Tablets e toda essa choradeira

Melhor atual definição sobre tablets veio num making of promocional do Xoom, o novo gadget da Motorola que teve pré-lançamento numa página lindona no site da firma. O vídeo é gringo e estava um pouco em cima da hora demais para legendar, mas esse trecho chamou muita atenção:

“Você pode fazer um tablet, mas dependendo da maneira que funciona o software, a experiência não é otimizada para um tablet. Então você sente que comprou um smartphone e que ele só não cabe mais no seu bolso.”

—Jim Wicks, Vice Presidente da Motorola

Certo que o Android Honeycomb (o novo sistema operacional dedicado a tablets) promete melhorar tudo, mas a verdade tá aí. Ou não. Realmente não faz sentido algum andar com um “smartphone de 10 polegadas” por aí. Também não faz sentido dizer: “vale a pena se a conexão for rápida” porque o fator tamanho não tem relação nenhuma com o fator usabilidade. E esse sou eu levando isso muito a sério.

Ter um tablet que rode o mesmo Android do seu celular não agrega. A não ser que você seja um aficcionado por exibir seus pertences por aí, como esses carinhas que ouvem sets de funk e sertanejo no metrô. Ou que você tenha quatro metros de altura e bolsos gigantes.

É justamente por não querer toda essa conectividade, interação, joguinhos, mídias sociais e câmeras de alta definição que eu ainda prefiro os tablets dedicados a leitura como o o Kindle ou o Positivo Alpha.

Outra leitura

“Acho que ler um livro é importante para você não estar aqui nem agora. Para você não ser você por um tempo. Para você ser os outros e habitar outros lugares durante o tempo em que estiver lendo. E, quando você voltar ao aqui e ao agora, a você mesmo, voltará com os olhos muito mais aguçados (…) Fala-se muito que temos uma grande afeição ao caos, que o mundo é informe e que a arte daria forma às coisas. Na verdade, temos pânico do caos. Nós não conseguiríamos viver sem alguma ordem na nossa história. E o que a literatura faz é desordenar um pouco isso, mostrar outras maneiras de organizar nossa vida”.

Beatriz Bracher, escritora, em trecho citado na última coluna da Eliane Brum em 2010, pela revista Época.

Procrastinate now & Panic Later

Poucos souberam explicar a procrastinação como algo palpável. O ato de abandonar obrigações sem motivo – ainda que sabendo dos resultados desastrosos a que podem levar esta ação – é elucidado em O demônio da Obstinação, escrito em 1845 por Edgar Allan Poe.

O texto é um ensaio sobre o fator irracional nas decisões humanas, induzidas por um mal supremo que nos obriga a fazer o que não se deve. A última parte trata da história de um homem encarcerado que, vítima dessa obstinação se vê obrigado a confessar um crime que esteve sem solução durante anos.

E no trecho abaixo, Poe coloca uma luz de castiçal envenenada sob sua obra e destrincha nosso conceito contemporâneo de procrastinação:

“(…)Estamos diante de uma tarefa que cumpre terminar depressa. Sabemos que a demora significa a ruína. A crise mais importante de nossa vida nos chama, com um toque de clarim, à ação enérgica e imediata. Estamos radiantes, consumidos pela vontade de atirarmo-nos à tarefa, antecipando o glorioso resultado que nos põe a alma em chamas. Devemos, precisamos começá-la hoje, e, no entanto, a deixamos para amanhã – por quê? Não há resposta, salvo que nos sentimos obstinados, usando a palavra sem compreender seu princípio. O amanhã chega, e com ele uma ânsia ainda mais exasperada por desempenhar nossa tarefa; mas, junto com essa ânsia, surge também um desejo inominado, deveras temível – porque incompreensível – de postergar. O desejo ganha força à medida que o tempo passa. Chega o último momento em que podemos agir. Estremecemos com a violência do conflito interno – do definido contra o indefinido – da substância contra a sombra. Mas, se o embate chega a esse ponto, a sombra prevalece – lutar é inútil. É quando os sinos dobram por nosso bem-estar. Ao mesmo tempo, é o cantar do galo para o espectro que há tanto nos oprime. O fantasma esvoaça – desaparece – estamos livres. Recobramos a força de outrora. Já podemos trabalhar. Mas – ai de nós – é tarde demais.”

Edgar Allan Poe, em O Demônio da Obstinação, 1845