sobre falar

Com o tempo, deixei de falar. Acho que acostumei demais com a ansiedade que as palavras dos outros me trazem e percebi o quanto falar pode criar no outro sensações estranhas, diferentes, confusas.

Tenho vivido os piores dias de novo. Procuro o que fazer para não ter que parar e pensar no que me trouxe até esse quarto, no escuro, tirando fotos das paredes como se fosse encontrar fantasmas revelados nas luzes fracas.

O que descobri dessa vez é que minha mente fica transtornada de um jeito que eu falo coisas amplamente desnecessárias, tanto para mim, quanto para o próximo. Nessas, você acaba machucando as pessoas. Com sorte, elas acabam entendendo que você não tá numa fase boa. Isso com sorte. Na maior parte dos casos, você é apenas esquecido mesmo.

De silêncio em silêncio me arrasto, recolho meu cansaço e desfaço em mim qualquer esperança que já tive. A vida vai seguir assim, como um não-poema colado num sticker na augusta, postado no facebook, numa fan page de geniais e pretensiosos não-poetas.

Amargurado, cheguei ao silêncio, minha maior ruína e vou nessa até que as combinações químicas do meu cérebro se reorganizem e me tirem desse mar revolto da falta de esperança.

Janeiro vai passar.

 

Minha Tia Paula

Algumas pessoas são responsáveis diretas pelo meu bom entendimento com as letras e a literatura, meu pai por escrever cartas à minha mãe, minha mãe por ser professora, meu tio Nel que me deu um livro de teatro infantil feminino – que só hoje entendi, ele deve ter comprado de última hora, como eu faço sempre com presentes de natal quando preciso – e, entre elas, minha tia Paula, irmã de minha mãe.
Foi na casa dela, lá, no estado mais pobre do país, que descobri a riqueza de Castro Alves, a magia do sertão, a beleza das Iracemas. Foi também lá o primeiro lugar em que estranharam o fato de eu não querer sair e optar por ficar lendo “trancafiado” em casa (coloquei os parênteses porque, ora, não me considero realmente trancafiado quando estou com um livro qualquer sentado numa rede, olhando um rio encher com a chuva amena e uma brisa tranqüila).
Ela tem uma coleção de literatura brasileira bem antiga, dessas cheias de pó, com a capa dura e uns detalhes dourados, vários volumes intocados por anos na prateleira da sala. Se bem me lembro, era dela também a primeira máquina de escrever que tive à disposição para escrever (embora ainda me lembre disso como um sonho antigo de quando era pequeno e que não sei diferenciar da realidade).
Foi também ela que me incentivou a escrever um diário de viagem, um dos meus primeiros contatos com a caneta e o papel em branco. Nada especial, era apenas um garoto descrevendo como era divertida aquela cidade com pessoas iguais às de onde eu tinha vindo, mas que falavam diferente e, sem dúvida, eram mais felizes do que as que ele conhecia.
Além disso, ela me ensinou a comer carne seca de um jeito que só nossa família sabe cozinhar, me chamou de besta por não gostar de peixe e camarão, mas dela eu só conseguia ouvir isso como um filho ouve a mãe, com um ‘você não sabe o que tá perdendo’ implícito. Faz um bom tempo que não vejo seus óculos fundos e não troco palavras por telefone com sua fala mansa e forte, faz tempo que ela não pergunta se já arrumei uma namorada só pra me causar algum constrangimento, talvez ela sequer saiba que isso não me causa mais esse efeito.
Tudo isso é só pra dizer que desde a semana passada minha tia Paula está internada na UTI de um hospital meia boca na capital do estado e que, aqui em casa, estamos completamente aflitos com a possibilidade trágica de perdê-la. Tentei escrever um texto que exemplificasse a dor de minha mãe por estar longe da irmã, mas percebi que nada disso vem ao caso. A semana foi, inclusive, excelente para lembrar cada bom momento como esses que citei. Porque se algo der errado, é nisso que temos de nos apoiar.
Então, por enquanto, eu só me atenho a essas boas lembranças.

Seu carro, sua cerveja e as canecas do seu pai

Fim de semana dos namorados. Um dia, tenho certeza, vou te pagar com juros tudo o que faz por mim. Hoje não posso oferecer presentes caros, jantares fabulosos, viagens inesquecíveis. Só uma lembrança simples e de coração, um café na cama com flores (antecedido por uma tortura no frio esperando a floricultura funcionar) e os carinhos, a cama, os edredons, filmes, conversas, devaneios, sonhos.

E passamos um dia que não vou esquecer. Ganhei de você uma caixa cheia de presentes que sei, não vou esquecer jamais. E mesmo que meu dinheiro não pague, a coisa toda fez valer a pena cada segundo deste último fim de semana.

Já tive uma fase da vida em que pensava nas datas comemorativas como criações do mercado, feitas para nos exaurir de razão e pensar apenas com a emoção. Hoje ainda acredito nisso, só não consigo enxergar onde está o erro de pensar apenas com o coração e querer dar a alguém que você ama aquilo que você pode oferecer (mesmo que isso, no fim, não chegue aos pés do que você realmente merece).

Quando estamos em casa percebo como será a vida daqui a alguns anos e abro um sorriso pelas possibilidades, pelo que não é decidido por nós, pelo que é admirável por ser tão impreciso. Nosso futuro, Denise, não importa quanto tempo demore pra acontecer, será meu feito mais importante. Precisamos apenas um como uma constante do outro no presente.

Daí você sentou do meu lado. Começamos a ver fotos antigas, nos álbuns de meus amigos. “Seu carro, sua cerveja e as duas canecas do seu pai”, você disse numa delas. A gente riu, você me perguntou se eu não sentia falta. Sinto falta sempre que você não me sorri, se é isso que quer saber. Porque no momento em que você sorri não existe nada mais no mundo que eu me importe mais.

Obrigado, meu amor, por este dia terrific e por tantos outros. Eu te amo.