O natal do desapego

Entendo o clima de natal, as crianças, os shopping centers, entendo até mesmo as luzes da avenida Paulista. Ontem, durante o expediente, ouvi uma galera comentando sobre como as correrias de natal mudaram de uns anos pra cá. Deu vontade de dizer-lhes que tudo mudou porque cresceram, mas preferi não me intrometer no horário de almoço dos outros com essas conversas deprimentes (não tão deprimente quanto o Ronald Rios contando à crianças de 5 anos que o papai noel não existe, essa está entre as coisas mais tristes que vi esse ano).

Eu lembro dos natais que passei junto com a minha família (e por família, entenda-se: pessoas que moram na minha casa). A mesa cheia de Cherry Coke e cachos de uva, um peru que parecia tão gigante, umas garrafas de bebidas as quais eu não entendia muito bem porque só meu pai podia tomar. Depois aquelas festas com os vizinhos, eu devia ter uns 16 anos me achando o máximo por ‘roubar’ uma garrafa de espumante enquanto todos olhavam os fogos.

Vieram então os anos dez. E toda aquela solidão que senti até uns 19 anos foi perdendo o sentido. Meus pais começaram a viajar e posso me lembrar do meu primeiro natal sozinho, em casa. Um monte de frituras, outro monte de bebidas, a TV ligada passando algum especial da Globo e eu numa tranquilidade solitária que, de longe, poderia até parecer desespero. Não era.

Todas as vezes que passei o Natal longe de casa eu me senti errado. Mas o fato não era estar longe da minha família, era simplesmente estar longe de casa, tentando fingir que estava tudo bem para pessoas as quais eu pouco conhecia. E sorrir sem vontade se torna, no fim das contas, o pior dos castigos.

Essa não é outra ode à tristeza, sério. É só a aceitação de que eu prefiro passar o natal sozinho na frente da TV do que em qualquer outro lugar que não me sinta em família. E tem aquilo de agora ter outra família pra comemorar. E de ser aniversário de namoro, justo no dia 25. Só precisava dizer que o natal se transformou em mais uma dessas convenções que me desapeguei, mas essa, pelo menos, sem críticas ao establishment. Gosto muito de ver todo mundo comemorando, desde que eu esteja na minha, com uma caixa de nuggets e duas latas de cerveja na geladeira.

Ok, falando assim até parece desespero mesmo.

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Só espero que o menino Jesus cumpra seu trabalho no dia de hoje e que tudo acabe bem.
Feliz natal aos desbravadores que conseguiram ler até o final e aos que pularam o texto só pra ler a mensagem. =)

Jingle Bells Rock

Daí que passei o natal mais uma vez sozinho em casa. Não acho ruim, sério, acho até confortante ouvir a galera estourar morteiros no vão livre do condomínio, onde ficam as janelas dos banheiros. Por mim, ótimo.

Desliguei a TV, continuei lendo o livro, reclamando que a Denise bem podia ter virado o natal na casa dela, ao invés de ir para um aniversário, evitando todo esse desconforto. Depois me envergonhei por ainda ter passado no Extra, às 23h30, imaginando que estaria aberto e que o destino me receberia de braços abertos para comprar uma garrafa de conhaque.

Acabei em casa, escrevendo um texto medíocre, que outro dia posto, se houver necessidade. E depois, pra não perder completamente a madrugada, fui encontrar meus amigos sem imaginar como essa poderia se tornar a decisão mais desacertada que poderia ter tomado no aniversário do menino Jesus.

O primeiro deles, foi o tal do Kenan (Lembrem-se: não repitam o nome dele três vezes que ele aparece, onde quer que você esteja. Isso é muito sério). Ele falou de todos os tópicos de sua vida atual que achava interessante, incluindo um monólogo sobre homofobia e neo nazistas, traduções de Sartre e todo um tratado sobre como o meu espumante não tinha álcool algum. Cagou pra noite de natal e pro salvador de cá (a piada que ninguém entendeu é gratuita).

Consegui despistar o fulano lá pelas duas da manhã, quando encontrei novos amigos e alguns viciados, quase subindo pelas paredes em busca de uma lojinha para comprar entorpecentes. Entre os amigos, estava o Wolvs, recentemente incluído na minha lista de ex-addicts e que estava longe daquela vibe Trainspotting no feriado mais cristão do ano.

Foi então que fomos encontrar outros amigos no bairro vizinho. Outros amigos roqueiros com mais de 30 anos, apaixonados por tempos musicais, escalas diatonicas e Jetro Tull. Mas digamos que foi meio embaraçoso estar de canto, fumando um cigarro, enquanto seis marmanjos cantavam Highway Star do Purple como se suas vidas dependessem disso.

Consegui voltar pra casa ainda sem tomar uma cerveja devidamente gelada às 4h30, quando encontrei outros amigos mais próximos e pude, enfim, terminar o dia com o sol amanhecendo, na companhia de uma caixa de Brahmas, um biscoito doce e um amigo desacordado no banco de trás do carro, que xingou todos nós quando acordou.

Natal, serious business

Todo ano é uma penúria escrever algo decente sobre o natal. O passar dos anos traz consigo o fim desse encanto. Embora traga também umas boas histórias e lembranças. Sempre gostei de ir à Paulista ver o Bank Boston (ou Citibank?) onde fazem toda aquela cena com presentes cheios de luzes, renas que cantam e um papai noel robótico um tanto assustador.

Outra parada é a árvore do Ibirapuera e aquele show de luzes (Tron já está em cartaz?). Ontem, quando passei por lá com a Denise, tinha uma carreata de pipoqueiros em fila, indo atrás de seus clientes, correndo despreocupados com seus carrinhos de mão pela curva sinuosa de acesso à Av. Pedro Àlvares Cabral via 23 de maio (SP para Insiders).

Esse ano, tudo o que tenho é essa imagem embaçada da árvore e umas boas recordações. Por exemplo daquele ano que eu tinha uma foto enforcando o Papai Noel de cera do Bradesco da Av. Paulista, ou das tardes que vi a cidade anoitecer sentado na grama do Ibirapuera, esperando as cores e a versão do Inocentes para uma música do 365 que tocava todas as noites.

Saudades desse tempo em que ‘ver a cidade anoitecer sentado na grama do parque’ não representava algo tão difícil assim. Por aqui, o trabalho não vai parar, nada de férias, ou agradecimentos. O espírito de natal nessa empresa em que estou agora significa fazer uma reunião anual e convocar apenas gerentes (com os demais acompanhando um minuto a minuto tosco), ou me pagar 150 reais como participação nos lucros e fazer com que eu acredite que dos 40 bilhões que vai faturar esse ano, 150 mangos é um valor fair enough.

Hoje, o natal significa todas essas lembranças bonitas e só me faz querer dizer para todo o escritório: façam o que quiser, mas saibam que o meu coração não está aqui.

Life is Life

E, bem amigos, foi só agora que eu, trabalhador otário honesto desse mundo injusto, ao ocultar a barra de tarefas do Stumble Upon, perceber que estou sem comer há pelo menos 12 horas e olhar para o relógio do escritório que marca 22h03, descobri que chegou o final do ano e para nós, que vendemos produtos desnecessários que as pessoas compram como mariolas para esquecer a merda das suas vidas que trabalhamos com e-commerce, o mundo torna-se um lugar menos sadio e respeitável.

O ano inteiro é esse terror psicológico, mas em dezembro o negócio aperta seu cérebro como um vírus, invade cada centímetro de decência que ainda existe em você e faz com que você desista dela (lembre-se, eu entrei às 10 da manhã, são 10 da noite e eu ainda estou por aqui). Mais do que isso, faz você querer o começo do ano novamente, um ciclio desnecessário que não se pode interromper. Ao menos não tragicamente.

Portanto nos vemos, entre uma transpiração ou outra, quando minha cabeça funcionar durante os dias que se seguem.

A imagem é do Graphic Design Blog