plmdds doutor

A saga de meu pai no hospital do servidor público foi algo que gostaria muito de esquecer. Quando unem as expressões “seu pai” à palavra “UTI” na mesma frase, não pode dar coisa muito boa.

E lá estava ele, numa maca, fazendo cirurgias de risco sem o consentimento de ninguém porque o hospital esqueceu o telefone da família que, a propósito, não podia estar com ele em quase nenhum momento (a visita era tipo de 15 minutos diários, enquanto ele estivesse lá).

Daí o hospital lembrou de ligar pedindo 30 doações de sangue e sem informar se tava tudo bem. Depois descobrimos que era pra repor o banco de sangue e não necessariamente para qualquer urgência relacionada ao meu pai. Sem saber de nada, desesperamos, obviamente. Meu irmão publicou online, recebemos muitos amigos, vizinhos, pessoas queridas etc e no fim das contas deu tudo certo.

No dia seguinte, ainda não tava exatamente tudo bem, mas ele já estava no quarto normal reclamando que tinham deslogado o facebook dele do celular.

Daí deu tudo certo.

What’s up, doc?

Eu tenho isso com consultas médicas.

Acontece sempre que você está do lado de fora aguardando chamarem seu nome naquelas cadeiras infantis confortáveis esperando que o(a) médico(a) seja ultra paciente com seu problema atual, entenda seu lado, passe a mão na sua cabeça, diga algo parecido com “pois é, eu sei como você se sente”, lhe entregue um pacote de doces no final e diga, “seja um bom menino e tome os remédios, ok?”.

É então que, de dentro da sala, uma voz furiosa ecoa pelos quatro cantos da clínica dizendo seu nome. Ela precisa ser furiosa para ecoar, pois o médico está sozinho lá dentro e o último paciente possivelmente com algum problema de ordem mental deixou a porta quase encostada. E no segundo antes de levantar você pensa porque diabos esses consultórios nunca avaliam a necessidade de sistemas de som e microfones nas salas de consulta. Você não culpa o médico por não ter feito o esforço básico de levantar e ir até a porta. Você não pode culpar alguém com uma voz tão assustadora.

Você também não quer mais entrar no consultório, mas acaba levantando apenas pelo frio na espinha que aquela voz alta, dirigida e ríspida lhe provoca. E no fundo você sabe que não existe uma forma dessa voz alta, ríspida e dirigida lhe acariciar a cabeça dizendo que entende seu problema. Não há outra forma, você vai ter que abrir a porta com um sorriso de esperança e enfiar na cabeça que é tudo o que você tem. Lá dentro, em segundos, vão estar juntos você, seus problemas atuais e a dona de uma intimidadora voz cansada de ouvir problemas menores e indicar xaropes e que certamente não vai lhe dar um pacote de doces quando terminar de escrever a receita.