O peso

Da primeira vez que tudo desmoronou de verdade eu tinha a sensação de que ia chegar em casa e derrubar todas as coisas. Conseguia ver a estante de livros despencar sobre o canto do sofá, a geladeira quebrando a pequena mesa, o sofá revirado, minha TV no chão junto dos livros. Minha sensação de que o mundo todo havia caído no chão ultrapassava algum limite: não eram só meus sentimentos, era a necessidade que eu tinha de que todo o resto acompanhasse esse esborrachar.

O que eu sinto hoje é uma espécie de asco por mim mesmo. Quando algo sobre o último relacionamento me incomoda, sinto automática vontade de vomitar, sinto pena de mim como se finalmente me enxergasse pelos olhos de outra pessoa (uma vez que tudo o que quero é chamar atenção, ainda que de mim mesmo) e sinto que aqueles momentos bêbados inconscientes quando a gente nem sabe que ainda existe nesse mundo se tornam meio necessários (e talvez não acordar de algum desses momentos talvez fosse uma solução menos dolorosa e mais inteligente pra tudo mesmo).

Sacou o estado de espírito?

Pois é.

Eu queria o alento de pensar menos e ter mais amigos por perto. O que acontece é justamente o contrário. Acabo chegando a conclusões tão catastróficas pra minha cabeça que vai demorar até tudo se acertar de novo em mim. Lidar com a rejeição é uma espécie de karma com o qual tenho de lidar, aparentemente.

Só não sei quanto mais disso eu posso aguentar.

A síndrome de perdedor

O mundo faz com que eu pergunte se sou bom o suficiente, se sou o cara certo para a vida certa e me mostra três ou quatro linhas para seguir, três ou quatro rumos dos quais não posso escapar. Sorria como se você quisesse mesmo fazer isso, a música diz. Ou algo assim, não quero mais saber. Tento apenas não me importar, tentei a vida inteira não me importar, morrer na Lira dos 20 anos, virgem e eternizado como um doente maluco que não deve ser ouvido.

E, por mais que se tente jogar o jogo, com as cartas que nos deram, na mesa que nos colocaram, você sabe que algo está errado, fora do encaixe e você não deveria estar neste lugar, você não tem esse direito.

Não consigo lembrar quando foi que eu parei de imaginar a vida de um milionário. As pessoas desejam tanto ter dinheiro para esnobar, desfazer, destruir, humilhar. Eu não quero dinheiro. Nunca quis. Viveria bem se não precisasse dele. O homem fica perturbado quando deixa de querer ser rico. Você é criado com a premissa de que um dia vai querer ser rico, vai querer pisar e passar por cima de alguém, vai querer a boa vida.

Quando você não se importa, você passa a ser um perdedor maior que os outros, pela sua falta de ambição e cobiça, por não ostentar nada além de sua própria paz, deitado na cama, de seus braços cruzados por trás da nuca, batendo a havaianas na madeira da cama e imaginando o que pode acontecer depois. Por não querer um terno e um currículo impresso em pergaminho sagrado, você desiste de acreditar que um dia vai se pegar pensando em que carro dar para sua esposa de aniversário.

Pode ser a maior desculpa que já inventei para meu fracasso, mas não querer ser rico é também a minha verdade.