O anticristo

Daí minha mãe sonha com alguém dizendo pra ela que eu sou anticristo. E me manda uma mensagem de madrugada dizendo que eu preciso acreditar em Deus para que minha vida evolua, essas coisas, toda preocupada como se eu fosse o próprio Aleister Crowley.

E eu, culpado por um sonho dela, vou ter de pedir desculpas ou dar explicações por algo que jamais me passou pela cabeça.

Porque a vida continua assim, uma brastemp ótima, precisa ver. Vou começar a cobrar royaltie do porta dos fundos, porque certeza que essa vida que levo serve de base para uma ou outra esquete.

Deus, me livre.

‘O mundo é dos espertos’

Quando começo a tentar rever meu passado e descobrir como é que foi que eu consegui tamanho distanciamento com o mundo das pessoas comuns, eu me lembro dessa frase do título. Ouvir isso da minha mãe quando ela dizia que meu irmão era esperto e eu era errado por ficar quieto ou não responder, ou não agir, teve um peso quase absoluto no meu processo pessoal de misantropia assistida.

É que eu não conseguia entender como, para ela, o fato de alguém se dar bem sobre outra pessoa era importante para a vida. Mas não me entenda errado, não tem relação com as outras pessoas. Não estou dizendo que desde pequeno sou um humanista de sensibilidade ímpar, que dá a cara para bater e ama o próximo a valer (pega essa rima). Eu só não queria nada além das coisas do jeito certo. Mas eu tinha que ser esperto.

Sempre fui esse cara tímido e que, geralmente, as pessoas julgam saber mais, entender mais dos assuntos da vida e não vêem dificuldades de passar na frente ou pegar o lugar na fila. É possível que tudo isso seja verdade e que após todo esse processo de descobrimento psicológico o qual me enveredei umas semanas atrás, eu consiga descobrir alguma ambição pra chamar de minha. Isso se esse processo realmente tiver fim.

A grande verdade, camaradas, é que amadureci nesse ponto (só nesse ponto, Denise, eu sei). Entendi o que é uma pessoa esperta e de que formas ela pode agir para conseguir o que quer. Quando você entende algo por completo, você descobre de bônus que parte daquilo funciona pra você. Isso não significa usar das mesmas práticas de determinadas pessoas espertas na visão de praticidade e ligeireza da minha mãe. Mas conseguir um bom panorama de fora e dar a volta nesse processo de ser esperto, ou mesmo entender quando alguém tenta dar uma de sabichão pra cima de você, já me vale mais que o dobro.

Notas do ano novo em Mongaguá

Foram quatro horas até concluir a descida da serra, ver meu pai andando de bicicleta pela orla como um local e chegar em casa pra tomar algumas e dormir a tarde. Fui ler On the Road na areia da praia, enquanto a patuléia ia tomar banho e se preparar para os fogos. Pra enfeitar o clima, acabaram os suprimentos no hipermercado da cidade, assim como a energia, no primeiro dia do ano.

Meu pai comprou um vinho barato do Rio Grande do Sul e a única Sidra (nunca sei se é com ‘S’ ou com ‘C’, me corrijam) que sobrou no mercado, que tinha gosto de Bromil e foi, no mínimo, uma parada vintage pra lembrar da infância.

No último dia do ano, minha mãe assistia a novela na sala e eu, sempre antenado, solto ‘mãe, e essa novela aí não acaba nunca?’, ao que ela, com a sabedoria que só as senhoras podem ter, me responde:

—Olha, acho que sim, tá todo mundo casando!

Que orgulho esse final de ano com meus pais.