Parece cocaína, mas é o banheiro de um posto de gasolina

Daí que ontem pegamos uma sessãozinha de filme na casa de M. pra ver o excelente Searching for Sugar Man, documentário lindo, já tinha assistido, mas achei sensacional rever com os amigos e com um pote de batatas assadas e com suco de uva orgânico e ouvindo os beats de C. e deixando Aline irritada enquanto ela me deixava constrangido dizendo como eu cozinho bem.

E depois de deixar Aline em casa, decidi parar no posto, comprar cigarros, abastecer, enfim. Isso tudo lá pelas duas horas da manhã, quando os postos de gasolina estão cheio de pessoas particularmente irritantes com suas camisas polo e correntes de ouro falso, músicas altas demais e cápsulas de cocaína que tumultuam a fila do banheiro.

Eu perco a linha, eu sei.

Existe um determinado espécime nesse universo que a gente só encontra em postos de gasolina depois das duas horas da manhã. Obviamente existe uma galera na boa como estava na hora em que cheguei lá. Havia um pessoal de canto ao lado do banheiro conversando freneticamente (o pessoal da cocaína), um grupo perto da entrada da loja, numa boa e até um pessoal ouvindo funk na outra ponta, mas num volume surpreendentemente praticável.

Acontece que, logo depois de abastecer, ao tentar passar o cartão, a instituição bancária me fez o grande favor de estar fora do ar. Segui esperando. Sentei pra ver a Florence + The Machine na TV da lojinha de conveniência. Fui alertado que não posso consumir bebida alcoólica dentro da loja. Posso comprar litros encher a mente de cocaína e sair dirigindo, mas não posso sentar nas mesinhas. Posso talvez pegar um guardanapo para enrolar mesclado, mas não posso ver a Florence acompanhado da minha latinha de Itaipava. Posso quem sabe fumar ao lado da bomba de gasolina e bater as cinzas dentro do gatilho de abastecimento, mas não posso sentar a porcaria da bunda numa cadeira com uma latinha de cerveja.

Sério, eu perco a linha.

Resumindo algo que poderia ter contado em quatro linhas – e que fiquei dando voltas apenas para reduzir o bounce rate, aumentar a taxa de duração da vista no blog e muitos outros motivos entre eles coletar as informações dos leitores via IP e transformá-las em bancos de dados para empresas que vendem spam, sério, eu não consigo parar de dizer essas coisas, alguém me ajude – ontem eu passei quatro horas da minha madrugada esperando que a Caixa resolvesse voltar a funcionar.

Com a permissão do frentista que, por sorte, não me imaginou um golpista ou qualquer coisa assim, tomei cerveja sozinho observando os tipos que variavam do pedinte, possivelmente morador de rua, parecido com o Das EFX nos anos 90 passando pelo malandro com corrente de ouro, carro tunado e funk num volume que estava disposto a ecoar na zona sul de são paulo inteira; até o casal visivelmente embriagado que num momento conversava com um cara e no outro fazia uma performance erótica (sim, na frente do cara mesmo). Tudo isso acompanhando o espírito de embriaguez do lugar e tentando usar o banheiro competindo com pessoas que iriam usar NO banheiro.

E essa foi a madrugada de sábado. Podia ter ficado no filme e na companhia manera.

Procurar o que não se encontra

Sempre procuro razão onde não vou encontrar. E me descubro vasculhando álbuns alheios, buscando em algum lugar, algo que me explique como a vida que levo hoje possa fazer sentido. Por onde passaram as pessoas que tenho aqui comigo e como elas chegaram aqui, como permaneceram. Eu sempre procuro o que não vou encontrar.

Um inseto pousa ao lado da lâmpada da sala, são quase quatro horas da manhã. E pareceria poético se não fosse tão solitário. O barulho das teclas a essa hora da manhã ainda é mais alto do que o trânsito lá fora e só perde para o caminhão de lixo (sério, o que a escala desses caras faz antes de chegar aqui?).

Tenho receio de que ele despenque sobre o teclado. Está bem acima da minha cabeça, parado, inútil, se aproveitando da minha conta de luz que, mês que vem deve vir dobrada. E ele apareceu justo no momento em que eu procurava algo que não devia achar, ou que jamais deveria procurar.

Não sei o que diabos um inseto busca parado de cabeça pra baixo no teto, próximo a luz. E porque eles não aparecem de manhã, na televisão, por exemplo. O que ele busca parado, sem se alimentar, negro, cheio de asas e antenas, pequeno e inútil a si mesmo. Bem, meu parceiro de madrugada deve ter aprendido comigo como procurar respostas que jamais vai encontrar.

*

A tempo: Por que os insetos somem quando amanhece?

Gloria Kalil do gueto

É um impasse foda quando os únicos bares que você frequenta funcionam no meio do bairro mais assustador que você poderia indicar para os seus amigos (e esse é o seu bairro, a propósito). E a gente não cogitou a hipótese de recusar quando D. sugeriu ‘Vamos pro Maracá, no bar do Negão, ali pra cima, é tranquilo, sou de casa’.

Uma Jukebox tocava uma das últimas músicas novas do Dexter, uns quatro caras na porta que só te estranham nos cinco segundos antes de você passar por eles e lançar um natural “opá, beleza?”, que quebra qualquer gelo e pode ser considerado a maior vacina para não causar problemas em lugares que você não conhece. E esse sou eu dando dicas de etiqueta da malandragem, ok, já percebi.

Acontece que havia esse tiozinho com macacão de mecânico, a quem apelidamos de Walking Dead após uma amizade criada à base de conversas sem sentido como:

-Onde o senhor mora?
-Bebi não, bebo nada
-Não, perguntei onde o senhor mora
-Me deixa cantar uma música pra vocês, posso cantar?

Não sei outra forma de contar que eu empurrei ele com o pé nas costas, enquanto parado na porta do bar, tamanha afinidade que tínhamos após a segunda dose de conhaque com limão servida pelo Negão himself.

Sabendo dizer/fazer tudo nos momentos certos, você não precisa se preocupar em estragar festas ou criar um climão maneiro com qualquer grupo de traficantes/irmãos à paisana. Mas esse é apenas meu lado Glorinha Kalil de etiqueta para a quebrada falando novamente.

Tudo isso era pra dizer que o bar, apesar de infinitamente bom e impregnado de boas e escabrosas histórias, talvez não entrasse para review no nosso mais novo empreendimento:

http://somentebareslegais.com.br

Natif, desce lá, mano

O relógio marcava errante entre três e quatro horas da manhã de segunda-feira, quando acordo de um susto e percebo que uma mulher gritava a plenos pulmões, repetidamente, na área comum do condomínio:

-NATIF, DEVOLVE A MINHA FILHAAAAA!

Deixando de lado a idéia de que a mulher era só uma maluca qualquer, noiada de crack, vagando numa madrugada e imaginando que o tal do Natif realmente desceria com sua filha e diria ‘ok, agora nos deixe em paz’, o condomínio estava sem energia elétrica e eu, que não consegui mais dormir, não pude ver o Friends maroto que passa na Warner quando ninguém está assistindo.

Sei lá, achei que esse desconforto pudesse interessar a alguém.