Headquarto e cozinha

Ok, é oficial: eu só consigo manter o blog devidamente atualizado quando participo de desafios como o 30 days writing challenge. Esse é o primeiro post da série. Obrigado a todos os envolvidos.

*

A primeira vez que entrei era como se jamais fosse voltar. O lugar parecia apertado demais, escuro demais, errado demais. Eu fechei negócio mais pelo medo de não encontrar um aluguel melhor pelo preço que me ofereceram. me deram uma data pra pagar e eu teria apenas que dividir quintal com uma pessoa que só aparece de vez em quando. Agradeci e comecei a trazer as coisas aos poucos.

Me assustou bem quando na primeira noite eu exagerava cada barulho que ouvia do lado de fora da casa. Até descobrir que a geladeira faz mais barulho do que imaginava. Mesmo a minha com tão pouco tempo de vida. É difícil saltar de um apartamento para uma pequena casa de dois cômodos. Na primeira semana eu só conseguia lembrar de uma frase do Guia do Mochileiro das Galáxias quando Arthur Dent se vê no espaço após a devastação do planeta terra (ou algo assim): “posso não ter ido aonde queria ir, mas creio que estou exatamente onde deveria estar” (descobri que se tornou uma puta frasezinha piegas também).

Ficou bem com os móveis certos e, depois de ter pendurado aquele porta utensílios de cozinha, ficou com cara de minha casa mesmo. Ainda que o microondas não tenha lugar definitivo e a vitrola ainda não tenha feito uma estréia exuberante, pelo menos a churrasqueira já encontrou seu lugar e descobri que basta aspirar de vez em quando que o pó deixa de incomodar.

Mas a geladeira, essa sonoplasta de sons perturbadores, vai continuar fazendo os piores barulhos.

Daí que chamei de caverna porque preciso manter a luz ligada ou as portas abertas mesmo durante o dia. Porque é nos fundos de um portãozinho escondido que dá vazão a meu universo invisível. E não cabe muita gente pra fazer festa, cabe meu monte de ideias pra coisas novas, meu pessimismo babaca e minha vontade contraditória de que tudo acabe dando certo com o tempo.

A casa é excelente, na verdade. Aline adorou o silêncio e a paz do lugar que é distante da rua e, se rola um carro tocando Anita, só incomoda pelo fato de lembrar a gente da porcaria da música, porque o barulho é bem distante.

_
este post corresponde ao ‘Day 1 – descreva um lugar’, do 30 days writing challenge do blog Spleen Juice.

A caverna

Estava aqui nessa madrugada sentindo o peso do mundo por não acordar cedo nessa segunda chuvosa. São as manifestações, o Brasil campeão com o Galvão relembrando o grito de “é tetra” (vai fazer 20 anos ano que vem, repare), talvez o nacionalismo tardio dessa gente, ou apenas minha dor de dente e a falta de um sono justo. Lembrava de uma época em que os problemas pareciam mais simples de se resolver. Um lugar livre de choro, livre de autorrepulsa, livre do meu caderno de capa preta cheio de borrões nas linhas.

Outro dia li um texto sobre como resolver seus problemas de uma forma simples. O cara contava como quitou suas contas, emagreceu e tal. Só podia ser coisa do Zen habits esse monte de resoluções simples que nunca se casam com o que vive gente comum como a gente. Saio de lá sempre desesperado. Se uma cultura zen não acabar com meus problemas, o que mais vai?

*

Estive acompanhando os protestos de longe. O mais próximo que estive foi quando Aline esteve lá nos primeiros dias, os dias de horror, antes do fuzuê do largo da batata e uns dias antes do despertador da nação tocar. Ela estava lá e me contou eufórica sobre como foi pesada a linha de frente, como sentiu fragilizar o aparelho do Estado. Tenho um orgulho imenso dela que tanto me incita, que tanto me diverte.

Minha distância dos dias de fúria aconteceu porque estava numa semana de mudanças, pintando o apartamento pra poder devolver a imobiliária com as paredes relativamente limpas. Consegui. E finalmente me mudei para a caverna, a casa nova. “Caverna” porque é distante da rua, distante do mundo, embora dê pra ouvir de longe um carro ou outro tocando a música da Anita.

E aqui é lindo.

A casa tem meu jeito, meu silêncio, meu desapego. É daqui que tenho escrito tanto e publicado em lugares invisíveis. Está tudo correndo bem e a solidão é menor do que eu esperava. Me sinto bem com os móveis e com as paredes e os pequenos cômodos. Tenho tido ideias excelentes e conseguido me livrar da consciência, da autofobia.

Eu falo tanto sobre a saudade da simplicidade de ser uma criança sem compromissos e sem prejuízos mentais, mas a verdade é que ter o controle sobre a sua vida (e lavar a sua própria louça) torna a felicidade menos distante e holográfica do que ela aparenta.

As parcelas da Montanha Mágica

Alô Unidos dos maiores de 25 anos que ainda moram com os pais, canta, caaaaanta!

Uma das piores escolhas que poderia ter tomado aos 24 anos foi ter comprado um carro*. Sem moralismo ecológico pedante porque, como todos devem saber, os ciclistas são os novos vegetarianos. Afinal, o carro me facilita a vida de ter que trabalhar em outro município fora de São Paulo. Numa planilha de prós e contras, viver sua vida (namorada e trabalho, respectivamente) distante em 30 km do seu epicentro natural vence qualquer crossover envolvendo sustentabilidade ou sedentarismo.

E por que a pior decisão foi essa? Porque, bem, digamos que nunca fui um consumista inveterado nem um economista regrado, portanto passava meses sem economizar um tostão da minha voz do meu dinheiro. Coisa de chegar no final do mês e torrar o superavit salarial só pra não ver ele virar o mês. Parecido com o que a gente faz ligando para qualquer pessoa da agenda só porque os créditos vão expirar no final do dia. Talvez isso seja fruto de um sério transtorno psicológico. Palpite.

Então, logo, comprar um carro exigia um carnê com mais páginas que A Montanha Mágica. E exigia fidelidade Sam Gamgi style. Exigia, acima de tudo, um desprendimento incrível para acreditar na idéia dos meus pais de que os 60 meses do carnê passam sem a gente perceber. So, I tell you what, eles não passam. Passam rápido como os dois dias que você tem que trabalhar depois do carnaval. Como disse, não passam.

A conta que eu não fiz aos 24 anos é que em 60 meses eu estaria mais perto dos 30 e com uma dívida que não me permitiria respirar direito antes de dormir. Esse despreparo fez com que nomes como IPVA, seguro obrigatório e apólice não fossem mais só palavras escritas nas correspondências que eu pegava debaixo da porta junto com a Showbizz (lembram da revista?).

Passados três anos, cá estou eu tendo que diariamente voltar para a casa dos meus pais. Um lugar que já não tem mais a minha cara, já não tem mais a minha contribuição. Não por falta de amor, ou por dificuldades de convívio, afinal, a única coisa que me esforço atualmente é fazer com que eles não me sintam por ali. É tudo o que posso fazer até terminar o livro de Tommas Mann (carnê) sem um cérebro afetado por distúrbios e dramas financeiros muito traumáticos.

*Nunca falei isso pra ele, as consequências seriam catastróficas. A propósito, sim, eu converso com meu carro diariamente.