Lar

A vida em fevereiro de 2017 é a seguinte: a) uma perna fraturada e com gesso que vai me fazer ficar em casa mais umas duas semanas assim pelo menos muito mais tempo do que eu imaginei, de acordo com a notícia que acabo de receber b) aparentemente solteiro na fase olhar-whatsapp-a-cada-dois-minutos-esperando-mensagens-sobre-o-assunto (e quase desistindo mesmo), c) preocupado com a fatura do cartão de crédito d) freelando em um projeto de social media com vários clientes legais e) num apartamento novo com o qual eu me sinto realmente em casa (finalmente).

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Este post é sobre o último tópico da lista, porque bem, os outros eu acabo falando vez ou outra de qualquer maneira.

2016 foi um ano tão maluco que fiz duas mudanças. A última delas rolou uma multa pesada, mas que acabou valendo cada centavo. Depois de sair do Butantã, fui para uma kitnet (kitschnet? quitinete? jamais saberemos) no campo limpo, numa espécie de condomínio de casas (na minha época chamavam de cortiço também). A diferença é que esse tinha bem cara de condomínio mesmo, com faxina, uns pseudo-classe-média e Carlão, um zelador que mais parecia um gangster.

Acabei mudando também para o Campo Limpo, mas num apartamento bem mais legal (possivelmente o mais legal que já morei), com janelas grandes, mais espaço pros gatos, num condomínio com vizinhos excelentes, porteiros amigáveis e tudo mais.

Tenho uma espécie de estúdiozinho-laboratório-casa-de-máquinas pra gravar minhas músicas daqui e mandar pros amigos, o que tenho feito quase que exclusivamente o dia todo, com exceção da parte em que fico me culpando e enchendo mais ainda minha cabeça de neuroses.

A fase não está boa, na verdade meu momento está esfacelando as esperanças que eu achei que estava reconstruindo em todos os sentidos da vida. Mas estou num lugar que me acolhe cada dia um pouco mais e que leva toda essa dor de cabeça pra fora todos os dias, como sacos de lixo.

Eu acabo falando desse assunto meio que invariavelmente né, uma merda, eu sei.

moving mountains

É preciso contar que estou de mudança novamente. De volta para São Paulo, mais perto da cidade, onde eu possa pegar um metrô de leve e tocar com os amigos. Eu tinha ido, mas tudo o que sempre amei continuou no mesmo lugar. Quando as coisas passaram a ficar sérias em diversos sentidos, decidi voltar. São muitas notas de 50 reais viajando todo final de semana.

O apartamento de Cajamar continua sendo o mais legal que já vivi. Continuo agradecendo sempre que me lembro de fazer isso. Os gatos adoram, é um silêncio incrível. Um entardecer incrível, um sol incrível. Só não dá mais pra morar tão longe assim da sua própria vida.

Meu outro motivo de ter mudado também se esclareceu.

Inabilidade para selfies ☑ Cara de bobo em selfies ☑ Lebenslangerschicksalsschatz 💓 ☑

Uma foto publicada por Robson Assis (@bigblackbastard) em

Nômade

Sigo nômade, porém com um domínio.
E para tudo há um domínio, mas espero que este me valha de alguma coisa.
Por ora, fiquem com a playlist Fossa – The Definitive Collection e uns abraços de sobra para qualquer necessidade.

Ghost-free

 

“Porque quanto mais tempo sentada, mais o eco do mundo persiste. E quando você se levanta, ele se cala”, do excelente/mágico Pra Sempre, Por Enquanto

Esgotado deste último ano. Sério, fosse pra ter dado uma merda catastrófica, teria dado. E deu, em todo caso. Agora começo a me ajeitar e vem uma confusão toda maior na cabeça, obviamente mais relacionada ao amadurecimento real e não a trivialidades ou a tentar ajeitar-se onde você sabe que jamais se encaixaria. Nem em 800 anos de cursos preparatórios com mais 300 de certificação.

O que era preciso aprender, acredito ter aprendido das formas mais desconcertantes e constrangedoras possíveis. Aprendi que sozinho é extremamente mais fácil como eu havia previsto, embora seja bem mais pesado também. De qualquer forma o passado vai ficar onde sempre esteve, as pessoas vão embora e vai sobrar você, seu violão e uma gata rolando freneticamente no chão mordendo o que resta da sua mochila.

Um excelente momento para grandes mudanças (boa hora de perguntar a D. se a Folha está contratando pra escrever horóscopos também). Mudanças espirituais, sei lá, mas certamente territoriais. Eu não suporto mais estar aqui com estas sombras em mim. Se for pra ser calado, que seja num lugar em que nada fique falando tanto assim na minha cabeça.

No episódio 18 da sétima temporada de How I met your Mother (senta que lá vem spoiler – pare a partir daqui, essas coisas), Marshall e Lilly, casal que antes morava junto com Ted, está morando num município distante de Nova York, no subúrbio, numa vida meio solitária e loucos de vontade de voltar pra cidade. Ted, sozinho, após ouvir que o até então “amor de sua vida”, Robin, não o amava, decide deixar o apartamento para o casal, num gesto de carinho, por saber que eles queriam voltar. E principalmente porque ele precisava de uma mudança dessas. Sem avisar (pra dar aquela carga dramática boa que a gente ama), ele apenas esvazia o apartamento e deixa um bilhete:

Dear Lily and Marshall,

I don’t know if you know this, but I never took your names off the lease. Well, today I took my name off it.

The apartment is now yours.

And I think I finally figured out the best thing to do with Robin’s old room.

(nessa hora aparece o berço dentro do quarto – pois o casal espera um bebê)

See, for me, this place has begun to feel a little haunted. At first, I thought it was haunted by Robin, but now I think it was haunted by me. Well, no ghost is at peace until it finally moves on.

I need a change and I think you do, too. This apartment needs some new life. So, please, make our old home your new home. It is now ghost-free.

Love, Ted.

Ah, essa série é demais, sério.

Estou precisando deixar de ser esse fantasma para mim mesmo e superar o que não foi feito pra mim. Hoje eu saí da banda que mais me fez feliz em 2012, mesmo tendo dito que continuaria. Porque precisava aprender a tomar as rédeas de alguma coisa nessa merda (e precisava um dia desses ouvir aquela inbox diária da melhor amiga cansada de me falar que eu não resolvo nada, nunca – naquele nível de grosseria pedagógica que faz a gente meio que rever tudo do dia pra noite).

De qualquer forma, é melhor sair da cidade mesmo.
E eu tinha previsto tudo isso também.

Viver e crer

“Se dou um passo à frente já estou em outro lugar
Não preciso de suas muletas pois os pés eu vou usar
É ter autonomia pra guiar, 
Olhar pra qualquer lado e ter o direito de me esborrachar”Viver by Deadfish on Grooveshark

Abro a porta do apartamento e ligo as luzes e a televisão pra curar uma solidão quase bonita e ter a sensação de que a casa está completa, mesmo quando estou sozinho. Tomo coragem para arrumar outra das malas da mudança e desisto por ainda não ter exatamente um quarto definitivo, móveis suficientes e aquela arara que a Chiba vai me doar quando fizer a mudança com o Guilherme. Acabam os horários de barulho no condomínio, aqui as pessoas parecem tão mais frias e eficazes no quesito não aparecer ou conversar ou cumprimentar. Aqui as pessoas são a multidão silenciosa, restrita e fria de São Paulo. Cara, o silêncio desse lugar é europeu (não conheço a europa e estou me baseando no que ouvi falar mesmo, chupa jornalismo). A galera não parece feliz com o lugar, com a vida, ou com um monte de festas que esses dois do 112 tão patrocinando nas últimas semanas.

Sim, estou morando com meu irmão há duas semanas, relativamente perto da casa dos pais, mas com uma independência definitivamente necessária para ambas as partes. E demora até você desistir daquele happy hour pra comprar mantimentos, ou o gás, ou trocar sua guitarra por uma geladeira (sério, Amaury, obrigado). Demora pra perceber que, seja lá o que for que você queira fazer, você vai conseguir de uma forma ou de outra. E não, você não leu errado, tomamos essa chamda na xinxa da foto pela administração por conta da festinha aos amigos que temos em comum (não todos os 135, obviamente).

Posso estar bem enganado e, em alguns meses, me ferrar, cair em mais dívidas, não ter pra onde correr ou voltar pra casa dos pais, o que não é bem uma opção sensata. De qualquer forma, mais do que esse tempo em silêncio, essa casa ecoando as teclas em que escrevo esse texto meia boca, esse local de reunir amigos e influenciar pessoas, eu estou aqui pela necessidade que tenho de “olhar pra qualquer lado e ter o  direito de me esborrachar”.

E não há nada que faça a vida valer tanto a pena.

Proselitismo Troll

É que quando algo é muito novo pra mim eu tenho aquela tendência a ser esquisito. É um comportamento que varia de acordo com a demanda psicológica que a situação exige. Fica tudo mais fácil quando apenas alguns simples small talks resolvem: ‘porra, é foda’ vem junto daquele raciocínio meu e do Wolvs que palavrões geralmente resolvem qualquer conflito social, além de serem claros demonstradores de interesse. A teoria é grande, um dia eu explico melhor.

O fato é: nesta fase eu não consigo puxar assuntos, manter conversas saudáveis e começo a cogitar trazer minha caveira para fazer de porta trecos. É como se eu tentasse convencer todo mundo que sou um maníaco inveterado até a crise passar e eu voltar a ser só um malandro risonho e educado, que não sabe se vestir bem.

Tempo de partir

Limpar a mesa é um negócio zoadíssimo na hora de ir embora, tanta gente pra lembrar, tanto abraço pra receber, pensar na herança dos meus post-its, do meu adesivo cheio de ódio colado na CPU. Foi difícil tentar escrever qualquer coisa aos amigos e talvez seja melhor ficar apenas com seus pequenos adeus na memória.

Uma música pra hoje: Explosions in the Sky, Our last day as children, bem no climão de despedida do escritório. Instrumental e inadequado como o meu ‘até logo’.

E um gif, pra simbolizar minha reação de hoje enquanto não paravam de me dizer: ‘po, é amanhã, hein’!

Não consigo emocionar todo mundo como aquele post de despedida do Leo. mas fica para uma próxima, prometo estudar mais.

Notas da Mudança

Últimos dias no QG de produção web da Aldeia da Serra. Na sexta-feira estarei embarcando para um futuro inóspito do qual confesso estar num cagaço foda manter certo receio. A parte disso tudo, vou limpando os 13GB de música do computador daqui ao mesmo tempo que salvo toda minha vida corporativa num pendrive de 4GB que irá comigo para o headquarter da Vila Olímpia, de onde vou continuar os trabalhos (“os trabalhos”, Dona Ederlazil?).

Daí que tive que sair no almoço sozinho para ver pela última vez os lagos da Aldeia da Serra, os patos que atravessam juntos uma avenida que nunca soube o nome e as casas pouco modestas do lugar. Eu sei que “pela última vez” é só um drama corriqueiro e um refrão no NX Zero, mas ter a natureza aqui próxima todos os dias acostuma, sei que, uma hora ou outra, vai fazer falta.

Só para explicar o porque de estar no trabalho às 21h54 de quarta-feira, estou com dois cargos e tendo de zerar as pendências de um para poder pensar no outro, quer dizer…

E agora a gente fica aí esperando a sexta-feira e a cara de bosta que costumamos fazer nos primeiros dias em lugares quase totalmente desconhecidos.

A brand new start

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E ouço meu coração discordar da mente pela primeira vez em muito tempo e dizer que vai dar tudo certo, pela simples descoberta de que ontem eu era só um garoto frustrado com o trabalho longe de casa e que hoje sou só um garoto com um trabalho melhor, digamos assim, há oito estações de metrô da minha casa. Sim, amigos, na mesma empresa, nessa mesma casa que me acolhe. Em 15 ou 20 dias, dependendo da doente daquela mina agilidade do RH, vou mudar de ‘filial’ para uma mais próxima de casa.

Isso invalida tudo o que vinha dizendo sobre procurar casas em Jandira —invalida também o fato de eu ter procurado camas box e estantes para livros como se minha vida dependesse disso— e agora só almejo uma melhor adaptação à velha cidade grande. O que significa (a) pegar metrô/trem e abandonar o carro durante a semana (b) me adaptar aos vale refeições mais baratos que o preço dos restaurantes, embora isso seja infinitamente melhor do que suportar aquela comida excêntrica** do refeitório daqui e (c) comprar uma mochila —que também já comecei a procurar como se minha vida dependesse disso etc.

E o rapaz do canto da platéia agora pergunta: ‘Mas, Robson, vem cá, então chega de murmúrios sobre o trampo neste estimado blog temperamental que tanto amamos?’ Quem sabe, amigo. O que posso dizer é que finalmente vou mudar para algo que me faça perder a cabeça, me dedicar, aprender, tudo de verdade, sabe, tudo mais real… ‘This is facts not fiction, for the first time in years’ [__].

A melhor parte de tudo isso é ter sido indicado por ter blogs há tanto tempo, por manter perfis em tudo quanto é rede, mesmo as que não uso (Plurk, I’m sorry, it’s not you, it’s me), por entender de um jeito menos superficial o que a internet quer dizer, por ser o cara que vai dar a idéia dos botões de compartilhamento no site e por todas aquelas estratégias de disponibilizar informação de maneira atrativa que ainda não sei exatamente como fazer, mas que vou acabar aprendendo por bem ou por mal.

Ainda não bati a sagrada meta de estourar no mundão com meu amigo Leo, mas esse, digamos assim, é um belo começo.

*A imagem eu achei no Objetos de Desejo
**O Leo é o gênio por trás do live broadcasting no refeitório.

Do verbo evitar

Hoje eu estou evitando.

Evitando comprar brigas aleatórias, responder e-mails sem necessidade, postar no Twitter qualquer porcaria que em três meses eu não entenderia o motivo.

Como disse outro dia, vou perder uns horários de almoço do começo de fevereiro procurando um lugar pra chamar de lar por uns tempos, aqui na região do trabalho. Só quero uma cama, uma TV com HDMI, um media player e uma estante pros livros. Um sistema de som bacana também não seria nada mal. Só quero um espaço pra me largar na tranquilidade que não tenho mais com tanta frequência na casa dos meus pais. E também são 26 anos de roupa passada, né, amigo, já expirou a licença do fabricante.

Nada demais, não briguei feio, nem coisa que o valha, na verdade não me vejo no direito de fazer isso (aliás, com ninguém). Só quero deixar eles e meu irmão por lá, vir trabalhar em 10 minutos, poder ligar em casa com saudade antes de dormir, trocar o chuveiro sozinho, esse tipo de sensação que faz a gente crescer de verdade.

Por enquanto, deixo aqui a melhor música (ou a que mais faz sentido em toda essa intempérie de pensamentos) do disco Oh Gravity! do Switchfoot, banda nova que conheci por um artifício do destino, ou da página de Loads do meu reader, que nunca falha.


Switchfoot, ‘Awakening’