado no banco de trás do carro, que xingou todos nós quando acordou.

Conhecendo Kenan

Kenan (guarde este nome para posts futuros) é um dos meus vizinhos mais insuportáveis de todos os tempos, daqueles caras que numa conversa trivial emendam assuntos como o nazismo, Lenin, ou questões sociais/morais pesadas. Foi o cara que passou um ano lamentando a perda de sua namorada e culpando o sistema pois, vale ressaltar, ele tem 23 anos e trabalhar não era algo que passasse pela sua cabeça. Ele também de despede de conversas com “paz”, “pega leve” e “vai na calma”.

Outro dia, no elevador, voltando do trabalho, ele me mostra uma pedra e diz que está tentando destruí-la usando apenas o poder da mente. Minha cara de O’rly? foi lamentável.

Mas também é um dos que mais influenciam minhas reflexões. Não sei bem dizer porquê. Talvez sejam os livros antigos que ele sempre carrega – Kenan foi o primeiro amigo meu que leu todos os volumes de O Capital – talvez seja só seu jeito de ser sincero e maluco sabendo que está sendo sincero e maluco.

Certa vez, estava em casa vendo TV ou qualquer coisa, quando ele toca a campainha após combinarmos de trocar CDs:

-E aí, Robinho
-Fala, Kenan, certo?
-Trouxe o CD do Forgotten
-Ah, demorou, vou lá pegar o Weezer
[após os CDs trocados]
-E aí, você tá bem, cara? – Kenan sempre dá um jeito de enfiar um “cara” em qualquer frase, cara
-A pampa, acabei de chegar do trampo. Você, tranks?
-Ah, cara, parei de comer carne, faz 2 meses. Melhor, né, você sabe que não está comendo um defunto. Ficar se entupindo de corpos, né cara, não vira. To comendo muita soja e umas verduras que minha mãe faz, mas tem bastante variedade. O consumo de carne vai acabar com a humanidade, cara. Deixei de comer porque achei que é o certo, não por essa moda de idiotas aí.
-Pode crer.

Uma semana depois disso eu passei dois anos e meio sem comer carne.
Não pergunte. Não faz sentido mesmo.